O cúmulo da solidão e o amigo imaginário

19/10/2009

Estava no busão de sempre, indo para o trabalho de sempre, em pé como sempre, quando reparei no senhor sentado na minha frente. Estava num daqueles bancos individuais, que os ônibus de hoje tem e, sinceramente, não consigo entender a  lógica. Algum gênio deve ter concluido que não vale a pena colocar muitos bancos porque as pessoas preferem ficar de pé na condução…  vai saber!

Como eu ia dizendo, antes de ser interrompido pelo meu desabafo de cidadão indignado, tinha um senhor de idade sentado no banco individual. Era praticamente calvo; aliás, logo notei a existência de muitos ferimentos no seu couro cabeludo. A pele era enrugada e cheia das marcas que vamos adquirindo com o passar do tempo. Mas foi o comportamento do homem que chamou a minha atenção: ele falava sozinho. Não, não era simplesmente falar sozinho…

Existia todo um cerimonial no ato do homem falar sozinho. Ele olhava para o lado da janela e falava bem baixinho e rápido. Agia como se estivesse conversando com um amigo imaginário. E ele repetia o ritual várias vezes. Em outro momento, pegou de dentro do paletó um óculos, com lentes grossas, colocou-o  e, mesmo assim, precisou aproximar o relógio bem perto  para poder enxergar as horas. Parecia muito ansioso para chegar no seu destino.

O engraçado dessa história é que o seu amigo imaginário parecia não concordar muito com suas idéias. Depois de olhar para a janela, voltou o  rosto pra frente e balançou a cabeça indignado. O rosto do homem exibia uma grande tristeza. Fiquei com a impressão que aquele senhor idoso era alguém muito solitário. Mesmo assim, a história me inspirou na criação de uma piadinha:

- Você sabe qual é o cúmulo da solidão?

- É quando até o seu amigo imaginário não concorda contigo.

É bom deixar claro que tenho o mais absoluto respeito pela maluquice alheia, pois quero que respeitem as minhas maluquices. Apenas não quis perder a piada. Aliás, o velho me lembrou de pelo menos duas outras pessoas que eu conheci com esse hábito.

A primeira não é bem uma conhecida, mas era uma senhora que costumava freqüentar a igreja na época da minha primeira comunhão (sim, leitor, este herege que vos escreve foi catequisado…).  Ela tinha a aparência de moradora de rua; cabelos desgrenhados e olhar distante. Entrava na igreja, sentava em um dos bancos e ficava lá falando sozinha. Mas, diferente do senhor do ônibus, ela me passava uma sensação boa. Sorria fácil. Talvez, o seu amigo imaginário fosse mais gentil.

Com a segunda pessoa, tive um contato mais próximo. Era uma empregada que trabalhou lá em casa. O hábito de falar sozinha também tinha algumas características peculiares; como a de discutir com o seu material de trabalho.  Quando o rodo, por exemplo, caia na lavanderia ela não perdoava e dava uma bronca no pobrezinho.  Certa vez, ouvi um comentário hilário enquanto a dita cuja passava roupa:

- É, quem mandou não casar com um marido rico… Agora fica aí ralando, trabalhando feito uma camela…  Bem feito!

Pensando bem, não sei se é muito correto fazer piada com a solidão/maluquice alheia. Confesso, leitor: uma das minhas grandes fobias é terminar os meus dias na mais absoluta solidão. Sem amigos,  mulher, filhos, família; desprezado por todos, na melhor das hipóteses, em alguma casa de repouso; na cenário mais tétrico, como um mendigo, sem saber direito nem quem eu sou. O homem é um animal gregário, mas devo dizer que eu tenho alguma dificuldade em me agregar na sociedade. Se o pior acontecer, espero que o meu amigo imaginário tenha, pelo menos, a delicadeza de concordar com todas as minhas opiniões.


Loira

02/10/2009

O texto que segue foi escrito a lápis, numa quarta-feira a noite,  na metade do único papel que eu tinha a mão – esqueci o caderno em casa…-, na disciplina de Oficina de Redação. O assunto da aula era descrição e eu desembestei a escrever as linhas que seguem. Depois, o professor mandou que eu declamasse as mal traçadas para os colegas. Publico o texto exatamente como foi escrito, sem qualquer tipo de correção gramatical ou de estilo. Em tempo: o fim do texto só me ocorreu minutos depois da leitura para a classe…

Ela era alta, magra, incríveis olhos azul piscina. Era loira e o seu sorriso meigo iluminava o ambiente. Não tinha quem ficasse triste na sua presença. O seu abraço acalmava o mais estressado operador de Wall Street. O corpo não trazia grandes atributos, mas até nisso ela tinha charme. Ela era inteirinha proporcional. Não tinha quem não ficasse impressionado por sua figura. Além de todas virtudes, era uma pessoa boa. Amiga de seus amigos. O seu rosto era pura fotogenia. Até o mais incompetente fotográfo conseguia retratos fantásticos. O seu book na agência de modelos era o mais disputado. Todos os clientes queriam ela para desfilar os seus produtos. Não tinha ninguém mais rica. Outro dia, apareceu morta em um banheiro. Parece que foi o seu namorado. Ficou mundialmente conhecida como a loira do banheiro.


Mínimas para tirar a poeira

27/08/2009

Eita blog desatualizado, hein? Pois é, leitor. Minha vida nas últimas semanas teve alguns solavancos – positivos, é bom frisar-, e o tempo que eu tinha de sobra para escrever ficou muito escasso. Mas hoje resolvi largar mão de ser preguiçoso e atualizar o blog. Ao que interessa, portanto.

Mínimas do Senado (e de todo o resto…)

Recentemente, a revista Veja descobriu que o jornal O Estado do Maranhão, cujo dono é o Sarney, só defende o seu dono…   o Sarney. Fico imaginando a ginástica mental que o repórter fez para chegar a tão surpreendente conclusão. Fiquei realmente chocado com tal achado. A reportagem é minha candidata ao Prêmio Esso. De melhor reportagem óbvia do ano.

*****

O Suplicy é meio lento, mas quando fala é relevante. A descompostura que ele passou, na segunda, ao bigodudo foi genial. Não por nada, interrompeu o discurso do Maranhense-mor sobre Euclides da Cunha. O autor de Os Sertões não merecia isso.

*****

Pergunta importante: quando vão começar um movimento para tirar o Sarney da Acadêmia Brasileira de Letras?

*****

Sério: uma das coisas mais divertidas dos últimos tempos é o Twitter. E serve como um profundo estudo antropológico da sociedade contemporânea. Um exemplo é a Xuxa reclamando da esculhambação com os erros gramaticais cometidos por sua filha, Sasha. Alegou que a garota foi alfabetizada em inglês. Alguém precisa avisar a apresentadora que, no Brasil, se fala e escreve em português. Aliás, pelo jeito que escreve, a rainha dos baixinhos (seqüelados…) também foi alfabetizada em inglês.

*****

Recomendo o livro Os segredos das redações, do Leandro Fortes. É uma das leituras mais legais que fiz sobre jornalismo nos últimos tempos. Muito útil para estudantes e profissionais já formados. Compre, peça emprestado, roube, mas não deixe de ler. Quando tiver mais tempo, faço uma resenha digna dessa obra

*****

Certa vez, eu li uma piada muito legal num livro sobre um tablóide alemão. Vou adaptá-la para melhor compreensão dos amigos leitores.

São Pedro estava observando o céu junto com um anjo. De repente, os dois vêem um fogo de artifício. O anjo pergunta:

- O que é isso, São Pedro?

- Ah, meu filho, isso sempre acontece quando uma pessoa mente na Terra. É um aviso divino.

Um pouco depois, os dois assistem um show pirotécnico. Parecia Copacabana em pleno reveillon, mas sem ninguém ser atingido pelos fogos na areia. O anjo, muito curioso, pergunta:

- E agora, São Pedro?

- Ah, isso é a Revista Veja sendo impressa, meu filho…

*****

O tablóide original é o Bild da Alemanha. O livro é do jornalista Günter Walraff que passou uma temporada como repórter, disfarçado, do jornal. Descobriu cada podridão. A obra chama-se Fábrica de mentiras. Aliás, recomendo muito outro livro dele, até melhor, chamado Cabeça de turco onde ele se fantasiou de Turco para mostrar a vida desses imigrantes na super racista Alemanha. Chocante. E imperdível.

*****

Esqueci de contar um detalhe: no livro, o Walraff relata que são os próprios jornalistas do Bild que contam a piada. E morrem de dar risada.

*****

Acabou de me ocorrer que eu já tenho o título para um possível livro sobre a Veja.  O Walraff não se incomodaria com o plágio.

*****

Falei no começo que as mínimas eram sobre o Senado, mas acabei falando pouco dos nossos parlamentares. Hhhhhmmmm… o amigo leitor não liga pra isso, né?

*****

Eu já falei mal da Veja hoje?

*****

Eu gosto desse estilo fragmentado. Dá menos trabalho com a coesão textual.

*****

Eu já falei mal do Gilmar Mendes hoje?

*****

Caramba, o que foi a vitória do Rubinho no Domingo passado? Bem bacana. Mas se a estatística estiver certa a próxima é só daqui a cinco anos. Na F-1 senior.

*****

Por hoje chega. Não sei quando volto. Nem sei se vão deixar esse blog continuar depois do post de hoje…


Efeméride

23/07/2009

É meio pedante ficar fazendo auto-comemoração, mas não resisto: hoje, o Idéias e etc completa 1 ano de vida. Foram, ao todo, 53 textos, incluindo este post, com quase o dobro de comentários, 104. Enquanto escrevo estas linhas, o contador de acesso registra 7.459 visitas. Posso garantir que sou responsável por boa parte desse número. Visito o blog todos os dias; sempre dou uma olhadinha nas estatísticas e nos comentários, de modo um tanto obsessivo, reconheço.

Mas não é apenas nesse detalhe que o blog mudou minha vida. Procuro assuntos para o blog em todos os lugares, 24 horas por dia. Quando leio uma notícia num jornal, sempre penso no seu potêncial para virar post. Porém, nem sempre consegui escrever sobre todos os assuntos que queria. Muitas vezes, perdi o timing da publicação e não existe nada pior que blog tratando de assunto velho: parece jornal de anteontem.

Não me queixo, porém. Muito pelo contrário. Escrever neste blog tem sido uma experiência fascinante. Embora o Idéias e etc não tenha sido o meu primeiro blog – já tive outros, qualquer dia escrevo sobre isso -, este é o espaço em que, finalmente, encontrei o meu jeito de fazer jornalismo. Claro, tenho muito o que aprender na profissão, muito o que amadurecer, mas este blog ajudou a forjar o meu estilo de trabalho. Só não sei se terei a mesma liberdade nos meios de comunicação tradicionais…

Não posso terminar esse texto sem um agradecimento especial aos leitores que me honram com suas visitas e com os seus comentários. Poderia até citar alguns deles, mas sempre existe o risco de esquecer alguém sem querer. Prefiro, então, essa lembrança generalizada mesmo. Vocês não tem idéia do estímulo que é, para mim, ler os seus comentários, a maioria deles, felizmente, elogiosos. É sinal que alguma coisa eu estou fazendo certo. Muito obrigado mesmo!

E vamos em frente!


A agonia de Lúcio Flávio Pinto

13/07/2009

O Brasil Real esconde histórias que o Brasil Imaginário, eixo Rio-São Paulo-FashionWeek-Daslu, prefere não enxergar. Uma das mais impressionantes é protagonizada pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará. Repórter destemido, Lúcio Flávio sempre se dedicou a investigar as mazelas da região: das quadrilhas que extraem madeira ilegal da Amazônia aos desmandos dos donos do poder. E faz isso longe da grande imprensa. As suas reportagens são publicadas no Jornal Pessoal, uma espécie de tablóide quinzenal editado pelo próprio jornalista, com tiragem aproximada de 2000 exemplares. A publicação sobrevive sem anúncios pois o repórter acredita que eles limitam a liberdade editorial.

Mas Lúcio Flávio está pagando um alto preço por sua independência. Em seus 18 anos de vida, o jornal já recebeu 33 processos, tendo sido condenado quatro vezes. Seu crime: investigar os poderosos da região. Entre eles, a família Maiorana, dona da TV Liberal, que por sua vez é afiliada da Rede Globo. O repórter descobriu que o patriarca dos Maiorana esteve envolvido com o contrabando, uma prática que era comum na região. Além dos inúmeros processos, o clã respondeu com a truculência típica dos coronéis. O próprio Lúcio Flávio relata o que aconteceu quando cruzou com um membro da família Maiorana num restaurante:

A agressão foi cometida por trás, dentro de um restaurante, onde eu almoçava com amigos, sem a menor possibilidade de defesa da minha parte, atacado de surpresa que fui. Ronaldo Maiorana teve ainda a cobertura de dois policiais militares, atuando como seus seguranças particulares. Agrediu-me e saiu, impune, como planejara. Minha única reação foi comunicar o fato em uma delegacia de polícia, sem a possibilidade de flagrante, porque o agressor se evadiu. Mas a deliberada agressão foi documentada pelas imagens de um celular, exibidas por emissora de televisão de Belém.

Vale repetir: Maiorana saiu impune, mesmo com as provas da agressão. Um elemento tragicômico dessa história é  o fato do agressor do jornalista ser presidente da comissão em defesa da Liberdade de imprensa da OAB Pará. Imaginem se ele fosse contra…

Ainda no território do direito, vale destacar outro ponto importante: nenhum advogado da região aceitou defender o jornalista. Vou repetir novamente, grifando com o itálico: Nenhum advogado da região aceitou defender o jornalista. Motivo? Deixemos que o Lúcio Flávio responda: “Alguns profissionais que contatei alegaram ser colaboradores do jornal O Liberal, outros diziam estar sem tempo e alguns marcavam encontro, que não se realizavam. Como bom entendedor, entendi”

Recentemente, a família Maiorana ganhou um processo na justiça contra o jornalista. Na sentença, o juiz determinou uma indenização de R$ 30.000 mais as custas do processo. E não ficou só nisso: proibiu qualquer expressão agressiva ou difamatória contra o patriarca Maiorana ou contra os seus filhos. Só eu estou sentindo o fedor de censura prévia?

O silêncio covarde da imprensa sobre esse episódio também não cheira bem. E olha que estamos falando de um profissional que foi correspondente do Jornal O Estado de S. Paulo durante 18 anos e tem quatro prêmios Esso no currículo. Também foi agraciado com o Colombe d’Oro per la Pace um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália e com o Prêmio internacional da Liberdade de imprensa, entregue em Nova York no ano de 2005. Se por aqui ficamos nesse mutismo covarde, com as honrosas exceções de praxe, nos Estados Unidos o caso Lúcio Flavio mereceu um editorial do jornal Washington Post, que dispensa apresentações.

Mais informações sobre o caso Lúcio Flávio: Clicando aqui, o leitor encontra um texto do próprio Lúcio Flávio sobre a sentença que o condenou. Neste link, o leitor encontra uma bela reportagem sobre o drama vivido pelo jornalista. Clicando aqui, você encontra um texto sobre o editorial do Washington Post (tentei achar o texto no site do Post, mas não consegui…). Se clicar aqui, o leitor encontrará o texto que me alertou para esta situação, escrito pelo sempre contundente Idelber Avelar. E, por último, mas o mais importante de todos, o link para o site do Jornal Pessoal, onde é possível entender o porquê que o Lúcio Flávio Pinto incomoda tanto os poderosos Paraenses.


Momentos (in)esquecíveis da imprensa

03/07/2009

Momentos (in)esquecíveis da imprensa é o novo nome da série “Furadas da mídia” que o Idéias e etc lançou em janeiro. O nome mudou para ampliar os objetivos da série. Agora não ficaremos concentrados apenas nas lambanças cometidas pelos meus colegas, mas procuraremos registrar os grandes momentos do jornalismo brasileiro.

Isso não quer dizer que não destacaremos as pisadas na bola, muito pelo contrário. Elas serão um dos pratos mais saborosos desta série. A periodicidade: quando me der na telha. Ela pode ser semanal, quinzenal, bimestral, anual…   isso vai depender muito do meu humor e, principalmente, das descobertas que for fazendo no youtube. O amigo leitor está convidado a dar as suas sugestões para a série.

Na (re)estréia, dois momentos peculiares do telejornalismo brasileiro: Datena abandonado por um entrevistado, e o Bonner cutucando o então governador de São Paulo Claudio Lembo, na época dos atentados do PCC em São Paulo.

Socorro, o entrevistado fugiu!

Infelizmente, o vídeo mostra apenas o fim do barraco e o choorô do Datena, o que torna impossível saber exatamente o que sucedeu para o delegado abandonar a entrevista. Mas, mesmo assim, já é possível fazer algumas constatações. Primeiro: os apresentadores de programas policiais adoram bancar o juiz de direito. Com apenas alguns minutos, o sujeito já está julgado e condenado para toda a vida. Para complicar, eles contam com a vaidade de certos policiais que adoram um holofote. Essa combinação bombástica já rendeu momentos catastróficos do jornalismo tupiniquim, como o caso escola Base.

O vídeo acima é interessante para mostrar que essa relação polícia X imprensa pode ter algumas fissuras. O Datena, que sempre se julga o dono da verdade, não gostou quando o delegado não embarcou na sua corretíssima informação chamando-a de “boato” .Se quisesse, o doutor poderia prender o dito cujo por calúnia e difamação. Não seria tão ruim para o jornalismo brasileiro, não…

PCC no JN

O vídeo acima é interessante por alguns motivos: primeiro, relembra os famigerados ataques do PCC em São Paulo que começaram no dia 12 de maio de 2006. O Inagaki, do Pensar enlouquece, fez um belo post sobre o assunto, de onde, aliás, eu tirei o vídeo. Lá, o leitor terá mais informações sobre o acontecimento. Por aqui, prefiro analisar os aspectos jornalísticos do vídeo.Vamos lá.

Não sei vocês, mas me causou um baita estranhamento ver o Wuilliam Bonner apresentando o JN fora da bancada, em plena Marginal Pinheiros. Ele poderia apresentar o mesmo jornal, com a mesma qualidade, direto da redação da Globo em São Paulo. Na verdade, ele quis bancar o “corajoso” e era preciso mesmo ter coragem para apresentar o jornal sentindo aquele cheiro nauesabundo.

Mas o vídeo traz um outro elemento muito curioso. Por uma incrível coincidência, os dois repórteres que ele chamou neste bloco, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, saíram da emissora e, hoje, estão na principal concorrente, a Record. E saíram atirando. Os dois jornalistas não poupam críticas a antiga emissora em seus blogs que o leitor pode encontrar na parte de “sites favoritos”

Até a próxima edição dos “Momentos (in)esquecíveis da imprensa que pode ser amanhã, na próxima semana, daqui a quinze dias, ano que vem, ou sei lá quando…


O velório do diploma de jornalismo

18/06/2009

Ontem, dia 17 de junho de 2009, o STF deixou momentaneamente de ser um tribunal e se transformou num cemitério. O defunto atende pelo nome de diploma superior para jornalismo. O coveiro-mor é Gilmar Mendes, que relatou o processo, mas o meritíssimo não carregou esse caixão sozinho: junto com ele estavam boa parte das entidades patronais da categoria, ABERT (Associação Brasileira de rádio e televisão) e ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e, também, muitos coleguinhas que encarnaram, felizes e saltitantes, o papel de pelegos comemorando o fim do diploma. A única e honrosa exceção é o ministro Marco Aurélio de Melo que votou pela manutenção da regulamentação.

As conseqüências desse enterro prometem ser sinistras para o jornalismo tupiniquim. Quem defende essa idéia é Leandro Fortes, um dos melhores repórteres em atividade no país, e professor de jornalismo. Em seu novo blog aqui no WordPress, Fortes lembra que os maiores prejudicados pelo fim do diploma serão os meios de comunicação regionais. É fácil entender o motivo: com o diploma, existia pelo menos uma garantia de qualidade na informação produzida por esses meios de comunicação. Com o fim da exigência, as redações desses veículos, que, via de regra, são controlados por políticos, serão tomadas de assalto por partidários do dono da empresa, sem nenhum compromisso com o jornalismo. O vaticínio de Leandro Fortes é assustador:

Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.

Mas nem todos são tão pessimistas. Luis Nassif, por exemplo, consegue enxergar alguma luz na escuridão. Para ele, existe um grande mercado que pode abrir para aqueles que ostentam o diploma de jornalista:

(…)há um enorme mercado que se abre com o fim da obrigatoriedade do diploma – beneficiando especialmente os com-diploma. Daqui para frente, cada vez mais as empresas e associações serão produtoras de informação, acabando com essa intermediação espúria da mídia. Hoje em dia há assessorias com mais jornalistas que as redações. Preparam releases, enviam para o jornal, o editor passa para um repórter dar uma guaribada e publicar como se fosse matéria própria.

Como estudante de jornalismo, gostaria de acreditar mais no otimismo do Luis Nassif do que no pessimismo do Leandro Fortes. Infelizmente, eu não consigo. Acho a visão do repórter de Carta Capital mais realista e vou além: o mercado, que já é altamente restrito, promete ficar ainda mais comprometido. De toda forma, não será a decisão de ontem que vai impedir que eu seja jornalista. Acredito no meu potencial, com o diploma valendo alguma coisa, ou não.

Para dar uma aliviada no clima funéreo desse texto, achei a imagem abaixo em um blog. Ela diz muito do que será o jornalismo daqui para frente…

diploma

P.S.: Criei uma enquete sobre o assunto na barra ao lado. Participe!


Direto do mundo Daslua: Orkut para ricaços

07/06/2009

Finalmente o sonho de consumo da nossa elite se concretizou. Um lugar sem pobres fedorentos; sem ninguém da classe-média-que-se-acha-rica, um lugar onde gente fina só se relacionará com gente fina. Sim! Podem vibrar socialites do meu Brasil! Você também, Playboyzinho, pode soltar rojões de contentamento! Os seus desejos mais secretos foram atendidos! Ah, sim, vocês devem estar ansiosos para que eu conte logo o endereço dessa ilha dos sonhos, né não? Calma, é prudente não ir com muita sede ao pote, até porque esse pote é para pouquíssimos.

Sendo mais exato, serão apenas seiscentos os brasileiros escolhidos para se beneficiar desse verdadeiro mundo da imaginação. Me refiro ao Elysiants, uma espécie de orkut fechado para convidados. Os criadores, dois homens que devem ser muito ocupados, explicam, em reportagem da revista Época, que o nome veio da junção de Champs-Elisées, bairro chiquérrimo de Paris, e da palavra “Ants”, formiga em inglês. Os insetos foram escolhidos porque, segundo um dos proprietários, a comunidade das formigas “é uma das mais seletivas do mundo”. Ele deve ter tentado entrar num formigueiro e foi barrado, coitado…

Em outro momento da matéria, é explicada a filosofia do site: “Criamos uma rede social menor, em que os participantes possam se relacionar com quem tenham realmente afinidade” É de se notar o timing empresarial do empreendimento. Numa era em que a internet dissemina as informações como nunca, onde as redes sociais se tornaram uma realidade e, através delas, é possível estabelecer contato com qualquer pessoa do universo, os responsáveis por essa estrovenga navegam contra a maré virtual, criando uma espécie de maçonaria do século XXI. Puro anacronismo.

Mas nada disso deve acalmar a ansiedade das socialites e dos playboyzinhos que devem querer saber logo como adentrar nesse país das maravilhas, né? Eu, infelizmente, tenho uma má notícia. Os maçons, digo, os usuários do site já foram escolhidos. Os eleitos foram convidados para uma festa de arromba que aconteceu no último dia 12 de maio, numa balada em São Paulo.

O quê? Vocês não foram convidados? Calma, socialite, isso não é motivo para você se enforcar com o seu colar de pérolas; playboyzinho, não se jogue nas mandíbulas do seu Pitbull. Espere um pouco. O Idéias e etc, pensando no vosso sofrimento, mostra algumas comunidades que, provavelmente, estarão no Elysiants, com as suas respectivas descrições:

Champanhe no café da manhã 590 membros

brindeNada mais elegante que iniciar o dia tomando um delicioso champanhe no café da manhã. O dia começa colorido e feliz. A gente até esquece que nasceu no Brasil… Mas não adianta nada se a bebida for nacional ou vier de qualquer outra região que não à França. Se você também cultiva esse hábito, entre na nossa comunidade. Aqui trocaremos muitas idéias sobre as melhores marcas da bebida. Ah, já ia esquecendo: nada de pão com manteiga para acompanhar, claro. O ideal são brioches. Franceses, de preferência.

Gilmar Mendes é ídolo! 600 membros

gilmarmendesO excelentíssimo magistrado Gilmar Mendes honra, de fato, a sua toga e a justiça brasileira. Com muita coragem, não atendeu aos apelos da turba enfurecida e concedeu habbeas corpus ao D. D. É um homem de grande coragem e dignidade. Poderia, inclusive, acumular as funções de presidente da república e do STF e, se quiser, teria o nosso apoio para assumir o congresso e o senado federal. Se sobrasse tempo, poderia ser governador de São Paulo. Seria um sonho.

Não conseguimos entender porque esse povo fétido atenta contra a moral de um homem com uma índole inatacável. E o que dizer daquele crioulo que o ofendeu… como é mesmo o nome dele? Ah, não importa… Um dos momentos mais constrangedores dos últimos tempos… Gilmar, estamos com você! Porque a gente sabe que você está conosco.

Empregada doméstica-Ôh, raça! 559 membros

o_coitadoMinha gente, este site é uma ótima oportunidade para a gente poder desabafar contra as nossas empregadas!!!!! Sim, vamos contar todos os podres delas, vamos rir de suas manias, elas não poderão ler mesmo! hihihihihihihihi… Também podemos trocar conselhos sobre como agir em situações incômodas, como quando elas pedem aumento… Ou quando querem trazer os seus filhos para passar o fim de semana em nossa casa… e tantos outros momentos chatos… hihihihi Vamos esculhambar com elas, moçada!

bjosmeliguem!

Eliane Tranchesi é ídola! 171 membros

eliana-tranchesi-dasluEla construiu uma butique de luxo e despertou a inveja alheia. No Brasil, as pessoas não podem fazer sucesso, ganhar dinheiro que despertam os piores sentimentos nesse povinho medíocre. Só isso explica a atitude da polícia federal que prendeu essa distinta dama da sociedade paulistana. Tadinha… Algemaram ela, colocaram-na num camburão como se fosse uma favelada, fizeram acusações infundadas, transformaram sua vida num terrível inferno. Alguém, em sã consciência, consegue imaginar ela, uma dama, deixando de pagar os seus impostos? Puro absurdo! A verdade é que os ricos no Brasil são perseguidos e humilhados! Até quando isso?

Estamos contigo, Eliane! Para o que der e vier. Já até separamos um convite pra quando você se livrar de suas acusações e poder participar desse site sem gente réles.

Salvem o lagarto colorido da Groelândia! 1 membro

lagEsses dias eu li numa revista científica que o lagarto colorido da Groelândia está correndo risco de extinção. Fiquei muito preocupado. O que será do mundo sem o lagarto colorido da Groelândia? Nessa reportagem, diz que só restam quatro exemplares da espécie, todos eles fêmeas. É preciso de um macho para a reprodução. Os cientistas estão pensando em iniciar uma expedição em busca do tão desejado macho. Mas, para isso, precisam de muito dinheiro. Acho que a gente poderia se mobilizar por essa causa, hein? Acho justíssima. Estou pensando em organizar um leilão em benefício do lagarto colorido da Groelândia.

Algum interessado?

*****

Essas são apenas algumas das comunidades que conseguimos imaginar apurar. Clicando aqui, o leitor pode assistir uma divertidíssima charge do Maurício Ricardo sobre o Elysiants.


Nova página no Idéias e etc

21/05/2009

O nome da página é “Preciosidades” e nela vai caber de tudo: documentários, reportagens, tosqueiras, fotos, e etc, etc, etc… Conforme ela for sendo atualizada, eu aviso por aqui. E o leitor também está convidado a dar as suas sugestões. Elas serão sempre bem-vindas. Para o lançamento, disponibilizei dois documentários, na íntegra, que são absolutamente imperdíveis: “Nada além do cidadão Kane”, sobre a TV Globo e “A revolução não será televisionada” sobre o golpe que Hugo Chavez sofreu na Venezuela em 2002.

Espero que gostem.


Missa macabra

11/05/2009

Quarta feira, 6 de maio de 2009. Igreja Nossa Senhora de Fátima, bairro do Sumaré, São Paulo, capital. Nessa data e local, foi realizado um dos eventos mais surreais que eu tive notícia nos últimos tempos: uma missa em memória do delegado Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador dos anos de chumbo. As revistas Época e Caros Amigos trazem excelentes relatos sobre esse, digamos, evento cristão…

Antes dos detalhes da missa, é importante traçar um breve perfil do homenageado. Também conhecido como “Doutor Barreto”, codinome que o delegado utilizava nas sessões de tortura, Fleury era um dos mais temidos agentes da repressão. Sua ficha corrida justificava a fama. O delegado participou ativamente da operação que matou Carlos Marighela; foi o mentor do “esquadrão da morte”, grupo de policiais que fazia sua própria lei, julgando, condenando e matando centenas de pessoas. Fleury construiu um sistema repressivo dentro do próprio aparato repressivo, onde os presos políticos entravam vivos e saíam mortos, enterrados em valas comuns.

Os militares souberam ser gratos por tanta…   dedicação. Em 1973, o delegado foi condenado pelos assassinatos praticados pelo esquadrão da morte. O regime, então, criou a chamada “Lei Fleury” que proibia a prisão dos réus primários. A legislação, praticamente criada sob encomenda, garantiu ao torturador a liberdade. O “Doutor Barreto”, entretanto, teve um fim trágico e misterioso. Foi encontrado afogado perto do seu iate. Mas como o regime não permitiu que se fizesse autópsia, até hoje existe a forte suspeita que o delegado tenha sido “afogado”, do mesmo modo que ele ajudava os presos políticos a se suícidar nos porões do regime.

Agora, voltemos para a missa. Segundo a contabilidade de Época, cerca de cem pessoas se reuniram para rezar por Fleury; Caros Amigos é mais econômica, fala em cerca de setenta pessoas. Os números, nesse caso, importam pouco. É mais interessante descobrir quem se dispõe a sair de casa para rezar pela alma perdida de um assassino, de um torturador. Um trecho da reportagem de Época ajuda a elucidar parte do mistério:

(…) postado na frente da portinha lateral da igreja, por onde todos entram, está o delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º Distrito Policial, conhecido como “Carteira Preta”. Promotor da homenagem a Fleury, ele cumprimenta todos efusivamente e entrega uma espécie de marcador de livro. (…) Augusto organizou tudo: convidou as pessoas, mandou imprimir o folheto, pagou pela missa, por uma organista – que não apareceu – e por um quadro de folhas e flores amarelas e roxas que formava a bandeira do Brasil, colocado ao lado do altar durante a curta celebração. O quadro é ornamentado com uma faixa (daquelas que se usam em velórios) com a frase “Herói nacional”

E quem é esse tal de Carlos Alberto Augusto? Dessa vez, quem responde é a Caros Amigos. Segundo a revista, nos anos de chumbo o sujeito tinha o apelido de “Carlinhos metralha” e, tal e qual Fleury, também era um torturador. Isso explica muita coisa…  Mesmo assim, é difícil acreditar que uma figura como Fleury consiga reunir tantos admiradores. A Caros também traz uma entrevista absolutamente inacreditável com Frei Ives Terral, o responsável por essa celebração. Só lendo para crer.

Esse episódio me lembrou de uma missa que eu fui na mesma Igreja Nossa Senhora de Fátima. Era o tempo em que o Pinochet, um dos mais sanguinários ditadores sul-americanos, estava nas últimas. Naquela parte da celebração em que a comunidade faz a sua prece, o padre, candidamente, pediu para que os fiéis rezassem por Pinochet. Num primeiro momento, pensei ter entendido errado. Mas posteriormente o pároco repetiu o absurdo mais uma vez. Não posso afirmar com absoluta certeza que se trata da mesma pessoa, mas não me espantaria nem um pouco…

É importante fazer justiça: não é toda igreja que é ou foi conivente com a ditadura militar. Durante o regime, alguns setores da igreja católica tiveram um papel importantíssimo na luta contra o arbítrio. Um dos mais lembrados é Dom Paulo Evaristo Arns que, muitas vezes, peitava de frente os aparelhos repressivos. Os frades dominicados também tiveram um papel relevante ao ajudar muitos presos políticos a fugir do país. E pagaram um alto preço por isso. Essa história esta lindamente contada no livro “Batismo de sangue” de Frei Betto. Nele, o leitor fica sabendo das torturas que Fleury infringiu em Frei Tito e das conseqüências, devastadoras, que tiveram no religioso. Mesmo longe do país, no seu exílio forçado na França, Tito sofria com  alucinações onde via o seu carrasco em todo lugar.

Frei Tito não aguentou tanto sofrimento e se suícidou.