Jornalismo é a arte de separar o joio do trigo. E publicar o joio. (Mark Twain)

Revista País Sustentável

Em 2009, eu e os amigos Eduardo Vasconcelos e Vinicius Mendes, produzimos a revista laboratório País Sustentável. Foi uma experiência e tanto. Durante todo esse tempo, a publicação era um PDF insosso. Agora, graças ao site Calaméo, transformamos o arquivo em uma estimulante revista digital. E de graça. Um dos destaques  é uma entrevista com José Luiz Penna, presidente do PV (Partido Verde) que na época mostrava-se encantado com uma nova correligionária: Marina Silva. O tempo passou e o encantamento também. Marina acabou saindo do partido em pé de guerra com Penna. A entrevista é um registro interessante de como pode mudar a mentalidade dos políticos. Vale ler as outras reportagens também. Em tempo: a crônica da página final “Palavra mágica” já foi publicada aqui no Ideias e etc.

Clique aqui e leia nossa revista que também estará disponível no menu ao lado.

Ursinhos Carinhosos – Último capítulo

Clicando nestes links, você acessa o primeiro e o segundo capítulo dessa história.

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Tente imaginar cinco marmanjões fantasiados de ursinhos carinhosos, todos portando revólveres cálibre 38. Esta era a nossa situação dentro da kombi parada na frente do buffet infantil. Para piorar, fazia um calor infernal. Crueldade decidiu que a gente iria assaltar fantasiado de ursinho carinhoso. Alguns elementos da gangue esboçaram algum protesto, mas foi em vão. O homenzinho decidiu e não adiantava reclamar. Era obedecer e calar a boca.

O chefe da quadrilha repassou todo o plano novamente. Era preciso ser rápido e rasteiro. De minha parte, tentei convencê-lo a não usar violência. Contudo, ele foi áspero. “Apenas se as coisas derem certo, Ursinho. Eu não vou pensar duas vezes em atirar se for necessário. Sacou?”

Saquei…

Como era uma segunda-feira, não tinha festa e todos os colaboradores estavam de folga. Eu esperava por isso, pelo menos. O plano era ir direto a sala do cofre e, com a delicadeza inerente aos comandados por Crueldade, forçar o dono do Buffet à abrir o cofre. Depois, era amordaçá-lo e trancá-lo no banheiro. Muito simples. Ainda tentei ficar de fora desse crime, porém o Crueldade quis que eu fosse o guia de seu bando. Ainda insisti na minha posição, mas o nanico me convenceu apontando o revólver na minha cara e dizendo:

- Você vai e pronto, caralho!

Quem não se convence com um argumento tão poderoso?

Agora, lá estava eu e os demais membros da quadrilha prestes a assaltar o buffet. Foi tudo muito rápido. Crueldade tocou a campainha. Durante esses segundos de espera, torci para que ninguém estivesse por lá. Porém, logo ouvi passos… O barulho de alguém destrancando os trincos… O susto da cozinheira, que foi logo nocauteada por uma coronhada… O delicioso cheiro de risoles no ar…

Fui na frente guiando todos para o escritório onde estava o cofre e o meu ex-patrão. Mas nem precisava. Ele logo apareceu. E, para minha surpresa, armado. Antes mesmo que ele conseguisse disparar, um membro da quadrilha acertou o seu braço. O homem largou a arma gritando de dor. Sangrando muito, foi levado até o escritório. Crueldade espumava de raiva:

- Fala a senha do cofre, seu safado! Fala se não eu te mato e todos da sua família!! A senha, cadê a senha seu filho da puta?

Aos soluços, o homem disse a sequência de números que coincidia com a data de seu aniversário. Aberto o cofre, descobrimos que não havia tanto dinheiro como eu imaginava. Pelo contrário: era uma merreca quase insignificante.

- Só isso, seu desgraçado? Cadê o resto?

- É tudo o que tenho – disse o dono do buffet chorando - Eu já paguei os meus funcionários. Só me restou isso, juro por tudo que é mais sagrado… Me deixa vivo, pelo amor de Deus! Eu tenho família… cinco filhas pra criar… Clemência! Pode pegar todo o dinheiro. Nem chamo a polícia, prometo!

O próprio Crueldade pegou a merreca que estava no cofre. Um membro da quadrilha perguntou o que fazer com nossa vítima. Depois de pensar por alguns segundos, o homenzinho decretou:

- Vamos apagar esse desgraçado! Ele não pensaria duas vezes em nos matar se tivesse com a arma…

O dono do buffet seguia pedindo clemência, chorando, porém Crueldade gostava de honrar o seu apelido. Mandou seus homens carregarem-no até a piscina de bolinhas. O anão me disse:

- Você vai matá-lo. Vamos! Mira bem na testa! É uma ordem!

Lembro de cada detalhe das próximas cenas. Se eu fechar os olhos hoje, consigo revivê-las em câmara lenta. Enquanto erguia a arma em direção à minha vítima, percebi que, no fundo, apenas o odiava como patrão, não como ser humano. Foi quando notei que o dono do buffet me reconheceu, apesar da minha fantasia azul marinho:

- Ei… Acho que sei quem você é… Seu traidor, seu monstro, depois de tudo o que fiz por você… Você não é o…

O som de um disparo invadiu o ambiente. O corpo do homem tombou para trás. A piscina de bolinhas se transformou em uma mistura de sangue com pedaços de cérebro. A arma de Crueldade estava fumegando.

- Você é muito bundão mesmo… Jamais será como Toninho Crueldade… disse o sádico nanico.

Naquele momento, enquanto corria pra kombi, finalmente percebi que tinha cruzado a tênue linha que separa os bons dos maus. Não havia volta. Ajudei bandidos a fugir da cadeia, participei dos planos de um assalto e, por muito pouco, não matei o meu ex-patrão. Talvez, sempre estivesse do lado mal do front. Era tão bandido como os demais homens de Crueldade. Um deles, aliás, teve tempo para roubar uma bandeja de risoles fresquinhos.

- Garanti o nosso jantar, chefe!

Os risoles, aliás, merecem um parágrafo à parte. Foram os piores salgadinhos que comi em toda minha vida. Primeiro, estavam encharcados de óleo. Cada mordida equivalia a uma bomba de gordura trans. O empanado era ruim, não cobria o salgado completamente. A massa, por sua vez, era ainda pior. Rançosa, sem gosto, parecia ter sido feita no século passado. E o recheio, então? O que comi era de queijo e estava completamente gelado e duro. Os homens da gangue, entretanto, adoraram e o resultado foi uma diarréia coletiva. A privada, contudo, era uma exclusividade do Crueldade. Nós tivemos que nos contentar com humilhantes penicos.

No esconderijo, quando ligamos a TV, vimos que a notícia do assalto era o principal assunto dos telejornais policialescos da noite. Tomei um bruta susto quando vi minha foto como um dos suspeitos. A matéria relatou como foi o assalto e entrevistou alguns dos meus colegas e também famíliares do proprietário do buffet. Todos choravam e falavam que ele era maravilhoso, bom marido, excelente patrão… Inclusive alguns dos funcionários que o detestavam…  Cortou para o apresentador do programa:

- Olha, criminosos como essa quadrilha do Toninho Crueldade só tem uma solução: cadeira elétrica! Devem morrer tostadinhos. Tô certo ou tô errado?  O cidadão de bem bla bla bla bla…

Crueldade não perdoou:

- Pode esperar, gordão, um dia a gente se encontra e eu te mato, seu desgraçado! Saiam da frente que preciso voltar pro trono…

Os jornais também destacaram o assalto. O mais popular da cidade colocou a notícia na capa. Ao lado de uma foto gigantescca da piscina de bolinhas, eles estamparam a seguinte manchete em letras garrafais:

URSÕES DIABÓLICOS MATAM DONO DE BUFFETT

Nas páginas internas, fotos nossas. Entrevistaram até minha mãe que disse não acreditar que o seu filho pudesse estar envolvido em um crime. Disse que eu era um bom menino e tal. Era, mamãe. Era… Tenho até hoje esse jornal.

*****

Muitos anos se passaram desde os eventos narrados acima. Eu entrei definitivamente para a vida criminosa. Depois de alguns episódios, que foram amplamente cobertos pela imprensa e são de conhecimento público, matei Toninho Crueldade e me tornei o chefe da quadrilha. Sou o dono da favela do Urso. Não vou contar novamente o que todos estão cansados de saber. Quando comecei a rascunhar essas linhas, minha intenção era escrever uma autobiografia. Mas não vai dar tempo. Ontem, depois de um tiroteio, matei um policial. Duplo azar. O meganha era o coronel da polícia. Meu pescoço vale ouro. Estou escondido em um buraco e do lado de fora só ouço pipoco, tiros, gritos… putz, agora ouço um helicóptero. Ouvi pelo rádio que metade do contingente da polícia está no meu encalço. Meu destino está sacramentado. Lá fora, só ouço: “cadê o urso, caralho?” E mais tiros. E helicóptero. Comigo, apenas meu revólver, uma lanterna fraca, esses escritos e uma caneta. Espero que minhas mulheres e meus filhos estejam bem. Nunca mais vou vê-los. Fato. Estou consciente disso e conformado. Gostaria de deixar registrado que sempre procurei tratar os moradores bem. As crianças sempre tiveram festinhas. E com bons salgadinhos. E com Ursinhos carinhosos de animadores. Tudo de primeira. Sim, é verdade. Pode acreditar. O papel tá acabando. Lá fora, mais pipoco. Tenho duas balas no meu revólver. Será que consigo matar dois meganhas? A lanterna também tá fraca. Eu sinto o cheiro do medo. O cheiro do fim que se aproxima. Ás vezes, tento fazer um exercício de imaginação… O que eu seria se aquele velho beberrão não fosse convidado para aquela festinha? Não sei. Realmente, não sei. Quem sabe, estava tudo escrito para me tornar o que me tornei? Destino? Não sei se acredito. Já pensei algumas vezes em largar dessa vida e ser animador na Disney. Deve ser um vidão. Sempre gostei do Donald. E do Pateta. Odeio o Mickey. Rato boiola. Seria um fim digno. Trabalhar de animador e ganhar em dólar. Fazer turistas sedentos de consumismo felizes. Não há tios beberrões, eu acho. Não. Chega de sonhar. A lanterna está acabando, os meganhas estão se aproximando de tudo quanto é lado, e eu tenho que correr atrás do meu destino.

Fim

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Ursinhos Carinhosos – 2º capítulo

Esta história começa aqui

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As próximas cenas parecem ter sido escritas por um roteirista de Roliudi Hollywood. O primeiro brutamonte já chegou armando uma voadora que, milagrosamente, consegui desviar. Enquanto eu observava o meu agressor, que jazia estatelado no chão, agonizando, um segundo brutalhão aproveitou-se desse momento e aplicou uma chave de pescoço. Senti o ar faltando. Um terceiro chegou e disse:

- Segura este bosta que eu termino de matá-lo.

No exato instante em que ele armava o primeiro soco, ouvi uma sirene. Nunca fiquei tão feliz por ouvir esse barulho em toda minha vida! Fiquei sabendo depois que meus colegas animadores tinham chamado a polícia. Gritei por socorro. Isso atiçou ainda mais os meus algozes. Um deles acertou um violento golpe no meu estômago que fez todas as minhas tripas revirarem. Desmaiei. Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando retomei a consciência ouvi o final de um diálogo entre um dos meus agressores e um policial. Este último dizia:

- …fica sossegado, amigo. Esse pilantra terá o que merece na cadeia! Vamos levar o elemento pra viatura!

Eu ainda tentei contar o sucedido para os policiais, mas eles apenas mandaram eu calar a boca e me algemaram. Enquanto era carregado, pensei: “Já que estou indo pro inferno, vou abraçar o capeta”. E tomei uma atitude que, relembrando hoje, me arrependo um pouco. Enquanto passava no meio da festa, senti uma onda de ódio se apoderar de mim e resolvi descontar no elo mais fraco: as crianças. Eu gritava totalmente descontrolado:

- Crianças! Eu preciso contar uma coisa pra vocês! Sabe aquela história da cegonha? Não existe! Rararararaá É mentira! É o pai de vocês que trepa com suas mães! Ah, Papai Noel não existe também!

Ainda hoje não sei como saí vivo do Buffet. Pudera. As crianças desataram um choro em uníssono. Quando estava perto da saída, ouvi um diálogo inesquecível. Era uma garotinha de uns quatro anos que, chorando, perguntava pro pai:

- Seu malvado! Por que você trepa com a mamãe?

Eu devo ter acabado com a infância de algumas gerações. Mas minha vida também tomaria um rumo inesperado. Chegando na delegacia, descobri que o delegado de plantão era irmão do tio beberrão – além da semelhança física, o hálito de alcoól indicava que ambos vieram da mesma árvore genealógica. Eu tentei valer os meus direitos básicos, como chamar um advogado, mas ele apenas soltou uma gargalhada e disse:

- Enjaula esse filho da puta! Coloca ele na pior cela, aquela que tem o Toninho Crueldade…  Se ele escapar vivo, amanhã a gente aplica um corretivo nesse verme. Ah, por favor, tira essa fantasia ridícula de ursinho carinhoso…

Gelei. Não só pela ameaça velada, mas porque Toninho Crueldade honrava o seu nome. Ele media pouco mais de 1m e 60, mas a sua mente diabólica o deixava com as dimensões de um gigante. Ele era responsável pelo tráfico em uma importante favela de São Paulo e estava preso fazia pouco tempo. Seria logo transferido para uma penitenciária de segurança máxima.

Quando cheguei na carceragem, confesso que por alguns instantes desacreditei que aquele nanico fosse um dos bandidos mais perigosos da cidade. Mas logo entendi porque dizem que tamanho não é documento. O homenzinho estava visivelmente alterado. Seus comparsas, que estavam na mesma cela, também pareciam estranhos. Ficamos algum tempo nos encarando. Crueldade rompeu o silêncio:

- Escuta aqui, truta! Tô com uns esquemas pra sair do xilindró! Coisa garantida.Vai ser nessa noite…

- Eu fico na minha e… Crueldade me cortou furioso:

-Cala boca, eu ainda não terminei, porra! Eu não imaginava que colocariam outro preso nessa cela. Isso pode fudê com nosso plano. Me diz: você é meganha?

- Meganha?

- Policial, porra!

- Não, eu trabalhava em um buffet infantil, mas… Me desentendi com um dos convidados… É uma história meio maluca…

Crueldade olhou para os seus comparsas. Ficou algum tempo matutando e finalmente disse:

- Eu vou acreditar no que disse, truta. Mas você participará do nosso plano de fuga. Se algo der errado, você é o primeiro que morre. Sacou?

Eu respondi com o ”Saquei” mais doloroso da toda minha vida.

O plano de fuga tinha a marca da mente genial de Toninho Crueldade. De algum jeito, ele conseguiu comprar os carcereiros e os demais presos. A ideia era simular uma rebelião. Toninho e sua gangue – incluindo eu! -, se aproveitariam da balbúrdia para escapulir do xilindró. Tudo aconteceu conforme o planejado. O único entretanto foi um dos carcereiros que, em um surto de honestidade, resolveu impedir a fuga. Eu percebi a tempo e dei uma coronhada no sujeito. Do lado de fora, aguardavam por nós alguns carros com o restante da quadrilha. Fiquei exatas duas horas preso!

Quando chegamos no esconderijo, percebi que o meu gesto foi notado por Crueldade. Ele fez questão de me cumprimentar primeiro e ressaltou o meu ato heróico anulando o carcereiro.

- Qual é o seu nome, truta? Nessa confusão, nem lembrei de perguntar…

- Meu nome é muito feio. Detesto ele. Prefiro o meu apelido: Urso

- Ui, Urso, que apelido mais fresco, caralho… – zombou Crueldade e os demais da gangue -, Ursinho carinhoso, ui, ui, ui…

- Toninho é muito macho mesmo… – disse para o meu próprio espanto.

E bota espanto nisso! Eu respondi no automático, como se o Crueldade fosse o dono do buffet. Se eu tivesse pensando um segundo a  mais, não me atreveria. O próprio chefão ficou espantado. Durante longos minutos ficou sério, depois sorriu e então finalmente falou, pausadamente, cada sílaba com a força de um tiro:

- Escuta aqui, truta, pro seu bem vou fingir qui não ouvi o seu desaforo, sacou? É a primeira e a última vez que te dou essa boiada. Nem minha mãe ousa me sacanear, sacou?

Nunca disse “saquei” com tanto alívio em toda minha vida.

Depois desse momento de tensão, o pessoal da gangue passou a discutir alguns assuntos da “firma”, que era a forma usada por Crueldade para se referir a sua quadrilha. E, segundo os seus comparsas, a firma precisava de muito dinheiro. E rápido. Era necessário restabelecer o estoque de armamentos e comprar a mercadoria para vender (Vulgo: drogas). Foram discutidos vários planos. Crueldade achava arriscado roubar agências bancárias.

- A polícia tá nos procurando em tudo quanto é buraco e eles sabem do nosso carinho por bancos. É preciso algo menos óbvio. Ninguém consegue pensar em nada? Bando de retardados!

Foi quando tive a ideia. Eu lembrei que era justamente naquela época que o dono do buffet pagava as esmolas para os funcionários. E ele o fazia em dinheiro vivo. Existiam alguns motivos para isso. Primeiro, ele não gostava de bancos. Achava um absurdo as taxas cobradas e o atendimento das agências. “O cliente só é gente quando abre a conta. Depois, vira gado no abetedouro naquelas filas do caralho. E esses desgraçados, mesmo tendo espaço para 10 caixas, só colocam dois pra trabalhar. Vagabundos!” costumava dizer com alguma razão. O outro motivo era menos idealizado. Ele não registrava os seus funcionários que, obviamente, também não tinham nenhum benefício determinado pela lei trabalhista. Pagar em dinheiro vivo facilitava a sua ilegalidade. Ele tinha um cofre na sua sala que, nesse período, ficava repleto de grana.

Eu contei essa história pro Crueldade. Os seus olhos faíscaram. Ele então me crivou com inúmeras perguntas. Queria saber tudo, onde ficava o cofre; se havia segurança; se o dono do buffett costumava se armar; se ele ganhava muito dinheiro… enquanto ele falava bateu um arrependimento. Nem tanto pelo dono do buffet, mas pelos meus colegas de trabalho. Entretanto, era tarde para lamentações. Inês, agora, estava morta tadinha. Quando dei por mim, o plano já estava armado. Crueldade decidiu assaltar o buffet.

[Continua...]

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Ursinhos carinhosos – 1º Capítulo

Este é o primeiro capítulo de uma série de três que o Ideias e etc publicará a partir deste domingo. Esta é uma experiência que eu sempre quis fazer na web: folhetim. Este é um texto bem diferente dos costumeiramente publicados por aqui, é uma ficção com humor. Eu me diverti muito escrevendo e espero que você se divirta lendo. Não deixe de comentar. Sua opinião é muito importante. Muito obrigado! Agora, eu deixo vocês na companhia do Urso…

*****

O meu apelido é Urso. O nome de batismo pouca gente conhece ou lembra. Melhor assim, pois é uma criação tenebrosa de minha mãe. O monstrengo é a misturas das sílabas do nome de meu pai, do avô materno e de um tio distante. Tudo isso com dois “y” no meio. Durante muito tempo, trabalhei como animador de festa de crianças. É possível conhecer muito da alma humana exercendo esse ofício. As descobertas, infelizmente, não são muito boas.

O apelido surgiu por causa desse trabalho. Naquela época, o SBT exibia o desenho animado “Ursinhos Carinhosos” e eles se transformaram em uma verdadeira febre. As meninas só queriam saber desses seres esquisitões. O dono do Buffet resolveu criar uma festa temática usando os personagens. O conjunto da obra era o suprassumo da cafonice, mas ele estava pouco se importando. Costumava dizer: “O importante é o sorriso das crianças e os cifrões a mais no meu cofre. Principalmente os cifrões”. E arrotava alto.

O sujeito tinha pirraça comigo. Ele tratava mal os seus funcionários e eu nunca tolerei esse comportamento. Certa vez, um dos animadores fantasiados de Power Rangers – os personagens mudavam conforme a moda -, foi flagrado roubando um risoles, apenas um risoles! Foi o bastante para o homem passar um pito público no pobre coitado. Falou que o salgadinho não era pro bico dele. Só não foi demitido porque as crianças poderiam sentir falta do Power Rangers Azul.

Eu não aguentei. Tomei as dores do meu colega. Falei que era um absurdo ele dar aquele esporro por causa do salgadinho. O homem me olhou nos olhos e falou soltando uma chuva de perdigotos:

- Qualé, ô meu? Tá se sentindo super heroi só por que está vestido de Power Rangers? Se toca, cidadão!  E só uma coisa: não gosto de funcionário meu incomodado. Se não estiver satisfeito, a porta da rua é serventia da casa!

Preferi continuar no trabalho, afinal de contas estava precisando muito daquela merreca que ganhava. Minha vingança consistia em xingá-lo muito. Em pensamento e, baixinho, quando estava com a roupa dos personagens. Durante as festas, também aprontava. Esperava um raro momento de folga, ia até a cozinha e, aproveitando que o zelo com os alimentos não era muito grande, soltava algumas cusparadas dentro da garrafa de refrigerante de 2 litros. O leitor pode considerar minha atitude um pouco infantil, mas convenhamos: tudo naquele ambiente era infantil. Até a idade mental do dono do buffet…

Apesar desses pesares, gostava do meu trabalho de então. Fantasiado de Ursinho Carinhoso, dava para observar muito do comportamento humano; começando pelas próprias crianças. Era engraçado ver a reação delas quando aparecia os personagens. Ficavam com os olhinhos muito arregalados, quase sem piscar.

A maioria nutria um medo fenomenal da gente. Medo justificável. O dono do buffet não investia muito nas fantasias e nós ficávamos parecendo verdadeiras anomalias ambulantes. Para você ter uma idéia: os olhos do meu personagem eram vermelhos e um convidado sacana me apelidou de “Ursinho Maconheiro”. Era muito comum eu me aproximar de uma criança para brincar e ela imediatamente abrir o berreiro:

- Quero minha mããããããããããeeeeeeeeeee!

Ah, as mães… protagonizavam cenas bizarras. A  mãe do aniversariante se sentia a dona do pedaço. Mandava na gente mais que o dono do Buffet. Queria uma atenção especial para o seu rebento, transformá-lo em uma verdadeira estrela mirim. Depois, as crianças tornam-se esses pequenos monstros cheios de vontades, mimadas, sem nenhum caráter, para só então os pais se perguntarem onde foi que erraram.

Outra figura muito característica é a tia solteirona. Esse tipo humano tem verdadeira veneração pelo bebê alheio, sempre o acha a coisinha mais linda da face da terra. Adora crianças e é capaz de pagar qualquer mico para fazê-las sorrir. Cansei de dançar lambada com uma dessas tias gordas – geralmente são gordas, bem gordas -, além de outros micos indescritíveis que elas pagam felizes da vida. Sempre tive bastante simpatia pelas tias solteironas.

Mas um dia a festa sempre acaba… no meu caso, o fim do meu trabalho como animador de festa de crianças foi infeliz. O nosso calcanhar de Áquiles sempre foram os tios beberrões que, sem ter muito o que fazer, enchiam a cara e o nosso saco. Foi o que aconteceu. Num determinado dia, uma dessas figuras detestáveis resolveu se divertir às minhas custas. Nem bem chegou no aniversário e já mandou a primeira:

- Olha, crianças, eu não disse  que teria uns ursinhos viados na festa?

Fiquei em estado de alerta. Ele nem estava muito bêbado e já estava aprontando. Imagine quando começasse a entornar a cerveja, que tinha em grande quantidade. Como sempre, eu estava certo. Algum tempo depois, enquanto fazia um pequeno show musical, o tal homem continuou atazanando:

- Ei, ursão boboca, vê se rebola direito, caralho!  Rebola, urso, rebola!

Alguns pais recriminaram o sujeito por causa do palavrão, mas ele estava pouco se importando. Conheço bem o tipo. Eles querem aparecer, não importa se agradando ou infernizando. O nosso duelo final aconteceu enquanto eu observava algumas crianças brincando na piscina de bolinhas. Foi quando senti uma mão apalpando minha bunda. Senti o bafo de alcoól e aquela voz que já tinha provocado tanto:

- Peguei no teu fiofó, urso. Agora rebola, ursão, rebola!

Tentei resistir ao assédio educadamente:

- Me solta, senhor, estou trabalhando…

- Trabalhando, é? Desde quando se vestir como um urso viado é trabalho?

Por alguns segundos, consegui me afastar daquela situação insana do homem com as duas mãos apertando a minha busanfa e refletir. Comecei a pesar os prós e contras daquela vida que levava; pensei no salário que recebia, se era realmente feliz. Cheguei a conclusão que não. Recebia muito pouco para aguentar um pinguço grudado no meu cu. Aliás, por dinheiro nenhum eu toleraria essa situação. Foi quando virei outro animal, um cavalo, e dei um coice no infeliz. A força do golpe, somada com a lei da inércia, fez com que o homem desgrudasse de mim e quase desabasse em cima de umas crianças que faziam uns desenhos no rosto. Passou bem ao lado, numa cena digna de filme pastelão.

O homem levantou cambaleando, trançando as pernas e furioso. Gritava que iria me matar. Tente imaginar a cena, leitor. Um urso rosa trocando sopapos com um velho bêbado no meio de uma festa de crianças. Se o embate fosse unicamente com o pudim de cana, eu ganharia fácil. A fantasia de urso absorvia grande parte dos golpes que, graças as condições físicas do meu desafiante, eram naturalmente fracos. O problema é que logo surgiram uns parentes do beberrão e eles tinham porte de lutador de Jiu-Jitsu. Tomei a atitude mais lógica: corri feito um doido!

Enquanto corria, percebi que a violência tinha se espalhado pela festa inteira. Crianças brigavam com crianças; brigadeiros e cajuzinhos viraram mísseis teleguiados, adultos aproveitavam para tirar satisfação por ressentimentos antigos. Era possível sentir o ódio no ar. Felizmente, consegui entrar na sala onde os animadores se trocavam e tranquei a porta. O meu esconderijo durou pouco tempo. O dono do Buffet me delatou e logo cinco ou seis brutamontes estavam esmurrando a porta. Coloquei uma mesa para ajudar na resistência. Do lado de fora, ouvia:

- Nós vamos te pegar, seu desgraçado! Você não pode ficar para sempre escondido aí!

Era verdade. Cada murro ou pontapé fazia com que a frágil porta envergasse alguns centímetros. Era uma questão de tempo. Eu já podia ver o meu corpo sendo massacrado pelos brutamontes. Com essa aflição em mente, me acocorei num canto no fundo da sala e, mesmo não sendo nada religioso, rezei com um fervor de causar inveja no Papa. Mas parecia que ninguém ouvia minhas preces. A fúria dos golpes aumentava cada vez mais. Agora, já existia uma pequena fresta…  Bastou mais um chute para a porta ceder e a mesa voar longe.

[Continua...]

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Trajetória da Folha Dirigida é marcada por começo modesto

Por: Marcelo Martins, Eduardo Vasconcelos e Simone Lima

Antônio Steter fala da trajetória da Folha Dirigida.

Uma sala com 24 metros no centro do Rio e apenas três pessoas na equipe. Esse foi o começo do jornal Folha Dirigida fundado, em 1985, pelo jornalista Adolfo Martins que tem no currículo a criação da editoria de educação do Jornal dos Sports. Nesse periódico, Martins chegou a apresentar um projeto editorial de uma publicação voltada para concursos públicos. A direção não acreditou que a ideia fosse viável.

O jeito foi tentar o voo solo. A primeira edição, entretanto, indicava que o jornal encontraria muitas dificuldades. Dos 3.000 exemplares do primeiro número foram vendidos apenas 260 jornais. Aos poucos, após conversas com revendedores e jornaleiros, a publicação foi conseguindo se estabelecer no mercado. Hoje, a tiragem mensal é 1.768.000 de exemplares mensais e é vendida em 32.000 bancas. O grupo conta com publicações na área de turismo e realiza uma feira anual sobre carreira pública.

O jornal ser sediado no Rio de Janeiro não é mero acaso geográfico. Segundo o diretor da sucursal de São Paulo, Antônio Steter, o fato da cidade ter sido capital federal até o começo da década de 60 gerou um vínculo histórico com o funcionalismo público. “Você costuma ter dentro das famílias cariocas, um componente da família que já tenha trabalhado ou esteja trabalhando para o governo” Por ser mais industrializada, São Paulo não depende tanto do Estado. Mas esta situação está mudando “ Hoje, o jovem quando saí da faculdade não tem emprego. Enquanto que a carreira pública não depende de ele conhecer o patrão, de ele ser amigo de ninguém. Depende só dele”, garante.

O mundo é um balcão de negócios

Relações comerciais. Este é o único vínculo que Lourenço, o protagonista do filme “O Cheiro do ralo”, vivido por Selton Mello, consegue estabelecer com outra pessoa. Na verdade, não é possível falar de um vínculo propriamente dito. Dono de uma loja que compra produtos usados, o personagem humilha e se diverte às custas dos seus clientes. Não existe nenhuma lógica em suas decisões. É capaz de pagar uma boa importância por um objeto sem nenhum valor e desprezar algo realmente valioso. Tudo é feito sem nenhuma compaixão, seguindo apenas a sua lógica canhestra.

Aos poucos, entretanto, algo de curioso acontece. Lourenço se apaixona por uma garçonete; na verdade, pela bunda da mulher. A fixação é tanta que todos os dias ele almoça no estabelecimento em que ela trabalha, sempre arrumando um jeito de ver, um pouco mais, a parte da anatomia que tanto venera.

Não há afeto nessa relação. Para Lourenço, o mundo é um imenso balcão de negócios. O seu desejo é comprar a bunda, como se fosse um objeto qualquer que um cliente desesperado tenha levado para sua apreciação. Este é um ponto interessante do filme. O protagonista estabelece uma relação de poder com os seus clientes, pois sabe que eles, via de regra, estão desesperados em busca de dinheiro. E não poupa sadismo. A relação mais insólita acontece com uma mulher que precisa de grana para se drogar. Em determinado momento, ela aparece sem nenhum objeto para trocar. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Lourenço pede que ela fique pelada e começa a se masturbar.

Além da bunda, existem outras fixações. Uma delas é um ralo que, para o constrangimento do protagonista, exala mau cheiro. Ele até tenta resolver o problema, mas é incapaz de se entender com os encanadores. Outro exemplo é um olho de vidro que Lourenço mente para os clientes dizendo ser do seu pai. Aliás, Freud talvez fosse capaz de explicar a necessidade que o personagem tem de reconstruir o seu progenitor através dos objetos comprados dos seus clientes.

É em meio a essas fixações e tensões que o filme se desenrola. Uma briga com a bunda, melhor dizendo, com a garçonete tira o personagem dos eixos e provoca uma reviravolta na trama. Uma mudança também acontece na relação de poder mantida com os clientes – o que acaba culminando no final impactante.

Com sua trama no mínimo peculiar, “O Cheiro do ralo” possibilita ao público uma reflexão inusitada sobre a nossa sociedade e as relações de consumo. Tudo isso com interpretações convincentes, especialmente de Selton Mello, que está excelente como o perturbado e perturbador Lourenço.

Trailer

Comentário: Esta resenha foi escrita na mesma leva da carta para Vladimir Herzog e para a mesma disciplina. Considero este texto um pouco inferior ao anterior e por algum tempo pensei em não publicá-lo no blog. Mas resolvi reavaliar esta decisão e  deixar que o leitor diga o que achou destas mal traçadas linhas…

Aquelas resoluções e as perspectivas para 2011

No dia 29 de dezembro do ano passado, este blog publicou uma série de frases á guisa de resoluções para este ano. 366 dias depois, é chegado o momento de fazer um balanço delas, do que foi cumprido e daquilo que virou apenas uma promessa desvairada…

Escrever mais regularmente neste blog.

Ao todo, foram nove textos em 2010. Com certeza, quando imaginei que deveria ser mais regular, não imaginava um número tão esquálido.  Desde o lançamento do Idéias e etc, foi o ano em que escrevi menos. Motivo? Poderia colocar a culpa na faculdade e no trabalho mas, para ser justo, a grande culpada atende pelo nome de preguiça! É uma vilã terrível, medonha mesmo. Ás vezes, até tive algumas idéias de textos, porém elas ficaram em algum lugar entre a determinação de escrever e o ânimo para começar a juntar as letrinhas. O ano que se avizinha, entretanto, não permitirá preguiça. Tenho um TCC pra fazer – mais sobre isso daqui a pouco! -, e precisarei de toda a disposição que tiver. Quanto ao blog, farei o possível para mantê-lo atualizado. Por mais irregular que isso pareça agora…

Transferir para o papel algumas idéias de texto de ficção que eu tenho.

Resolução parcialmente cumprida. Sim, algumas coisas já foram para o papel. Na verdade, para um arquivo de computador. Tenho alguns textos começados e outros ainda dentro da minha cabeça insana. Talvez, mostre alguns deles em breve nessas paragens. Outros, entretanto, permanecerão aguardando o momento de encontrar a luz do dia.

Tentar diminuir a imensa pilha de livros que eu tenho acumulados para ler.
Comprar alguns livros que eu quero muito ler e, assim, aumentar a pilha de livros acumulados para ler.

Resoluções plenamente cumpridas! Aliás, é o tipo de coisa que nem preciso de resolução para cumprir…

Ignorar as Xerox dos professores medíocres.

Cumprida integralmente! Tirei poucas xerox, apenas aquelas que me interessaram. Mas perdi a metade delas em alguma esquina da vida…

Ter alguma idéia genial para o TCC em 2011.
Tentar ter alguma idéia para o TCC 2011.

A primeira resolução ficou apenas em um sonho. Nada mais. Nenhuma idéia genial foi proporcionada pelos meus neurônios. Até tive algumas idéias, conversei sobre elas com professores e amigos; mas nada ainda muito definido, termino o ano sem saber direito qual o tema do meu TCC. Pretendo resolver essa pendenga em janeiro. Custe o que custar!

Sair mais com os meus amigos.

Resolução não cumprida. Infelizmente.  Até poderia tentar “enfeitar” a verdade, digamos assim, mas ficaria feio ser desmentido pelos amigos nos comentários. Eu não saí o suficiente com eles. E isso é mais culpa minha do que deles… Posso até escrever sobre isso… Quem sabe eu não mude essa situação no ano que se apresenta? Não, essas não são resoluções para 2011, ok?

Tentar me irritar menos com as presepadas cometidas pela imprensa (Será difícil, 2010 é ano eleitoral…)
Tentar não me irritar com as presepadas dos políticos no horário eleitoral. (Quase impossível…)
Tentar não me irritar com nenhuma presepada…
Evitar usar a palavra presepada.

Resolvi juntar essas resoluções-presepadas em um único bloco. Em um ano com direito a bolinhas de papel; convicções religiosas como tema de campanha e Tiririca ganhando a eleição, acho que não preciso dizer mais nada… Foi uma presepada atrás da outra!

Assinar um jornal diário ou revista semanal.

Resolução não cumprida! Assinava a excelente revista Brasileiros, que tem periodicidade mensal, porém a falta de tempo fez com que eu não renovasse a assinatura. Ainda tenho algumas edições não lidas…

Não fazer resoluções em 2011.

Esse texto não é uma resolução, mas uma prestação de contas, com você que me dá a honra de acessar esse blog e, principalmente, comigo mesmo. Não pretendo mais fazer resoluções. O meu amigo Vinicius Mendes escreveu no comentários das primeiras resoluções que não mais estabelecia metas. Eis as suas palavras: “Descobri que a vida te leva para outros rumos que você não espera, mas acaba aceitando por uma imposição bem maior que a nossa vontade” Faz todo o sentido. Em 2011, e daqui para a frente, deixarei que a vida me surpreenda, mostre os seus caminhos inusitados.

Um feliz 2011 para todos!

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Carta aberta a Vladimir Herzog

São Paulo, 26 de novembro de 2010

Caro Vlado,

Resolvi escrever esta carta aberta para você. Eu também sou  jornalista e acho que a sua vida, e as circunstâncias de sua morte, nunca devem ser esquecidas. Elas trazem lições fundamentais para toda a sociedade. Para quem pretende se aventurar no jornalismo e até para quem não tem o hábito de ler jornais e revistas. O  que aconteceu contigo transcende a categoria profissional. E por uma razão muito simples: você é o exemplo maior das consequências nefastas da tortura perpetrada por um regime ditatorial.

E pensar que naquele fatídico 25 de outubro de 1975 você, certo que não devia nada para ninguém, se apresentou espontaneamente para os seus carrascos. E não havia mesmo razão para se preocupar. Afinal de contas sua ficha era limpa. Você foi morto por suas idéias, por fazer oposição a um regime que matava e torturava.

Um fator complicador era o seu cargo de diretor de jornalismo da TV Cultura. Isso irritou muito a linha dura, Vlado. A tua morte serviu de mensagem do submundo dos porões aos generais que mandavam no país, e que iniciaram o processo de abertura “lenta, gradual e segura”. O recado foi: “Nós estamos vivos e não queremos largar o osso” .

Te torturaram, Vlado. Alguns dos teus amigos, que também foram presos e torturados, ouviram os seus gritos.  Os assassinos ligaram o rádio bem alto, mas não pararam com o suplício. A morte foi, de certa forma, um alívio diante daquela selvageria. E então começou o teatro e uma reviravolta nesse drama.

Os seus assassinos, certos que estavam sendo muito inteligentes, pegaram o teu corpo e iniciaram uma simulação de suicídio. Amarraram um cinto no seu pescoço – vestimenta que não fazia parte do uniforme dos presos! -, e a outra ponta foi presa nas grades de ferro da janela. Colocaram-no de joelhos e, por mais insólito que possa parecer hoje, tiraram uma foto.

Bendita foto!

Sim, bendita foto, Vlado! Essa imagem escancara, como poucas na história da fotografia, a truculência de uma ditadura e mais do que isso: a certeza da impunidade. Qualquer pessoa de inteligência média saca rapidamente que o ambiente foi forjado. Na verdade, não precisa nem ser muito inteligente né?E a mistificação não terminou aí: chamaram um médico legista amigo do aparelho repressivo, que chama-se ironicamente Harry Shibata, e este sujeito assinou o laudo pericial sem nem ver o teu corpo…

Mas esta fantasia toda não adiantou de nada. A sociedade não aguentava mais tanta truculência, tanto medo; as incertezas de viver no sufoco. No dia 31 de outubro de 1975, houve uma missa ecumênica em sua memória. O marco inicial de uma longa estrada que culminaria no fim do regime militar em 1985.  É bom deixar registrado que muitas pessoas inocentes ainda iriam morrer. No ano seguinte ao teu assassinato, o operário Manoel Fiel Filho também foi morto em circunstâncias muito parecidas com as suas. E no mesmo DOI-CODI.

É possível tirar algumas lições desse episódio. Para mim, uma das mais importantes é que sempre devemos enfrentar as adversidades com coragem. Não podemos ter medo de denunciar o que está errado; não podemos ter medo de expressar nossas ideias, mesmo que elas contrariem interesses maiores. Esse ainda é um grande problema do jornalismo brasileiro, Vlado.  Aqui entre nós, devo te confessar que algumas vezes tenho receio das consequências de algumas coisas que escrevo. Mas então lembro do que sucedeu contigo, lembro da coragem de outros colegas nossos e respiro fundo. É um esforço que vale a pena, certo? Muito obrigado pela atenção e por seu exemplo.

Sem mais,

Marcelo Martins.

*****

Comentário: a crônica  foi escrita para a disciplina de Técnicas de documentário. O filme produzido nela não foi lá essas coisas, mas o texto eu acho que ficou aceitável. Eu não nasci para o audiovisual mesmo…

Balanço do 2º turno – uma nota naúfraga

O segundo turno começou e já está quase acabando e eu nem comentei ainda o resultado do primeiro turno que teve a eleição do palhaço Tiririca por incríveis  – porém críveis -, 1 milhão 353 mil e 820 votos.  Ganhou, mas pode não levar pois os promotores ainda desconfiam que Tiririca é analfabeto. É aquela história de fechar a porteira depois que a boiada fugiu…

Eu tinha planejado um texto mais elaborado sobre esta campanha, porém, francamente, o (baixo) nível, as miudezas da disputa eleitoral - quantas bolinhas acertaram a careca do José Serra mesmo? – e quetais me desanimaram profundamente. Acompanho o noticiário político quase como um naúfrago; levado pelas ondas do oceano, sem grandes esperanças de navegar em mares calmos nos próximos tempos.

É só o que me ocorre escrever.

A bancada dos toscos (Ou: Pior que tá, pode ficar)

Vota no abestado, vota...

Tiririca, Simony, Ronaldo Esper, Kiko, Leandro, Maguila, Frank Aguiar, Marcelinho Carioca, Dinei, Juca Chaves, Mulher Pêra, Aguinaldo Timóteo, Romário, Tati Quebra Barraco, Netinho, o filho do Raul Gil, o marido da Mara Maravilha… este é o elenco de A Fazenda 3? Não, mas bem que poderia ser. Na verdade, essas figuras acima estão em busca de um cargo público nas eleições deste ano.

Este fenômeno, entretanto, não é recente. O próprio Aguinaldo Timóteo, que busca uma vaga para o Congresso Nacional usando como programa de governo sua amizade com Clodovil (?!!!!),  é um veterano nessa, digamos, carreira. O que parece ser novidade é a quantidade e, principalmente, a qualidade dos candidatos. Para pior, claro.

(Parêntesis: se tem uma propaganda que me irrita profundamente é a do marido da Mara Maravilha. No horário eleitoral, o sujeito fica calado deixando sua campanha aos cuidados de sua mulher. Quando ela fala, diz que se deve votar no seu esposo por ele ser um “servo de Deus”. Para início de conversa, o Estado brasileiro é laico, ou seja, o Brasil não tem nenhuma religião oficial. Depois, essa mistura de política com religião nunca deu muito certo. É a junção de uma escolha absolutamente particular – ter ou não ter uma fé religiosa -, com algo que é de interesse público, o processo eleitoral. Um completo absurdo. E o que dizer de um deputado que tem como mote de campanha a valorização do evangelho? Melhor fechar o parêntesis e voltar para nossa prosa)

Apesar dos pesares, é bom pensar um pouco antes de arremessar o tomate podre neles. Tiririca e companhia estão apenas usando de sua popularidade, em alguns casos bastante duvidosa, para conseguir a sua bocada dos cofres públicos. O raciocínio pode parecer cínico, mas ele só existe porque em outras eleições alguns desses candidatos foram eleitos com uma grande quantidade de votos. Os eleitores têm uma grande parcela de culpa nesse cartório.

Contudo, os grandes culpados por esse descalabro são os partidos políticos. Afinal, segundo a lei brasileira, só através deles alguém pode se candidatar numa eleição. E o cálculo político por trás dessa iniciativa é sórdido. Primeiro, essas celebridades são chamadas “puxadores de votos”, em outras palavras, sua função dentro do processo eleitoral é usar a sua popularidade para receber o maior número de sufrágios possível.

Para tanto, recebem números de fácil memorização. O Tiririca, por exemplo, é 2222 (pode anotar, se quiser…) O motivo? Simples. Graças ao bisonho quociente eleitoral, quanto mais votos um partido político receber mais chances de eleger deputados ele tem. E, caso tenha se entusiasmado e anotado o número do palhaço, saiba que as chances de você ajudar a eleger um mensaleiro é muito grande. É só reparar nos companheiros de partido de Tiririca…

E a pouca vergonha continua depois da eleição. Essas (pseudo) celebridades têm, com poucas exceções, um nível baixíssimo de cultura e de ensino. Não existe nessa afirmação nenhum intuito de diminui-los, é apenas uma constatação que torna ainda mais calhorda a atitude dos partidos políticos. Para você ter uma idéia, clique aqui e veja uma entrevista inacreditável com o Tiririca publicada na Folha.com. Ela fala por si só.

A primeira conseqüência desse baixo nível cultural é simples de entender: sem nenhuma noção sobre política ou sobre o funcionamento das casas legislativas, essas personalidades viram verdadeiros mísseis teleguiados nas mãos das raposas velhas da política, fantoches que serão utilizados para fazer valer os seus interesses. Sem falar que o debate público que, via de regra, não é lá muito produtivo, fica ainda mais medíocre.

Existe alguma solução para esse drama? O primeiro caminho mais óbvio, que seria simplesmente proibir a candidatura dessa fauna, me parece pouco democrático. Nossa constituição garante que todos podem votar e se candidatar e, apesar de tudo, essa ainda é uma das maravilhas da democracia.

Só existe uma maneira para remediar essa solução e ela está em você, leitor/eleitor. Sim, em você mesmo. Na sua consciência. Na hora de votar em um candidato tosco, pense duas vezes. Só quando essas figuras começarem a não conseguir mais se eleger é que os partidos políticos – os verdadeiros vilões desse dramalhão-, vão se tocar desse absurdo. Esse é um sonho utópico, sei bem disso. Talvez, só no longo prazo o brasileiro vai se tocar que não deve fazer piada com o seu voto.

Por enquanto, proponho uma brincadeira: vamos fazer um bolão para ver quantos e quais dos candidatos toscos elencados no primeiro parágrafo vão se eleger no dia 2 de outubro. Minhas apostas são: Tiririca, Ronaldo Esper, um dos KLB’s, não importa qual, Frank Aguiar, Aguinaldo Timóteo Netinho e Romário. Com a apuração encerrada, o Idéias e etc divulgará o resultado da brincadeira. Se nenhum deles se eleger, nós ganharemos um congresso um pouco menos esculhambado que o habitual; se eles se elegerem, nós vamos ganhar uma TV Câmara bem mais divertida que o costumeiro. Façam suas apostas!

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