Arquivos

Archive for maio \08\UTC 2011

Ursinhos Carinhosos – Último capítulo

Clicando nestes links, você acessa o primeiro e o segundo capítulo dessa história.

*****

Tente imaginar cinco marmanjões fantasiados de ursinhos carinhosos, todos portando revólveres cálibre 38. Esta era a nossa situação dentro da kombi parada na frente do buffet infantil. Para piorar, fazia um calor infernal. Crueldade decidiu que a gente iria assaltar fantasiado de ursinho carinhoso. Alguns elementos da gangue esboçaram algum protesto, mas foi em vão. O homenzinho decidiu e não adiantava reclamar. Era obedecer e calar a boca.

O chefe da quadrilha repassou todo o plano novamente. Era preciso ser rápido e rasteiro. De minha parte, tentei convencê-lo a não usar violência. Contudo, ele foi áspero. “Apenas se as coisas derem certo, Ursinho. Eu não vou pensar duas vezes em atirar se for necessário. Sacou?”

Saquei…

Como era uma segunda-feira, não tinha festa e todos os colaboradores estavam de folga. Eu esperava por isso, pelo menos. O plano era ir direto a sala do cofre e, com a delicadeza inerente aos comandados por Crueldade, forçar o dono do Buffet à abrir o cofre. Depois, era amordaçá-lo e trancá-lo no banheiro. Muito simples. Ainda tentei ficar de fora desse crime, porém o Crueldade quis que eu fosse o guia de seu bando. Ainda insisti na minha posição, mas o nanico me convenceu apontando o revólver na minha cara e dizendo:

- Você vai e pronto, caralho!

Quem não se convence com um argumento tão poderoso?

Agora, lá estava eu e os demais membros da quadrilha prestes a assaltar o buffet. Foi tudo muito rápido. Crueldade tocou a campainha. Durante esses segundos de espera, torci para que ninguém estivesse por lá. Porém, logo ouvi passos… O barulho de alguém destrancando os trincos… O susto da cozinheira, que foi logo nocauteada por uma coronhada… O delicioso cheiro de risoles no ar…

Fui na frente guiando todos para o escritório onde estava o cofre e o meu ex-patrão. Mas nem precisava. Ele logo apareceu. E, para minha surpresa, armado. Antes mesmo que ele conseguisse disparar, um membro da quadrilha acertou o seu braço. O homem largou a arma gritando de dor. Sangrando muito, foi levado até o escritório. Crueldade espumava de raiva:

- Fala a senha do cofre, seu safado! Fala se não eu te mato e todos da sua família!! A senha, cadê a senha seu filho da puta?

Aos soluços, o homem disse a sequência de números que coincidia com a data de seu aniversário. Aberto o cofre, descobrimos que não havia tanto dinheiro como eu imaginava. Pelo contrário: era uma merreca quase insignificante.

- Só isso, seu desgraçado? Cadê o resto?

- É tudo o que tenho – disse o dono do buffet chorando - Eu já paguei os meus funcionários. Só me restou isso, juro por tudo que é mais sagrado… Me deixa vivo, pelo amor de Deus! Eu tenho família… cinco filhas pra criar… Clemência! Pode pegar todo o dinheiro. Nem chamo a polícia, prometo!

O próprio Crueldade pegou a merreca que estava no cofre. Um membro da quadrilha perguntou o que fazer com nossa vítima. Depois de pensar por alguns segundos, o homenzinho decretou:

- Vamos apagar esse desgraçado! Ele não pensaria duas vezes em nos matar se tivesse com a arma…

O dono do buffet seguia pedindo clemência, chorando, porém Crueldade gostava de honrar o seu apelido. Mandou seus homens carregarem-no até a piscina de bolinhas. O anão me disse:

- Você vai matá-lo. Vamos! Mira bem na testa! É uma ordem!

Lembro de cada detalhe das próximas cenas. Se eu fechar os olhos hoje, consigo revivê-las em câmara lenta. Enquanto erguia a arma em direção à minha vítima, percebi que, no fundo, apenas o odiava como patrão, não como ser humano. Foi quando notei que o dono do buffet me reconheceu, apesar da minha fantasia azul marinho:

- Ei… Acho que sei quem você é… Seu traidor, seu monstro, depois de tudo o que fiz por você… Você não é o…

O som de um disparo invadiu o ambiente. O corpo do homem tombou para trás. A piscina de bolinhas se transformou em uma mistura de sangue com pedaços de cérebro. A arma de Crueldade estava fumegando.

- Você é muito bundão mesmo… Jamais será como Toninho Crueldade… disse o sádico nanico.

Naquele momento, enquanto corria pra kombi, finalmente percebi que tinha cruzado a tênue linha que separa os bons dos maus. Não havia volta. Ajudei bandidos a fugir da cadeia, participei dos planos de um assalto e, por muito pouco, não matei o meu ex-patrão. Talvez, sempre estivesse do lado mal do front. Era tão bandido como os demais homens de Crueldade. Um deles, aliás, teve tempo para roubar uma bandeja de risoles fresquinhos.

- Garanti o nosso jantar, chefe!

Os risoles, aliás, merecem um parágrafo à parte. Foram os piores salgadinhos que comi em toda minha vida. Primeiro, estavam encharcados de óleo. Cada mordida equivalia a uma bomba de gordura trans. O empanado era ruim, não cobria o salgado completamente. A massa, por sua vez, era ainda pior. Rançosa, sem gosto, parecia ter sido feita no século passado. E o recheio, então? O que comi era de queijo e estava completamente gelado e duro. Os homens da gangue, entretanto, adoraram e o resultado foi uma diarréia coletiva. A privada, contudo, era uma exclusividade do Crueldade. Nós tivemos que nos contentar com humilhantes penicos.

No esconderijo, quando ligamos a TV, vimos que a notícia do assalto era o principal assunto dos telejornais policialescos da noite. Tomei um bruta susto quando vi minha foto como um dos suspeitos. A matéria relatou como foi o assalto e entrevistou alguns dos meus colegas e também famíliares do proprietário do buffet. Todos choravam e falavam que ele era maravilhoso, bom marido, excelente patrão… Inclusive alguns dos funcionários que o detestavam…  Cortou para o apresentador do programa:

- Olha, criminosos como essa quadrilha do Toninho Crueldade só tem uma solução: cadeira elétrica! Devem morrer tostadinhos. Tô certo ou tô errado?  O cidadão de bem bla bla bla bla…

Crueldade não perdoou:

- Pode esperar, gordão, um dia a gente se encontra e eu te mato, seu desgraçado! Saiam da frente que preciso voltar pro trono…

Os jornais também destacaram o assalto. O mais popular da cidade colocou a notícia na capa. Ao lado de uma foto gigantescca da piscina de bolinhas, eles estamparam a seguinte manchete em letras garrafais:

URSÕES DIABÓLICOS MATAM DONO DE BUFFETT

Nas páginas internas, fotos nossas. Entrevistaram até minha mãe que disse não acreditar que o seu filho pudesse estar envolvido em um crime. Disse que eu era um bom menino e tal. Era, mamãe. Era… Tenho até hoje esse jornal.

*****

Muitos anos se passaram desde os eventos narrados acima. Eu entrei definitivamente para a vida criminosa. Depois de alguns episódios, que foram amplamente cobertos pela imprensa e são de conhecimento público, matei Toninho Crueldade e me tornei o chefe da quadrilha. Sou o dono da favela do Urso. Não vou contar novamente o que todos estão cansados de saber. Quando comecei a rascunhar essas linhas, minha intenção era escrever uma autobiografia. Mas não vai dar tempo. Ontem, depois de um tiroteio, matei um policial. Duplo azar. O meganha era o coronel da polícia. Meu pescoço vale ouro. Estou escondido em um buraco e do lado de fora só ouço pipoco, tiros, gritos… putz, agora ouço um helicóptero. Ouvi pelo rádio que metade do contingente da polícia está no meu encalço. Meu destino está sacramentado. Lá fora, só ouço: “cadê o urso, caralho?” E mais tiros. E helicóptero. Comigo, apenas meu revólver, uma lanterna fraca, esses escritos e uma caneta. Espero que minhas mulheres e meus filhos estejam bem. Nunca mais vou vê-los. Fato. Estou consciente disso e conformado. Gostaria de deixar registrado que sempre procurei tratar os moradores bem. As crianças sempre tiveram festinhas. E com bons salgadinhos. E com Ursinhos carinhosos de animadores. Tudo de primeira. Sim, é verdade. Pode acreditar. O papel tá acabando. Lá fora, mais pipoco. Tenho duas balas no meu revólver. Será que consigo matar dois meganhas? A lanterna também tá fraca. Eu sinto o cheiro do medo. O cheiro do fim que se aproxima. Ás vezes, tento fazer um exercício de imaginação… O que eu seria se aquele velho beberrão não fosse convidado para aquela festinha? Não sei. Realmente, não sei. Quem sabe, estava tudo escrito para me tornar o que me tornei? Destino? Não sei se acredito. Já pensei algumas vezes em largar dessa vida e ser animador na Disney. Deve ser um vidão. Sempre gostei do Donald. E do Pateta. Odeio o Mickey. Rato boiola. Seria um fim digno. Trabalhar de animador e ganhar em dólar. Fazer turistas sedentos de consumismo felizes. Não há tios beberrões, eu acho. Não. Chega de sonhar. A lanterna está acabando, os meganhas estão se aproximando de tudo quanto é lado, e eu tenho que correr atrás do meu destino.

Fim

CategoriasCrônicas

Ursinhos Carinhosos – 2º capítulo

Esta história começa aqui

*****

As próximas cenas parecem ter sido escritas por um roteirista de Roliudi Hollywood. O primeiro brutamonte já chegou armando uma voadora que, milagrosamente, consegui desviar. Enquanto eu observava o meu agressor, que jazia estatelado no chão, agonizando, um segundo brutalhão aproveitou-se desse momento e aplicou uma chave de pescoço. Senti o ar faltando. Um terceiro chegou e disse:

- Segura este bosta que eu termino de matá-lo.

No exato instante em que ele armava o primeiro soco, ouvi uma sirene. Nunca fiquei tão feliz por ouvir esse barulho em toda minha vida! Fiquei sabendo depois que meus colegas animadores tinham chamado a polícia. Gritei por socorro. Isso atiçou ainda mais os meus algozes. Um deles acertou um violento golpe no meu estômago que fez todas as minhas tripas revirarem. Desmaiei. Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando retomei a consciência ouvi o final de um diálogo entre um dos meus agressores e um policial. Este último dizia:

- …fica sossegado, amigo. Esse pilantra terá o que merece na cadeia! Vamos levar o elemento pra viatura!

Eu ainda tentei contar o sucedido para os policiais, mas eles apenas mandaram eu calar a boca e me algemaram. Enquanto era carregado, pensei: “Já que estou indo pro inferno, vou abraçar o capeta”. E tomei uma atitude que, relembrando hoje, me arrependo um pouco. Enquanto passava no meio da festa, senti uma onda de ódio se apoderar de mim e resolvi descontar no elo mais fraco: as crianças. Eu gritava totalmente descontrolado:

- Crianças! Eu preciso contar uma coisa pra vocês! Sabe aquela história da cegonha? Não existe! Rararararaá É mentira! É o pai de vocês que trepa com suas mães! Ah, Papai Noel não existe também!

Ainda hoje não sei como saí vivo do Buffet. Pudera. As crianças desataram um choro em uníssono. Quando estava perto da saída, ouvi um diálogo inesquecível. Era uma garotinha de uns quatro anos que, chorando, perguntava pro pai:

- Seu malvado! Por que você trepa com a mamãe?

Eu devo ter acabado com a infância de algumas gerações. Mas minha vida também tomaria um rumo inesperado. Chegando na delegacia, descobri que o delegado de plantão era irmão do tio beberrão – além da semelhança física, o hálito de alcoól indicava que ambos vieram da mesma árvore genealógica. Eu tentei valer os meus direitos básicos, como chamar um advogado, mas ele apenas soltou uma gargalhada e disse:

- Enjaula esse filho da puta! Coloca ele na pior cela, aquela que tem o Toninho Crueldade…  Se ele escapar vivo, amanhã a gente aplica um corretivo nesse verme. Ah, por favor, tira essa fantasia ridícula de ursinho carinhoso…

Gelei. Não só pela ameaça velada, mas porque Toninho Crueldade honrava o seu nome. Ele media pouco mais de 1m e 60, mas a sua mente diabólica o deixava com as dimensões de um gigante. Ele era responsável pelo tráfico em uma importante favela de São Paulo e estava preso fazia pouco tempo. Seria logo transferido para uma penitenciária de segurança máxima.

Quando cheguei na carceragem, confesso que por alguns instantes desacreditei que aquele nanico fosse um dos bandidos mais perigosos da cidade. Mas logo entendi porque dizem que tamanho não é documento. O homenzinho estava visivelmente alterado. Seus comparsas, que estavam na mesma cela, também pareciam estranhos. Ficamos algum tempo nos encarando. Crueldade rompeu o silêncio:

- Escuta aqui, truta! Tô com uns esquemas pra sair do xilindró! Coisa garantida.Vai ser nessa noite…

- Eu fico na minha e… Crueldade me cortou furioso:

-Cala boca, eu ainda não terminei, porra! Eu não imaginava que colocariam outro preso nessa cela. Isso pode fudê com nosso plano. Me diz: você é meganha?

- Meganha?

- Policial, porra!

- Não, eu trabalhava em um buffet infantil, mas… Me desentendi com um dos convidados… É uma história meio maluca…

Crueldade olhou para os seus comparsas. Ficou algum tempo matutando e finalmente disse:

- Eu vou acreditar no que disse, truta. Mas você participará do nosso plano de fuga. Se algo der errado, você é o primeiro que morre. Sacou?

Eu respondi com o ”Saquei” mais doloroso da toda minha vida.

O plano de fuga tinha a marca da mente genial de Toninho Crueldade. De algum jeito, ele conseguiu comprar os carcereiros e os demais presos. A ideia era simular uma rebelião. Toninho e sua gangue – incluindo eu! -, se aproveitariam da balbúrdia para escapulir do xilindró. Tudo aconteceu conforme o planejado. O único entretanto foi um dos carcereiros que, em um surto de honestidade, resolveu impedir a fuga. Eu percebi a tempo e dei uma coronhada no sujeito. Do lado de fora, aguardavam por nós alguns carros com o restante da quadrilha. Fiquei exatas duas horas preso!

Quando chegamos no esconderijo, percebi que o meu gesto foi notado por Crueldade. Ele fez questão de me cumprimentar primeiro e ressaltou o meu ato heróico anulando o carcereiro.

- Qual é o seu nome, truta? Nessa confusão, nem lembrei de perguntar…

- Meu nome é muito feio. Detesto ele. Prefiro o meu apelido: Urso

- Ui, Urso, que apelido mais fresco, caralho… – zombou Crueldade e os demais da gangue -, Ursinho carinhoso, ui, ui, ui…

- Toninho é muito macho mesmo… – disse para o meu próprio espanto.

E bota espanto nisso! Eu respondi no automático, como se o Crueldade fosse o dono do buffet. Se eu tivesse pensando um segundo a  mais, não me atreveria. O próprio chefão ficou espantado. Durante longos minutos ficou sério, depois sorriu e então finalmente falou, pausadamente, cada sílaba com a força de um tiro:

- Escuta aqui, truta, pro seu bem vou fingir qui não ouvi o seu desaforo, sacou? É a primeira e a última vez que te dou essa boiada. Nem minha mãe ousa me sacanear, sacou?

Nunca disse “saquei” com tanto alívio em toda minha vida.

Depois desse momento de tensão, o pessoal da gangue passou a discutir alguns assuntos da “firma”, que era a forma usada por Crueldade para se referir a sua quadrilha. E, segundo os seus comparsas, a firma precisava de muito dinheiro. E rápido. Era necessário restabelecer o estoque de armamentos e comprar a mercadoria para vender (Vulgo: drogas). Foram discutidos vários planos. Crueldade achava arriscado roubar agências bancárias.

- A polícia tá nos procurando em tudo quanto é buraco e eles sabem do nosso carinho por bancos. É preciso algo menos óbvio. Ninguém consegue pensar em nada? Bando de retardados!

Foi quando tive a ideia. Eu lembrei que era justamente naquela época que o dono do buffet pagava as esmolas para os funcionários. E ele o fazia em dinheiro vivo. Existiam alguns motivos para isso. Primeiro, ele não gostava de bancos. Achava um absurdo as taxas cobradas e o atendimento das agências. “O cliente só é gente quando abre a conta. Depois, vira gado no abetedouro naquelas filas do caralho. E esses desgraçados, mesmo tendo espaço para 10 caixas, só colocam dois pra trabalhar. Vagabundos!” costumava dizer com alguma razão. O outro motivo era menos idealizado. Ele não registrava os seus funcionários que, obviamente, também não tinham nenhum benefício determinado pela lei trabalhista. Pagar em dinheiro vivo facilitava a sua ilegalidade. Ele tinha um cofre na sua sala que, nesse período, ficava repleto de grana.

Eu contei essa história pro Crueldade. Os seus olhos faíscaram. Ele então me crivou com inúmeras perguntas. Queria saber tudo, onde ficava o cofre; se havia segurança; se o dono do buffett costumava se armar; se ele ganhava muito dinheiro… enquanto ele falava bateu um arrependimento. Nem tanto pelo dono do buffet, mas pelos meus colegas de trabalho. Entretanto, era tarde para lamentações. Inês, agora, estava morta tadinha. Quando dei por mim, o plano já estava armado. Crueldade decidiu assaltar o buffet.

[Continua...]

CategoriasCrônicas
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.