Jornalismo é a arte de separar o joio do trigo. E publicar o joio. (Mark Twain)

O lado do biógrafo

pcdearaujoOs ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) iniciam nesta quarta-feira o julgamento da lei das biografias. É uma das votações mais importantes do ano. Em jogo, está a possibilidade da existência das biografias não-autorizadas sem a ingerência de biografados ou herdeiros. Nada pode ser mais relevante para a cultura nacional. Em 2011, o editor deste blog escreveu um trabalho de conclusão de curso (TCC) sobre o assunto e teve a possibilidade de entrevistar, por e-mail, um dos personagens mais importantes deste drama: o biógrafo Paulo Cesar de Araújo que teve sua biografia “Roberto Carlos em detalhes” censurada por seu biografado. Na entrevista que segue, temos uma síntese preciosa do seu lado da história que, de forma mais elaborada, você pode encontrar no livro  “O réu e o rei” livro de Araújo que, miraculosamente, não foi censurado por Roberto – aliás, uma obra de leitura indispensável. Esperamos que os ministros do STF  tenham bom senso. Segue a entrevista na íntegra. Ela foi realizada no dia 02/08/2011

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No começo do seu livro, você narra uma entrevista que fez com o cantor Roberto Carlos juntamente com outro jornalista. Você chegou a comentar do seu interesse em biografá-lo? Como foi essa conversa com o cantor?

Esta entrevista foi para o Jornal do Brasil, onde meu amigo trabalhava. Na época eu ainda não sabia que tipo de livro iria escrever, não tinha editora, não tinha nada. Estava apenas pesquisando sobre Roberto Carlos e a música brasileira. Comentei então com Roberto sobre este meu interesse e narrei aquele episódio do show que ele fez na minha cidade, em 1973, quando eu era criança. Roberto Carlos foi muito simpático e prometeu que depois também me daria uma entrevista exclusiva – o que, infelizmente, nunca aconteceu.

Em 1979, o Roberto Carlos tirou de circulação o livro “O Rei e eu” de autoria de Nichollas Mariano, seu ex-mordomo. Você não cita esse livro em sua biografia. Você chegou a ler essa obra? Se sim, qual a sua opinião sobre o trabalho?

Não citei este livro porque antes de encontrá-lo em um sebo eu já havia entrevistado Nichollas Mariano, que me contou aquelas mesmas histórias e outras que ele não colocou no livro. Neste livro o autor apenas relata a intimidade de sua relação com Roberto Carlos. É um livro de memórias, de poucas páginas, não tem nenhuma pesquisa, análise ou revelações bombásticas. Foi absurda a sua proibição.

Analisando a história do Roberto, percebemos que ele tem um histórico complicado envolvendo a censura. Além do episódio comentado acima, em 1983, segundo o seu próprio relato na biografia, o cantor processou a revista Status por uma matéria sobre a sua vida sexual. No ano de 1993, o cantor conseguiu, na justiça, a suspensão de uma série de reportagens do jornal Notícias Populares sobre sua infância. Esse histórico alguma vez o preocupou?

Não me preocupei com isto, pois sabia que estava fazendo um trabalho de pesquisa histórica, entrevistando músicos, radialistas, produtores, vasculhando jornais, revistas, discos e outros documentos. Mais que uma biografia, eu produzia uma história da moderna música brasileira, tendo Roberto Carlos como fio condutor. Além de passagens da vida pessoal do artista, falaria da era do rádio, da bossa nova, do tropicalismo, da jovem guarda, dos festivais da canção, da ditadura militar… Acreditava na possibilidade de Roberto Carlos perceber que o livro é, na verdade, um grande tributo à sua trajetória na música popular brasileira. Ressalta-se que Roberto Carlos já foi tema de outros livros como “Roberto Carlos: esta é a nossa canção” de Ayrton Mugnaini Jr e “Como dois e dois são cinco”, de Pedro Alexandre Sanches, que não tiveram nenhum problema na justiça.

No dia 27/04/2007 foi celebrado um “termo de conciliação” que pôs fim ao processo movido pelo cantor. Você estava presente durante essa sessão? Se a resposta for afirmativa, você poderia relatar como foi ficar frente a frente com o Roberto?Ele chegou a comentar as razões que o levaram a mover o processo? Não foi tentada nenhuma solução alternativa que evitasse o desfecho final?

Ficamos frente a frente ao longo das cinco horas de audiência. Eu fui enfático nas minhas posições, ele também. Roberto expressou na audiência que é o dono da sua própria história e que esta só deveria ser escrita quando e como ele quisesse. Os advogados também reclamaram de invasão de privacidade e do uso da imagem de Roberto sem autorização. Enfim, reclamaram das mesmas coisas citadas no processo. Eu tentei uma solução alternativa, afinal, aquela era uma audiência de conciliação. Propus fazer uma revisão do livro, tirando alguns trechos que ele considerava invasivos. Eu sabia que isto representava menos de 1% do conteúdo da obra. Propus também ceder os direitos autorais, não queria receber mais nenhum centavo pelo livro, mas que a obra continuasse circulando livremente. Porém, Roberto Carlos não aceitou. Ele quis proibir todos os capítulos, todas as páginas, todas as frases, tudo.

Por tudo que eu já li sobre o episódio, fiquei com a impressão que a editora Planeta não fez muito esforço para defender a biografia nos tribunais. Esse foi, aliás, o comentário em muitas reportagens publicadas no período. Essa impressão procede? Depois de cinco anos, qual a sua análise sobre o comportamento da editora?

É unânime que foi lamentável a postura da Editora Planeta. Ela devia ter defendido o autor e o livro e levado esta briga adiante. Isto teria sido bom para a imagem da própria editora, que honraria seu nome. Mas, infelizmente, ela optou por uma solução imediatista, mais cômoda e barata. Quiseram simplesmente se livrar do problema.

Qual a sua opinião sobre o comportamento da imprensa durante o episódio? As matérias foram equilibradas?

Considerando-se que Roberto Carlos é uma instituição nacional, o comportamento da imprensa foi bom, pois houve uma ênfase na defesa do direito à liberdade de expressão. A lamentar o fato de que a maioria daqueles que escreveram sobre o caso não leram o livro e enfatizaram apenas aquilo que seriam as reclamações de Roberto Carlos: seus casos amorosos, a morte de sua esposa, o acidente na infância. Isto deu ao público a falsa impressão de que o livro falava somente da vida pessoal do artista. Entretanto, o título “Roberto Carlos em detalhes” é muito mais abrangente. Faz referência também aos “detalhes” dos discos, das gravações, dos shows, do processo de composição, dos encontros, dos conflitos, dos movimentos musicais e da época de Roberto Carlos.

Tramita no congresso um projeto de lei, elaborado pelo então deputado Antonio Palocci e hoje tocado pela deputada Manuela Dávila que, em tese, daria segurança jurídica para as biografias não-autorizadas. Existe algum tipo de mobilização em favor dessa lei? Caso ela seja aprovada, você pretende colocar o livro “Roberto Carlos em Detalhes” novamente no mercado?

Sim, eu continuo na luta e caso seja aprovado o projeto da deputada Manuela Dávila vou reapresentar o livro, tentar adequá-lo à nova legislação.Considero este projeto digno do apoio de todas as pessoas que amam a leitura e não toleram mais ver livros proibidos e apreendidos no Brasil. A mudança do artigo 20 do Código Civil é mais do que necessária porque ele rompeu um equilíbrio que há na Constituição. Nesta o direito à liberdade de informação e o de privacidade se equivalem em termos de peso, um não prevalece sobre o outro. Eles são tratados como direitos iguais. Já o artigo 20 do Código Civil rompeu esse equilíbrio ao dar um peso maior ao direito de privacidade. Os advogados de Roberto Carlos, por exemplo, se agarraram nesse artigo 20 para obter a proibição do meu livro. E se valer para os outros o que valeu para Roberto, ninguém poderá mais contar a história do Brasil sem a expressa autorização de cada personagem.

Além de jornalista, você tem formação em história. Essa formação facilitou o seu trabalho na biografia? Curiosidade: você chegou a trabalhar em alguma redação?

Eu me formei em história na Universidade Federal Fluminense e em jornalismo na PUC-Rio, mas nunca trabalhei em redação. Em fichas de hotel sempre informo que sou professor, pois é isto o que exerço no meu dia a dia. O jornalismo eu pratico de forma independente na produção dos meus livros e em artigos que escrevo para jornais e revistas. Mas as duas faculdades foram fundamentais para os livros que escrevi. A formação de historiador, por exemplo, me ajuda na crítica aos documentos (quem os produziu? em que situação? com quais interesses?) e em sempre levar em conta os complexos processos de recriação do passado, das relações entre o lembrar e o esquecer, que marcam o funcionamento da memória.

O gênero biografia tem uma característica que é não ser exclusivo de nenhuma área do saber. Ela pode ser feita por psicólogos, historiadores, economistas e etc. No Brasil, via de regra, os seus autores são jornalistas. A que você atribui esse fenômeno?. Existe alguma distinção nas biografias escritas pelos jornalistas daquelas escritas por profissionais formados por outras áreas do conhecimento?

Acho que maioria das biografias é escrita por jornalistas porque eles trabalham mais diretamente com a escrita, com a produção de textos.O movimento do new journalism, por exemplo, contribuiu para que os jornalistas incorporassem elementos e técnicas próprios da literatura.No caso dos historiadores, predominou até meados dos anos 80 uma forte influência da historiografia marxista, que queria uma história voltada mais para o estudo das massas, das classes sociais. A biografia era então considerada um gênero menor por privilegiar os grandes homens, os grandes vultos da história. Felizmente, hoje há o entendimento de que não se pode pensar a sociedade sem levar em conta determinados indivíduos. Em diferentes tradições historiográficas é marcante agora o interesse pelo resgate de trajetórias singulares, em restaurar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais. As biografias escritas por jornalista são geralmente mais descritivas, sem muita contextualização ou análises. Já nas biografias escritas por historiadores, o resgate de trajetórias individuais normalmente é utilizado para iluminar questões ou contextos mais amplos. Como ensina Eric Hobsbawm, o acontecimento, o indivíduo, não são fins em si mesmos, mas constituem o meio de esclarecer alguma questão mais abrangente, que vai muito além da estória particular e seus personagens.

Na sua biografia, você chama o Roberto Carlos de mito. Além do difícil acesso ao cantor, quais outras dificuldades você encontrou durante o processo de pesquisa sobre a vida de alguém tão relevante no cenário artístico nacional?

A dificuldade maior foi de ordem econômica. Quando iniciei este trabalho de pesquisa, em 1990, ainda estava na faculdade e sabia que era mesmo um projeto de longo prazo. Eu estudava e trabalhava e tive que fazer a pesquisa nos intervalos entre uma função e outra. Depois me formei em História, comecei a dar aula, e como todo professor, trabalhava de manhã, à tarde e, às vezes, à noite. Entre uma escola e outra eu ia pesquisar na Biblioteca Nacional. As entrevistas também foram realizadas assim, com o agravante de que alguns personagens moravam em outros estados. Tive então que viajar nos fins de semana para Santa Catarina, São Paulo… Durante 13 anos essa pesquisa foi feita de forma autônoma, sem bolsa, sem nada. Em 2003, a Editora Planeta me chamou para publicar o livro. A partir daí tive um adiantamento mensal que tornou as coisas um pouco mais fáceis. Mas aí já estava na reta final da pesquisa e me concentrava basicamente na redação do livro.

Fábulas políticas modernas

Ele odiava tanto o comunismo que nunca usava vermelho. Também nunca parava no farol vermelho. Perdeu sua carteirinha de habilitação. Gostava de dizer que sua coerência política era mais importante que as leis de trânsito.

Ela odiava tanto a direita e o militarismo que nunca usava o verde. E sempre acelerava antes do farol mudar para o verde. Também perdeu sua carteirinha de habilitação. Nunca pisava na grama. Também não comia nenhum tipo de hortaliças.

Os dois se conheceram pelo facebook. Brigaram loucamente, xingaram-se. Foram em passeatas separadas. Mas como Romeu e Julieta é uma história mais antiga que a política brasileira acabaram se apaixonando. Casaram. Tiveram dois filhos. Um casal de gêmeos. O menino é de direita e a menina de esquerda. Brigavam muito. Especialmente, quando tinha salada de alface com tomate no almoço. Os dois lados achavam provocação.

Foram felizes até a última eleição

Cinqüenta anos, este ano: um olhar sobre o golpe civil-militar de 1964

Castelo Branco observa o golpe em marcha?

Castelo Branco (à esquerda) aponta o golpe em marcha?

Os cinqüenta anos do golpe civil-militar de 1964, completados hoje, inundaram jornais, revistas, televisões, portais e livrarias. Praticamente todos os veículos de comunicação se debruçaram sobre o tema. Esse surto de interesse é ótimo. Quanto mais informação sobre a deposição de João Goulart, melhor. Este artigo é a minha contribuição para o debate. Resolvi fazer uma espécie de “guia” com os pontos que considero pétreos em relação ao 01 de abril de 1964. Ou seja, em vez de focar nos temas polêmicos ou que ainda precisam ser melhor esclarecidos, resolvi me dedicar ao que já está estabelecido entre os historiadores. Pelo menos, entre os historiadores sérios.

O primeiro ponto é relacionado a nomenclatura. O leitor deve ter reparado, na primeira linha deste texto, que eu chamei os eventos de 1964 de golpe civil-militar. É comum encontramos por aí apenas golpe militar. E faz diferença? Ao meu ver, sim. A explicação é simples: os militares não foram os únicos golpistas. É preciso fazer justiça com toda uma sociedade, que não usa quepe na cabeça nem veste uniforme verde oliva e, mesmo assim, contribuiu decisivamente para apear Jango do poder. E ajudou a sustentar a ditadura militar.

Os generais-ditadores, que se revezaram no poder a partir de 1964, contaram com grande apoio da burguesia da época. Até o pau de arara sabia que a Oban (Operação Bandeirantes), que torturou e matou centenas de pessoas em São Paulo, teve patrocínio de empresários. Alguns até assistiam as sessões de martírio. O regime começou a ruir quando os militares perderam esse sustentáculo, por uma série de razões que não cabe discutir neste texto. Em 1964, entretanto, esse apoio se espalhou por vários segmentos da sociedade.

Estou falando de praticamente toda a imprensa da época, que pediu e comemorou a deposição de Jango; estou falando dos políticos, com grande destaque para o incendiário Carlos Lacerda; estou falando das famigeradas Marchas da Família, com Deus pela Liberdade; estou falando das elites brasileiras, sempre muito temerosas com o chamado “perigo vermelho”; estou falando do Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), duas instituições civis que conspiraram, à luz do dia, financiando panfletos e candidatos da oposição. E, segundo muitos historiadores, sendo financiadas pela CIA.

E aqui chegamos ao segundo ponto essencial: a participação dos EUA no golpe civil-militar de 1964. Este é, aliás, um dos pontos mais bem documentados de toda essa trama – graças a política norte americana em relação a memória nacional, muito mais evoluída e transparente que a nossa. Basta uma rápida olhada nos documentos recentemente liberados pelos americanos para entender a dimensão da participação estaduniense. Além do financiamento da oposição por meio do Ipes-Ibad, a crise política era acompanhada com lupa pelo embaixador Lincoln Gordon, que não apenas informava Washington de cada novo acontecimento, como solicitou de seus compatriotas apoio armado para o golpe. Se por acaso João Goulart resistisse, uma frota naval estaria à disposição dos golpistas. Não foi preciso. Os fatos se precipitaram rapidamente. E o governo dos EUA foi o primeiro a reconhecer o novo regime ditatorial.

A explicação para tamanho interesse dos Estados Unidos está relacionada com o terceiro ponto essencial: a guerra fria. O mundo estava bipolar. Literalmente. Um dos polos era o capitalista, obviamente liderados pelo todo poderoso irmão do norte; o outro polo era o comunista, que tinha como guia a também muito poderosa União Soviética. Com esse contexo em mente, conseguimos compreender melhor os fatos. É preciso não esquecer que Cuba, sobre influência soviética, estava a poucos milhares de quilometros de Miami. E dando muita dor de cabeça para os EUA. A mera possibilidade do Brasil se transformar em uma Cuba de proporções continentais disparou todos os alarmes Ianques.

Algumas perguntas se impõem: as esquerdas brasileiras tinham todo esse poder ou era tudo paranóia? Jango daria um golpe comunista e levaria o Brasil para a órbita soviética? Vamos por partes. Primeiro, tentar responder essas questões exige que o autor deste artigo fuja um pouco do compromisso firmado no primeiro parágrafo. Ou seja: concentrar sua energia no que está estabelecido na historiografia. As perguntas acima fazem parte das muitas polêmicas que o golpe de 64 ainda suscita. Mas eu quero meter o meu bedelho. Serei conciso.

A paranóia é um elemento importantíssimo nessa história. Sim, a esquerda era ativa. Alguns dos seus militantes receberam treinamento em Cuba, especialmente depois do golpe, para combater a ditadura militar. Mas o próprio desenvolvimento dos fatos em 1964 mostra que Jango não tinha apoio total das esquerdas. O golpe aconteceu praticamente sem resistência alguma. Rápido, mas muito doloroso para o país. E aqui chegamos a segunda pergunta. Jango era um grande estancieiro. Nunca foi comunista. Ao contrário. Sua linhagem política era varguista, de quem foi, aliás, ministro do trabalho. Imaginar um grande proprietário de terras comandando uma revolução comunista exige uma imaginação de Julio Verne. Ou a paranóia de um espião da guerra fria.

Por ora, estes são os pontos que julgo importantes discutir sobre o golpe civil-militar de 1964. Este artigo não reúne, nem essa é a proposta, tudo o que é de relevante sobre o evento histórico que inaugurou a ditadura. É uma síntese, um resumo. As livrarias estão cheias de livros sobre o assunto. Recomendo, especialmente, a série de Elio Gaspari. São quatro livros ricos em informação e muito bem escritos. Os especiais sobre o golpe do G1 e da Folha também merecem ser conferidos com calma.

É preciso se informar muito e permanecer atento. Afinal, vivemos em um país onde um professor da faculdade de DIREITO da USP resolve comemorar o golpe em sala de aula; também temos no congresso um deputado federal, Jair Bolsonaro, que é ardoroso defensor do regime militar; onde uma parte pequena da sociedade foi às ruas para pedir a volta dos militares em uma Marcha, aparentemente, com deus. Para combater a desinformação, a intolerância e a mentira só com informação, tolerância e a busca incansável pela verdade. É o melhor caminho para tornar mais forte nossa adorável democracia.

 

 

 

 

 

Bizarrices do Brasil. (Ou quando um político é mais progressista do que nossa MPB)

A recente polêmica sobre biografias não-autorizadas tem algo inusitado e pouco comentado. Nesse assunto, um político consegue ter uma posição mais progressista que boa parte da nossa MPB. E o político em questão atende pelo nome de José Dirceu. Atenção, senhores! Estou apenas comparando posturas na questão das biografias não-autorizadas. Mensalão e assuntos derivados não estão em análise.

Recentemente, José Dirceu foi biografado por Otávio Cabral, repórter da revista Veja. Sem ler uma vírgula, posso afirmar que é um trabalho crítico ao biografado. Para dizer o mínimo.  A biografia, apesar dos muitos erros factuais encontrados nela, segue vendendo normalmente. Nenhuma ameaça de recolhimento dos livros ou processos judiciais. Ao jornal Folha de S.Paulo, embora afirmasse ser favorável a algum controle na publicação de biografias – posição muito semelhante ao do grupo Procure Saber -, ele também declarou: “Eu não tenho ânimo de impedir que ninguém escreva, faça filmes sobre mim. Se tem uma vida que é pública no Brasil, é a minha. Não tenho medo de que falem sobre mim. Também não tenho essa preocupação financeira, porque eu não preciso de dinheiro”

Segundo consta, Dirceu também está sendo biografado por Fernando Morais. Por tudo o que conheço desse escritor, ouso afirmar que vai ser uma biografia simpática ao petista. Para dizer o mínimo. Mas faz parte do jogo. Cabe ao leitor, formar ou deformar sua opinião a partir das informações recebidas por fontes diferentes. O nome do jogo aqui é liberdade de expressão, mas também atende pelo nome de democracia. Simples assim.

Enquanto isso, nossa querida MPB segue manchando suas admiráveis biografias. Hoje, Chico Buarque publicou um artigo melancólico em O Globo. Resumindo, ele defende restrições a biografias não-autorizadas citando pequenos erros encontrados em algumas delas ou exemplos de mau jornalismo. Em primeiro lugar, perfeição e unanimidade não existe; um erro encontrado em uma edição pode ser corrigido na próxima. A lei, do jeito que está instituída, acaba gerando uma censura prévia que impede as biografias no nascedouro. Fica impossível até mesmo reclamar dos defeitos. E o melhor remédio que conheço contra o mau jornalismo é o bom jornalismo.

O Brasil não é feito para amadores. Aqui, artistas que deveriam amar e zelar pela liberdade de expressão – como um filho querido ou o ar que respiram-, pois dependem dela para exercer o seu ofício, querem impor um tipo de censura prévia que não existe em nenhuma outra democracia. Esses mesmos artistas, quem diria, poderiam aprender algumas lições práticas com um político de passado conturbado, que, em tese, teria mais razões do que eles para tentar cercear uma biografia. São bizarrices que só acontecem no Brasil.

 

 

 

 

Roberto Censor

A capa do livro que irritou Roberto Carlos

A capa do livro que irritou Roberto Carlos

Karl Marx, o grande intelectual comunista, dizia que a história acontece duas vezes: a primeira como tragédia e a segunda como farsa. Sem ter nada de marxista – muito pelo contrário -,  o cantor Roberto Carlos acaba dando razão ao alemão do século XVIII. Novamente, o “Rei” busca a justiça para interditar uma obra que ousa citá-lo sem autorização. E não foi apenas duas vezes. Segundo a minha contabilidade, é a quinta vez que a trágica farsa se repete. Agora, o livro que despertou o censor que existe em sua personalidade, é uma tese de mestrado sobre a cultura durante a jovem guarda. Antes de falar do episódio atual, cabe uma explicação.

Em 2011, o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi justamente sobre o processo que o cantor moveu contra o jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo, que culmiaria com a retirada de circulação da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”. Por isso, esse assunto me toca de maneira especial. Quando o trabalho de Araújo foi lançado, em dezembro de 2006, comprei- o para presentear minha mãe, fã desde sempre do intérprete de “Eu sou fan do Monoquini”. Foi a minha sorte. Cinco meses depois, um acordo judicial obrigou a editora a entregar ao cantor os cerca de onze mil exemplares da biografia que estava em seus estoques, além daqueles que ainda estivessem nos pontos de venda.

É opinião quase unânime de todos que leram o livro – incluindo aí minha progenitora -, que a biografia de Paulo Cesar nada tem de ofensiva. Muito pelo contrário. É uma obra francamente favorável ao cantor que exalta sua vida e obra por mais de quinhentas páginas. O próprio autor confessa logo no começo do texto ser um fã do intérprete de “Minha tia”, e só sendo muito apaixonado pelo artista para trabalhar no projeto durante 15 anos, entrevistando mais de duzentas pessoas. Só não conseguiu entrevistar pra valer o personagem principal do livro e  foi justamente ele que leu e não gostou.

E, como afirmei na abertura deste artigo, não foi a primeira vez. Façamos um histórico resumido da relação do intérprete de “Noite de terror” com a censura. Todos os episódios aqui elencados terminaram com a vitória de Roberto Carlos. O primeiro caso aconteceu em 1979 quando um ex mordomo e procurador chamado Nicholas Mariano escreveu um pequeno livro intitulado “O Rei e eu” que descreveria algumas intimidades do intérprete de “História de um homem mau”; alguns anos mais tarde, na década de 80, o futuro biógrafo Ruy Castro queria entrevistar Roberto Carlos na revista Playboy. Diante de sucessivas negativas, Ruy mudou de estratégia. Resolveu escrever uma reportagem sobre a alcova do intérprete de “Brucutu” . O resultado foi um processo por injúria que quase acabou na prisão do jornalista. Por fim (?!), em 1993 o inesqucível tablóoide Notícias Populares resolveu elaborar uma série de reportagens sobre a infância do cantor de “Pega ladrão” . Mais uma vez, um acordo judicial beneficiou o artista e interrompeu a série no começo.

Voltemos nossa atenção para a atualidade. Nesta semana, os jornais informam que outro livro despertou o lado censor de Roberto Carlos. Dessa vez trata-se de uma tese de mestrado intitulada  “Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude”, de Maíra Zimmermann. O que poderia tê-lo incomodado tanto? O próprio advogado do cantor Marco Antonio Campos deu explicações diferentes aos jornais. Na Folha, o problema seria a ilustração de capa da obra: “Fazer aquela caricatura de forma desautorizada viola os direitos de imagem do Roberto. Não estamos tentando proibir a circulação do livro, não temos nenhuma objeção, nenhuma intenção censória quanto ao conteúdo do livro.” Já ao Estadão, confrontado com a notificação judicial  que, segundo o jornal, é clara em exigir a retirada da obra do mercado, Campos disse: “O que causou a oposição de Roberto ao livro foi o fato de a autora não ter pedido autorização para publicá-lo. Mas ele (Roberto Carlos) não pediu a retirada do livro.” Como o processo está no começo – e com a repercussão negativa  de mais uma investida censória do intérprete de “O feio” -, é bem possível que, dessa vez, o final seja feliz.

É necessário fazer justiça: Roberto Carlos não é o único que buscou o judiciário com a intenção de retirar uma obra do mercado. O próprio Ruy Castro quase viu sua biografia “Estrela solitária” ser retirada do mercado a pedidos da famíla de Garrincha. O jornalista Fernando Morais teve o seu livro “Na toca dos leões” proibido pelo deputado Ronaldo Caiado. O político não gostou de uma frase que o autor atribui a ele. A família de Raul Seixas conseguiu a proeza de proibir uma biografia ANTES mesmo do lançamento. E existem muitos outros exemplos.  O que permite que os episódios se sucedam com essa frequencia? Uma bizarrice jurídica chamada artigo 20 do código civil. Eis a letra da lei:

Art 20 – Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama e a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais. 

Parágrafo único. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes e os descendentes.

Se levarmos a ferro e fogo o que está disposto acima, até mesmo livros de história poderiam ser proíbidos. Um parente distante de D.Pedro I, por exemplo, poderia ficar incomodado com os historiadores que retratam o seu Ta-ta-ta-ta-ta-taravô como um devasso incorrigível. O artigo 20 dará o amparo jurídico necessário para o processo.

Mas existe uma luz piscando no fim deste túnel. No começo deste mês, o deputado Newton Lima (PT – SP) apresentou uma proposta na Comissão de Constituição e Justiça que acaba com a exigência de autorização para a elaboração de trabalhos biográficos. Bastava que nenhum deputado apresentasse recurso para o projeto ser votado no senado, sem a necessidade de passar pela Câmara. Entretanto, a luz se apagou e o deputado Marcos Rogério (PDT RO) apresentou o recurso. A justificativa do político é uma pérola, entretanto merece ser analisada com atenção: “Imagine que um adversário seu resolva fazer uma biografia para te atacar ou até mesmo que um aliado resolva te promover, isso não vai poder ser considerada propaganda eleitoral antecipada. Então, isso tem que ser discutido”.

A preocupação clara do político é que, ao liberar as biografias, jornalistas possam trabalhar com liberdade justamente tendo os nossos políticos como personagens principais. E, como as biografias dos nossos representantes são, via de regra, mais sujas do que pau de galinheiro, um projeto como esse pode se voltar contra os nossos parlamentares. Resta torcer para que uma lufada de sensatez se apodere dos nossos deputados e eles possam votar esse projeto rapidamente. Enquanto isso, o espectro de Karl Marx continuará rondando a cultura nacional…

A testemunha

O texto que segue é o testemunho da Dona Sônia das Dores, chamada pelos íntimos apenas como Das Dores, para o rumoroso caso da “Chacina de Natal”. Para quem não se lembra, toda a distinta família Brandão foi encontrada morta logo após a ceia. Apesar de rigorosamente investigado, os policiais não conseguiram solucionar o crime. Alguns falam, inclusive, da possibilidade de ter sido obra de extraterrestres. Vizinha dos Brandão, dona Das Dores teve o seu depoimento colhido em sua própria casa, um dia depois da tragédia, pelo investigador do caso. Durante muito tempo, o testemunho permaneceu no mais absoluto sigilo. Isso gerou alguns boatos sobre o seu conteúdo, com alguns apostando que Dona Das Dores teria feito revelações que poderiam elucidar o mistério. Agora, depois de semanas de insistência, tivemos acesso exclusivo ao depoimento integral.

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Aceita um cafézinho? Tá fresquinho. Passei agora! Pode me chamar de Dona Das Dores, dispenso o senhora. Os amigos só me chamam de Das Dores. Não gosto muito do meu primeiro nome. Acho muito comum, sabe…

Este é o Osvaldo, meu marido. Ele ouve muito mal. Até usa um aparelho, mas deixe-me contar uma pequena travessura que faço. Quando o Osvaldo começa a encher o saco, eu simplesmente desligo o aparelho. É uma bênção, precisa ver! Ele resmunga um pouco, reclama. Eu fingo que não é comigo. Cinco minutos depois, está dormindo feito um anjinho. Não, não acho que seja maldade. Falo que a bateria não dura muito tempo. Eu brinco com a Judite, minha vizinha e comadre, que tenho um marido com botão liga/desliga. Ela fica com uma inveja…

Quer que ligue o aparelho? Não conta nada, combinado? Não, não acho que ele tenha alguma informação útil sobre este caso. Seu único interesse é o futebol. O resto do mundo, para ele, é uma grande bobagem. Dorme no telejornal inteiro, mas assiste futebol até quando não é o seu time que tá jogando. Coisa de homem. Vai entender… Ah, estou vendo aí que você escreveu Osvaldo com “v”, só que é com “W”. Da-bli-ú!

Não aceita mesmo um cafézinho? Tá fresquinho. Passei agora! Então tá.

Nossa, fiquei muito chocada com o que aconteceu com a família Brandão! Um grande absurdo! Os criminosos não estão respeitando nem o dia de Natal, o Natal, Deus meu, nascimento de Cristo!!! Onde vamos parar? Quando mudamos para cá, faz uns bons 35 anos – foi logo depois do nosso casamento, por isso que me lembro tão bem -, este era um bairro sossegado. Calmo. Com uma vizinhança excelente. Gente de bem. O Oswaldo vivia esquecendo o portão aberto e nunca nos aconteceu nada. Hoje, roubariam até o nosso paliteiro.

O nível da vizinhança piorou muito. Por favor, não comente isso com os vizinhos que fica chato, mas não posso mentir para um policial. O que é certo, é certo! Os Brandão, que Deus me perdoe, são uns bons exemplos. Eu ouvia as brigas e as gritarias daqui de casa. O filho mais velho andava com uma turma muito estranha. Barra pesada mesmo. O sujeito era todo tatuado. Parecia uma zebra. Se fosse você, dava uma investigada. Pra mim, foi ele… hein? Também tá morto? Cruzes!

Então, não sei… só sei que os filhos do Brandão lembram muito as sobrinhas do Oswaldo. É tudo farinha do mesmo saco. São médicas e nunca nem ligaram para saber se a saúde do tio está em dia. Um momento… Xxiii… Esse cheirinho não me engana: o Oswaldo fez cocô nas fraldas. Vou lá trocá-las e já volto, ok? Um minuto só.

Voltei. Deixei o Oswaldo dormindo no quarto. Sabe, outro dia a Judite e eu chegamos a conclusão que, ao envelhecer, nós viramos bebês de novo. Meu marido só faz comer, dormir e cagar. E nas fraldas! Qual a diferença com um recém-nascido?

Tá ouvindo esse barulho? Acredite: não é uma britadeira, mas o ronco do Oswaldo. Se abrir a porta, o som fica mais forte. Ah, para dormir é moleza. Eu espero ele cair no sono e vou pro quarto que era do Oswaldinho Jr, nosso único filho, que casou e saiu de casa.

Não quer mesmo um cafézinho? Passei agora! Tá fresquinho. Se quiser, posso abrir um panetone. É diet porque o Oswaldo é diabético, tudo bem? Não quer? Ok. Onde estávamos mesmo?

Ah, sim, nas sobrinhas do Oswaldo. Você acredita que elas queriam colocá-lo em uma dessas casas de repouso? Certamente, seria um desses lugares – que passa nos noticiários de vez em quando -, que tratam os velhos feito gado. Bati o pé e não permiti. Disse: “Vou viver e cuidar do meu marido até o seu último dia. Ou até o meu último dia” A gente nunca sabe quem vai morrer primeiro, né? Elas nunca se importaram e, do nada, resolvem virar boas moças? Muito esquisito. A Judite acha que elas combinariam com as enfermeiras para colocar veneno no chá do Oswaldo. Igual acontece nos romances policiais.

Essas meninas devem pensar que o tio é rico. Não nego, nós já tivemos algum dinheiro – nada muito exorbitante -, mas o meu marido conseguiu perder boa parte. Abriu e faliu umas cinco ou seis empresas. Sempre foi muito sonhador e detestava patrão. Só que o pobrezinho nunca cuidou direito dos seus negócios. Eu procurava apoiá-lo. Só briguei quando ele quis vender esta nossa casa para servir como capital para uma de suas empresas malucas. Não deixei. Alguém precisava olhar para o nosso filho, não é verdade? Depois, o coitado cansou de falir tanto e resolveu trabalhar na empresa dos outros mesmo.

Ai, estou tão preocupada com essa insegurança, tão assustada. Estou até pensando em comprar um cachorro, desses bem bravos… como é mesmo o nome? Isso! Pit Bull! O problema é que eu tenho tanto medo desse bicho! É bem possível que eu fique presa em casa e o cachorro solto no quintal… Será que devo? Ou só uma boa tranca resolve? Eu me sinto um pouco sozinha, sabe… além de quase surdo, descobri recentemente que o pobre do Oswaldo tem uma catarata nos olhos que o deixa praticamente cego. Por isso, ele vivia trombando pela casa. E eu pensando que fosse por ser destrambelhado… Estou vendo com o plano de saúde se é possível operá-lo ano que vem.

Confiar na policia? Olha, com todo o respeito, sei que os senhores fazem o possível, porém tem muita cidade para pouco policial. Vocês não dão conta! Ah, é verdade, sim! Outro dia, uma tia da Judite foi assaltada e as viaturas demoraram horas pra chegar. A senhorinha quase morreu. Por enquanto, vou reforçar as trancas. E ver quanto custa os alarmes eletrônicos; Pit Bull vou desistir, além de bravo precisa de tantos cuidados. E tenho o Oswaldo que dá um trabalhão.

Aqui no bairro, confio apenas na Judite que conheço faz muito tempo. Não coloco minha mão no fogo pelo resto. Vou ficar maneta, meu filho! Quer um exemplo? Os nossos vizinhos da frente, do portão lilás. O Dr Hélio até que é boa gente, um advogado respeitável. Gosto muito dele. Mas a sua mulher – Deus me perdoe!!!! – não vale um cisco de olho.

Os dois tiveram um filho recentemente. A criança nasceu com os olhos puxados. Um japonêsinho! Não poderia ser mais diferente da mãe e, principalmente, do pai. Segundo a Judite me contou, aquela piranha inventou para o marido que sua família tem uns ancestrais no Japão. Sabe qual o apelido do Dr Hélio na vizinhança? Ai, é até pecado ficar zombando assim, tadinho… Tudo bem, já que insiste tanto… O pessoal só chama ele de Dr Cornélio. Pelas costas, claro.

Como? Não, eu não ouvi nem vi nada do que aconteceu na casa dos Brandão; só sei o que a Judite me contou, parece que foi horrível. Eu não estava no bairro. Passei a véspera de Natal na casa do Oswaldinho Jr e cheguei faz duas horas. Aquele tratante só lembra dos pais uma vez por ano. E a minha nora – que Deus permita que eu esteja errada -, ainda vai fazer o meu filho sofrer muito. Acredita que ela… hein? Já tá indo embora? Que pena. Muito trabalho pra fazer, claro. Espero que tenha ajudado. Se precisar de algo, é só ligar. Não aceita mesmo um cafézinho? Tá fresquinho! Passei agora. Só não vai dizer pra vizinhança que eu não te ofereci nada, hein?

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Uma ode ao Estado laico. Ou: a fé que move montanhas (de votos)

Tucano de fé.

Basta ser ano de eleição para a procissão se repetir. O candidato, não importa o partido, faz um périplo por todas os credos; comunga com o padre, celebra um culto com o pastor evangélico; recebe um passe na centro espírita e, de quebra, dá uma passadinha no terreiro de candomblé só pra garantir. Curiosamente, essa fé tremenda só acontece em tempos de eleição. O fervor religioso coincide com o calendário eleitoral.

Antes de mais nada, quero deixar claro que respeito todos os tipos de fé. Se o sujeito acredita no Mickey Mouse, por mim, tudo bem. Pessoalmente, tenho uma relação conflituosa com a fé que não cabe dissertar por ora. O importante é que a constituição brasileira- desde a proclamação da república em 1889 até a nossa atual carta de 1988 -, fez deste um país laico. Isso significa, primeiramente, que o Estado não tem nenhuma religião oficial. E, por tabela, a liberdade religiosa é garantida para todos os cidadãos – incluindo aí a liberdade de não ter religião.

Lindo, não? Na letra da lei, é uma beleza. Na prática, porém, o buraco é um pouco mais embaixo. A demagogia não está apenas na romaria dos políticos em busca de votos. O horário eleitoral gratuito traz sempre vários gaiatos que usam o nome de Deus para conseguir angariar eleitores. E mais um rombo é aberto no muro que separa o Estado da religião.

Petista de fé

A última eleição presidencial foi exemplar em mostrar o que acontece quando essa fronteira é desrespeitada. O candidato José Serra,que de repente demonstrou um fervor cristão insuspeito, trouxe à tona a questão do aborto e fez uma das campanhas mais sórdidas dos últimos tempos. Por ser uma questão polêmica por natureza, discuti-la no período eleitoral, momento em que os corações e mentes estão radicalizados é, para dizer o mínimo, um despropósito.

Este é um assunto para ser tratado com o máximo de serenidade. É claro que os grupos religiosos têm todo o direito de se opôr ao aborto e devem ser ouvidos quando o tema for debatido seriamente no congresso nacional – assim como os grupos favoráveis também devem ter voz. Faz parte do jogo democrático. Vamos seguir com o nosso exemplo utópico. Depois de todo o debate com a sociedade, com todos os grupos interessados, a decisão dos políticos foi favorável a regulamentação do aborto. O Estado laico garante que a decisão deva ser respeitada, por mais que você, por princípios da sua religião ou não, tenha todas as razões para ser contra.

Pessoalmente, acho que a constituição brasileira, ao permitir o aborto em casos de estupro e de crianças anencéfas, como decidiu recentemente o STF, trata do assunto com bastante serenidade. De qualquer maneira, este não é um texto sobre o aborto e, sim, sobre as fronteiras que separam a religião do Estado. Retornemos o fio da meada

No primeiro parágrafo, comentei do périplo que os políticos fazem – de todos os partidos, vale repetir -, em todas as religiões. É uma das poucas coisas ecumênicas em uma corrida eleitoral. É óbvio que o interesse é muito mais em angariar votos do que em salvar a alma – até porque algumas estão irremediavelmente perdidas. Os pastores/padres aproveitam para colocar na mesa as suas “exigências” e a dos seus fiéis. O político, muito sério e contrito, concorda com tudo. É preciso ter muita fé para acreditar nesse cerimonial hipócrita.

Tenho muita curiosidade em saber o que aconteceria com um político que se declarasse abertamente ateu ou agnóstico. Na verdade, não é preciso grande imaginação. Na melhor das hipóteses, receberia um pequeno punhado de votos que não o elegeria para síndico do seu prédio; no cenário mais assustador, seria queimado em praça pública, feito uma Joana D’arc do século XXI. Pequenos exageros à parte, gostaria de entender essa necessidade que o eleitor tem de que o seu candidato tenha alguma religião. Até hoje, todos os políticos eleitos foram, partindo-se do pressuposto que eles tenham falado a verdade, homens muito tementes a Deus; o Demóstenes Torres, por exemplo, anunciou, em depoimento a uma constituição de ética que investiga os seus delitos, ser um carola…

Não estou querendo dizer, com isso, que um político ateu ou agnóstico seria automaticamente honesto e bom caráter. Seria uma conclusão absolutamente insana.  O mundo é muito mais complexo e cheio de nuances. No meu mundo ideal, a fé de um político – ou a ausência dela -, seria apenas mais um componente da personalidade do sujeito para ser julgado pelo eleitor.

Não quero esgotar esse tema com esse artigo. Ele é infindável. Hoje, por exemplo, a Folha de S. Paulo traz uma matéria falando da raiva que gerou na bancada evangélica, uma minuta de um decreto em que o governo Dilma quer proibir o aluguel de horários na TV Aberta. O raciocínio é simples. A televisão é uma concessão pública, pertencente, portanto, ao Estado. Ao alugar o horário, as televisões estariam lucrando com um bem que não pertence a elas. A bancada evangélica, claro, chiou diante dessa ameaça e alegou – vejam vocês! -, que seria uma atentado a liberdade religiosa.

E mais um rombo é aberto no muro que separa o Estado da religião.

Para quem se interessou pelo tema, recomendo que clique aqui para ler um texto bem interessante do Tulio Vianna, publicado na Revista Fórum.

Revista País Sustentável

Em 2009, eu e os amigos Eduardo Vasconcelos e Vinicius Mendes, produzimos a revista laboratório País Sustentável. Foi uma experiência e tanto. Durante todo esse tempo, a publicação era um PDF insosso. Agora, graças ao site Calaméo, transformamos o arquivo em uma estimulante revista digital. E de graça. Um dos destaques  é uma entrevista com José Luiz Penna, presidente do PV (Partido Verde) que na época mostrava-se encantado com uma nova correligionária: Marina Silva. O tempo passou e o encantamento também. Marina acabou saindo do partido em pé de guerra com Penna. A entrevista é um registro interessante de como pode mudar a mentalidade dos políticos. Vale ler as outras reportagens também. Em tempo: a crônica da página final “Palavra mágica” já foi publicada aqui no Ideias e etc.

Clique aqui e leia nossa revista que também estará disponível no menu ao lado.

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Ursinhos Carinhosos – Último capítulo

Clicando nestes links, você acessa o primeiro e o segundo capítulo dessa história.

*****

Tente imaginar cinco marmanjões fantasiados de ursinhos carinhosos, todos portando revólveres cálibre 38. Esta era a nossa situação dentro da kombi parada na frente do buffet infantil. Para piorar, fazia um calor infernal. Crueldade decidiu que a gente iria assaltar fantasiado de ursinho carinhoso. Alguns elementos da gangue esboçaram algum protesto, mas foi em vão. O homenzinho decidiu e não adiantava reclamar. Era obedecer e calar a boca.

O chefe da quadrilha repassou todo o plano novamente. Era preciso ser rápido e rasteiro. De minha parte, tentei convencê-lo a não usar violência. Contudo, ele foi áspero. “Apenas se as coisas derem certo, Ursinho. Eu não vou pensar duas vezes em atirar se for necessário. Sacou?”

Saquei…

Como era uma segunda-feira, não tinha festa e todos os colaboradores estavam de folga. Eu esperava por isso, pelo menos. O plano era ir direto a sala do cofre e, com a delicadeza inerente aos comandados por Crueldade, forçar o dono do Buffet à abrir o cofre. Depois, era amordaçá-lo e trancá-lo no banheiro. Muito simples. Ainda tentei ficar de fora desse crime, porém o Crueldade quis que eu fosse o guia de seu bando. Ainda insisti na minha posição, mas o nanico me convenceu apontando o revólver na minha cara e dizendo:

– Você vai e pronto, caralho!

Quem não se convence com um argumento tão poderoso?

Agora, lá estava eu e os demais membros da quadrilha prestes a assaltar o buffet. Foi tudo muito rápido. Crueldade tocou a campainha. Durante esses segundos de espera, torci para que ninguém estivesse por lá. Porém, logo ouvi passos… O barulho de alguém destrancando os trincos… O susto da cozinheira, que foi logo nocauteada por uma coronhada… O delicioso cheiro de risoles no ar…

Fui na frente guiando todos para o escritório onde estava o cofre e o meu ex-patrão. Mas nem precisava. Ele logo apareceu. E, para minha surpresa, armado. Antes mesmo que ele conseguisse disparar, um membro da quadrilha acertou o seu braço. O homem largou a arma gritando de dor. Sangrando muito, foi levado até o escritório. Crueldade espumava de raiva:

– Fala a senha do cofre, seu safado! Fala se não eu te mato e todos da sua família!! A senha, cadê a senha seu filho da puta?

Aos soluços, o homem disse a sequência de números que coincidia com a data de seu aniversário. Aberto o cofre, descobrimos que não havia tanto dinheiro como eu imaginava. Pelo contrário: era uma merreca quase insignificante.

– Só isso, seu desgraçado? Cadê o resto?

– É tudo o que tenho – disse o dono do buffet chorando – Eu já paguei os meus funcionários. Só me restou isso, juro por tudo que é mais sagrado… Me deixa vivo, pelo amor de Deus! Eu tenho família… cinco filhas pra criar… Clemência! Pode pegar todo o dinheiro. Nem chamo a polícia, prometo!

O próprio Crueldade pegou a merreca que estava no cofre. Um membro da quadrilha perguntou o que fazer com nossa vítima. Depois de pensar por alguns segundos, o homenzinho decretou:

– Vamos apagar esse desgraçado! Ele não pensaria duas vezes em nos matar se tivesse com a arma…

O dono do buffet seguia pedindo clemência, chorando, porém Crueldade gostava de honrar o seu apelido. Mandou seus homens carregarem-no até a piscina de bolinhas. O anão me disse:

– Você vai matá-lo. Vamos! Mira bem na testa! É uma ordem!

Lembro de cada detalhe das próximas cenas. Se eu fechar os olhos hoje, consigo revivê-las em câmara lenta. Enquanto erguia a arma em direção à minha vítima, percebi que, no fundo, apenas o odiava como patrão, não como ser humano. Foi quando notei que o dono do buffet me reconheceu, apesar da minha fantasia azul marinho:

– Ei… Acho que sei quem você é… Seu traidor, seu monstro, depois de tudo o que fiz por você… Você não é o…

O som de um disparo invadiu o ambiente. O corpo do homem tombou para trás. A piscina de bolinhas se transformou em uma mistura de sangue com pedaços de cérebro. A arma de Crueldade estava fumegando.

– Você é muito bundão mesmo… Jamais será como Toninho Crueldade… disse o sádico nanico.

Naquele momento, enquanto corria pra kombi, finalmente percebi que tinha cruzado a tênue linha que separa os bons dos maus. Não havia volta. Ajudei bandidos a fugir da cadeia, participei dos planos de um assalto e, por muito pouco, não matei o meu ex-patrão. Talvez, sempre estivesse do lado mal do front. Era tão bandido como os demais homens de Crueldade. Um deles, aliás, teve tempo para roubar uma bandeja de risoles fresquinhos.

– Garanti o nosso jantar, chefe!

Os risoles, aliás, merecem um parágrafo à parte. Foram os piores salgadinhos que comi em toda minha vida. Primeiro, estavam encharcados de óleo. Cada mordida equivalia a uma bomba de gordura trans. O empanado era ruim, não cobria o salgado completamente. A massa, por sua vez, era ainda pior. Rançosa, sem gosto, parecia ter sido feita no século passado. E o recheio, então? O que comi era de queijo e estava completamente gelado e duro. Os homens da gangue, entretanto, adoraram e o resultado foi uma diarréia coletiva. A privada, contudo, era uma exclusividade do Crueldade. Nós tivemos que nos contentar com humilhantes penicos.

No esconderijo, quando ligamos a TV, vimos que a notícia do assalto era o principal assunto dos telejornais policialescos da noite. Tomei um bruta susto quando vi minha foto como um dos suspeitos. A matéria relatou como foi o assalto e entrevistou alguns dos meus colegas e também famíliares do proprietário do buffet. Todos choravam e falavam que ele era maravilhoso, bom marido, excelente patrão… Inclusive alguns dos funcionários que o detestavam…  Cortou para o apresentador do programa:

– Olha, criminosos como essa quadrilha do Toninho Crueldade só tem uma solução: cadeira elétrica! Devem morrer tostadinhos. Tô certo ou tô errado?  O cidadão de bem bla bla bla bla…

Crueldade não perdoou:

– Pode esperar, gordão, um dia a gente se encontra e eu te mato, seu desgraçado! Saiam da frente que preciso voltar pro trono…

Os jornais também destacaram o assalto. O mais popular da cidade colocou a notícia na capa. Ao lado de uma foto gigantescca da piscina de bolinhas, eles estamparam a seguinte manchete em letras garrafais:

URSÕES DIABÓLICOS MATAM DONO DE BUFFETT

Nas páginas internas, fotos nossas. Entrevistaram até minha mãe que disse não acreditar que o seu filho pudesse estar envolvido em um crime. Disse que eu era um bom menino e tal. Era, mamãe. Era… Tenho até hoje esse jornal.

*****

Muitos anos se passaram desde os eventos narrados acima. Eu entrei definitivamente para a vida criminosa. Depois de alguns episódios, que foram amplamente cobertos pela imprensa e são de conhecimento público, matei Toninho Crueldade e me tornei o chefe da quadrilha. Sou o dono da favela do Urso. Não vou contar novamente o que todos estão cansados de saber. Quando comecei a rascunhar essas linhas, minha intenção era escrever uma autobiografia. Mas não vai dar tempo. Ontem, depois de um tiroteio, matei um policial. Duplo azar. O meganha era o coronel da polícia. Meu pescoço vale ouro. Estou escondido em um buraco e do lado de fora só ouço pipoco, tiros, gritos… putz, agora ouço um helicóptero. Ouvi pelo rádio que metade do contingente da polícia está no meu encalço. Meu destino está sacramentado. Lá fora, só ouço: “cadê o urso, caralho?” E mais tiros. E helicóptero. Comigo, apenas meu revólver, uma lanterna fraca, esses escritos e uma caneta. Espero que minhas mulheres e meus filhos estejam bem. Nunca mais vou vê-los. Fato. Estou consciente disso e conformado. Gostaria de deixar registrado que sempre procurei tratar os moradores bem. As crianças sempre tiveram festinhas. E com bons salgadinhos. E com Ursinhos carinhosos de animadores. Tudo de primeira. Sim, é verdade. Pode acreditar. O papel tá acabando. Lá fora, mais pipoco. Tenho duas balas no meu revólver. Será que consigo matar dois meganhas? A lanterna também tá fraca. Eu sinto o cheiro do medo. O cheiro do fim que se aproxima. Ás vezes, tento fazer um exercício de imaginação… O que eu seria se aquele velho beberrão não fosse convidado para aquela festinha? Não sei. Realmente, não sei. Quem sabe, estava tudo escrito para me tornar o que me tornei? Destino? Não sei se acredito. Já pensei algumas vezes em largar dessa vida e ser animador na Disney. Deve ser um vidão. Sempre gostei do Donald. E do Pateta. Odeio o Mickey. Rato boiola. Seria um fim digno. Trabalhar de animador e ganhar em dólar. Fazer turistas sedentos de consumismo felizes. Não há tios beberrões, eu acho. Não. Chega de sonhar. A lanterna está acabando, os meganhas estão se aproximando de tudo quanto é lado, e eu tenho que correr atrás do meu destino.

Fim

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Ursinhos Carinhosos – 2º capítulo

Esta história começa aqui

*****

As próximas cenas parecem ter sido escritas por um roteirista de Roliudi Hollywood. O primeiro brutamonte já chegou armando uma voadora que, milagrosamente, consegui desviar. Enquanto eu observava o meu agressor, que jazia estatelado no chão, agonizando, um segundo brutalhão aproveitou-se desse momento e aplicou uma chave de pescoço. Senti o ar faltando. Um terceiro chegou e disse:

– Segura este bosta que eu termino de matá-lo.

No exato instante em que ele armava o primeiro soco, ouvi uma sirene. Nunca fiquei tão feliz por ouvir esse barulho em toda minha vida! Fiquei sabendo depois que meus colegas animadores tinham chamado a polícia. Gritei por socorro. Isso atiçou ainda mais os meus algozes. Um deles acertou um violento golpe no meu estômago que fez todas as minhas tripas revirarem. Desmaiei. Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando retomei a consciência ouvi o final de um diálogo entre um dos meus agressores e um policial. Este último dizia:

– …fica sossegado, amigo. Esse pilantra terá o que merece na cadeia! Vamos levar o elemento pra viatura!

Eu ainda tentei contar o sucedido para os policiais, mas eles apenas mandaram eu calar a boca e me algemaram. Enquanto era carregado, pensei: “Já que estou indo pro inferno, vou abraçar o capeta”. E tomei uma atitude que, relembrando hoje, me arrependo um pouco. Enquanto passava no meio da festa, senti uma onda de ódio se apoderar de mim e resolvi descontar no elo mais fraco: as crianças. Eu gritava totalmente descontrolado:

– Crianças! Eu preciso contar uma coisa pra vocês! Sabe aquela história da cegonha? Não existe! Rararararaá É mentira! É o pai de vocês que trepa com suas mães! Ah, Papai Noel não existe também!

Ainda hoje não sei como saí vivo do Buffet. Pudera. As crianças desataram um choro em uníssono. Quando estava perto da saída, ouvi um diálogo inesquecível. Era uma garotinha de uns quatro anos que, chorando, perguntava pro pai:

– Seu malvado! Por que você trepa com a mamãe?

Eu devo ter acabado com a infância de algumas gerações. Mas minha vida também tomaria um rumo inesperado. Chegando na delegacia, descobri que o delegado de plantão era irmão do tio beberrão – além da semelhança física, o hálito de alcoól indicava que ambos vieram da mesma árvore genealógica. Eu tentei valer os meus direitos básicos, como chamar um advogado, mas ele apenas soltou uma gargalhada e disse:

– Enjaula esse filho da puta! Coloca ele na pior cela, aquela que tem o Toninho Crueldade…  Se ele escapar vivo, amanhã a gente aplica um corretivo nesse verme. Ah, por favor, tira essa fantasia ridícula de ursinho carinhoso…

Gelei. Não só pela ameaça velada, mas porque Toninho Crueldade honrava o seu nome. Ele media pouco mais de 1m e 60, mas a sua mente diabólica o deixava com as dimensões de um gigante. Ele era responsável pelo tráfico em uma importante favela de São Paulo e estava preso fazia pouco tempo. Seria logo transferido para uma penitenciária de segurança máxima.

Quando cheguei na carceragem, confesso que por alguns instantes desacreditei que aquele nanico fosse um dos bandidos mais perigosos da cidade. Mas logo entendi porque dizem que tamanho não é documento. O homenzinho estava visivelmente alterado. Seus comparsas, que estavam na mesma cela, também pareciam estranhos. Ficamos algum tempo nos encarando. Crueldade rompeu o silêncio:

– Escuta aqui, truta! Tô com uns esquemas pra sair do xilindró! Coisa garantida.Vai ser nessa noite…

– Eu fico na minha e… Crueldade me cortou furioso:

-Cala boca, eu ainda não terminei, porra! Eu não imaginava que colocariam outro preso nessa cela. Isso pode fudê com nosso plano. Me diz: você é meganha?

– Meganha?

– Policial, porra!

– Não, eu trabalhava em um buffet infantil, mas… Me desentendi com um dos convidados… É uma história meio maluca…

Crueldade olhou para os seus comparsas. Ficou algum tempo matutando e finalmente disse:

– Eu vou acreditar no que disse, truta. Mas você participará do nosso plano de fuga. Se algo der errado, você é o primeiro que morre. Sacou?

Eu respondi com o “Saquei” mais doloroso da toda minha vida.

O plano de fuga tinha a marca da mente genial de Toninho Crueldade. De algum jeito, ele conseguiu comprar os carcereiros e os demais presos. A ideia era simular uma rebelião. Toninho e sua gangue – incluindo eu! -, se aproveitariam da balbúrdia para escapulir do xilindró. Tudo aconteceu conforme o planejado. O único entretanto foi um dos carcereiros que, em um surto de honestidade, resolveu impedir a fuga. Eu percebi a tempo e dei uma coronhada no sujeito. Do lado de fora, aguardavam por nós alguns carros com o restante da quadrilha. Fiquei exatas duas horas preso!

Quando chegamos no esconderijo, percebi que o meu gesto foi notado por Crueldade. Ele fez questão de me cumprimentar primeiro e ressaltou o meu ato heróico anulando o carcereiro.

– Qual é o seu nome, truta? Nessa confusão, nem lembrei de perguntar…

– Meu nome é muito feio. Detesto ele. Prefiro o meu apelido: Urso

– Ui, Urso, que apelido mais fresco, caralho… – zombou Crueldade e os demais da gangue -, Ursinho carinhoso, ui, ui, ui…

– Toninho é muito macho mesmo… – disse para o meu próprio espanto.

E bota espanto nisso! Eu respondi no automático, como se o Crueldade fosse o dono do buffet. Se eu tivesse pensando um segundo a  mais, não me atreveria. O próprio chefão ficou espantado. Durante longos minutos ficou sério, depois sorriu e então finalmente falou, pausadamente, cada sílaba com a força de um tiro:

– Escuta aqui, truta, pro seu bem vou fingir qui não ouvi o seu desaforo, sacou? É a primeira e a última vez que te dou essa boiada. Nem minha mãe ousa me sacanear, sacou?

Nunca disse “saquei” com tanto alívio em toda minha vida.

Depois desse momento de tensão, o pessoal da gangue passou a discutir alguns assuntos da “firma”, que era a forma usada por Crueldade para se referir a sua quadrilha. E, segundo os seus comparsas, a firma precisava de muito dinheiro. E rápido. Era necessário restabelecer o estoque de armamentos e comprar a mercadoria para vender (Vulgo: drogas). Foram discutidos vários planos. Crueldade achava arriscado roubar agências bancárias.

– A polícia tá nos procurando em tudo quanto é buraco e eles sabem do nosso carinho por bancos. É preciso algo menos óbvio. Ninguém consegue pensar em nada? Bando de retardados!

Foi quando tive a ideia. Eu lembrei que era justamente naquela época que o dono do buffet pagava as esmolas para os funcionários. E ele o fazia em dinheiro vivo. Existiam alguns motivos para isso. Primeiro, ele não gostava de bancos. Achava um absurdo as taxas cobradas e o atendimento das agências. “O cliente só é gente quando abre a conta. Depois, vira gado no abetedouro naquelas filas do caralho. E esses desgraçados, mesmo tendo espaço para 10 caixas, só colocam dois pra trabalhar. Vagabundos!” costumava dizer com alguma razão. O outro motivo era menos idealizado. Ele não registrava os seus funcionários que, obviamente, também não tinham nenhum benefício determinado pela lei trabalhista. Pagar em dinheiro vivo facilitava a sua ilegalidade. Ele tinha um cofre na sua sala que, nesse período, ficava repleto de grana.

Eu contei essa história pro Crueldade. Os seus olhos faíscaram. Ele então me crivou com inúmeras perguntas. Queria saber tudo, onde ficava o cofre; se havia segurança; se o dono do buffett costumava se armar; se ele ganhava muito dinheiro… enquanto ele falava bateu um arrependimento. Nem tanto pelo dono do buffet, mas pelos meus colegas de trabalho. Entretanto, era tarde para lamentações. Inês, agora, estava morta tadinha. Quando dei por mim, o plano já estava armado. Crueldade decidiu assaltar o buffet.

[Continua…]

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