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Bar bodega e a imprensa


Seguinte: o texto que segue eu escrevi para ser publicado em um site que abre espaço para a opinião dos leitores, o Direto da redação, comandando por Eliakin Araujo, que já foi âncora de vários telejornais. Pois bem: até agora o texto não foi publicado, e esse blog está num silêncio incômodo para quem prometia ser um blogueiro mais ativo. Portanto, resolvi colocar o texto por aqui mesmo, e, caso o pessoal do Direto da redação publique este artigo, eu aviso por essas bandas.

O livro “Bar bodega. Um crime de imprensa”, do repórter da TV Globo Carlos Dorneles, levanta uma série de questões sobre a imprensa, o sistema judiciário brasileiro e até mesmo sobre alguns episódios do noticiário recente. Primeiro, vale recordar o que foi o caso “Bar Bodega”.

Em Agosto de 1996, dois jovens de classe média paulistana foram mortos num assalto no referido bar. O caso gerou imediata comoção popular e midiática. É bom lembrar que estavámos, como hoje, em plena campanha para prefeitura de São Paulo e o assunto segurança pública era o tema de então. Na época, o primeiro colocado das pesquisas, Celso Pitta, afilhado do hoje candidato Paulo Maluf-que dizia aos seus eleitores que se Pitta não fosse um bom prefeito nunca mais deveriamos votar nele-, usava um discurso alicerçado no medo da população e no ataque aos defensores dos direitos humanos.

O crime no Bodega colocou mais lenha na fogueira. A imprensa passou a noticiar todo crime, até aqueles ocorridos no interior, que não costumavam ter destaque no noticiário. A família de uma das vítimas criou o movimento “Reage SP”, uma espécie de antecessor do “Cansei”. Logo, a polícia apresenta os acusados como reús confessos. A mídia aceita passivamente a versão oficial sem a preocupação de investigar, justificando o subtítulo do livro de Dorneles: “um crime de imprensa”. A confissão dos jovens, todos eles inocentes, foi conseguida através de tortura. Se não fosse a interferência de um corajoso promotor público, eles, provavelmente, estariam até hoje na prisão.

A atuação da imprensa nesse caso é ainda mais vergonhosa quando lembramos que, dois anos antes, em 1994, a mídia também arruinou com a vida dos donos da Escola Base, acusando-os de abusar sexualmente de menores. O caso Bodega, ao meu ver, é ainda pior. Manchetes sensacionalistas e linchamento público deram o tom. A colunista da Folha, Bárbara Gancia, escreveu essa pérola de humanidade sobre os então acusados pelo crime no Bodega: “São veneno sem antídoto, nenhum presídio recuperaria répteis dessa natureza. A vontade de qualquer pessoa normal é enfiar um cano de revólver na boca dessa sub-raça e mandar ver” Quando o promotor soltou os inocentes, a mídia o linchou publicamente. Mas foi obrigada a engolir em seco quando os verdadeiros culpados pelo crime foram presos. Assim como no caso Escola Base, a vida dos jovens foi irremediavelmente prejudicada.

Corta para 2008. Operação Satiagraha. Daniel Dantas e outros figurões são algemados e presos. Surgem os indignados com a atitude da polícia. Fala-se até de “espetacularização” e excessos cometidos pela PF. Como um milagre, o uso de algemas passou a incomodar, tanto que o Supremo baixou uma medida limitando o seu uso. É inevitável a comparação e a conclusão: a tortura infringida aos jovens, pobre e negros, ficou impune e, ao que eu saiba, não mereceu nenhum protesto do Supremo. A algema no banqueiro, por sua vez, é um grave delito. A balança da justiça está desregulada e sempre pesa para o lado mais fraco.

Voltemos para o livro de Dorneles. Diferente do que alguns possam imaginar, a obra não deve ser leitura obrigatória apenas para jornalistas ou estudantes de comunicação. O público em geral também deveria lê-lo pois é uma importante lição sobre a aceitação, passiva, do noticiário da imprensa. Para formar o espírito crítico, é preciso conhecer como é produzida a notícia. “Bar bodega. Um crime de imprensa” é uma excelente oportunidade nesse sentido. E um alerta para que episódios como esse não aconteçam de novo.

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  1. natusch
    26/08/2008 às 4:09 am

    A resenha ficou legal… Mas “eu recomendo” é uma tag de arquivo do MEU BLOG, seu tratante! =P

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