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Sobre os semáfaros e a falta que ele faz


A gente só sente falta quando perde. Essa máxima vale para objetos, amigos, parentes e etc. Faz algum tempo, eu senti na pele a validade dessa sabedoria popular com o farol de trânsito. Explico. Para chegar na minha faculdade, eu preciso atravessar uma série de semáfaros, pois onde estudo fica numa região em que os carros fazem o retorno para outros lugares da cidade. A operação é relativamente simples, e segura, quando todos os semáfaros estão funcionando perfeitamente. Mas no dia em questão estavam todos apagados e o trânsito um verdadeiro puta puteiro do caralho, como diria um amigo.

Antes de seguir contando o que aconteceu, é preciso relatar um episódio não muito abonador da biografia deste escriba. Num belo dia, eu estava atravessando a rua da minha primeira faculdade –que era bem mais simples que a de hoje –, e, num impulso insano, resolvi fazer isso com o semáfaro aberto para os carros. E também para as motos. Uma delas me atingiu em cheio. Por sorte, não foi em nenhum órgão vital. O resultado da trombada foi apenas algumas escoriações e um tremendo susto. De todos os envolvidos, a moto, coitada, foi a mais prejudicada pois ficou toda retorcida. A culpa do acidente foi toda minha, claro.

Diante do relatado, o leitor pode entender melhor minha agonia diante dos faróis apagados e do trânsito enlouquecido. Nessas horas, o pedestre usa em seu favor o caos que se forma. Se algum motorista reclama do tempo que perde com os semáfaros no vermelho, deve agradecer por eles existirem, pois nesse dia o trânsito estava completamente parado  e, para piorar, parece que algum instinto criminoso se instala nos motoristas. Eles não pensavam duas vezes em tentar fazer o contorno, mesmo sabendo que a possibilidade de um choque com um carro vindo na direção contrária era real. As duas primeiras vias eu atravessei desse jeito, entre os veículos, torcendo para que nenhum motoqueiro me atingisse novamente.

Mas, para o meu desespero, a penúltima via, por ser independente das outras, estava fluindo relativamente bem. Os motoristas, evidentemente, estavam se lichando para os pedestres. Fiquei paralisado aguardando que algum milagre acontecesse. Os semáfaros voltassem a funcionar; surgisse alguma mulher de parar o trânsito, aparecesse algum funcionario da CET, enfim, qualquer coisa que cortasse o fluxo. Nesse momento, uma mulher apareceu e, devo registrar, ela não tinha o poder de parar o tráfego. Eu fiz um comentário totalmente desnecessário:

– É, pelos vistos vamos ter que ficar aqui esperando…

-Não, pelo amor de Deus, disse a mulher, estou com pressa!

Com mais determinação e coragem, avançou sobre o trânsito e eu aproveitei e segui ela. Não sei ao certo como, mas o fato é que sobrevivemos. O que o leitor pode deduzir facilmente por estar lendo este relato e, também, por este autor não ser um médium

Esse pequeno incidente cotidiano me fez pensar que a gente não dá o devido valor para algumas invenções. Quantas vezes nós não reclamamos de um semáfaro que fica horas fechado? Mas já pensou viver sem essa invenção? Certa vez, eu vi um documentário sobre o trânsito na India. Olha, o episódio acima relatado é fichinha perto daquela maluquice! Elefantes, vacas, bicicletas, motocicletas, automóveis e pedestres dividem o mesmo espaço e, por incrível que possa parecer, o documentário não fala de muitos acidentes. Achei esse vídeo do youtube que retrata o trânsito indiano:

Reparou? Não tem semáfaro! É simplesmante inacreditável a maneira como eles se “organizam” para, num dado momento, permitir que os pedestres atravessem. Os Indianos devem ser seres superiores ou, então, deveriam exportar a metodologia pedagógica das auto-escolas de lá para o resto do mundo. Pensando bem, esta é uma habilidade que os paulistas nunca teriam. Morreria mais gente no trânsito do que no SUS ou com a violência cotidiana. Cada povo deve ficar com o trânsito maluco que merece.

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