Início > Artigos, Observando a imprensa > Veja e a educação

Veja e a educação


Não é preciso fazer muito esforço para críticar a Revista Veja. Suas reportagens cheia de furos, não com o sentido jornalístico de informação exclusiva, mas no sentido popular de erros; sua relação com empresários de índole duvidosa, seus ataques a reputação alheia dão arsenal infinito para os seus críticos. Esse texto pretende pegar alguns aspectos não muito discutidos da revista da Abril. Um deles é a relação da mesma com a educação, através de uma reportagem em que o assunto foi colocado na capa. Antes disso, vou demonstrar que a História também é muito maltratada nessas malfadadas páginas.

Não é preciso ir muito longe. Um exemplo é a edição comemorativa dos 40 anûs anos publicada recentemente. A revista foi dividida em duas partes, sendo a primeira dedicada a comentar alguns episódios do ano de lançamento, 1968. O resultado é trágico. A base de todas as análises foi a desqualificação pura e simples de personagens da esquerda, em especial aqueles que pegaram em armas, como o Marighella, chamado por Veja de “terrorista”, não por acaso, a  mesma qualificação dada pela extrema-direita militar. Sobrou farpas até para o José Dirceu, claro. O seu passado como líder estudantil foi lembrado e, sem nenhuma surpresa, enxovalhado…

O pior ainda aguardava o leitor. O texto “A igreja confusa” é, de todos, o menor, mas contém a maior concentração de mentiras e conteúdo inviesado por centímetro quadrado. O artigo trata da “teologia da libertação”, ramo da igreja católica que tem inspiração marxista. Em pouco menos de dois parágrafos, Veja inverte completamente a história ao trasformar Dom Eugênio Sales em “herói” e Dom Hélder Câmara em “vilão”. Chega ao displante de afirmar que o primeiro salvou 4.000 pessoas da morte e da prisão! Eu sou um profundo estudioso desse período e me considero relativamente bem informado. Li bastante coisa e, em nenhum lugar, tem sequer uma menção sobre isso e a revista, claro, não informa sua fonte, se é que ela existe. Pior só a transformação de Dom Hélder em vilão, embora este, sim, tenha se empenhado no embate contra a ditadura militar, como está nos livros de história sérios. E não podemos deixar de registrar a participação de outros membros da igreja progressista na luta contra o regime militar como, por exemplo, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Mas a revista não se limita a enxovalhar a história. Ela faz isso com a educação como um todo.Na edição 2074, de 20 de agosto de 2008, Veja colocou o assunto na capa (imagem ao lado) com a reportagem “Você sabe o que estão ensinando a ele?”. A matéria teve como gancho a divulgação de uma pesquisa, do instituto CNT sensus, encomendada pela revista, sobre a opinião de pais e professores sobre o sistema educacional Brasileiro. O resultado foi, de fato, surpreendente. 60% dos professores consideram o ensino nas escolas públicas ótimo/bom. 63% dos pais concordam com os professores.  Os dados completos da pesquisa podem ser lidos aqui.

O resultado da pesquisa poderia render uma bela reportagem, contendo um raio-x aprofundado da situação da educação no Brasil, retratando o salário vergonhoso dos professores, a infriestrutura precária existente em vários rincões do país, numa lista interminável de mazelas. Poderia, mas é bom não esquecer que estamos falando da Veja, certo? Em vez do enfoque múltiplo, a metralhadora giratória ficou concentrada num único aspecto: a tal da “ideologização” dos livros didáticos e a “doutrinação” comunista nas salas de aula. Com vocês, um trecho da reportagem:

[Existe]uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a  empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do  conhecimento. (…)”Reconheço o viés esquerdista nos livros e apostilas, fruto da formação marxista dos professores. Mas não temos nenhuma intenção de formar uma geração de jovens socialistas”, diz Miguel Cerezo, responsável pelo conteúdo publicado nas apostilas do COC

O trecho acima ilustra o que foi a reportagem inteira, complementada por uma série de trechos de livros didáticos comentados. Para começo de conversa, Veja parte de várias premissas completamente erradas. Quem leu a reportagem, tem a impressão que só existe professores de esquerda no Brasil. Generalização equívocada. E, mesmo se eles fossem a maioria, não sei onde está o problema. Não estamos numa democracia? Cadê a liberdade de expressão que o tablóide da Abril tanto defende?

A questão dos livros didáticos merece uma atenção especial. O primeiro equívoco está, novamente, numa generalização. Para Veja, só existe livros de esquerda. Nada mais falso. Existem, sim, muitos obras de direita no mercado, assim como existem aqueles que abordam a história das mais diferentes maneiras. Mas ao olhar essa questão, a revista esquece da figura do professor. Fica a impressão que o livro funciona sozinho. Não funciona e um professor de esquerda, com um livro de direita fará questão de desmontar a ideologia presente na obra, e o mesmo acontece com o sinal trocado.

Posso dar um exemplo pessoal: no ensino fundamental, eu estudei com livros que eram de direita, mas com professores claramente de esquerda. Claro que eu só fui perceber isso muito tempo depois, quando passei a ter alguma noção de política, mas hoje percebo, claramente, o esforço que os meus professores faziam em desmontar os livros didáticos. Como o texto está ficando grande, acho que posso poupar o leitor da explicação sobre o porquê que a tal da “neutralidade” defendida por Veja é impossível…

Fica uma pergunta no ar: por que Veja se concentrou tanto na falsa questão dos livros se existem tantos problemas muito mais sérios na educação? Antes de respondê-la, o amigo leitor já ouviu falar do sistema de ensino SER ? É um sistema de apostilas criado pela editora Abril, que também edita Veja e… epa, epa! Quer dizer que a mesma empresa que controla Veja está apostando suas fichas no mercado de livros didáticos? E usa um dos seus veículos mais poderosos para atacar, justamente, os livros didáticos? Leitor, volte para a citação da reportagem, que ficou três parágrafos acima, e releia por favor. No final dela, aparece uma fala de Miguel Cerezo, apresentado como responsável pelo conteúdo do sistema COC de ensino, dizendo não querer transformar os nossos estudantes em socialistas. Sua fala chega a ser patética e se contradiz numa reportagem onde todos os livros são apresentados como comunistas. E é bom não perder de vista que o sistema COC é um dos principais concorrentes do sistema educacional da Abril…

Algumas semanas depois da publicação da matéria, saiu um anúncio do Ser na Veja, claro. Uma curiosidade: entre os autores das apostilas destacados está Marilena Chauí, grande filósofa e uma marxista de quatro costados. Ou seja, nem o sistema da Abril está livre da doutrinação comunista. Ah, mas isso os leitores de Veja não precisam saber, não é mesmo?

Diante do quadro apresentado acima, eu sou bem cético para ser sincero. Não vejo muitas mudanças, no médio e longo prazo. É espantoso que uma revista desse naipe seja a mais lida no país. A revista Época, da editora Globo, apesar de não estar muito distante na ideologia, é muito mais bem feita em todos os sentidos. E não é tão panfletária. Carta Capital, então, dá de 10 a 0. A única coisa que podemos fazer é continuar demonstrando o quanto é nefasto o tablóide da Abril em todos os aspectos possíveis. O Idéias e etc, podem ter certeza, fará a sua parte.

Em tempo: caso o leitor tenha estômago resistente, poderá ler a reportagem comentada acima, na íntegra, aqui. Vale ler também o texto de Gustavo Ioschope, publicado na mesma edição, que é economista, e especialista em educação de Veja sem nunca ter dado uma aula na vida…

Anúncios
  1. Paulo Henrique
    17/11/2008 às 11:57 am

    Não acredito que vc tá defendendo o José Dirceu!

  2. Vinícius Mendes
    25/10/2008 às 7:01 pm

    Marceelo…
    Estee está do jeeito que o Marcelão curte. O jornalismo critico, especulador, confritante! Cara, está estupeendo! Conseguiu reunir informações úteis ao texto e expor sua opinião, que muitas vezes motiva as minhas 😉

    Abraaço meu querido!

  3. Vê Barros
    16/10/2008 às 12:29 pm

    Bom dia meu querido!
    Adorei receber seu comentário no meu espaço.
    Esse texto está fortíssimo, bem expressivo e muito bem argumentado. Se a gente for atrás de todas as barbaridades, descobriremos muitas coisas cabeludas da Veja. Infelizmente o ser humano vai de encontro aonde é mais fácil, e muitos se conformam com o que vem, com o que lêem, com o que escutam e com o que falam.
    Deixei de ler a Veja por muitos motivos, e sinceramente? Não sinto falta. Como diz o comentário acima, a reportagem sobre o Che foi de dar náuseas!
    Voltarei logo pra facu sim, sinto uma falta enorme! Preciso voltar rápido, pois estou na
    área e a empresa nem sabe que tranquei esse semestre!

    Um cheiro e uma ótima semana!

  4. 13/10/2008 às 9:16 pm

    Opa Marcelo;
    Agradeço a visita e parabenizo pelo ótimo texto !
    Estamos juntos nessa !
    Abraço forte !

  5. Cleiton
    13/10/2008 às 1:48 pm

    Gostei muito do texto.

  6. Eduardo
    12/10/2008 às 2:37 am

    Dentro todos os posts, este é o mais característico da intelectualidade do jovem Marcelo.

    Gostei do texto. Faz pensar sobre o panfletarismo acima da informação na imprensa.

  7. 12/10/2008 às 1:41 am

    Marcelo!
    Esperei por este artigo. Posso dizer, estou satisfeita… meu Deus do céu, Dom Hélder Câmara é meu herói! Sinceramente, não li esta matéria da Veja, até porque há tempos não leio esta revista. Mais precisamente depois da “homenagem” da Veja à Che Guevara, homenagem em que o repórter conseguiu a proeza de ferver um rim para sentir o seu cheiro e dizer que este era o cheiro de Che, não consigo mais. Me dá ansia mesmo, aquela, de vômito! Sou seguidora da Teoria da Libertação, como boa Pejoteira, ainda que um tanto afastada de minhas funções. E quanto à educação, nem vou falar nada… senhor! Quanta desinformação… enfim, parabéns pela ousadia, pela postagem e pelo blog! Fantásticos!
    Beijãos da Rakky!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: