Início > Artigos, Observando a imprensa, Política e/ou politicagem > [Idéias avulsas] A história e o revanchismo

[Idéias avulsas] A história e o revanchismo


Seguinte: durante algum tempo, tive um blog no UOL. Seu nome: Idéias Avulsas. O endereço só era atualizado esporadicamente e o seu conteúdo bem irregular. Por isso, tomei a drástica decisão de apagá-lo em definitivo. Do naufrágio, só salvei dois textos que, por tratarem de temas não tão vínculados ao noticiário do dia-a-dia, mas de assuntos mais frios, permanecem interessantes e merecem melhor sorte aqui no Idéias e etc. Serão republicados na ordem cronológica e todos foram revisados para eliminar os erros gramaticais. Mantive, entretanto, o conteúdo intacto. A edição também foi aprimorada. As imagens  não constavam da versão do Idéias avulsas. O outro texto será republicado na próxima terça feira.

Um comentário importante sobre este artigo: ele foi escrito na ocasião do lançamento de um livro em que o Estado Brasileiro reconhece os crimes cometidos na Ditadura Militar. A obra ganhou grande repercussão na imprensa, mas um bocado inviesada como vocês poderão ver. No penúltimo parágrafo, eu escrevi que não existia a intenção de rever o processo de anistia. Essa frase poderia ser válida naquele contexto, mas hoje existe, sim, o interesse do Ministério Público e de algumas entidades de direitos humanos de repensar essa legislação. Em tempo: reparem que não é de hoje que este escriba desce o cacete na Revista Veja…

Cartaz da campanha pela anistia

Cartaz da campanha pela anistia

[ Publicado no Idéias avulsas no dia 14/09/2007 ás 15h e 40]
Um dicionário online define revanchismo como “tendência para a vingança; espírito de desforra, particularmente de carácter político”. Nas últimas semanas, esse substantivo masculino foi muito usado pelos militares brasileiros e, por alguns setores da imprensa, para qualificar o livro-relatório “Direito à memória e à verdade” produzido pela comissão especial de mortos e desparecidos políticos. E foi muito mal empregado na opinião desse blog. Antes de compreender os motivos, é preciso refletir sobre alguns elementos dessa obra.
Mesmo não lendo o livro – o que pretendo fazer brevemente- e seguindo apenas as resenhas publicadas na imprensa, é possível constatar que a obra não traz nenhuma novidade que já não seja de conhecimento dos historiadores. Muitas dessas informações já tinham vindo a tona no projeto “Brasil: Nunca Mais”, obra lançada pela Arquidiocese de são Paulo, em 1985, quando a ditadura representava um passado muito próximo. Os setores militares também não gostaram do que leram, ainda mais porque a principal fonte do BNM foram os inquéritos produzidos pela própria justiça militar. Para quem não leu, o livro contém descrições aterradoras das torturas praticadas nos porões da Ditadura. Nos quartéis, também foi chamado de revanchista

Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre as duas obras: o livro lançado nesse ano carrega a chancela do Estado Brasileiro. Ou seja, pela primeira vez o governo reconhece os crimes cometidos no passado. Um reconhecimento tardio, mas que serve de alento para as famílias das vítimas da Ditadura; muitas delas ainda em busca de informações sobre o paradeiro dos seus entes queridos. Mas, afinal de contas, por que algumas pessoas insistem em classificar o livro como “revanchista”?

Convido o leitor para reler a definição de revanchismo nas primeiras linhas deste artigo. Por acaso, conseguiu encontrar alguma “tendência para vingança; espírito de desforra”? Espero que não. Pois você estaria considerando a própria História do Brasil revanchista. Na prática, é isso que faz quem qualifica o livro com esse substantivo. Nele, está apenas o registro de um momento negro do nosso passado, em que pessoas foram torturadas ou “desaparecidas”. E, se a obra da comissão é revanchista, todos os historiadores que tratam do assunto, com honestidade, também são.

Poderia haver algum revanchismo se, por acaso, os nossos militares não pudessem contar sua versão ossosdosmilicosda História. Eles podem. E contam aproveitando diversas mídias. Exemplo: a biblioteca do Exército publicou uma coleção chamada “História oral do Exército”, em 15 volumes, onde predomina o depoimento dos militares e de pessoas ligadas ao regime. O único depoente que destoa é o deputado José Genoino (no mesmo livro, aparecem Delfim Neto e um militar, com pedigre de torturador, chamado Carlos Alberto Brilhante Ustra),até a linha dura do exército, em grande parte responsável pelas torturas, tem o seu endereço oficial na internet, que é o TERNUMA, sigla que significa Terrorismo Nunca Mais. Nem preciso dizer que nesse site apenas a esquerda é considerada terrorista.

E não são apenas os militares que propagam essa mistificação. A edição da revista Veja-chamada por Paulo Henrique Amorim de “A última flor do fascio”-, da semana passada, trouxe uma reportagem que parecia ser escrita por um porta voz da linha-dura. Embora o texto considere justo o desejo dos familiares em pleitear informações sobre os seus entes queridos, e entenda a abertura dos arquivos como “um passo importante”, começou a descambar quando viu o risco de aparecer “fissuras no terreno da democracia”. Onde? Deixemos que a própria revista Veja nos diga:

O ministro da Defesa, Nelson Jobim (…)avisou “Que as Forças Armadas brasileiras recebam este ato [de lançamento do livro] como absolutamente natural. Não haverá indivíduo que possa a isso reagir e, se houver, terá resposta” Os militares reagiram. Classificaram a frase de Jobim de “afronta desnecessária”. De fato, foi. A lei da Anístia, promulgada em 1979, teve o mérito da eqüidade

Em primeiro lugar, o ministro Nelson Jobim teve uma postura correta nesse episódio pois, provavelmente, imaginava reações pesadas da ala radical do exército. Faltou a ele, entretanto, fazer valer sua autoridade. Tenho contato com algumas pessoas das forças armadas e estas me disseram que a moral do ministro, junto à tropa, está próxima de zero. Em segundo lugar, a reportagem usa uma argumentação furada, principalmente quando evoca a lei da anístia. Que eu saiba, não existe nada nessa lei que impeça o relato do que aconteceu nos porões da ditadura. Nem ninguém cogita alguma mudança nessa lei que surgiu num contexto histórico merecedor de um exame mais apurado. Fica para uma próxima oportunidade.

Por hoje, ficamos satisfeitos em desmistificar aqueles que consideram o passado de uma nação “revanchismo”. Esss postura, aliás, é muito freqüente em certos grupos políticos que não gostam de ver o reflexo de sua imagem no espelho impiedoso da história. Insatisfeitos, eles tentam reescrevê-la. Ainda bem que essas tentativas são em vão. Sempre vai existir aqueles que consertarão o espelho trincado.

Serviço

Livro direito à memória e à verdade
Site da biblioteca do Exército: http://www.bibliex.com.br/
Site do Ternuma: www.ternuma.com.br

Anúncios
  1. Bruna Fernandes Gonçalves
    25/10/2009 às 2:17 pm

    Bom,primeiramente gostaria de te parabenizar por lutar de certa forma pela verdadeira história do nosso país,nessa época de injustiças e torturas…
    Eu estou fazendo um trabalho sobre a ditadura militar,e pretendo destacar no trabalho a Anista no Brasil,mas estou com dificuldades para compreender a quem realmente a Anistia favoreceu,e quais cidadãos foram desfavorecidos com essa Lei,Sou do 3° ano do colegial,e é a primeira vez que estudo sobre esse assunto e me interessei muito com essa parte da história brasileira,pretendo me aprofundar bastante nesse estudo da ditadura militar e gostaria de pedir a sua ajuda.
    Desde já agradeço…
    Bruna Fernades.

  2. Edu
    07/12/2008 às 12:55 am

    Bom saber que não é de hoje que este escriba está engajado com esses assuntos.
    A linguagem não mudou do ano passado pra cá. Já definiu seu estilo.

    Ai se a Abril descobre este blog…

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: