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Um dinossauro (medieval) vagando no senado federal


O nome do dinossauro é José Sarney e quem descobriu sua ascendência jurássica, e medieval, foi a revista britânica The Economist na edição de 5 de fevereiro de 2009. A reportagem vale ser citada por dois motivos: é um excelente trabalho jornalístico e deixou o personagem principal possesso. E com toda razão. A Economist traça um perfil impiedoso e exato do bigodudo que nos dias de hoje preside o senado federal do Brasil.

Sarney usando suas vestes medievais

Sarney usando suas vestes medievais. Fonte: ABL

A reportagem é uma cacetada do começo ao fim. Começando pelo título “Quando os dinossauros ainda vagam” e pelo subtítulo “A vitória do semi-feudalismo”. A matéria começa lembrando alguns dados da vida política de Sarney; os repetidos mandatos como deputado, governador e senador e também descreve o “modo acidental” – palavras da Economist -, que o fez ser presidente da república. Depois classifica como “semi-feudal” a sua maneira de fazer política e que isso contribui para o retrocesso de muitas regiões do Brasil. A revista lembra que Sarney chegou a presidência do Senado com o apoio de Lula e que ele tem em suas mãos o controle da agenda política do país.

A parte mais impactante é a descrição da miséria do Estado do Maranhão. Vale a pena reproduzir um trecho traduzido pela BBC Brasil:

O centro de São Luís está decrépito. As ruas estão cheias de buracos e a cidade conta com um número extraordinário de flanelinhas. Só no mês passado, houve 38 assassinatos na cidade de 1 milhão de habitantes. Os avanços educacionais no Estado são ruins. Sua taxa de mortalidade infantil, de 39 por mil nascidos vivos é 60% mais alta do que a média brasileira

A revista também comenta que no interior  “o atraso é mais evidente” e cita como exemplo uma cidade chamada Sangue onde “muitas pessoas vivem em casas de um só cômodo, cujo telhado é feito de folhas de palmeiras, e que não têm nem água nem eletricidade”. O autor não deixa passar nada e lembra que Sarney é dono de uma retransmissora da TV Globo e fala, inclusive, do uso político da emissora dos Marinho. Segundo a Economist, nos intervalos das novelas são exibidas reportagens favoráveis ao dono da emissora. Para fechar com chave de ouro, a revista sugere que está na hora do bigodudo se aposentar.

O dinoss…, digo, o Zé Sarney, claro, não gostou nada do que leu na revista britânica. Segundo a Folha de S. Paulo, ele contratou advogados na Inglaterra e escreveu uma carta questionando a matéria. Um trecho da missiva:

A história julgará meu papel, mas sou reconhecido como o presidente da transição democrática, da convocação da assembleia constituinte e que priorizou o desenvolvimento social, o que permitiu o surgimento de uma sociedade verdadeiramente democrática e levou um operário a ser eleito presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Ou seja, Sarney se sente responsável pela eleição do Lula, pela democracia no Brasil e pelo desenvolvimento social. Logo ele que, em 1964, participou ativamente da conspiração que derrubou o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário por vinte anos; só abandonando a nau da ditadura quando esta já estava cheia de furos e a transição democrática era um processo irreversível. A carta deste grande democrata brasileiro foi publicada no site da Economist e, provavelmente, estará também na versão impressa.

Por aqui, o episódio mereceu uma cobertura precária dos meios de comunicação. O Idéias e etc procurou pela notícia nos sites dos principais meios de comunicação. De modo geral, todos trataram do assunto, mas sem muita profundidade e, principalmente, sem destacar os pontos principais da matéria da Economist. Só de sacanagem, procuramos também no jornal O Estado do Maranhão, cujo dono é o Sarney. Lá só achamos uma notícia, com o título “Economist publica resposta de Sarney”. O conteúdo é fechado aos assinantes do jornal, mas não é preciso grande imaginação para saber do que se trata. É uma vergonha para os jornalistas brasileiros que uma publicação inglesa consiga ter uma visão mais realista da política nacional. Não por acaso, quem cobriu melhor o assunto foi a BBC Brasil, num texto onde estão reproduzidos os principais trechos da reportagem.

Nota histórica: o Feudalismo surgiu logo com o início da Idade Média por volta do século V. Existiam duas grandes classes nesse regime: os servos e os senhores feudais. Embora seja incorreto definir os servos como escravos, pois eles não eram vendidos, existia uma série de obrigações destes para com os senhores feudais. Eram obrigados a pagar uma série de impostos, inclusive pelo uso das benfeitorias das fazendas; os servos tinham, de modo geral, um pequeno pedaço de terra, e, novamente, tinham que entregar parte da produção para o dono da terra. O título de senhor feudal era hereditário e quem nascia servo era servo até o fim da vida. Na Europa, o Feudalismo durou até o século XV. No Brasil, em pleno século XXI, ele ainda persiste em alguns grotões do país. Será que um dia teremos o nosso Renascimento?

Para finalizar, um trecho de uma crônica, do Sebastião Nery, sobre o Sarney intitulada “O Boi-bumbá do senado”:

No Maranhão, para nascer, maternidade Marly Sarney. Para morar, vilas Sarney, Kiola Sarney ou Roseana Sarney. (…) Para saber noticias, leia ‘O Estado do Maranhão’, ligue a TV Mirante ou as rádios Mirante AM e Mirante FM, todas de José Sarney. (…) Não gostou de nada disso? Quer reclamar? Vá ao Fórum José Sarney, procure a sala de imprensa Marly Sarney ou a sala da Defensoria Publica Kiola Sarney. (…) Desde Calígula, quem sabe Nero, nunca se viu gente tão abusada. E Sarney acha pouco. Agora, quer ser o Boi-Bumbá do Senado.

Clique aqui e leia a íntegra do texto.

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  1. Eduardo
    22/02/2009 às 11:39 pm

    Genial!!!
    Muito bom, Marcelo!

    Nesse texto você reuniu praticamente tudo que uma opiniçao precisa. Que pesquisa!!!

    Ele se diz o homem que redemocratizou o país, mas esquece que contribui para o regime autoritário. Política e suas circunstãncias. Vamos para onde o vento sopra mais.

  2. 22/02/2009 às 1:58 am

    Grande Marcelo!
    Um jornalista pronto escreve este blog com a dedicação e a precisão necessárias para tal tarefa. Não só Sarney não é responsável por nenhum dos “grandes feitos” que citou em resposta ao Economist, como representa uma vergonha para o Senado brasileiro, e também para a democracia, a mesma pela qual se acha responsável. Apesar de eu preferir os termos “susserano” e “vassalo” para falar do Feudalismo, a matéria está perfeita. Te vejo daqui a dez anos, liderando um grande veículo!
    Beijãos da Rakky &*

  3. Vinícius Mendes
    20/02/2009 às 9:59 pm

    Excelente ! Um texto dotado de muita pesquisa, procura e uma opinião fabulosa. A respeito do tal dono da fanfarra maranhense, vale salientar as inúmeras acusações que já foram colocadas em seu nome desde a época que foi presidente do país, num período que todo mundo queria o cargo, que o diga o senhor Senior Abravaneel !

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