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A bruxa no ponto de ônibus ou Divagações num Domingo à noite


É noite na avenida Paulista. Noite abafada, com pouco vento para amenizar o calor sufocante. Meu ânimo não está dos melhores. Minha auto-estima e o amor próprio, que de modo geral não atingem grandes escalas, estão abaixo de zero. Saí de casa com o intuito de assistir uma comédia em um teatro, mas, por incrível que possa parecer, não achei o bendito estabelecimento. Prefiro não buscar muita explicação para certas coisas que acontecem comigo.

Chego ao ponto de ônibus, dou uma olhada para o trânsito e fico ainda mais deprimido. Está praticamente parado. Motivo: a prefeitura resolveu fazer uma reforma nas calçadas da avenida Paulista e escolheu o horário de Domingo à noite como o mais propício para a empreitada. A escolha tem sua lógica, mesmo assim o transtorno é inevitável. E eu estou louco para chegar em casa. Diante do caos na minha frente, o jeito é se munir de alguma paciência e aguardar. É o que me resta.

Olho ao redor e reparo numa figura peculiar. Tem os cabelos longos, desgrenhados, com a impressão de não receberem os cuidados mínimos há muito tempo. Seu rosto é envelhecido, mas não é necessariamente feio. É diferente. Não me surpreenderia se sua certidão de nascimento indicasse alguns anos a menos que o seu visual aparenta. Sua roupa é completamente preta, o que certamente não lhe deixa mais jovial. O conjunto de sua figura me remete a imagem de uma bruxa de conto de fadas – uma bruxa gótica, digamos assim. Confesso sentir uma sensação ruim ao olhar para a Bruxa gótica. Resolvo que vou ignorá-la. Olho mais uma vez para o trânsito; meu ônibus não dá nem sinal de vida.

A mente, então, viaja em algumas divagações sobre os próprios pontos de ônibus. Qualquer dia, escrevo uma tese sobre o assunto. Quem sabe poderia explicar certos eventos que acontecem nesses lugares. Exemplo: num dia você precisa de uma determinada linha de ônibus. Ela, só para variar, demora em chegar. Na outra vez que você for no mesmo ponto de ônibus, precisando de uma outra linha, aquela outra que você precisava é a primeira que aparece. Só pode ser provocação. A lei de Murphy, talvez, explique.

Os meus olhos não obedecem ao cérebro e interrompem minha divagação para registrar algo que eu não tinha reparado na Bruxa gótica. Ela carrega em suas mãos uma enorme pasta preta, com muitos papéis dentro. Ela se aproxima de algumas pessoas, oferece sua insólita mercadoria e recebe, de modo geral, um “não” juntamente com um olhar assustado. A bruxa, resignada, se aproxima dos assentos onde um gato está com a coleira amarrada na base de ferro que sustenta os bancos do ponto de ônibus. Ao lado, dentro de uma caixa, está um cachorro de porte médio. A bruxa faz um carinho nos dois animais. Chama pelos seus nomes. Deduzo, sem muita dificuldade, que aqueles são seus bichos de estimação.

Não sou o único que presta atenção nessa figura singular. Os demais passageiros também a notaram e acompanham cada passo seu. Ás vezes, uma senhora mais idosa murmura um “Cruz credo” ou um “Deus me livre” olhando para a Bruxa gótica. Um homem ao meu lado, que também a observava, resolve puxar assunto:

– Estão bem tratados os bichos, hein?

– É verdade – respondo. O homem estava disposto a falar:

– Essa aí parece até minha ex-mulher. Ela adorava animais de estimação, tinha cachorro, gato, papagaio… Minha casa parecia um zoológico. Não que eu não gostasse de animais, veja bem… Gosto muito. O problema é que minha ex-mulher gostava mais dos bichos do que de mim. Você acredita que ela queria dividir a cama com o nosso cachorro? Era um inferno! Quando eu estava gripado, ela me mandava dormir no sofá para não contaminar o cachorrinho. Um dia me enfezei e disse: ou ele ou eu! Ela ligou na mesma hora pro advogado pedindo a separação. Foi até melhor, sabe… Dividir a cama com aquele ser pulguento -eu tô falando do cachorro-, era horrível…-o homem deu uma risada e completou- com essa aí deve ser a mesma coisa. Entre o marido e os bichos ela não deve ter nenhuma dúvida…

Dito e feito. Alguns instantes depois, nós ouvimos uma conversa da Bruxa com uma mulher. Ela dizia que sua mãe detestava animais de estimação. As duas brigavam muito, até o dia que se cansou da sua progenitora e fugiu de casa. O meu recente amigo olhou para mim com ar superior, como se dissese “Viu, eu estava certo garoto!” Depois de oferecer sua mercadoria para todo mundo, chegou a nossa vez. Com voz tímida, ofereceu:

– Uma mensagem, amigo? Só R$ 0, 50.

Eu olhei com alguma curiosidade para aquela maçaroca de papéis. Alguns traziam mensagens edificantes ou religiosas; muitos deles com uma imagem de Jesus Cristo, outros falavam da importância de se amar incondicionalmente a natureza. Polidamente, recusei a oferta. O meu recente amigo também deu uma olhada, puxou conversa, mas, pelo que eu posso me lembrar, não comprou nenhuma das suas mensagens. Hoje, passado alguns meses desse evento, me arrependo. Seria uma prova concreta da existência da Bruxa gótica. Nem sei ao certo porque não comprei nada. Talvez, eu não tenha conseguido me livrar da má impressão.

O certo é que o tempo passava, os outros ônibus também passavam, só o meu não passava. Paciência, é preciso ter paciência. Eu e o meu recente amigo começamos, então, uma conversa típica de ponto de ônibus. Ele me contou qual o itinerário para chegar em sua casa; falou da opção pelo metrô, mas estava temeroso por julgar esse meio de transporte um tanto inseguro num Domingo á noite. Eu falei da demora da linha que eu pego para chegar em casa e que, se bobear, a dele chegaria primeiro. Novamente, dito e feito. Nem bem eu terminei de dizer isso, o meu recente amigo fez sinal para o seu ônibus parar. Desejou boa noite e seguiu o seu caminho.

Me senti ainda mais sozinho. Afinal, de um jeito ou de outro eu estava me divertindo com aquela conversa. Fiquei imaginando aquele sujeito dividindo a cama com sua mulher e o cachorro da família. Se fosse uma raça de pequeno porte, vá lá; mas se fosse um cão um pouco maior a coisa poderia ser bem desconfortável. Também fiquei curioso em perguntar como faziam para transar com um cachorro entre eles. Praticavam zoofilia? Contudo, o bom senso falou mais alto e guardei o questionamento apenas para mim. O homem poderia não gostar muito de uma pergunta tão íntima de um completo desconhecido. Pronto, agora estou divagando sobre a vida sexual alheia. É melhor dar uma olhada para o trânsito para ver se o meu ônibus aparece.

Não, nem sinal dele. Sozinho, minha atenção volta, novamente, para a Bruxa e os seus amiguinhos. Olho para a caixa e reparo que dentro dela não tem apenas um cachorro, mas dois, sendo o outro um filhote. Era curioso acompanhar o comportamento dos bichos. O cachorro médio era calmo, ficava no seu canto como se tivesse se conformado com sua situação. O gato, entretanto, não parava 1 minuto quieto. Dentro do possível, andava para um lado e para o outro. Agoniado, tentava se livrar da sua coleira. De vez em quando, a Bruxa se aproximava dele e conversava com o bicho. Fazia carinho, mas não deixava de chamar a atenção quando julgasse necessário. Os animais também atraiam a curiosidade das pessoas que andavam pela calçada. Um grupo de adolescentes parou e ficou brincando com o cachorro. O cão grunhiu um pouco. A bruxa apenas espreitava. Quando eles foram embora, falou alto para quem quisesse ouvir:

– Eu falo, eu falo… não mexe com o meu cachorro que ele não ataca ninguém. Mas ficam aí atiçando, depois leva uma boa mordida na bunda e eu sou a culpada…

Uma mulher quis saber sobre a alimentação dos animais. A bruxa respondeu:

– O mais velho é muito mimado. Só quer saber de ração e, pior, não pode ser qualquer raçãozinha mequetrefe não. Só quer saber de coisa boa. O filhotinho eu tô ensinando, desde pequeno, a comer comida normal pois eu não posso bancar sempre ração. O gato come de tudo. De vez em quando, até uns ratos viram almoço – aproveitou a oportunidade e deu o bote -, A senhora poderia me ajudar com uns trocados para comprar a ração deles?

Sem ter para onde fugir, a mulher enfiou a mão no bolso e deu algumas moedas para a Bruxa que agradeceu dizendo “Deus te abençoe”.

É curiosa essa relação entre as pessoas e os animais. Muitos seres-humanos, inclusive crianças, mendingam pela Paulista e nunca percebi o mesmo olhar curioso, a mesma preocupação em saber se estão alimentados ou não. Vivem de uma esmola aqui ou acolá. Não que eu ache que os animais abandonados não mereçam atenção e cuidado. Merecem, claro. Mas eu tenho para mim que eles conseguem se virar melhor que o homem abandonado. No sufoco, rasgam um saco de lixo e comem o que encontrar dentro.

Também é curiosa a relação do ser-humano com o seu bichinho de estimação. Acho a maior graça quando vejo alguém se referindo ao seu cachorro ou gato como “meu filho” ou então “Vem com a mamãe, Fifi” Até aí, tudo bem. É um jeito inusitado de incluir os animais domésticos na árvore genealógica da família. O que me incômoda são alguns casos extremos. Como certas socialites que fazem festa de aniversário para os seus animais, com direito a bolo de ração e o escambau. É futilidade demais para o meu gosto.

Certa vez, num desses programas matutinos de televisão, eu vi o caso mais extremo envolvendo o homem e os animais de estimação. A pauta da reportagem era sobre pessoas que tinham bichos exóticos em casa. A história mais curiosa era de uma mulher, dona de uma fazenda, que criava duas…  macacas. Já não lembro direito os detalhes, mas alguns momentos dessa reportagem são inesquecíveis. A dona da fazenda mantinha toda uma estrutura para os animais, incluindo alguns tratadores. Lá pelas tantas, a repórter, entrevistando uma funcionária que preparava uma mamadeira para as macacas, faz uma pergunta assombrosa e recebe uma resposta do mesmo quilate:

– Quem você gosta mais de cuidar de bebês ou das macaquinhas?

– Ah, eu gosto mais das macacas, claro…

Depois, a dona da fazenda mostrou o quarto onde as duas macacas dormem. Como se estivesse falando das suas filhas, ela comentou que uma era mais temperamental e demorava mais para dormir, enquanto a outra tinha um sono de princesa, digo, de macaca. No quarto, tinha uma televisão. A “dona” dos simios não deixou de indicar qual o programa predileto das suas “filhas”- era assim que a dita cuja se referia aos nossos ancestrais:

– Elas adoram os documentários sobre bichos do Discovery Channel. Assistem com uma atenção…

Pensei com os meu botões: devem assistir com inveja, isso sim, pois os seus primos estão em liberdade, enquanto elas estão naquele cativeiro de luxo. Mas eu divaguei – e como!!! É hora de voltar a atenção para o trânsito caótico na minha frente.

Olho para a fila de ônibus e vejo despontar no horizonte a linha que eu aguardo desde o começo desse texto. Já não era sem tempo… Alguns minutos depois, a condução já está parada na minha frente. Antes de entrar, dou uma última olhada para a bruxa gótica. Um misto de sensações me invade: sim, eu estou muito feliz em poder voltar para casa. Ao mesmo tempo, tenho a nítida impressão que nunca mais vou ver a bruxa e os seus amigos na minha vida. E isso me deixa triste. Começo a pensar na história de vida que eu poderia conhecer melhor se não ficasse com as minhas divagações inúteis.

Entro na condução. O ônibus esta vazio. Posso escolher o lugar e eu sempre escolho perto da porta. Sentado, eu penso na quantidade de pessoas que a gente conhece apenas superficialmente nas grandes cidades; seja puxando conversa num ponto de ônibus, na fila de um banco, nos transportes coletivos e etc. Quantas histórias incríveis a gente não deixou passar pela pressa cotidiana? Ah, e que bela reportagem renderia a bruxa gótica! Já me imaginava recebendo o prêmio Esso pela história da mulher que abandonou tudo para cuidar dos animais…  Não, eu nunca mais vou encontrá-la; estou divagando novamente… Seria tudo uma imensa divagação? Incluíndo a bruxa, o meu recente amigo e a reportagem que eu vi, juro que vi, num programa matutino de televisão? A vida é uma imensa divagação?

Mas eu divago…

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  1. Edu
    27/02/2009 às 1:02 am

    Marcelo, arrasou, mano!
    Muito boa!

    Cara, você consegue prender o leitor nesta crônica. Não dá para parar de ler.
    Gostei do estilo. Pegou um lado bem literário que pouco se vê por aqui.

    Em suma: foi muito bom.
    Agora sei como valeu ter paciência para concluir esse belo texto, e para esperar o ônibus.

  2. Vinícius Mendes
    26/02/2009 às 8:31 pm

    Marcelo, crônicas se aproximam mais de minha experiência, então posso dizer como conhecedor de causa: está muito bom! Gostei especialmente do tempo em que ela acontece. Um personagem comentando sobre sua impaciência e a espera pelo ônibus, que é a causa principal das divagações do protagonista. No geral, a sua crônica é uma conversa com o leitor, na onde ele se procura no mundo, no ambiente, na avenida Paulista. Percebi também se tratar de um auer-ego seu. O personagem ver em tudo uma reportagem, puxar papos intelectuais com outras pessoas e até a paciência em esperar o ônibus são típicoos do meu caro amigo Marcelo.

    Gostei mesmo cara, parabéns.

  3. 26/02/2009 às 4:03 am

    meu Deus do céu! Olha só isso: “Exemplo: num dia você precisa de uma determinada linha de ônibus. Ela, só para variar, demora em chegar. Na outra vez que você for no mesmo ponto de ônibus, precisando de uma outra linha, aquela outra que você precisava é a primeira que aparece. Só pode ser provocação. A lei de Murphy, talvez, explique.”

    JURO que eu achei que isso só acontecesse comigo! Sério mesmo! uahauhauhau
    Mas é a Leide Murphy! Ou aquela do gato voador! rsrsrs
    Agora, falando sério. Tá muito legal a crônica… só não sei ainda dizer se isto realmente aconteceu ou se foi só divagação… mas, você divaga…

    Beijãos da Rakky

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