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A “Folha” e o neologismo infame


Poucas vezes um editorial causou tanta polêmica. Na terça feira, dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de São Paulo, sob o pretexto de criticar o plebiscito na Venezuela, cometeu o seguinte texto:

Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.

Nos dias seguintes, choveram cartas de protesto por causa do “ditabranda”. Dois importantes intelectuais brasileiros, Fábio Konder Comparato e Maria Victória Benevides, também enviaram as suas críticas. A resposta do jornal foi na jugular:

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.

Dentro do jornal, também houve quem se manifestasse contra a posição da empresa. Fernando de Barros e Silva, editor do caderno Brasil, e o colunista Juca Kfouri criticaram o editorial. No caso deste último, com conhecimento de causa. Kfouri participou ativamente da resistência ao arbítrio.

Não é preciso gastar muito latim para explicar o porquê esse neologismo da Folha é infame. Basta ler qualquer livro didático de História. Mesmo assim, a blogosfera desmontou o assunto em todos os seus matizes. Três textos do Luis Carlos Azenha são especialmente interessantes: no “A escolinha do professor Kamel” ele lembra que não é só a Folha que tenta reescrever a História, mas a Rede Globo também gosta de criar sua própria versão do seu passado. Fantasiosa, de modo geral; no “Por que não devemos falar em ditabranda” o Azenha prova que tem vocação para historiador. Baseado em trechos de documentos, ele desmonta, com grande requinte, a tese de que a esquerda foi a única vítima do regime militar; por último, no texto “Que fantasmas assombram a Folha?” ele toca numa questão sensível: a colaboração do jornal ao regime militar.

Aqui, é importante fazer um parênteses. Todos os veículos de mídia apoiaram o golpe de 1964 que foi comemorado em inúmeros editoriais. No segundo link, o Azenha disponibiliza um texto em que o jornal O Globo celebra a deposição de Jango. Roberto Marinho, aliás, foi um golpista de primeira hora participando ativamente das conspirações que culminaram na Ditadura Militar. No caso da Folha, essa colaboração extrapolou o apoio nas reportagens e editoriais. Existem indícios consistentes que o jornal cedia sua vans para o aparelho repressivo transportar os presos políticos. Quem afirma isso com todas as letras é Mino Carta, numa entrevista de 2004. Um trecho e o link para a íntegra:

A Folha de São Paulo não só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]. Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era sócio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha relações muito íntimas com os militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha –  o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] – esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal.

Já Rodrigo Vianna, ex-repórter da TV Globo, traz em seu blog o testemunho de Ivan Seixas, um sobrevivente das masmorras do DOI-Codi, sobre a participação de outro jornal do grupo Folha no apoio ao regime militar. Reproduzo um trecho com os grifos do original:

Na madrugada do dia 17 de abril de 1971, poucas horas após a prisão dele e do pai, policiais a serviço da “ditabranda” tiraram Ivan da prisão para um “passeio” por São Paulo. (…) Os policiais – polidos como só acontecia na “ditabranda” brasileira – dispararam várias vezes bem ao lado da cabeça de Ivan. Ele fechava os olhos e tinha certeza que morreria: tortura terrível. (…)

No caminho para o Parque do Estado, os funcionários da “ditabranda” pararam numa padaria, na antiga Estrada do Cursino. Desceram pra tomar café, deixando Ivan no “chiqueirinho” da viatura. Foi de lá que Ivan conseguiu observar a manchete da “Folha da Tarde” (jornal do grupo Frias), estampada na banca bem ao lado da padaria: o jornal anunciava a morte do pai dele, Joaquim.

Prestem bem atenção: a “Folha da Tarde” do dia 17 trazia manchete com a morte de Joaquim – que teria ocorrido dia 16. Só que, ao voltar de seu “passeio” com os policiais, Ivan encontrou o pai vivo e consciente, nas dependências do DOI-CODI. Joaquim só morreria – sob tortura – no próprio dia 17

Ou seja, o jornal da família Frias já sabia que Joaquim estava marcado pra morrer, e “adiantou” a notícia em um dia. Detalhe banal.

A Folha da Tarde, citada pelo Vianna, era tido como um jornal que dava ampla sustentação ao regime militar. Vários dos seus colunistas eram ligados ao exército. Para vocês terem uma idéia, foi uma das poucas publicações que deu credibilidade para a inacreditável versão oficial para a morte de Vladimir Herzog.

Com todos esses ossos no seu armário, o “Ditabranda” transforma-se numa quase bobagem, uma brincadeira de criança. Mas deve ser encarado com muita seriedade. Não é possível permitir que se brinque desse jeito com a História Brasileira. Agora, reparem num detalhe curioso: o Estadão que, em tese, é um jornal muito mais conservador que a Folha nunca relativizou o regime militar, sempre chamou a ditadura militar de…  ditadura. Já a Folha, que é considerada mais “progressista”, comete uma lambança dessas. Coisas da imprensa tupiniquim.

Em tempo: inspirado pelo “ditabranda”, o cartunista Latuff criou a imagem abaixo. Ela contém algum humor negro, mas não maior que o do neologismo criado pela Folha

herzog

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  1. Vinícius Mendes
    16/03/2009 às 2:23 am

    Sim… não foi o papel de um joornal grande como a Folha de São Paulo, que tem que prezar pela qualidade até mesmo de suas críticas.

    Sobre a charge: simplesmente IMPRESSIONAANTE!
    Uma das melhores que jaá vii!

    Você é muito bom meu caro amigo!

  2. Edu
    15/03/2009 às 2:28 am

    Muito bom, Marcelo!!!

    A “Folha” realmente pisou na bola com esse termo. Algo me diz que há algo por trás desse editorial (como se a Folha estivese querendo angariar apoio de certas ideologias políticas).

    Se não me engano (caso esteja, por favor, me corrija), não foi esse mesmo jornal que encabeçou a luta pelas Diretas???
    E agora me faz uma coisa dessas… Lamentável!

  3. 14/03/2009 às 5:50 pm

    muito bom o texto! é bom pra lembrar o cinismo da mídia brasileira…
    ( eu conheci o latuff em janeiro, na passeata contra os ataques de israel na palestina, na cinelândia… adoro os cartuns dele)

  4. Alberto Fabiano
    05/03/2009 às 1:00 am

    Belo apanhado, mas me coloco a pensar, o sucesso do lançamento do míssil espacial VLS-1, no dia 20 de outubro de 2008 não teve grande impacto na mídia; isto por causa da crise financeira, OK. Mas porque desta vez este míssel ditabranda causou assim tanta repercussão? Afinal, a bomba da crise financeira ainda não foi desarmada.

    Para aqueles que analisam com cuidado, diariamente vemos festivais de imparcialidades jornalísticas – umas aceitáveis outras bastante incômodas pois afetam a expressão da verdade – ficando nítido muitas vezes a escassez do jornalismo inteligente e investigativo. Entendo este como um bolo amargo com cobertura de omissões e recheio de preconceitos que incomoda muitos leitores, mas que também entorpece outros sendo alguns fãs de certos “difamadores travestidos de jornalistas” deixando outros num transe que parece ser ad eternum. Acredito que foi a ousadia desavergonhada e principalmente a falta de respeito protegida pelo escudo do anonimato que tenha causado tamanha repulsa, tirando até alguns deste transe hipnótico, outras da letargia, aguçando alguns históricos críticos e causando tamanha repercursão.

    Fico revoltado ver tanta gente ainda manifestando simpatia com a ditadura, pois ela foi bom para seus negócios e porque seus amigos e familiares não foram afetados; o que estas pessoas queriam? Que não centenas mas sim milhares, milhões de pessoas fossem assassinadas, é isto? De qualquer forma, realmente fico um pouco surpreso com esta repercussão deste novo termo vergonhoso que foi cunhado; a tal ditabranda.

    A Folha merece este repúdio? Sim! Mas não é só ela, penso ser necessário uma mega manifestação para que o povo saia deste transe e para que mídia deixe de ser parcial e hipócrita. Mas vamos dar um passo por vez, não vamos ter uma overdose de decepções.

    Mas antes decepção pela liberdade de expressão do que pela falta dela.

  5. 04/03/2009 às 7:52 pm

    Muito bom o apanhado de matérias, Marcelo. Bem esclarecedor.

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