Missa macabra


Quarta feira, 6 de maio de 2009. Igreja Nossa Senhora de Fátima, bairro do Sumaré, São Paulo, capital. Nessa data e local, foi realizado um dos eventos mais surreais que eu tive notícia nos últimos tempos: uma missa em memória do delegado Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador dos anos de chumbo. As revistas Época e Caros Amigos trazem excelentes relatos sobre esse, digamos, evento cristão…

Antes dos detalhes da missa, é importante traçar um breve perfil do homenageado. Também conhecido como “Doutor Barreto”, codinome que o delegado utilizava nas sessões de tortura, Fleury era um dos mais temidos agentes da repressão. Sua ficha corrida justificava a fama. O delegado participou ativamente da operação que matou Carlos Marighela; foi o mentor do “esquadrão da morte”, grupo de policiais que fazia sua própria lei, julgando, condenando e matando centenas de pessoas. Fleury construiu um sistema repressivo dentro do próprio aparato repressivo, onde os presos políticos entravam vivos e saíam mortos, enterrados em valas comuns.

Os militares souberam ser gratos por tanta…   dedicação. Em 1973, o delegado foi condenado pelos assassinatos praticados pelo esquadrão da morte. O regime, então, criou a chamada “Lei Fleury” que proibia a prisão dos réus primários. A legislação, praticamente criada sob encomenda, garantiu ao torturador a liberdade. O “Doutor Barreto”, entretanto, teve um fim trágico e misterioso. Foi encontrado afogado perto do seu iate. Mas como o regime não permitiu que se fizesse autópsia, até hoje existe a forte suspeita que o delegado tenha sido “afogado”, do mesmo modo que ele ajudava os presos políticos a se suícidar nos porões do regime.

Agora, voltemos para a missa. Segundo a contabilidade de Época, cerca de cem pessoas se reuniram para rezar por Fleury; Caros Amigos é mais econômica, fala em cerca de setenta pessoas. Os números, nesse caso, importam pouco. É mais interessante descobrir quem se dispõe a sair de casa para rezar pela alma perdida de um assassino, de um torturador. Um trecho da reportagem de Época ajuda a elucidar parte do mistério:

(…) postado na frente da portinha lateral da igreja, por onde todos entram, está o delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º Distrito Policial, conhecido como “Carteira Preta”. Promotor da homenagem a Fleury, ele cumprimenta todos efusivamente e entrega uma espécie de marcador de livro. (…) Augusto organizou tudo: convidou as pessoas, mandou imprimir o folheto, pagou pela missa, por uma organista – que não apareceu – e por um quadro de folhas e flores amarelas e roxas que formava a bandeira do Brasil, colocado ao lado do altar durante a curta celebração. O quadro é ornamentado com uma faixa (daquelas que se usam em velórios) com a frase “Herói nacional”

E quem é esse tal de Carlos Alberto Augusto? Dessa vez, quem responde é a Caros Amigos. Segundo a revista, nos anos de chumbo o sujeito tinha o apelido de “Carlinhos metralha” e, tal e qual Fleury, também era um torturador. Isso explica muita coisa…  Mesmo assim, é difícil acreditar que uma figura como Fleury consiga reunir tantos admiradores. A Caros também traz uma entrevista absolutamente inacreditável com Frei Ives Terral, o responsável por essa celebração. Só lendo para crer.

Esse episódio me lembrou de uma missa que eu fui na mesma Igreja Nossa Senhora de Fátima. Era o tempo em que o Pinochet, um dos mais sanguinários ditadores sul-americanos, estava nas últimas. Naquela parte da celebração em que a comunidade faz a sua prece, o padre, candidamente, pediu para que os fiéis rezassem por Pinochet. Num primeiro momento, pensei ter entendido errado. Mas posteriormente o pároco repetiu o absurdo mais uma vez. Não posso afirmar com absoluta certeza que se trata da mesma pessoa, mas não me espantaria nem um pouco…

É importante fazer justiça: não é toda igreja que é ou foi conivente com a ditadura militar. Durante o regime, alguns setores da igreja católica tiveram um papel importantíssimo na luta contra o arbítrio. Um dos mais lembrados é Dom Paulo Evaristo Arns que, muitas vezes, peitava de frente os aparelhos repressivos. Os frades dominicados também tiveram um papel relevante ao ajudar muitos presos políticos a fugir do país. E pagaram um alto preço por isso. Essa história esta lindamente contada no livro “Batismo de sangue” de Frei Betto. Nele, o leitor fica sabendo das torturas que Fleury infringiu em Frei Tito e das conseqüências, devastadoras, que tiveram no religioso. Mesmo longe do país, no seu exílio forçado na França, Tito sofria com  alucinações onde via o seu carrasco em todo lugar.

Frei Tito não aguentou tanto sofrimento e se suícidou.

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  1. Carlos Alberto augusto
    09/03/2015 às 10:35 pm

    Caros leitores, vejam acima a data 20-6-2009, na época alertei que alguns dos nossos governantes eram ladrões do povo, mentirosos, falsos comunistas, eram piratas. NÃO ME DERAM OUVIDOS ALGUNS IMBECÍS AINDA ME CRITICARAM ATÉ OFENDENDO. Hoje QUEM FAZ AS DENUNCIAIS, É O PROCURADOR GERAL DA UNIÃO, SERÁ QUE O MILI-
    TONTO marcos andrade, vai ler o que escrevi e se retratar. QUEM GOSTA DE COMER GRAMA É BURRO. Mané e Mané,

  2. Marcos Andrade
    28/12/2011 às 8:05 pm

    Assim como Sérgio Paranhos Fleury, Carlos Alberto Augusto foi uma prostituta dos militares. Acredito que essa seja sua real vocação porque como policial, até hoje, mal sabe tocar um inquérito. Mais um torturador covarde que mancha a imagem da polícia civil.

  3. Davi Ferreira
    11/11/2009 às 11:10 pm

    Saudades dos anos de ouro, concordo plenamente com o Sr Carlos Alberto, nós que vivemos na época e lutamos contra esses energúmenos comunistas, sabemos muito bem a verdade.
    Infelizmente a mídia hoje é manipuladora, e o ensino é pessimo, mas não há de ser nada, leve o tempo que levar, nós vamos voltar.

  4. 20/06/2009 às 4:07 am

    Gostaria que o texto acima não fosse censurado nem tirado do ar. Pois “Democracia é a segurança do Direito” Obrigado Carlos Alberto Augusto

  5. 20/06/2009 às 4:03 am

    Caro leitores. Trabalhei com muita vontade para o bem do Brasil e com Dr.Sergio F.P.Fleury, estavamos combatendo o que combato hoje, isto é TERRORISTA sequestradores,ladrões de bancos, joalherias,super mercados, casas de armas,quarteis militares.Afirmo sem dúvida que esses facinoras que estão no poder são bandidos de verdade com as qualificações acima com cursos em Cuba,Russia, China,Albania,Vale do Ribeira(BR)Araguaia(BR). O que pregam hoje é mentira, eles não queriam Democracia em que vivemos, eles queriam o COMUNISMO bem radical como o de CUBA,seus professores.Cumprem ordem do FORO DE SÃO PAULO (lula)e Diálogo Interamericano(F.H.C)Veja na Internet.Estou aberto para debates e embates Carlos Alberto Augusto

  6. 14/05/2009 às 9:21 pm

    JORNALISMO DE VERDADE!

    Parabéns!

  7. Vinícius Mendes
    12/05/2009 às 9:29 pm

    HAHAAHAHAH! Cem pessoas na missa de um cara desse? Acho que nem a família toda dele é capaz de ir ‘homenagear’. Vale ressaltar que recentemente outro ‘matador’ como esse morreu e lotou um cemitério. O coronel Ubiratan, que matou centenas de homens no pavilhão nove, no Carandiru de 1992.

    Sobre o Doutor Barreto: que queime no inferno!

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