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O velório do diploma de jornalismo


Ontem, dia 17 de junho de 2009, o STF deixou momentaneamente de ser um tribunal e se transformou num cemitério. O defunto atende pelo nome de diploma superior para jornalismo. O coveiro-mor é Gilmar Mendes, que relatou o processo, mas o meritíssimo não carregou esse caixão sozinho: junto com ele estavam boa parte das entidades patronais da categoria, ABERT (Associação Brasileira de rádio e televisão) e ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e, também, muitos coleguinhas que encarnaram, felizes e saltitantes, o papel de pelegos comemorando o fim do diploma. A única e honrosa exceção é o ministro Marco Aurélio de Melo que votou pela manutenção da regulamentação.

As conseqüências desse enterro prometem ser sinistras para o jornalismo tupiniquim. Quem defende essa idéia é Leandro Fortes, um dos melhores repórteres em atividade no país, e professor de jornalismo. Em seu novo blog aqui no WordPress, Fortes lembra que os maiores prejudicados pelo fim do diploma serão os meios de comunicação regionais. É fácil entender o motivo: com o diploma, existia pelo menos uma garantia de qualidade na informação produzida por esses meios de comunicação. Com o fim da exigência, as redações desses veículos, que, via de regra, são controlados por políticos, serão tomadas de assalto por partidários do dono da empresa, sem nenhum compromisso com o jornalismo. O vaticínio de Leandro Fortes é assustador:

Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.

Mas nem todos são tão pessimistas. Luis Nassif, por exemplo, consegue enxergar alguma luz na escuridão. Para ele, existe um grande mercado que pode abrir para aqueles que ostentam o diploma de jornalista:

(…)há um enorme mercado que se abre com o fim da obrigatoriedade do diploma – beneficiando especialmente os com-diploma. Daqui para frente, cada vez mais as empresas e associações serão produtoras de informação, acabando com essa intermediação espúria da mídia. Hoje em dia há assessorias com mais jornalistas que as redações. Preparam releases, enviam para o jornal, o editor passa para um repórter dar uma guaribada e publicar como se fosse matéria própria.

Como estudante de jornalismo, gostaria de acreditar mais no otimismo do Luis Nassif do que no pessimismo do Leandro Fortes. Infelizmente, eu não consigo. Acho a visão do repórter de Carta Capital mais realista e vou além: o mercado, que já é altamente restrito, promete ficar ainda mais comprometido. De toda forma, não será a decisão de ontem que vai impedir que eu seja jornalista. Acredito no meu potencial, com o diploma valendo alguma coisa, ou não.

Para dar uma aliviada no clima funéreo desse texto, achei a imagem abaixo em um blog. Ela diz muito do que será o jornalismo daqui para frente…

diploma

P.S.: Criei uma enquete sobre o assunto na barra ao lado. Participe!

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  1. Sparky
    18/06/2009 às 7:30 pm

    Você não me conhece, e eu não conheço você. Mas lendo suas publicações, gostei do seu estilo.

    Estou criando um projeto de um site, para o início de Agosto a estréia (a estrutura está sendo feita agora, e o “treinamento” da equipe em Julho). Caso você esteja interessado em conhecer o projeto e a participar dele, veja o e-mail que coloquei – que na verdade é um passport do messenger – e me adicione no msn. Garanto que você não vai se arrepender… ou não.

  2. 18/06/2009 às 7:13 pm

    A votação de ontem foi na verdade uma constatação do óbvio: Não é necessário diploma para ser jornalista.
    Da mesma forma que não é necessário diploma pra ser publicitário, programador, designer, desenhista, cozinheiro, taxista…
    Poucas profissões são realmente requerentes de um diploma. Como disse em meu twitter – twitter.com/paulovelho – excluindo engenharia, medicina e direito, diploma é lixo.
    Os bons profissionais não são presos a um diploma. Um dos caras mais geniais da informática – Steve Jobs – não tem um diploma. Bill Gates também não. Se você é bom jornalista – e, Marcelo, você é!… escreve bem como ninguém – não é um diploma que vai lhe garantir uma vaga. Os grandes jornais, na verdade, contém diversas colunas de não-jornalistas, mas especialistas nas mais diversas áreas que conseguem escrever bons textos (às vezes nem tão especialistas e nem tão bons textos)

    Não se pode esperar uma educação qualificada para determinadas profissões, uma vez que nosso maior representante do país – a pessoa que mais precisa de uma boa educação – não possui nem ensino médio.

    A decisão de ontem não muda muita coisa. Apenas reforça algo que já vinha acontecendo. Agora devidamente legalizado.

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