Início > Artigos, Observando a imprensa, Política e/ou politicagem > A agonia de Lúcio Flávio Pinto

A agonia de Lúcio Flávio Pinto


O Brasil Real esconde histórias que o Brasil Imaginário, eixo Rio-São Paulo-FashionWeek-Daslu, prefere não enxergar. Uma das mais impressionantes é protagonizada pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará. Repórter destemido, Lúcio Flávio sempre se dedicou a investigar as mazelas da região: das quadrilhas que extraem madeira ilegal da Amazônia aos desmandos dos donos do poder. E faz isso longe da grande imprensa. As suas reportagens são publicadas no Jornal Pessoal, uma espécie de tablóide quinzenal editado pelo próprio jornalista, com tiragem aproximada de 2000 exemplares. A publicação sobrevive sem anúncios pois o repórter acredita que eles limitam a liberdade editorial.

Mas Lúcio Flávio está pagando um alto preço por sua independência. Em seus 18 anos de vida, o jornal já recebeu 33 processos, tendo sido condenado quatro vezes. Seu crime: investigar os poderosos da região. Entre eles, a família Maiorana, dona da TV Liberal, que por sua vez é afiliada da Rede Globo. O repórter descobriu que o patriarca dos Maiorana esteve envolvido com o contrabando, uma prática que era comum na região. Além dos inúmeros processos, o clã respondeu com a truculência típica dos coronéis. O próprio Lúcio Flávio relata o que aconteceu quando cruzou com um membro da família Maiorana num restaurante:

A agressão foi cometida por trás, dentro de um restaurante, onde eu almoçava com amigos, sem a menor possibilidade de defesa da minha parte, atacado de surpresa que fui. Ronaldo Maiorana teve ainda a cobertura de dois policiais militares, atuando como seus seguranças particulares. Agrediu-me e saiu, impune, como planejara. Minha única reação foi comunicar o fato em uma delegacia de polícia, sem a possibilidade de flagrante, porque o agressor se evadiu. Mas a deliberada agressão foi documentada pelas imagens de um celular, exibidas por emissora de televisão de Belém.

Vale repetir: Maiorana saiu impune, mesmo com as provas da agressão. Um elemento tragicômico dessa história é  o fato do agressor do jornalista ser presidente da comissão em defesa da Liberdade de imprensa da OAB Pará. Imaginem se ele fosse contra…

Ainda no território do direito, vale destacar outro ponto importante: nenhum advogado da região aceitou defender o jornalista. Vou repetir novamente, grifando com o itálico: Nenhum advogado da região aceitou defender o jornalista. Motivo? Deixemos que o Lúcio Flávio responda: “Alguns profissionais que contatei alegaram ser colaboradores do jornal O Liberal, outros diziam estar sem tempo e alguns marcavam encontro, que não se realizavam. Como bom entendedor, entendi”

Recentemente, a família Maiorana ganhou um processo na justiça contra o jornalista. Na sentença, o juiz determinou uma indenização de R$ 30.000 mais as custas do processo. E não ficou só nisso: proibiu qualquer expressão agressiva ou difamatória contra o patriarca Maiorana ou contra os seus filhos. Só eu estou sentindo o fedor de censura prévia?

O silêncio covarde da imprensa sobre esse episódio também não cheira bem. E olha que estamos falando de um profissional que foi correspondente do Jornal O Estado de S. Paulo durante 18 anos e tem quatro prêmios Esso no currículo. Também foi agraciado com o Colombe d’Oro per la Pace um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália e com o Prêmio internacional da Liberdade de imprensa, entregue em Nova York no ano de 2005. Se por aqui ficamos nesse mutismo covarde, com as honrosas exceções de praxe, nos Estados Unidos o caso Lúcio Flavio mereceu um editorial do jornal Washington Post, que dispensa apresentações.

Mais informações sobre o caso Lúcio Flávio: Clicando aqui, o leitor encontra um texto do próprio Lúcio Flávio sobre a sentença que o condenou. Neste link, o leitor encontra uma bela reportagem sobre o drama vivido pelo jornalista. Clicando aqui, você encontra um texto sobre o editorial do Washington Post (tentei achar o texto no site do Post, mas não consegui…). Se clicar aqui, o leitor encontrará o texto que me alertou para esta situação, escrito pelo sempre contundente Idelber Avelar. E, por último, mas o mais importante de todos, o link para o site do Jornal Pessoal, onde é possível entender o porquê que o Lúcio Flávio Pinto incomoda tanto os poderosos Paraenses.

Anúncios
  1. 23/07/2009 às 7:49 am

    Marcelo!

    A cada dia você dá provas de que é um jornalista destemido! Essa vergonha que acontece com o Lúcio Flávio acontece com vários outros jornalistas, Brasil e mundo afora, desavergonhadamente!

    Agora, aqui no Brasil, além de não haver mais a obrigatoriedade do diploma, ainda vivemos sem Lei de Imprensa, o que piora ainda mais a situação de todo jornalista que se prese nessa terra tupiniquim!

    Texto incrível, pra variar…

  2. natusch
    17/07/2009 às 3:01 am

    Que post sensacional. Estou envergonhado por não tê-lo ligo até agora…

  3. 16/07/2009 às 12:04 pm

    Moro na mesma cidade do Lúcio Flávio e posso afirmar que é verdade esse fato absurdo.Os Maiorana usam seus veículos de comunicação como armas contra aqueles que tem opinião diferente deles. Um tempo atrás começou uma campanha difamatória contra a Vale do Rio Doce pelo fato de a mesma não renovar um contrato de patrocinio do Salão de arte que leva o nome do patriarca.E assim fez com outras empresas de caixa forte que bancam o jornal com propaganda. O jornal e outros veiculos da familia também são conhecidos pelos calotes nos fornecedores e ai daquele que reclamar!

  4. ghaovez
    15/07/2009 às 2:04 am

    Esse é um mal antigo…

    Calar aqueles que tem voz e coragem para usa-la é uma pratica tão antiga quanto andar para frente, ninguém tem dúvida disso. E, quanto a nós, tudo o que podemos fazer é conhecer e divulgar esse tipo de situação.

    Acabar…é impossível. Infelizmente, temos que admitir que é parte da natureza humana, quando corrompida, de perseguir aqueles que ameaçam a “zona de conforto” pessoal. Mesmo tendo a impressão de viver em uma sociedade inerte e indiferente às próprias circunstâncias, ainda assim devemos utilizar a informação como forma de protesto.

    Casos assim são diários, mas não devemos aceitar a idéia de que a truculência é aceitável caso se torne algo banal.

    Diziam as tradições antigas que ao guerreiro cabe o caminho da pena e da espada. Hoje, as pessoas decentes não usam mais a espada, mas utilizam a pena com o fervor ainda maior do que se estivesse em um antigo campo de batalha.

    Lucio Flávio Pinto é um grande exemplo disso.

  5. Herbert James
    14/07/2009 às 9:23 pm

    Excelente post.. vou repassar a informação no meu blog também!!
    Se dá pra fazer alguma coisa, mesmo que mínima, pra combater essa vergonha.. que seja feita.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: