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Princípio de incêndio


O texto que segue foi escrito para um trabalho da disciplina de Jornalismo Político e Econômico do quarto semestre. Em uma primeira versão do texto, a professora mandou fazer alguns ajustes de ritmo. Estava certa. O desenvolvimento da história estava meio emperrado mesmo. Voltei para a crônica, tirei o excesso de gordura e reescrevi alguns parágrafos. O resultado é o que segue.  Em tempo: ela é baseada em fatos reais.

Labaredas no Bourbon Ag. Estado

Sábado, 10 de outubro de 2009, 18 horas da tarde. Estou quase no fim de um típico programa paulistano: Shopping Center. Mais precisamente o Shopping Bourbon, na Zona Oeste de São Paulo. Para ficar ainda mais típico, assisti um filme. Nacional. O assunto foi o ataque do PCC a São Paulo no ano de 2006. Agora, estou folheando um livro sobre canções. Sou uma metamorfose ambulante. Interrompo a leitura por uns instantes e percebo alguma coisa estranha no ar.

Todos os clientes estão saindo da livraria. Do lado de fora, mais movimentação. Ainda tento voltar para o livro, mas o meu sexto sentido recomenda abandoná-lo na primeira estante e sair da loja. Obedeço ao meu instinto. Quando já estou do lado de fora, um funcionário informa que está tendo um incêndio no estacionamento do shopping.

Bendito sexto sentido!

Todos os clientes afluem para a escada rolante. Apesar de tensão no ar, todos tentam manter a calma… Sinto uma descarga de adrenalina invadir  minha corrente sanguínea… Estou no terceiro piso… Longe, muito longe do térreo… O coração parece querer romper à caixa torácica e pular pra fora… É quase possível apalpar o medo no ar… Nessa hora, por mais desagradável que seja você lembra das grandes tragédias… o incêndio no Shopping em Guarulhos no ano de 1996… centenas de pessoas morreram… Medo, muito medo… Sinto no ambiente um cheiro que me remete a canela… É estranhamente agradável… Pode ser algum material em combustão… Não quero ficar aqui para saber… A escada rolante segue muito devagar… As pessoas tentam manter a calma… Venço mais um lance das escadas rolantes… vou para o próximo e finalmente chego ao térreo.

Fora do shopping, parecia que o filme que eu acabara de ver se materializou na minha frente. Muitas viaturas com as sirenes ligadas, tanto do corpo de bombeiros quanto da polícia. Trânsito interrompido. Helicópteros no ar. E, claro, muitos jornalistas. Como será que souberam tão rápido desse incêndio? Deve ser o cheiro de tragédia no ar…

Sem o tráfego dos carros, é possível ocupar o meio da rua. Agora dá pra ver o shopping e… Ué, não dá pra ver nenhuma labareda… Deve ser o famoso “princípio de incêndio”, que os meus coleguinhas gostam de dizer quando a tragédia não é tão trágica assim. É interessante acompanhar o trabalho dos repórteres. Eles abordam vários clientes que explicam o sucedido. O da TV Record, por exemplo, entrevista uma moça com os cabelos tingidos de vermelho, que segura um copo de Milk Shake.

Resolvo dar uma volta. No passeio, começo a entender porque os teóricos da comunicação falam que o jornalismo precisa se reinventar. As pessoas, com os seus celulares em punho, filmam o incidente como se tivessem acompanhando um evento na Disney. É impossível competir com as engenhocas tecnológicas. O jeito, então, é aproveitá-las para fortalecer a cobertura. Vários telejornais usaram imagens produzidas por celulares para explicar o que aconteceu no Bourbon.

Em meio a esses devaneios, presenciei uma cena curiosa: uma mulher, com sua filha no colo, resolveu explicar para a criança o que estava acontecendo. Como se fosse uma guia turística:

– Olha só, princesa, o carro dos bombeiros… Quantos policiais e carros dos bombeiros, né? Olha, olha só, um repórter… não é engraçado? Faz tchauzinho pra câmera, faz!

Só faltou mandar jogar pipoca…

Depois de alguns minutos sem o shopping desabar na cabeça de ninguém, as pessoas retornam para dentro do estabelecimento. Resolvo acompanhá-las. O cenário dentro do Bourbon lembra muito o de uma guerra civil. Quase todas as lojas estão com as suas portas fechadas, com grades e tudo. Nada lembra o ambiente elegante de alguns minutos atrás. Mesmo assim, as pessoas voltam. É à força do consumismo. A necessidade de comprar supera até a segurança pessoal, afinal de contas até aquele momento ninguém sabia se a estrutura tinha sido danificada, ou não.

E nem todos os clientes souberam do sucedido. Na saída do supermercado, que fica dentro do Shopping, um cliente, com o carrinho cheio de compras, fica espantado com o que vê:

– O que aconteceu?

Com grande senso profissional, explico com as informações que eu tinha até então: houve um princípio de incêndio no estacionamento. Ele faz cara de espantado e disse que ninguém tinha avisado nada dentro do supermercado. Deve ser para não atrapalhar as compras, penso. Mas não digo… (Segundo a imprensa, o incêndio do sábado foi causado porque na cobertura do shopping existia um depósito de telhas de resina, um produto inflamável) Cansando de tanta “aventura”, vou para casa onde assisto à cobertura da televisão sobre o acontecimento. Ao que me consta, não apareci de papagaio de pirata em nenhuma reportagem. Ainda bem! E já penso em voltar um dia para continuar a leitura que foi interrompida pelo princípio de incêndio.

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  1. 17/01/2010 às 6:20 pm

    “Sinto uma descarga de adrenalina invadir minha corrente sanguínea… Estou no terceiro piso… Longe, muito longe do térreo… O coração parece querer romper à caixa torácica e pular pra fora…”
    hhuauhauhahua amay essa parte… nem preciso dizer o pq rsss… e o texto todo tb né…=P

  2. Eduardo
    06/01/2010 às 7:53 pm

    A primeira frase remete a Racionais MC’s. Por falar nisso, olha que o texto tem ritmo, hein.
    Boas as passagens de emoção, em que o medo faz o coração bater mais forte, o instinto leva o personagem a sair da loja.
    Não posso deixar de citar o contexto, com a aparição da imprensa, as pessoas “apreciando” o ocorrido.
    Começou bem, teve cadência, boa narração. Belo desfecho!

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