Molusco Movie


Poster do filme

Poster do filme

Sim, este é mais um texto sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”. Um pouquinho atrasado, reconheço, mas mesmo assim este blog não poderia deixar de comentá-lo. Nunca antes na história do cinema nacional, um filme foi tão criticado antes de ser exibido para o grande público. Talvez, “Tropa de elite” seja uma comparação possível, porém existe uma diferença fundamental entre as duas películas. O filme do Capitão Nascimento gerou polêmica depois de ter “vazado” na internet. Ou seja, as pessoas puderam falar dele com algum conhecimento de causa. Já o Molusco Movie foi malhado antes de ter entrado em circuito nacional.O Idéias e etc, por achar que é preciso conhecer alguma coisa para criticar, preferiu guardar sua opinião para depois de ter assistido ao filme. No inicio do ano, o ritual fundamental foi cumprido. A resenha foi dividida em duas partes: a primeira é dedicada ao filme e a segunda trata das polêmicas geradas pela fita.

O filme

A história não poderia ser mais manjada. Os familiares do Lula, e os seus amigos íntimos – incluindo o pessoal do governo -, devem conhecê-la de cor e salteado. Está tudo lá: a miséria da família no Nordeste, a vinda para São Paulo no Pau de arara; o alcoolismo do pai do presidente, que fazia com que ele fosse muito violento com a mulher e os filhos, o trabalho como torneiro mecânico, o acidente; a morte da primeira mulher, a Dona Marisa, a presidência do Sindicato dos Metalurgicos, as greves do ABC, o PT… quer dizer, o PT não aparece não, mas sobre isso eu comento daqui a pouco.

Antes, vamos falar um pouco dos pontos fortes do filme. Entre eles, a atuação do elenco é um dos grandes destaques. Todo mundo perfeito. Glória Pires como Dona Lindu dispensa maiores comentários. Cleo Pires, que interpreta a primeira mulher de Lula, também está muito boa, mas isso também não é novidade – se é que o amigo leitor me entende. Em tempo: não é estranho que o Lula namore a Cleo e seja filho da Glória Pires? É um incestuoso mesmo…

Brincadeiras à parte, o ator que interpreta o presidente, o novato Rui Ricardo Diaz, está simplesmente excelente.  Ele podia cair facilmente no grande equívoco da caricatura. Afinal, poucas personalidades são tão imitadas quanto Lula. Mas Diaz conseguiu fugir desse perigo. Está contido, equilibrado, no timing certo. Os outros detalhes técnicos também estão legais. É um filme bem editado, com algumas cenas grandiosas, como a enchente que a família foi vítima quando moravam em uma favela e as reconstituições das greves do ABC.

Mas cadê os defeitos mesmo? Justamente, onde deveria residir o grande trunfo do filme: o roteiro. Convenhamos: a história do Lula é impressionante. Já vi até gente da oposição reconhecendo isso. Alguém que saí do nada e consegue chegar ao cargo máximo de uma nação como o Brasil merece ter a sua vida retratada na tela grande. Com os 12 milhões de reais que custou o filme, a produção esmerada e o elenco bem escalado o resultado só poderia ser um filmaço. Poderia…

…mas não é. E o culpado, como disse, é o roteiro. A história presidencial não é falsificada. O problema é que o protagonista é bom demais para ser verdade. É apresentado como se não tivesse defeitos ou falhas, ou seja, sem nuances de personalidade. É excelente filho, marido, sindicalista… A pílula ficou dourada demais até para os padrões de uma cinebiografia.

Fica a impressão que o longa foi elaborado para agradar a todos: tucanos, petistas, comunistas, lulistas, malufistas e outros “istas”. Nem o PT aparece, pois o filme acaba com a morte da Dona Lindu -desculpa estragar o final…-, e o partido só seria lançado alguns anos depois. Eis um ponto crucial. Ao meu ver, os aspectos políticos são jogados para escanteio. Vários minutos são gastos mostrando a relação do protagonista com a sua mãe, e a sua atuação no sindicato é mostrada timidamente. Sem o mesmo impacto . O fato do PT não aparecer nem na sua fundação é extremamente sintomático disso. É como se o Zezé di Camargo e Luciano quisessem que o seu “2 filhos de Francisco” agradasse também aos que detestam a dupla. Seria um esforço em vão. Afinal, por melhor que seja o filme, a trilha sonora é repleta de músicas interpretadas pelos estridentes cantores. Essa tentativa de despolitzar “Lula, o filho do Brasil” acabou sendo o seu grande calcanhar de Aquiles. Resultado: um filme mediano. Nem tão bom quanto o enaltecido pelos produtores, nem tão ruim quanto o pintado por boa parte da imprensa tupiniquim. Nota 6,0.

As polêmicas

Foram muitas as polêmicas que cercaram o filme presidencial. Era até compreensível, afinal estamos falando de um personagem que, apesar da alta popularidade, está longe de ser um consenso nacional. Alguns amam, outros odeiam e muitos amam odiar. Abaixo, segue um inventário com as principais polêmicas comentadas pelo Idéias e etc:

Lula, o filho do Brasil é chapa-branca

Crítica procedente. Como dito acima, o filme acaba por dourar demais a pílula presidencial ao centrar a trama nas relações do protagonista com sua progenitora, minimizando os aspectos políticos.

Lula, o filho do Brasil e os patrocínios

Antes mesmo que as primeiras cenas surgirem na tela, o distinto espectador é informado, por meio de um letreiro, que o filme foi feito sem o auxílio da renúncia fiscal. Ou seja, sem o uso do dinheiro público. A seguir, aparece o logotipo das 18 empresas que investiram na película. É uma relação que não faria feio no macacão de um piloto de F1. Ao todo, foi captado 12 milhões de reais. Nada mal para os padrões nacionais; um trocado para os estúdios de Hollywood, ainda mais em tempos de Avatar.

Tudo certo, mas… e a polêmica? Pois bem, alguns gaiatos reclamaram que muitas das empresas que patrocinaram o filme teriam negócios com o governo, ou teriam sido “coagidas” a patrocinar para não ficarem mal na fita com o presidente. Ora, ora, ora… vamos largar de hipocrisia, ok? Qual empresa hoje não gostaria de fazer negócios com o governo? Isso vale para qualquer governo: estadual, municipal ou federal. A grande imprensa que polemizou é a primeira a se estapear em troca de um anúncio de alguma estatal para suas páginas. Esses jornais e revistas não adoram se proclamar os paladinos da livre iniciativa? Ou será que livre iniciativa no dos outros é refresco?

Quanta hipocrisia…

Lula, o filho do Brasil e a campanha eleitoral

Esta é a grande polêmica do filme. Muitos consideram que a vida do Lula na telona é uma pré-campanha discarada da ministra Dilma Rousseff. Isso é procedente ou estamos assistindo a um clássico episódio de paranóia tucana? Para responder essa pergunta, é preciso retroceder um pouco no tempo. Vamos até o ano de 2004, nos EUA, onde aconteceu algo que pode ser muito esclarecedor.

Coincidentemente, os americanos também estavam as vésperas de uma eleição presidencial. Entre os candidatos, George W Bush, que ocupava a Casa  Branca e, convenhamos, não era nenhum exemplo de popularidade, em seu país e no resto do mundo. Pudera. Cada dia que passava, as notícias de soldados mortos no Iraque complicavam ainda mais a vida do sujeito.

Com esse cenário de fundo, e faltando poucos meses para a eleição, estréia nos cinemas um documentário que chacoalhou o mundo: Fahrenheit 11 de setembro, de Michael Moore. Para quem não assistiu, o filme é uma cacetada de alto a baixo em Bush Jr. Entre outras coisas, Moore mostra que o exército escolheu os soldados, para a campanha no Iraque,  nos Estados mais pobres da federação. E essa é a denúncia mais leve do filme. Fahrenheit 9/11 ganhou a Palma de ouro em Canne e foi saudado pelo público e por boa parte da crítica – os republicanos, não sei porque, detestaram o filme. Michael Moore nunca escondeu o seu desejo de influenciar nas eleições que aconteceriam em novembro daquele ano. Queria a vitória do candidato democrata. Infelizmente, o resultado não foi bem o sonhado por Moore…

Agora, voltemos para 2010 e para o Brasil. Antes de mais nada, eu entendo que estamos lidando com culturas e circunstâncias diferentes. Mas o episódio envolvendo o filme de Moore traz algumas lições: primeiro, mostra que o poder do cinema de influenciar não é tão grande assim. Em tese, um documentário, por lidar com a “realidade” e ter um apelo jornalístico, teria muito mais capacidade de influenciar que a ficção, onde os espectadores sempre ficam com a impressão de terem sido enganados. E, na maioria das vezes, foram mesmo.

No caso do filme do Lula, é preciso fazer um malabarismo mental para provar essa tese. Vamos lá: o filme beneficia a Dilma, porque lá em outubro as pessoas vão lembrar que ela é a candidata do Lula, logo vão sufragá-la porque ficaram profundamente emocionadas pelo filme. Sinceramente? Acho complicado. Precisaria de uma pesquisa para comprovar essa teoria. Para mim, o filme pode influenciar, no máximo aquela parcela do eleitorado que já tem uma queda pelo Lula, mas essas pessoas já iriam votar na Dilma, independente do filme. E olhe lá. Uma eleição não segue uma lógica tão simplista. São muitos os fatores envolvidos nesse processo. Se bobear, ninguém vai lembrar do filme, e dessas polêmicas, em Outubro.

Em tempo: o amigo leitor ficou interessado em assistir ao filme do presidente? Se a resposta for positiva, recomendo correr. Ao que parece, a bilheteria não foi nenhuma maravilha. Em São Paulo, na rede Cinemark, uma das maiores do país, o filme só está sendo exibido no cinema do shopping Interlar Aricanduva com sessões ás 12h 25 e 15h 10.

Anúncios
  1. Vinícius Mendes
    31/03/2010 às 7:35 pm

    Enfim, estou de volta a este blog. Fazia um tempo que não aparecia por aqui, né?

    Bom, eu gostei muito dessa resenha do filme do Lula. Ainda não assisti, mas o Marcelo tem credibilidade comigo, e só de ler estas linhas já começo a formar alguma opinião sobre a fita.

    Em tempo…Lula tem a minha admiração. Com ou sem o filme.

  2. sinvaldo moura
    21/02/2010 às 9:57 am

    O que vai ficar mesmo desse filme, que vai muito além de um impossível poder de influenciar o eleitorado, é a sensação de que foi algo plenamente dispensável na biografia dos envolvidos. Tão útil quanto o dedo perdido do presidente molusco. Apenas algo pra ele e dona Marisa assistirem num sábado estagnado de um tempo futuro. Uma espécie de mastubação do ego esquecido.

  3. Eduardo
    16/02/2010 às 11:41 pm

    Gostei do que escreveu. Começa com uma introdução, passa pela crítica, depois uma análise sobre as polêmicas que cercam o “O Fiasco do Brasil”… ops, o filme aí.

    Eu vi o filme. Concordo com sua nota, é bem por aí mesmo. Até eu, que não sou nada petista, senti falta de uma assembléia de fundação do partido. Bom, os patrocinadores no início é algo para se lamentar. Simplesmente ridículo…

    PS: acho que poderia escrever mais sobre filmes. Vc tem boas visões.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: