Palavra mágica


A crônica que segue foi escrita no semestre passado para o PIC (Projeto Integrado de Comunicação), que consiste na produção de uma revista experimental. O tema central foi sustentabilidade e terceiro setor. O assunto não era muito animador, convenhamos. Mesmo assim, houve bastante empenho da minha parte e também do meu grupo, composto dos amigos Eduardo Vasconcelos e Vinicius Mendes . O resultado foi a revista País Sustentável. A nossa matéria de capa foi uma entrevista com o José Luiz Penna, vereador por São Paulo e presidente do Partido Verde (PV). O resultado ficou muito legal. Se der, coloco aqui no blog. É um texto bastante longo… Por enquanto, fiquem com a crônica abaixo, que na revista ocupava a última página.

Repita comigo: sustentabilidade. Novamente, agora bem devargazinho, saboreando cada sílaba dessa palavra mágica: sus-ten-ta-bi-li-da-de. Ô, palavra que soa bem, né? Até um gago se esbalda falando tão belo léxico. E, como podem ver, com poderes mágicos.
Não acredita, leitor? Pode deixar que eu provo.

Pense no seu banco, por exemplo. Você não aguenta mais o gerente, os juros extorsivos cobrados no cartão de crédito e no cheque especial. Só de pensar na fila quilométrica para pagar as contas, a sua paciência se esvai como que por encanto. De repente, esse mesmo banco resolve ser “sustentável”. Desenvolve uma série de comerciais realçando a nova proposta. Até o talão de cheque passa a ser impresso no ecologicamente correto papel reciclado. Os juros, o gerente e a fila estão lá, mas… você não olha pra eles com
o mesmo rancor de antes. Por mais que o extrato indique que a sua conta esteja numa situação insustentável.

Não é por outro motivo que as empresas sérias- e mesmo aquelas que não são tão sérias assim- , façam questão de ter algum projeto na área. Qualquer projeto. Vale tudo. Desde arrumar a pracinha em frente à indústria até gastar os tubos patrocinando alguma iniciativa ambiental de longo alcance. Todo mundo quer aparecer bonito nessa fotografia. Ás vezes, a coisa beira ao ridículo. Certa vez,  numa propaganda de agrotóxicos, a empresa fez questão de realçar o seu compromisso com à natureza. É sério! O reclame tinha aquele texto já manjado: “A empresa X produz os melhores agrotóxicos para a sua lavoura. Sem destruir à natureza. e blá blá blá….” Claro, qualquer pessoa, que não teve os neurônios devastados pela ação do pesticida, sabe o quanto é difícil acreditar nessa ladainha, mas o importante é parecer sustentável.

O mesmo vale para as pessoas. E, principalmente, para aquelas pessoas que vão disputar as eleições no próximo ano. É o efeito Marina Silva. Todos os candidatos vão disputar para saber quem conhece mais sobre sustentabilidade. Nos horários eleitorais, vão posar como guerreiros pela causa ambiental; o apoio das ONGs ambientais será tão valioso como o do PMDB, embora estas não cobrem um preço tão alto depois da eleição… Portanto, é preciso cuidado para saber quem está apenas discursando em busca do seu valioso voto, de quem realmente está disposto a tratar com seriedade essa questão. É preciso separar o joio do trigo.

Convém não generalizar também no caso das empresas – incluindo os bancos, por quê não? Muitas dessas entidades preocupam-se realmente com o meio ambiente e desenvolvem medidas racionais para melhorar a vida de todos. Só não podemos ser ingênuos
de acreditar em toda fantasia exposta nos comerciais. E, principalmente, não se deixar enfeitiçar pelo poder e musicalidade da palavra sustentabilidade. Embora, devo reconhecer, essa é uma tarefa bem difícil. Ela vai bem em tudo. Basta colocar sustentabilidade ao lado… “Cartão de crédito da sustentabilidade”, “Arroz sustentabilidade”, “Universidade da sustentabilidade” e etc, etc… Repita comigo,  leitor, bem devagarinho, sentindo todas as sílabas: sus-ten-ta-bi-li-da-de

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  1. 09/11/2010 às 4:00 pm

    Olá,

    Eu também escrevo sobre essa palavrinha mágica e direitos humanos e adorei sua crônica que só agora encontrei. Parabéns! Seu texto é bem escrito e tem humor.

    abs,
    Suzana Paula
    http://www.oestadorj.com.br – coluna Ser Sustentável

  2. Eduardo
    15/03/2010 às 7:24 pm

    Hahahaha

    A crônica ficou legal mesmo! Fizemos um bom trabalho nessa revista.

    Chega de sustentabilidade, por favor! No sentido de fazer trabalho sobre isso, eu digo, antes que atirem pedras sobre mim.

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