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O mundo é um balcão de negócios


Relações comerciais. Este é o único vínculo que Lourenço, o protagonista do filme “O Cheiro do ralo”, vivido por Selton Mello, consegue estabelecer com outra pessoa. Na verdade, não é possível falar de um vínculo propriamente dito. Dono de uma loja que compra produtos usados, o personagem humilha e se diverte às custas dos seus clientes. Não existe nenhuma lógica em suas decisões. É capaz de pagar uma boa importância por um objeto sem nenhum valor e desprezar algo realmente valioso. Tudo é feito sem nenhuma compaixão, seguindo apenas a sua lógica canhestra.

Aos poucos, entretanto, algo de curioso acontece. Lourenço se apaixona por uma garçonete; na verdade, pela bunda da mulher. A fixação é tanta que todos os dias ele almoça no estabelecimento em que ela trabalha, sempre arrumando um jeito de ver, um pouco mais, a parte da anatomia que tanto venera.

Não há afeto nessa relação. Para Lourenço, o mundo é um imenso balcão de negócios. O seu desejo é comprar a bunda, como se fosse um objeto qualquer que um cliente desesperado tenha levado para sua apreciação. Este é um ponto interessante do filme. O protagonista estabelece uma relação de poder com os seus clientes, pois sabe que eles, via de regra, estão desesperados em busca de dinheiro. E não poupa sadismo. A relação mais insólita acontece com uma mulher que precisa de grana para se drogar. Em determinado momento, ela aparece sem nenhum objeto para trocar. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Lourenço pede que ela fique pelada e começa a se masturbar.

Além da bunda, existem outras fixações. Uma delas é um ralo que, para o constrangimento do protagonista, exala mau cheiro. Ele até tenta resolver o problema, mas é incapaz de se entender com os encanadores. Outro exemplo é um olho de vidro que Lourenço mente para os clientes dizendo ser do seu pai. Aliás, Freud talvez fosse capaz de explicar a necessidade que o personagem tem de reconstruir o seu progenitor através dos objetos comprados dos seus clientes.

É em meio a essas fixações e tensões que o filme se desenrola. Uma briga com a bunda, melhor dizendo, com a garçonete tira o personagem dos eixos e provoca uma reviravolta na trama. Uma mudança também acontece na relação de poder mantida com os clientes – o que acaba culminando no final impactante.

Com sua trama no mínimo peculiar, “O Cheiro do ralo” possibilita ao público uma reflexão inusitada sobre a nossa sociedade e as relações de consumo. Tudo isso com interpretações convincentes, especialmente de Selton Mello, que está excelente como o perturbado e perturbador Lourenço.

Trailer

Comentário: Esta resenha foi escrita na mesma leva da carta para Vladimir Herzog e para a mesma disciplina. Considero este texto um pouco inferior ao anterior e por algum tempo pensei em não publicá-lo no blog. Mas resolvi reavaliar esta decisão e  deixar que o leitor diga o que achou destas mal traçadas linhas…

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  1. Vinícius Mendes
    11/01/2011 às 7:04 pm

    FAÇO DAS PALAVRAS DO HONRADO JORNALISTA EDUARDO VASCONCELOS AS MINHAS.

  2. 06/01/2011 às 4:28 pm

    Honestamente, esse texto facilmente seria publicado em um grande veículo de comunicação.
    A resenha uniu os dois pontos centrais do gênero: informação e opinião. Me chamou a atenção o fato de ter bastante informação, o que, para mim, torna o texto mais interessante. Importante também não escancarar o desfecho da trama, somente aguçar o leitor.

    Parabéns! Gostei bastante.

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