Início > Crônicas/ Contos > Ursinhos Carinhosos – 2º capítulo

Ursinhos Carinhosos – 2º capítulo


Esta história começa aqui

*****

As próximas cenas parecem ter sido escritas por um roteirista de Roliudi Hollywood. O primeiro brutamonte já chegou armando uma voadora que, milagrosamente, consegui desviar. Enquanto eu observava o meu agressor, que jazia estatelado no chão, agonizando, um segundo brutalhão aproveitou-se desse momento e aplicou uma chave de pescoço. Senti o ar faltando. Um terceiro chegou e disse:

– Segura este bosta que eu termino de matá-lo.

No exato instante em que ele armava o primeiro soco, ouvi uma sirene. Nunca fiquei tão feliz por ouvir esse barulho em toda minha vida! Fiquei sabendo depois que meus colegas animadores tinham chamado a polícia. Gritei por socorro. Isso atiçou ainda mais os meus algozes. Um deles acertou um violento golpe no meu estômago que fez todas as minhas tripas revirarem. Desmaiei. Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando retomei a consciência ouvi o final de um diálogo entre um dos meus agressores e um policial. Este último dizia:

– …fica sossegado, amigo. Esse pilantra terá o que merece na cadeia! Vamos levar o elemento pra viatura!

Eu ainda tentei contar o sucedido para os policiais, mas eles apenas mandaram eu calar a boca e me algemaram. Enquanto era carregado, pensei: “Já que estou indo pro inferno, vou abraçar o capeta”. E tomei uma atitude que, relembrando hoje, me arrependo um pouco. Enquanto passava no meio da festa, senti uma onda de ódio se apoderar de mim e resolvi descontar no elo mais fraco: as crianças. Eu gritava totalmente descontrolado:

– Crianças! Eu preciso contar uma coisa pra vocês! Sabe aquela história da cegonha? Não existe! Rararararaá É mentira! É o pai de vocês que trepa com suas mães! Ah, Papai Noel não existe também!

Ainda hoje não sei como saí vivo do Buffet. Pudera. As crianças desataram um choro em uníssono. Quando estava perto da saída, ouvi um diálogo inesquecível. Era uma garotinha de uns quatro anos que, chorando, perguntava pro pai:

– Seu malvado! Por que você trepa com a mamãe?

Eu devo ter acabado com a infância de algumas gerações. Mas minha vida também tomaria um rumo inesperado. Chegando na delegacia, descobri que o delegado de plantão era irmão do tio beberrão – além da semelhança física, o hálito de alcoól indicava que ambos vieram da mesma árvore genealógica. Eu tentei valer os meus direitos básicos, como chamar um advogado, mas ele apenas soltou uma gargalhada e disse:

– Enjaula esse filho da puta! Coloca ele na pior cela, aquela que tem o Toninho Crueldade…  Se ele escapar vivo, amanhã a gente aplica um corretivo nesse verme. Ah, por favor, tira essa fantasia ridícula de ursinho carinhoso…

Gelei. Não só pela ameaça velada, mas porque Toninho Crueldade honrava o seu nome. Ele media pouco mais de 1m e 60, mas a sua mente diabólica o deixava com as dimensões de um gigante. Ele era responsável pelo tráfico em uma importante favela de São Paulo e estava preso fazia pouco tempo. Seria logo transferido para uma penitenciária de segurança máxima.

Quando cheguei na carceragem, confesso que por alguns instantes desacreditei que aquele nanico fosse um dos bandidos mais perigosos da cidade. Mas logo entendi porque dizem que tamanho não é documento. O homenzinho estava visivelmente alterado. Seus comparsas, que estavam na mesma cela, também pareciam estranhos. Ficamos algum tempo nos encarando. Crueldade rompeu o silêncio:

– Escuta aqui, truta! Tô com uns esquemas pra sair do xilindró! Coisa garantida.Vai ser nessa noite…

– Eu fico na minha e… Crueldade me cortou furioso:

-Cala boca, eu ainda não terminei, porra! Eu não imaginava que colocariam outro preso nessa cela. Isso pode fudê com nosso plano. Me diz: você é meganha?

– Meganha?

– Policial, porra!

– Não, eu trabalhava em um buffet infantil, mas… Me desentendi com um dos convidados… É uma história meio maluca…

Crueldade olhou para os seus comparsas. Ficou algum tempo matutando e finalmente disse:

– Eu vou acreditar no que disse, truta. Mas você participará do nosso plano de fuga. Se algo der errado, você é o primeiro que morre. Sacou?

Eu respondi com o “Saquei” mais doloroso da toda minha vida.

O plano de fuga tinha a marca da mente genial de Toninho Crueldade. De algum jeito, ele conseguiu comprar os carcereiros e os demais presos. A ideia era simular uma rebelião. Toninho e sua gangue – incluindo eu! -, se aproveitariam da balbúrdia para escapulir do xilindró. Tudo aconteceu conforme o planejado. O único entretanto foi um dos carcereiros que, em um surto de honestidade, resolveu impedir a fuga. Eu percebi a tempo e dei uma coronhada no sujeito. Do lado de fora, aguardavam por nós alguns carros com o restante da quadrilha. Fiquei exatas duas horas preso!

Quando chegamos no esconderijo, percebi que o meu gesto foi notado por Crueldade. Ele fez questão de me cumprimentar primeiro e ressaltou o meu ato heróico anulando o carcereiro.

– Qual é o seu nome, truta? Nessa confusão, nem lembrei de perguntar…

– Meu nome é muito feio. Detesto ele. Prefiro o meu apelido: Urso

– Ui, Urso, que apelido mais fresco, caralho… – zombou Crueldade e os demais da gangue -, Ursinho carinhoso, ui, ui, ui…

– Toninho é muito macho mesmo… – disse para o meu próprio espanto.

E bota espanto nisso! Eu respondi no automático, como se o Crueldade fosse o dono do buffet. Se eu tivesse pensando um segundo a  mais, não me atreveria. O próprio chefão ficou espantado. Durante longos minutos ficou sério, depois sorriu e então finalmente falou, pausadamente, cada sílaba com a força de um tiro:

– Escuta aqui, truta, pro seu bem vou fingir qui não ouvi o seu desaforo, sacou? É a primeira e a última vez que te dou essa boiada. Nem minha mãe ousa me sacanear, sacou?

Nunca disse “saquei” com tanto alívio em toda minha vida.

Depois desse momento de tensão, o pessoal da gangue passou a discutir alguns assuntos da “firma”, que era a forma usada por Crueldade para se referir a sua quadrilha. E, segundo os seus comparsas, a firma precisava de muito dinheiro. E rápido. Era necessário restabelecer o estoque de armamentos e comprar a mercadoria para vender (Vulgo: drogas). Foram discutidos vários planos. Crueldade achava arriscado roubar agências bancárias.

– A polícia tá nos procurando em tudo quanto é buraco e eles sabem do nosso carinho por bancos. É preciso algo menos óbvio. Ninguém consegue pensar em nada? Bando de retardados!

Foi quando tive a ideia. Eu lembrei que era justamente naquela época que o dono do buffet pagava as esmolas para os funcionários. E ele o fazia em dinheiro vivo. Existiam alguns motivos para isso. Primeiro, ele não gostava de bancos. Achava um absurdo as taxas cobradas e o atendimento das agências. “O cliente só é gente quando abre a conta. Depois, vira gado no abetedouro naquelas filas do caralho. E esses desgraçados, mesmo tendo espaço para 10 caixas, só colocam dois pra trabalhar. Vagabundos!” costumava dizer com alguma razão. O outro motivo era menos idealizado. Ele não registrava os seus funcionários que, obviamente, também não tinham nenhum benefício determinado pela lei trabalhista. Pagar em dinheiro vivo facilitava a sua ilegalidade. Ele tinha um cofre na sua sala que, nesse período, ficava repleto de grana.

Eu contei essa história pro Crueldade. Os seus olhos faíscaram. Ele então me crivou com inúmeras perguntas. Queria saber tudo, onde ficava o cofre; se havia segurança; se o dono do buffett costumava se armar; se ele ganhava muito dinheiro… enquanto ele falava bateu um arrependimento. Nem tanto pelo dono do buffet, mas pelos meus colegas de trabalho. Entretanto, era tarde para lamentações. Inês, agora, estava morta tadinha. Quando dei por mim, o plano já estava armado. Crueldade decidiu assaltar o buffet.

[Continua…]

Anúncios
Categorias:Crônicas/ Contos
  1. 20/05/2011 às 7:10 pm

    Eu adorei a segunda parte, só achei esse traficante chefe de quadrinha educado demais… como fala certinho esse moço, gentem!!! uhauahuaha

  2. Vinícius Mendes
    03/05/2011 às 10:44 pm

    Ao contrário do meu amigo Eduardo Vasconcelos, eu gostei mais da primeira parte. Estava muito mais engraçada e um roteiro bem tramado, ao contrário desse que parece ter sido pensado de supetão.

    A escrita, como sempre, está ótima. Um ou outro clichê aqui e ali, mas nada que tire a excelência da obra. Na continuação, tente voltar ao ânimo do primeiro capítulo, onde eu ri demais!

    Abraço!

  3. 01/05/2011 às 7:48 pm

    Muito bom! A história está cada vez melhor!

    Essa segunda parte foi ainda mais fácil de ler, instigou bastante, leitura fácil, muito bem escrito. Parabéns! Gostei bastante!

    Aliás, parabéns em dobro, já que hoje é seu aniversário!
    Muitas felicidades! Espero que a vida seja tão generosa com você quanto as palavras deste belo texto!
    Felicidades!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: