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Ursinhos Carinhosos – Último capítulo


Clicando nestes links, você acessa o primeiro e o segundo capítulo dessa história.

*****

Tente imaginar cinco marmanjões fantasiados de ursinhos carinhosos, todos portando revólveres cálibre 38. Esta era a nossa situação dentro da kombi parada na frente do buffet infantil. Para piorar, fazia um calor infernal. Crueldade decidiu que a gente iria assaltar fantasiado de ursinho carinhoso. Alguns elementos da gangue esboçaram algum protesto, mas foi em vão. O homenzinho decidiu e não adiantava reclamar. Era obedecer e calar a boca.

O chefe da quadrilha repassou todo o plano novamente. Era preciso ser rápido e rasteiro. De minha parte, tentei convencê-lo a não usar violência. Contudo, ele foi áspero. “Apenas se as coisas derem certo, Ursinho. Eu não vou pensar duas vezes em atirar se for necessário. Sacou?”

Saquei…

Como era uma segunda-feira, não tinha festa e todos os colaboradores estavam de folga. Eu esperava por isso, pelo menos. O plano era ir direto a sala do cofre e, com a delicadeza inerente aos comandados por Crueldade, forçar o dono do Buffet à abrir o cofre. Depois, era amordaçá-lo e trancá-lo no banheiro. Muito simples. Ainda tentei ficar de fora desse crime, porém o Crueldade quis que eu fosse o guia de seu bando. Ainda insisti na minha posição, mas o nanico me convenceu apontando o revólver na minha cara e dizendo:

– Você vai e pronto, caralho!

Quem não se convence com um argumento tão poderoso?

Agora, lá estava eu e os demais membros da quadrilha prestes a assaltar o buffet. Foi tudo muito rápido. Crueldade tocou a campainha. Durante esses segundos de espera, torci para que ninguém estivesse por lá. Porém, logo ouvi passos… O barulho de alguém destrancando os trincos… O susto da cozinheira, que foi logo nocauteada por uma coronhada… O delicioso cheiro de risoles no ar…

Fui na frente guiando todos para o escritório onde estava o cofre e o meu ex-patrão. Mas nem precisava. Ele logo apareceu. E, para minha surpresa, armado. Antes mesmo que ele conseguisse disparar, um membro da quadrilha acertou o seu braço. O homem largou a arma gritando de dor. Sangrando muito, foi levado até o escritório. Crueldade espumava de raiva:

– Fala a senha do cofre, seu safado! Fala se não eu te mato e todos da sua família!! A senha, cadê a senha seu filho da puta?

Aos soluços, o homem disse a sequência de números que coincidia com a data de seu aniversário. Aberto o cofre, descobrimos que não havia tanto dinheiro como eu imaginava. Pelo contrário: era uma merreca quase insignificante.

– Só isso, seu desgraçado? Cadê o resto?

– É tudo o que tenho – disse o dono do buffet chorando – Eu já paguei os meus funcionários. Só me restou isso, juro por tudo que é mais sagrado… Me deixa vivo, pelo amor de Deus! Eu tenho família… cinco filhas pra criar… Clemência! Pode pegar todo o dinheiro. Nem chamo a polícia, prometo!

O próprio Crueldade pegou a merreca que estava no cofre. Um membro da quadrilha perguntou o que fazer com nossa vítima. Depois de pensar por alguns segundos, o homenzinho decretou:

– Vamos apagar esse desgraçado! Ele não pensaria duas vezes em nos matar se tivesse com a arma…

O dono do buffet seguia pedindo clemência, chorando, porém Crueldade gostava de honrar o seu apelido. Mandou seus homens carregarem-no até a piscina de bolinhas. O anão me disse:

– Você vai matá-lo. Vamos! Mira bem na testa! É uma ordem!

Lembro de cada detalhe das próximas cenas. Se eu fechar os olhos hoje, consigo revivê-las em câmara lenta. Enquanto erguia a arma em direção à minha vítima, percebi que, no fundo, apenas o odiava como patrão, não como ser humano. Foi quando notei que o dono do buffet me reconheceu, apesar da minha fantasia azul marinho:

– Ei… Acho que sei quem você é… Seu traidor, seu monstro, depois de tudo o que fiz por você… Você não é o…

O som de um disparo invadiu o ambiente. O corpo do homem tombou para trás. A piscina de bolinhas se transformou em uma mistura de sangue com pedaços de cérebro. A arma de Crueldade estava fumegando.

– Você é muito bundão mesmo… Jamais será como Toninho Crueldade… disse o sádico nanico.

Naquele momento, enquanto corria pra kombi, finalmente percebi que tinha cruzado a tênue linha que separa os bons dos maus. Não havia volta. Ajudei bandidos a fugir da cadeia, participei dos planos de um assalto e, por muito pouco, não matei o meu ex-patrão. Talvez, sempre estivesse do lado mal do front. Era tão bandido como os demais homens de Crueldade. Um deles, aliás, teve tempo para roubar uma bandeja de risoles fresquinhos.

– Garanti o nosso jantar, chefe!

Os risoles, aliás, merecem um parágrafo à parte. Foram os piores salgadinhos que comi em toda minha vida. Primeiro, estavam encharcados de óleo. Cada mordida equivalia a uma bomba de gordura trans. O empanado era ruim, não cobria o salgado completamente. A massa, por sua vez, era ainda pior. Rançosa, sem gosto, parecia ter sido feita no século passado. E o recheio, então? O que comi era de queijo e estava completamente gelado e duro. Os homens da gangue, entretanto, adoraram e o resultado foi uma diarréia coletiva. A privada, contudo, era uma exclusividade do Crueldade. Nós tivemos que nos contentar com humilhantes penicos.

No esconderijo, quando ligamos a TV, vimos que a notícia do assalto era o principal assunto dos telejornais policialescos da noite. Tomei um bruta susto quando vi minha foto como um dos suspeitos. A matéria relatou como foi o assalto e entrevistou alguns dos meus colegas e também famíliares do proprietário do buffet. Todos choravam e falavam que ele era maravilhoso, bom marido, excelente patrão… Inclusive alguns dos funcionários que o detestavam…  Cortou para o apresentador do programa:

– Olha, criminosos como essa quadrilha do Toninho Crueldade só tem uma solução: cadeira elétrica! Devem morrer tostadinhos. Tô certo ou tô errado?  O cidadão de bem bla bla bla bla…

Crueldade não perdoou:

– Pode esperar, gordão, um dia a gente se encontra e eu te mato, seu desgraçado! Saiam da frente que preciso voltar pro trono…

Os jornais também destacaram o assalto. O mais popular da cidade colocou a notícia na capa. Ao lado de uma foto gigantescca da piscina de bolinhas, eles estamparam a seguinte manchete em letras garrafais:

URSÕES DIABÓLICOS MATAM DONO DE BUFFETT

Nas páginas internas, fotos nossas. Entrevistaram até minha mãe que disse não acreditar que o seu filho pudesse estar envolvido em um crime. Disse que eu era um bom menino e tal. Era, mamãe. Era… Tenho até hoje esse jornal.

*****

Muitos anos se passaram desde os eventos narrados acima. Eu entrei definitivamente para a vida criminosa. Depois de alguns episódios, que foram amplamente cobertos pela imprensa e são de conhecimento público, matei Toninho Crueldade e me tornei o chefe da quadrilha. Sou o dono da favela do Urso. Não vou contar novamente o que todos estão cansados de saber. Quando comecei a rascunhar essas linhas, minha intenção era escrever uma autobiografia. Mas não vai dar tempo. Ontem, depois de um tiroteio, matei um policial. Duplo azar. O meganha era o coronel da polícia. Meu pescoço vale ouro. Estou escondido em um buraco e do lado de fora só ouço pipoco, tiros, gritos… putz, agora ouço um helicóptero. Ouvi pelo rádio que metade do contingente da polícia está no meu encalço. Meu destino está sacramentado. Lá fora, só ouço: “cadê o urso, caralho?” E mais tiros. E helicóptero. Comigo, apenas meu revólver, uma lanterna fraca, esses escritos e uma caneta. Espero que minhas mulheres e meus filhos estejam bem. Nunca mais vou vê-los. Fato. Estou consciente disso e conformado. Gostaria de deixar registrado que sempre procurei tratar os moradores bem. As crianças sempre tiveram festinhas. E com bons salgadinhos. E com Ursinhos carinhosos de animadores. Tudo de primeira. Sim, é verdade. Pode acreditar. O papel tá acabando. Lá fora, mais pipoco. Tenho duas balas no meu revólver. Será que consigo matar dois meganhas? A lanterna também tá fraca. Eu sinto o cheiro do medo. O cheiro do fim que se aproxima. Ás vezes, tento fazer um exercício de imaginação… O que eu seria se aquele velho beberrão não fosse convidado para aquela festinha? Não sei. Realmente, não sei. Quem sabe, estava tudo escrito para me tornar o que me tornei? Destino? Não sei se acredito. Já pensei algumas vezes em largar dessa vida e ser animador na Disney. Deve ser um vidão. Sempre gostei do Donald. E do Pateta. Odeio o Mickey. Rato boiola. Seria um fim digno. Trabalhar de animador e ganhar em dólar. Fazer turistas sedentos de consumismo felizes. Não há tios beberrões, eu acho. Não. Chega de sonhar. A lanterna está acabando, os meganhas estão se aproximando de tudo quanto é lado, e eu tenho que correr atrás do meu destino.

Fim

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Categorias:Crônicas/ Contos
  1. 20/05/2011 às 7:16 pm

    Poxa, foi a coisa mais legal que eu já li por aqui… adorei mesmo!!! =)

  2. 13/05/2011 às 1:59 pm

    Muito bom! Parabéns!

    A história é muito boa. Eu, como leitor, fiquei aguçado a ler mais e mais. Não imaginava que o fim seria esse. Surpreendeu, mesmo.

    Mais uma vez, parabéns!

  3. Vinícius Mendes
    08/05/2011 às 1:18 am

    SURPREENDENTE!
    Eu esperava um final totalmente diferente do que foi dado. Na verdade, os clichês continuaram, só que em menor volume agora.

    O parágrafo final é GENIAL! Adorei, principalmente o encerramento. Continue fazendo folhetins, Marcelo.

    Abraço

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