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Fábulas políticas modernas

Ele odiava tanto o comunismo que nunca usava vermelho. Também nunca parava no farol vermelho. Perdeu sua carteirinha de habilitação. Gostava de dizer que sua coerência política era mais importante que as leis de trânsito.

Ela odiava tanto a direita e o militarismo que nunca usava o verde. E sempre acelerava antes do farol mudar para o verde. Também perdeu sua carteirinha de habilitação. Nunca pisava na grama. Também não comia nenhum tipo de hortaliças.

Os dois se conheceram pelo facebook. Brigaram loucamente, xingaram-se. Foram em passeatas separadas. Mas como Romeu e Julieta é uma história mais antiga que a política brasileira acabaram se apaixonando. Casaram. Tiveram dois filhos. Um casal de gêmeos. O menino é de direita e a menina de esquerda. Brigavam muito. Especialmente, quando tinha salada de alface com tomate no almoço. Os dois lados achavam provocação.

Foram felizes até a última eleição

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A testemunha

O texto que segue é o testemunho da Dona Sônia das Dores, chamada pelos íntimos apenas como Das Dores, para o rumoroso caso da “Chacina de Natal”. Para quem não se lembra, toda a distinta família Brandão foi encontrada morta logo após a ceia. Apesar de rigorosamente investigado, os policiais não conseguiram solucionar o crime. Alguns falam, inclusive, da possibilidade de ter sido obra de extraterrestres. Vizinha dos Brandão, dona Das Dores teve o seu depoimento colhido em sua própria casa, um dia depois da tragédia, pelo investigador do caso. Durante muito tempo, o testemunho permaneceu no mais absoluto sigilo. Isso gerou alguns boatos sobre o seu conteúdo, com alguns apostando que Dona Das Dores teria feito revelações que poderiam elucidar o mistério. Agora, depois de semanas de insistência, tivemos acesso exclusivo ao depoimento integral.

*****

Aceita um cafézinho? Tá fresquinho. Passei agora! Pode me chamar de Dona Das Dores, dispenso o senhora. Os amigos só me chamam de Das Dores. Não gosto muito do meu primeiro nome. Acho muito comum, sabe…

Este é o Osvaldo, meu marido. Ele ouve muito mal. Até usa um aparelho, mas deixe-me contar uma pequena travessura que faço. Quando o Osvaldo começa a encher o saco, eu simplesmente desligo o aparelho. É uma bênção, precisa ver! Ele resmunga um pouco, reclama. Eu fingo que não é comigo. Cinco minutos depois, está dormindo feito um anjinho. Não, não acho que seja maldade. Falo que a bateria não dura muito tempo. Eu brinco com a Judite, minha vizinha e comadre, que tenho um marido com botão liga/desliga. Ela fica com uma inveja…

Quer que ligue o aparelho? Não conta nada, combinado? Não, não acho que ele tenha alguma informação útil sobre este caso. Seu único interesse é o futebol. O resto do mundo, para ele, é uma grande bobagem. Dorme no telejornal inteiro, mas assiste futebol até quando não é o seu time que tá jogando. Coisa de homem. Vai entender… Ah, estou vendo aí que você escreveu Osvaldo com “v”, só que é com “W”. Da-bli-ú!

Não aceita mesmo um cafézinho? Tá fresquinho. Passei agora! Então tá.

Nossa, fiquei muito chocada com o que aconteceu com a família Brandão! Um grande absurdo! Os criminosos não estão respeitando nem o dia de Natal, o Natal, Deus meu, nascimento de Cristo!!! Onde vamos parar? Quando mudamos para cá, faz uns bons 35 anos – foi logo depois do nosso casamento, por isso que me lembro tão bem -, este era um bairro sossegado. Calmo. Com uma vizinhança excelente. Gente de bem. O Oswaldo vivia esquecendo o portão aberto e nunca nos aconteceu nada. Hoje, roubariam até o nosso paliteiro.

O nível da vizinhança piorou muito. Por favor, não comente isso com os vizinhos que fica chato, mas não posso mentir para um policial. O que é certo, é certo! Os Brandão, que Deus me perdoe, são uns bons exemplos. Eu ouvia as brigas e as gritarias daqui de casa. O filho mais velho andava com uma turma muito estranha. Barra pesada mesmo. O sujeito era todo tatuado. Parecia uma zebra. Se fosse você, dava uma investigada. Pra mim, foi ele… hein? Também tá morto? Cruzes!

Então, não sei… só sei que os filhos do Brandão lembram muito as sobrinhas do Oswaldo. É tudo farinha do mesmo saco. São médicas e nunca nem ligaram para saber se a saúde do tio está em dia. Um momento… Xxiii… Esse cheirinho não me engana: o Oswaldo fez cocô nas fraldas. Vou lá trocá-las e já volto, ok? Um minuto só.

Voltei. Deixei o Oswaldo dormindo no quarto. Sabe, outro dia a Judite e eu chegamos a conclusão que, ao envelhecer, nós viramos bebês de novo. Meu marido só faz comer, dormir e cagar. E nas fraldas! Qual a diferença com um recém-nascido?

Tá ouvindo esse barulho? Acredite: não é uma britadeira, mas o ronco do Oswaldo. Se abrir a porta, o som fica mais forte. Ah, para dormir é moleza. Eu espero ele cair no sono e vou pro quarto que era do Oswaldinho Jr, nosso único filho, que casou e saiu de casa.

Não quer mesmo um cafézinho? Passei agora! Tá fresquinho. Se quiser, posso abrir um panetone. É diet porque o Oswaldo é diabético, tudo bem? Não quer? Ok. Onde estávamos mesmo?

Ah, sim, nas sobrinhas do Oswaldo. Você acredita que elas queriam colocá-lo em uma dessas casas de repouso? Certamente, seria um desses lugares – que passa nos noticiários de vez em quando -, que tratam os velhos feito gado. Bati o pé e não permiti. Disse: “Vou viver e cuidar do meu marido até o seu último dia. Ou até o meu último dia” A gente nunca sabe quem vai morrer primeiro, né? Elas nunca se importaram e, do nada, resolvem virar boas moças? Muito esquisito. A Judite acha que elas combinariam com as enfermeiras para colocar veneno no chá do Oswaldo. Igual acontece nos romances policiais.

Essas meninas devem pensar que o tio é rico. Não nego, nós já tivemos algum dinheiro – nada muito exorbitante -, mas o meu marido conseguiu perder boa parte. Abriu e faliu umas cinco ou seis empresas. Sempre foi muito sonhador e detestava patrão. Só que o pobrezinho nunca cuidou direito dos seus negócios. Eu procurava apoiá-lo. Só briguei quando ele quis vender esta nossa casa para servir como capital para uma de suas empresas malucas. Não deixei. Alguém precisava olhar para o nosso filho, não é verdade? Depois, o coitado cansou de falir tanto e resolveu trabalhar na empresa dos outros mesmo.

Ai, estou tão preocupada com essa insegurança, tão assustada. Estou até pensando em comprar um cachorro, desses bem bravos… como é mesmo o nome? Isso! Pit Bull! O problema é que eu tenho tanto medo desse bicho! É bem possível que eu fique presa em casa e o cachorro solto no quintal… Será que devo? Ou só uma boa tranca resolve? Eu me sinto um pouco sozinha, sabe… além de quase surdo, descobri recentemente que o pobre do Oswaldo tem uma catarata nos olhos que o deixa praticamente cego. Por isso, ele vivia trombando pela casa. E eu pensando que fosse por ser destrambelhado… Estou vendo com o plano de saúde se é possível operá-lo ano que vem.

Confiar na policia? Olha, com todo o respeito, sei que os senhores fazem o possível, porém tem muita cidade para pouco policial. Vocês não dão conta! Ah, é verdade, sim! Outro dia, uma tia da Judite foi assaltada e as viaturas demoraram horas pra chegar. A senhorinha quase morreu. Por enquanto, vou reforçar as trancas. E ver quanto custa os alarmes eletrônicos; Pit Bull vou desistir, além de bravo precisa de tantos cuidados. E tenho o Oswaldo que dá um trabalhão.

Aqui no bairro, confio apenas na Judite que conheço faz muito tempo. Não coloco minha mão no fogo pelo resto. Vou ficar maneta, meu filho! Quer um exemplo? Os nossos vizinhos da frente, do portão lilás. O Dr Hélio até que é boa gente, um advogado respeitável. Gosto muito dele. Mas a sua mulher – Deus me perdoe!!!! – não vale um cisco de olho.

Os dois tiveram um filho recentemente. A criança nasceu com os olhos puxados. Um japonêsinho! Não poderia ser mais diferente da mãe e, principalmente, do pai. Segundo a Judite me contou, aquela piranha inventou para o marido que sua família tem uns ancestrais no Japão. Sabe qual o apelido do Dr Hélio na vizinhança? Ai, é até pecado ficar zombando assim, tadinho… Tudo bem, já que insiste tanto… O pessoal só chama ele de Dr Cornélio. Pelas costas, claro.

Como? Não, eu não ouvi nem vi nada do que aconteceu na casa dos Brandão; só sei o que a Judite me contou, parece que foi horrível. Eu não estava no bairro. Passei a véspera de Natal na casa do Oswaldinho Jr e cheguei faz duas horas. Aquele tratante só lembra dos pais uma vez por ano. E a minha nora – que Deus permita que eu esteja errada -, ainda vai fazer o meu filho sofrer muito. Acredita que ela… hein? Já tá indo embora? Que pena. Muito trabalho pra fazer, claro. Espero que tenha ajudado. Se precisar de algo, é só ligar. Não aceita mesmo um cafézinho? Tá fresquinho! Passei agora. Só não vai dizer pra vizinhança que eu não te ofereci nada, hein?

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Ursinhos Carinhosos – Último capítulo

Clicando nestes links, você acessa o primeiro e o segundo capítulo dessa história.

*****

Tente imaginar cinco marmanjões fantasiados de ursinhos carinhosos, todos portando revólveres cálibre 38. Esta era a nossa situação dentro da kombi parada na frente do buffet infantil. Para piorar, fazia um calor infernal. Crueldade decidiu que a gente iria assaltar fantasiado de ursinho carinhoso. Alguns elementos da gangue esboçaram algum protesto, mas foi em vão. O homenzinho decidiu e não adiantava reclamar. Era obedecer e calar a boca.

O chefe da quadrilha repassou todo o plano novamente. Era preciso ser rápido e rasteiro. De minha parte, tentei convencê-lo a não usar violência. Contudo, ele foi áspero. “Apenas se as coisas derem certo, Ursinho. Eu não vou pensar duas vezes em atirar se for necessário. Sacou?”

Saquei…

Como era uma segunda-feira, não tinha festa e todos os colaboradores estavam de folga. Eu esperava por isso, pelo menos. O plano era ir direto a sala do cofre e, com a delicadeza inerente aos comandados por Crueldade, forçar o dono do Buffet à abrir o cofre. Depois, era amordaçá-lo e trancá-lo no banheiro. Muito simples. Ainda tentei ficar de fora desse crime, porém o Crueldade quis que eu fosse o guia de seu bando. Ainda insisti na minha posição, mas o nanico me convenceu apontando o revólver na minha cara e dizendo:

– Você vai e pronto, caralho!

Quem não se convence com um argumento tão poderoso?

Agora, lá estava eu e os demais membros da quadrilha prestes a assaltar o buffet. Foi tudo muito rápido. Crueldade tocou a campainha. Durante esses segundos de espera, torci para que ninguém estivesse por lá. Porém, logo ouvi passos… O barulho de alguém destrancando os trincos… O susto da cozinheira, que foi logo nocauteada por uma coronhada… O delicioso cheiro de risoles no ar…

Fui na frente guiando todos para o escritório onde estava o cofre e o meu ex-patrão. Mas nem precisava. Ele logo apareceu. E, para minha surpresa, armado. Antes mesmo que ele conseguisse disparar, um membro da quadrilha acertou o seu braço. O homem largou a arma gritando de dor. Sangrando muito, foi levado até o escritório. Crueldade espumava de raiva:

– Fala a senha do cofre, seu safado! Fala se não eu te mato e todos da sua família!! A senha, cadê a senha seu filho da puta?

Aos soluços, o homem disse a sequência de números que coincidia com a data de seu aniversário. Aberto o cofre, descobrimos que não havia tanto dinheiro como eu imaginava. Pelo contrário: era uma merreca quase insignificante.

– Só isso, seu desgraçado? Cadê o resto?

– É tudo o que tenho – disse o dono do buffet chorando – Eu já paguei os meus funcionários. Só me restou isso, juro por tudo que é mais sagrado… Me deixa vivo, pelo amor de Deus! Eu tenho família… cinco filhas pra criar… Clemência! Pode pegar todo o dinheiro. Nem chamo a polícia, prometo!

O próprio Crueldade pegou a merreca que estava no cofre. Um membro da quadrilha perguntou o que fazer com nossa vítima. Depois de pensar por alguns segundos, o homenzinho decretou:

– Vamos apagar esse desgraçado! Ele não pensaria duas vezes em nos matar se tivesse com a arma…

O dono do buffet seguia pedindo clemência, chorando, porém Crueldade gostava de honrar o seu apelido. Mandou seus homens carregarem-no até a piscina de bolinhas. O anão me disse:

– Você vai matá-lo. Vamos! Mira bem na testa! É uma ordem!

Lembro de cada detalhe das próximas cenas. Se eu fechar os olhos hoje, consigo revivê-las em câmara lenta. Enquanto erguia a arma em direção à minha vítima, percebi que, no fundo, apenas o odiava como patrão, não como ser humano. Foi quando notei que o dono do buffet me reconheceu, apesar da minha fantasia azul marinho:

– Ei… Acho que sei quem você é… Seu traidor, seu monstro, depois de tudo o que fiz por você… Você não é o…

O som de um disparo invadiu o ambiente. O corpo do homem tombou para trás. A piscina de bolinhas se transformou em uma mistura de sangue com pedaços de cérebro. A arma de Crueldade estava fumegando.

– Você é muito bundão mesmo… Jamais será como Toninho Crueldade… disse o sádico nanico.

Naquele momento, enquanto corria pra kombi, finalmente percebi que tinha cruzado a tênue linha que separa os bons dos maus. Não havia volta. Ajudei bandidos a fugir da cadeia, participei dos planos de um assalto e, por muito pouco, não matei o meu ex-patrão. Talvez, sempre estivesse do lado mal do front. Era tão bandido como os demais homens de Crueldade. Um deles, aliás, teve tempo para roubar uma bandeja de risoles fresquinhos.

– Garanti o nosso jantar, chefe!

Os risoles, aliás, merecem um parágrafo à parte. Foram os piores salgadinhos que comi em toda minha vida. Primeiro, estavam encharcados de óleo. Cada mordida equivalia a uma bomba de gordura trans. O empanado era ruim, não cobria o salgado completamente. A massa, por sua vez, era ainda pior. Rançosa, sem gosto, parecia ter sido feita no século passado. E o recheio, então? O que comi era de queijo e estava completamente gelado e duro. Os homens da gangue, entretanto, adoraram e o resultado foi uma diarréia coletiva. A privada, contudo, era uma exclusividade do Crueldade. Nós tivemos que nos contentar com humilhantes penicos.

No esconderijo, quando ligamos a TV, vimos que a notícia do assalto era o principal assunto dos telejornais policialescos da noite. Tomei um bruta susto quando vi minha foto como um dos suspeitos. A matéria relatou como foi o assalto e entrevistou alguns dos meus colegas e também famíliares do proprietário do buffet. Todos choravam e falavam que ele era maravilhoso, bom marido, excelente patrão… Inclusive alguns dos funcionários que o detestavam…  Cortou para o apresentador do programa:

– Olha, criminosos como essa quadrilha do Toninho Crueldade só tem uma solução: cadeira elétrica! Devem morrer tostadinhos. Tô certo ou tô errado?  O cidadão de bem bla bla bla bla…

Crueldade não perdoou:

– Pode esperar, gordão, um dia a gente se encontra e eu te mato, seu desgraçado! Saiam da frente que preciso voltar pro trono…

Os jornais também destacaram o assalto. O mais popular da cidade colocou a notícia na capa. Ao lado de uma foto gigantescca da piscina de bolinhas, eles estamparam a seguinte manchete em letras garrafais:

URSÕES DIABÓLICOS MATAM DONO DE BUFFETT

Nas páginas internas, fotos nossas. Entrevistaram até minha mãe que disse não acreditar que o seu filho pudesse estar envolvido em um crime. Disse que eu era um bom menino e tal. Era, mamãe. Era… Tenho até hoje esse jornal.

*****

Muitos anos se passaram desde os eventos narrados acima. Eu entrei definitivamente para a vida criminosa. Depois de alguns episódios, que foram amplamente cobertos pela imprensa e são de conhecimento público, matei Toninho Crueldade e me tornei o chefe da quadrilha. Sou o dono da favela do Urso. Não vou contar novamente o que todos estão cansados de saber. Quando comecei a rascunhar essas linhas, minha intenção era escrever uma autobiografia. Mas não vai dar tempo. Ontem, depois de um tiroteio, matei um policial. Duplo azar. O meganha era o coronel da polícia. Meu pescoço vale ouro. Estou escondido em um buraco e do lado de fora só ouço pipoco, tiros, gritos… putz, agora ouço um helicóptero. Ouvi pelo rádio que metade do contingente da polícia está no meu encalço. Meu destino está sacramentado. Lá fora, só ouço: “cadê o urso, caralho?” E mais tiros. E helicóptero. Comigo, apenas meu revólver, uma lanterna fraca, esses escritos e uma caneta. Espero que minhas mulheres e meus filhos estejam bem. Nunca mais vou vê-los. Fato. Estou consciente disso e conformado. Gostaria de deixar registrado que sempre procurei tratar os moradores bem. As crianças sempre tiveram festinhas. E com bons salgadinhos. E com Ursinhos carinhosos de animadores. Tudo de primeira. Sim, é verdade. Pode acreditar. O papel tá acabando. Lá fora, mais pipoco. Tenho duas balas no meu revólver. Será que consigo matar dois meganhas? A lanterna também tá fraca. Eu sinto o cheiro do medo. O cheiro do fim que se aproxima. Ás vezes, tento fazer um exercício de imaginação… O que eu seria se aquele velho beberrão não fosse convidado para aquela festinha? Não sei. Realmente, não sei. Quem sabe, estava tudo escrito para me tornar o que me tornei? Destino? Não sei se acredito. Já pensei algumas vezes em largar dessa vida e ser animador na Disney. Deve ser um vidão. Sempre gostei do Donald. E do Pateta. Odeio o Mickey. Rato boiola. Seria um fim digno. Trabalhar de animador e ganhar em dólar. Fazer turistas sedentos de consumismo felizes. Não há tios beberrões, eu acho. Não. Chega de sonhar. A lanterna está acabando, os meganhas estão se aproximando de tudo quanto é lado, e eu tenho que correr atrás do meu destino.

Fim

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Ursinhos Carinhosos – 2º capítulo

Esta história começa aqui

*****

As próximas cenas parecem ter sido escritas por um roteirista de Roliudi Hollywood. O primeiro brutamonte já chegou armando uma voadora que, milagrosamente, consegui desviar. Enquanto eu observava o meu agressor, que jazia estatelado no chão, agonizando, um segundo brutalhão aproveitou-se desse momento e aplicou uma chave de pescoço. Senti o ar faltando. Um terceiro chegou e disse:

– Segura este bosta que eu termino de matá-lo.

No exato instante em que ele armava o primeiro soco, ouvi uma sirene. Nunca fiquei tão feliz por ouvir esse barulho em toda minha vida! Fiquei sabendo depois que meus colegas animadores tinham chamado a polícia. Gritei por socorro. Isso atiçou ainda mais os meus algozes. Um deles acertou um violento golpe no meu estômago que fez todas as minhas tripas revirarem. Desmaiei. Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando retomei a consciência ouvi o final de um diálogo entre um dos meus agressores e um policial. Este último dizia:

– …fica sossegado, amigo. Esse pilantra terá o que merece na cadeia! Vamos levar o elemento pra viatura!

Eu ainda tentei contar o sucedido para os policiais, mas eles apenas mandaram eu calar a boca e me algemaram. Enquanto era carregado, pensei: “Já que estou indo pro inferno, vou abraçar o capeta”. E tomei uma atitude que, relembrando hoje, me arrependo um pouco. Enquanto passava no meio da festa, senti uma onda de ódio se apoderar de mim e resolvi descontar no elo mais fraco: as crianças. Eu gritava totalmente descontrolado:

– Crianças! Eu preciso contar uma coisa pra vocês! Sabe aquela história da cegonha? Não existe! Rararararaá É mentira! É o pai de vocês que trepa com suas mães! Ah, Papai Noel não existe também!

Ainda hoje não sei como saí vivo do Buffet. Pudera. As crianças desataram um choro em uníssono. Quando estava perto da saída, ouvi um diálogo inesquecível. Era uma garotinha de uns quatro anos que, chorando, perguntava pro pai:

– Seu malvado! Por que você trepa com a mamãe?

Eu devo ter acabado com a infância de algumas gerações. Mas minha vida também tomaria um rumo inesperado. Chegando na delegacia, descobri que o delegado de plantão era irmão do tio beberrão – além da semelhança física, o hálito de alcoól indicava que ambos vieram da mesma árvore genealógica. Eu tentei valer os meus direitos básicos, como chamar um advogado, mas ele apenas soltou uma gargalhada e disse:

– Enjaula esse filho da puta! Coloca ele na pior cela, aquela que tem o Toninho Crueldade…  Se ele escapar vivo, amanhã a gente aplica um corretivo nesse verme. Ah, por favor, tira essa fantasia ridícula de ursinho carinhoso…

Gelei. Não só pela ameaça velada, mas porque Toninho Crueldade honrava o seu nome. Ele media pouco mais de 1m e 60, mas a sua mente diabólica o deixava com as dimensões de um gigante. Ele era responsável pelo tráfico em uma importante favela de São Paulo e estava preso fazia pouco tempo. Seria logo transferido para uma penitenciária de segurança máxima.

Quando cheguei na carceragem, confesso que por alguns instantes desacreditei que aquele nanico fosse um dos bandidos mais perigosos da cidade. Mas logo entendi porque dizem que tamanho não é documento. O homenzinho estava visivelmente alterado. Seus comparsas, que estavam na mesma cela, também pareciam estranhos. Ficamos algum tempo nos encarando. Crueldade rompeu o silêncio:

– Escuta aqui, truta! Tô com uns esquemas pra sair do xilindró! Coisa garantida.Vai ser nessa noite…

– Eu fico na minha e… Crueldade me cortou furioso:

-Cala boca, eu ainda não terminei, porra! Eu não imaginava que colocariam outro preso nessa cela. Isso pode fudê com nosso plano. Me diz: você é meganha?

– Meganha?

– Policial, porra!

– Não, eu trabalhava em um buffet infantil, mas… Me desentendi com um dos convidados… É uma história meio maluca…

Crueldade olhou para os seus comparsas. Ficou algum tempo matutando e finalmente disse:

– Eu vou acreditar no que disse, truta. Mas você participará do nosso plano de fuga. Se algo der errado, você é o primeiro que morre. Sacou?

Eu respondi com o “Saquei” mais doloroso da toda minha vida.

O plano de fuga tinha a marca da mente genial de Toninho Crueldade. De algum jeito, ele conseguiu comprar os carcereiros e os demais presos. A ideia era simular uma rebelião. Toninho e sua gangue – incluindo eu! -, se aproveitariam da balbúrdia para escapulir do xilindró. Tudo aconteceu conforme o planejado. O único entretanto foi um dos carcereiros que, em um surto de honestidade, resolveu impedir a fuga. Eu percebi a tempo e dei uma coronhada no sujeito. Do lado de fora, aguardavam por nós alguns carros com o restante da quadrilha. Fiquei exatas duas horas preso!

Quando chegamos no esconderijo, percebi que o meu gesto foi notado por Crueldade. Ele fez questão de me cumprimentar primeiro e ressaltou o meu ato heróico anulando o carcereiro.

– Qual é o seu nome, truta? Nessa confusão, nem lembrei de perguntar…

– Meu nome é muito feio. Detesto ele. Prefiro o meu apelido: Urso

– Ui, Urso, que apelido mais fresco, caralho… – zombou Crueldade e os demais da gangue -, Ursinho carinhoso, ui, ui, ui…

– Toninho é muito macho mesmo… – disse para o meu próprio espanto.

E bota espanto nisso! Eu respondi no automático, como se o Crueldade fosse o dono do buffet. Se eu tivesse pensando um segundo a  mais, não me atreveria. O próprio chefão ficou espantado. Durante longos minutos ficou sério, depois sorriu e então finalmente falou, pausadamente, cada sílaba com a força de um tiro:

– Escuta aqui, truta, pro seu bem vou fingir qui não ouvi o seu desaforo, sacou? É a primeira e a última vez que te dou essa boiada. Nem minha mãe ousa me sacanear, sacou?

Nunca disse “saquei” com tanto alívio em toda minha vida.

Depois desse momento de tensão, o pessoal da gangue passou a discutir alguns assuntos da “firma”, que era a forma usada por Crueldade para se referir a sua quadrilha. E, segundo os seus comparsas, a firma precisava de muito dinheiro. E rápido. Era necessário restabelecer o estoque de armamentos e comprar a mercadoria para vender (Vulgo: drogas). Foram discutidos vários planos. Crueldade achava arriscado roubar agências bancárias.

– A polícia tá nos procurando em tudo quanto é buraco e eles sabem do nosso carinho por bancos. É preciso algo menos óbvio. Ninguém consegue pensar em nada? Bando de retardados!

Foi quando tive a ideia. Eu lembrei que era justamente naquela época que o dono do buffet pagava as esmolas para os funcionários. E ele o fazia em dinheiro vivo. Existiam alguns motivos para isso. Primeiro, ele não gostava de bancos. Achava um absurdo as taxas cobradas e o atendimento das agências. “O cliente só é gente quando abre a conta. Depois, vira gado no abetedouro naquelas filas do caralho. E esses desgraçados, mesmo tendo espaço para 10 caixas, só colocam dois pra trabalhar. Vagabundos!” costumava dizer com alguma razão. O outro motivo era menos idealizado. Ele não registrava os seus funcionários que, obviamente, também não tinham nenhum benefício determinado pela lei trabalhista. Pagar em dinheiro vivo facilitava a sua ilegalidade. Ele tinha um cofre na sua sala que, nesse período, ficava repleto de grana.

Eu contei essa história pro Crueldade. Os seus olhos faíscaram. Ele então me crivou com inúmeras perguntas. Queria saber tudo, onde ficava o cofre; se havia segurança; se o dono do buffett costumava se armar; se ele ganhava muito dinheiro… enquanto ele falava bateu um arrependimento. Nem tanto pelo dono do buffet, mas pelos meus colegas de trabalho. Entretanto, era tarde para lamentações. Inês, agora, estava morta tadinha. Quando dei por mim, o plano já estava armado. Crueldade decidiu assaltar o buffet.

[Continua…]

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Ursinhos carinhosos – 1º Capítulo

Este é o primeiro capítulo de uma série de três que o Ideias e etc publicará a partir deste domingo. Esta é uma experiência que eu sempre quis fazer na web: folhetim. Este é um texto bem diferente dos costumeiramente publicados por aqui, é uma ficção com humor. Eu me diverti muito escrevendo e espero que você se divirta lendo. Não deixe de comentar. Sua opinião é muito importante. Muito obrigado! Agora, eu deixo vocês na companhia do Urso…

*****

O meu apelido é Urso. O nome de batismo pouca gente conhece ou lembra. Melhor assim, pois é uma criação tenebrosa de minha mãe. O monstrengo é a misturas das sílabas do nome de meu pai, do avô materno e de um tio distante. Tudo isso com dois “y” no meio. Durante muito tempo, trabalhei como animador de festa de crianças. É possível conhecer muito da alma humana exercendo esse ofício. As descobertas, infelizmente, não são muito boas.

O apelido surgiu por causa desse trabalho. Naquela época, o SBT exibia o desenho animado “Ursinhos Carinhosos” e eles se transformaram em uma verdadeira febre. As meninas só queriam saber desses seres esquisitões. O dono do Buffet resolveu criar uma festa temática usando os personagens. O conjunto da obra era o suprassumo da cafonice, mas ele estava pouco se importando. Costumava dizer: “O importante é o sorriso das crianças e os cifrões a mais no meu cofre. Principalmente os cifrões”. E arrotava alto.

O sujeito tinha pirraça comigo. Ele tratava mal os seus funcionários e eu nunca tolerei esse comportamento. Certa vez, um dos animadores fantasiados de Power Rangers – os personagens mudavam conforme a moda -, foi flagrado roubando um risoles, apenas um risoles! Foi o bastante para o homem passar um pito público no pobre coitado. Falou que o salgadinho não era pro bico dele. Só não foi demitido porque as crianças poderiam sentir falta do Power Rangers Azul.

Eu não aguentei. Tomei as dores do meu colega. Falei que era um absurdo ele dar aquele esporro por causa do salgadinho. O homem me olhou nos olhos e falou soltando uma chuva de perdigotos:

– Qualé, ô meu? Tá se sentindo super heroi só por que está vestido de Power Rangers? Se toca, cidadão!  E só uma coisa: não gosto de funcionário meu incomodado. Se não estiver satisfeito, a porta da rua é serventia da casa!

Preferi continuar no trabalho, afinal de contas estava precisando muito daquela merreca que ganhava. Minha vingança consistia em xingá-lo muito. Em pensamento e, baixinho, quando estava com a roupa dos personagens. Durante as festas, também aprontava. Esperava um raro momento de folga, ia até a cozinha e, aproveitando que o zelo com os alimentos não era muito grande, soltava algumas cusparadas dentro da garrafa de refrigerante de 2 litros. O leitor pode considerar minha atitude um pouco infantil, mas convenhamos: tudo naquele ambiente era infantil. Até a idade mental do dono do buffet…

Apesar desses pesares, gostava do meu trabalho de então. Fantasiado de Ursinho Carinhoso, dava para observar muito do comportamento humano; começando pelas próprias crianças. Era engraçado ver a reação delas quando aparecia os personagens. Ficavam com os olhinhos muito arregalados, quase sem piscar.

A maioria nutria um medo fenomenal da gente. Medo justificável. O dono do buffet não investia muito nas fantasias e nós ficávamos parecendo verdadeiras anomalias ambulantes. Para você ter uma idéia: os olhos do meu personagem eram vermelhos e um convidado sacana me apelidou de “Ursinho Maconheiro”. Era muito comum eu me aproximar de uma criança para brincar e ela imediatamente abrir o berreiro:

– Quero minha mããããããããããeeeeeeeeeee!

Ah, as mães… protagonizavam cenas bizarras. A  mãe do aniversariante se sentia a dona do pedaço. Mandava na gente mais que o dono do Buffet. Queria uma atenção especial para o seu rebento, transformá-lo em uma verdadeira estrela mirim. Depois, as crianças tornam-se esses pequenos monstros cheios de vontades, mimadas, sem nenhum caráter, para só então os pais se perguntarem onde foi que erraram.

Outra figura muito característica é a tia solteirona. Esse tipo humano tem verdadeira veneração pelo bebê alheio, sempre o acha a coisinha mais linda da face da terra. Adora crianças e é capaz de pagar qualquer mico para fazê-las sorrir. Cansei de dançar lambada com uma dessas tias gordas – geralmente são gordas, bem gordas -, além de outros micos indescritíveis que elas pagam felizes da vida. Sempre tive bastante simpatia pelas tias solteironas.

Mas um dia a festa sempre acaba… no meu caso, o fim do meu trabalho como animador de festa de crianças foi infeliz. O nosso calcanhar de Áquiles sempre foram os tios beberrões que, sem ter muito o que fazer, enchiam a cara e o nosso saco. Foi o que aconteceu. Num determinado dia, uma dessas figuras detestáveis resolveu se divertir às minhas custas. Nem bem chegou no aniversário e já mandou a primeira:

– Olha, crianças, eu não disse  que teria uns ursinhos viados na festa?

Fiquei em estado de alerta. Ele nem estava muito bêbado e já estava aprontando. Imagine quando começasse a entornar a cerveja, que tinha em grande quantidade. Como sempre, eu estava certo. Algum tempo depois, enquanto fazia um pequeno show musical, o tal homem continuou atazanando:

– Ei, ursão boboca, vê se rebola direito, caralho!  Rebola, urso, rebola!

Alguns pais recriminaram o sujeito por causa do palavrão, mas ele estava pouco se importando. Conheço bem o tipo. Eles querem aparecer, não importa se agradando ou infernizando. O nosso duelo final aconteceu enquanto eu observava algumas crianças brincando na piscina de bolinhas. Foi quando senti uma mão apalpando minha bunda. Senti o bafo de alcoól e aquela voz que já tinha provocado tanto:

– Peguei no teu fiofó, urso. Agora rebola, ursão, rebola!

Tentei resistir ao assédio educadamente:

– Me solta, senhor, estou trabalhando…

– Trabalhando, é? Desde quando se vestir como um urso viado é trabalho?

Por alguns segundos, consegui me afastar daquela situação insana do homem com as duas mãos apertando a minha busanfa e refletir. Comecei a pesar os prós e contras daquela vida que levava; pensei no salário que recebia, se era realmente feliz. Cheguei a conclusão que não. Recebia muito pouco para aguentar um pinguço grudado no meu cu. Aliás, por dinheiro nenhum eu toleraria essa situação. Foi quando virei outro animal, um cavalo, e dei um coice no infeliz. A força do golpe, somada com a lei da inércia, fez com que o homem desgrudasse de mim e quase desabasse em cima de umas crianças que faziam uns desenhos no rosto. Passou bem ao lado, numa cena digna de filme pastelão.

O homem levantou cambaleando, trançando as pernas e furioso. Gritava que iria me matar. Tente imaginar a cena, leitor. Um urso rosa trocando sopapos com um velho bêbado no meio de uma festa de crianças. Se o embate fosse unicamente com o pudim de cana, eu ganharia fácil. A fantasia de urso absorvia grande parte dos golpes que, graças as condições físicas do meu desafiante, eram naturalmente fracos. O problema é que logo surgiram uns parentes do beberrão e eles tinham porte de lutador de Jiu-Jitsu. Tomei a atitude mais lógica: corri feito um doido!

Enquanto corria, percebi que a violência tinha se espalhado pela festa inteira. Crianças brigavam com crianças; brigadeiros e cajuzinhos viraram mísseis teleguiados, adultos aproveitavam para tirar satisfação por ressentimentos antigos. Era possível sentir o ódio no ar. Felizmente, consegui entrar na sala onde os animadores se trocavam e tranquei a porta. O meu esconderijo durou pouco tempo. O dono do Buffet me delatou e logo cinco ou seis brutamontes estavam esmurrando a porta. Coloquei uma mesa para ajudar na resistência. Do lado de fora, ouvia:

– Nós vamos te pegar, seu desgraçado! Você não pode ficar para sempre escondido aí!

Era verdade. Cada murro ou pontapé fazia com que a frágil porta envergasse alguns centímetros. Era uma questão de tempo. Eu já podia ver o meu corpo sendo massacrado pelos brutamontes. Com essa aflição em mente, me acocorei num canto no fundo da sala e, mesmo não sendo nada religioso, rezei com um fervor de causar inveja no Papa. Mas parecia que ninguém ouvia minhas preces. A fúria dos golpes aumentava cada vez mais. Agora, já existia uma pequena fresta…  Bastou mais um chute para a porta ceder e a mesa voar longe.

[Continua…]

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Carta aberta a Vladimir Herzog

São Paulo, 26 de novembro de 2010

Caro Vlado,

Resolvi escrever esta carta aberta para você. Eu também sou  jornalista e acho que a sua vida, e as circunstâncias de sua morte, nunca devem ser esquecidas. Elas trazem lições fundamentais para toda a sociedade. Para quem pretende se aventurar no jornalismo e até para quem não tem o hábito de ler jornais e revistas. O  que aconteceu contigo transcende a categoria profissional. E por uma razão muito simples: você é o exemplo maior das consequências nefastas da tortura perpetrada por um regime ditatorial.

E pensar que naquele fatídico 25 de outubro de 1975 você, certo que não devia nada para ninguém, se apresentou espontaneamente para os seus carrascos. E não havia mesmo razão para se preocupar. Afinal de contas sua ficha era limpa. Você foi morto por suas idéias, por fazer oposição a um regime que matava e torturava.

Um fator complicador era o seu cargo de diretor de jornalismo da TV Cultura. Isso irritou muito a linha dura, Vlado. A tua morte serviu de mensagem do submundo dos porões aos generais que mandavam no país, e que iniciaram o processo de abertura “lenta, gradual e segura”. O recado foi: “Nós estamos vivos e não queremos largar o osso” .

Te torturaram, Vlado. Alguns dos teus amigos, que também foram presos e torturados, ouviram os seus gritos.  Os assassinos ligaram o rádio bem alto, mas não pararam com o suplício. A morte foi, de certa forma, um alívio diante daquela selvageria. E então começou o teatro e uma reviravolta nesse drama.

Os seus assassinos, certos que estavam sendo muito inteligentes, pegaram o teu corpo e iniciaram uma simulação de suicídio. Amarraram um cinto no seu pescoço – vestimenta que não fazia parte do uniforme dos presos! -, e a outra ponta foi presa nas grades de ferro da janela. Colocaram-no de joelhos e, por mais insólito que possa parecer hoje, tiraram uma foto.

Bendita foto!

Sim, bendita foto, Vlado! Essa imagem escancara, como poucas na história da fotografia, a truculência de uma ditadura e mais do que isso: a certeza da impunidade. Qualquer pessoa de inteligência média saca rapidamente que o ambiente foi forjado. Na verdade, não precisa nem ser muito inteligente né?E a mistificação não terminou aí: chamaram um médico legista amigo do aparelho repressivo, que chama-se ironicamente Harry Shibata, e este sujeito assinou o laudo pericial sem nem ver o teu corpo…

Mas esta fantasia toda não adiantou de nada. A sociedade não aguentava mais tanta truculência, tanto medo; as incertezas de viver no sufoco. No dia 31 de outubro de 1975, houve uma missa ecumênica em sua memória. O marco inicial de uma longa estrada que culminaria no fim do regime militar em 1985.  É bom deixar registrado que muitas pessoas inocentes ainda iriam morrer. No ano seguinte ao teu assassinato, o operário Manoel Fiel Filho também foi morto em circunstâncias muito parecidas com as suas. E no mesmo DOI-CODI.

É possível tirar algumas lições desse episódio. Para mim, uma das mais importantes é que sempre devemos enfrentar as adversidades com coragem. Não podemos ter medo de denunciar o que está errado; não podemos ter medo de expressar nossas ideias, mesmo que elas contrariem interesses maiores. Esse ainda é um grande problema do jornalismo brasileiro, Vlado.  Aqui entre nós, devo te confessar que algumas vezes tenho receio das consequências de algumas coisas que escrevo. Mas então lembro do que sucedeu contigo, lembro da coragem de outros colegas nossos e respiro fundo. É um esforço que vale a pena, certo? Muito obrigado pela atenção e por seu exemplo.

Sem mais,

Marcelo Martins.

*****

Comentário: a crônica  foi escrita para a disciplina de Técnicas de documentário. O filme produzido nela não foi lá essas coisas, mas o texto eu acho que ficou aceitável. Eu não nasci para o audiovisual mesmo…

Palavra mágica

A crônica que segue foi escrita no semestre passado para o PIC (Projeto Integrado de Comunicação), que consiste na produção de uma revista experimental. O tema central foi sustentabilidade e terceiro setor. O assunto não era muito animador, convenhamos. Mesmo assim, houve bastante empenho da minha parte e também do meu grupo, composto dos amigos Eduardo Vasconcelos e Vinicius Mendes . O resultado foi a revista País Sustentável. A nossa matéria de capa foi uma entrevista com o José Luiz Penna, vereador por São Paulo e presidente do Partido Verde (PV). O resultado ficou muito legal. Se der, coloco aqui no blog. É um texto bastante longo… Por enquanto, fiquem com a crônica abaixo, que na revista ocupava a última página.

Repita comigo: sustentabilidade. Novamente, agora bem devargazinho, saboreando cada sílaba dessa palavra mágica: sus-ten-ta-bi-li-da-de. Ô, palavra que soa bem, né? Até um gago se esbalda falando tão belo léxico. E, como podem ver, com poderes mágicos.
Não acredita, leitor? Pode deixar que eu provo.

Pense no seu banco, por exemplo. Você não aguenta mais o gerente, os juros extorsivos cobrados no cartão de crédito e no cheque especial. Só de pensar na fila quilométrica para pagar as contas, a sua paciência se esvai como que por encanto. De repente, esse mesmo banco resolve ser “sustentável”. Desenvolve uma série de comerciais realçando a nova proposta. Até o talão de cheque passa a ser impresso no ecologicamente correto papel reciclado. Os juros, o gerente e a fila estão lá, mas… você não olha pra eles com
o mesmo rancor de antes. Por mais que o extrato indique que a sua conta esteja numa situação insustentável.

Não é por outro motivo que as empresas sérias- e mesmo aquelas que não são tão sérias assim- , façam questão de ter algum projeto na área. Qualquer projeto. Vale tudo. Desde arrumar a pracinha em frente à indústria até gastar os tubos patrocinando alguma iniciativa ambiental de longo alcance. Todo mundo quer aparecer bonito nessa fotografia. Ás vezes, a coisa beira ao ridículo. Certa vez,  numa propaganda de agrotóxicos, a empresa fez questão de realçar o seu compromisso com à natureza. É sério! O reclame tinha aquele texto já manjado: “A empresa X produz os melhores agrotóxicos para a sua lavoura. Sem destruir à natureza. e blá blá blá….” Claro, qualquer pessoa, que não teve os neurônios devastados pela ação do pesticida, sabe o quanto é difícil acreditar nessa ladainha, mas o importante é parecer sustentável.

O mesmo vale para as pessoas. E, principalmente, para aquelas pessoas que vão disputar as eleições no próximo ano. É o efeito Marina Silva. Todos os candidatos vão disputar para saber quem conhece mais sobre sustentabilidade. Nos horários eleitorais, vão posar como guerreiros pela causa ambiental; o apoio das ONGs ambientais será tão valioso como o do PMDB, embora estas não cobrem um preço tão alto depois da eleição… Portanto, é preciso cuidado para saber quem está apenas discursando em busca do seu valioso voto, de quem realmente está disposto a tratar com seriedade essa questão. É preciso separar o joio do trigo.

Convém não generalizar também no caso das empresas – incluindo os bancos, por quê não? Muitas dessas entidades preocupam-se realmente com o meio ambiente e desenvolvem medidas racionais para melhorar a vida de todos. Só não podemos ser ingênuos
de acreditar em toda fantasia exposta nos comerciais. E, principalmente, não se deixar enfeitiçar pelo poder e musicalidade da palavra sustentabilidade. Embora, devo reconhecer, essa é uma tarefa bem difícil. Ela vai bem em tudo. Basta colocar sustentabilidade ao lado… “Cartão de crédito da sustentabilidade”, “Arroz sustentabilidade”, “Universidade da sustentabilidade” e etc, etc… Repita comigo,  leitor, bem devagarinho, sentindo todas as sílabas: sus-ten-ta-bi-li-da-de

Princípio de incêndio

O texto que segue foi escrito para um trabalho da disciplina de Jornalismo Político e Econômico do quarto semestre. Em uma primeira versão do texto, a professora mandou fazer alguns ajustes de ritmo. Estava certa. O desenvolvimento da história estava meio emperrado mesmo. Voltei para a crônica, tirei o excesso de gordura e reescrevi alguns parágrafos. O resultado é o que segue.  Em tempo: ela é baseada em fatos reais.

Labaredas no Bourbon Ag. Estado

Sábado, 10 de outubro de 2009, 18 horas da tarde. Estou quase no fim de um típico programa paulistano: Shopping Center. Mais precisamente o Shopping Bourbon, na Zona Oeste de São Paulo. Para ficar ainda mais típico, assisti um filme. Nacional. O assunto foi o ataque do PCC a São Paulo no ano de 2006. Agora, estou folheando um livro sobre canções. Sou uma metamorfose ambulante. Interrompo a leitura por uns instantes e percebo alguma coisa estranha no ar.

Todos os clientes estão saindo da livraria. Do lado de fora, mais movimentação. Ainda tento voltar para o livro, mas o meu sexto sentido recomenda abandoná-lo na primeira estante e sair da loja. Obedeço ao meu instinto. Quando já estou do lado de fora, um funcionário informa que está tendo um incêndio no estacionamento do shopping.

Bendito sexto sentido!

Todos os clientes afluem para a escada rolante. Apesar de tensão no ar, todos tentam manter a calma… Sinto uma descarga de adrenalina invadir  minha corrente sanguínea… Estou no terceiro piso… Longe, muito longe do térreo… O coração parece querer romper à caixa torácica e pular pra fora… É quase possível apalpar o medo no ar… Nessa hora, por mais desagradável que seja você lembra das grandes tragédias… o incêndio no Shopping em Guarulhos no ano de 1996… centenas de pessoas morreram… Medo, muito medo… Sinto no ambiente um cheiro que me remete a canela… É estranhamente agradável… Pode ser algum material em combustão… Não quero ficar aqui para saber… A escada rolante segue muito devagar… As pessoas tentam manter a calma… Venço mais um lance das escadas rolantes… vou para o próximo e finalmente chego ao térreo.

Fora do shopping, parecia que o filme que eu acabara de ver se materializou na minha frente. Muitas viaturas com as sirenes ligadas, tanto do corpo de bombeiros quanto da polícia. Trânsito interrompido. Helicópteros no ar. E, claro, muitos jornalistas. Como será que souberam tão rápido desse incêndio? Deve ser o cheiro de tragédia no ar…

Sem o tráfego dos carros, é possível ocupar o meio da rua. Agora dá pra ver o shopping e… Ué, não dá pra ver nenhuma labareda… Deve ser o famoso “princípio de incêndio”, que os meus coleguinhas gostam de dizer quando a tragédia não é tão trágica assim. É interessante acompanhar o trabalho dos repórteres. Eles abordam vários clientes que explicam o sucedido. O da TV Record, por exemplo, entrevista uma moça com os cabelos tingidos de vermelho, que segura um copo de Milk Shake.

Resolvo dar uma volta. No passeio, começo a entender porque os teóricos da comunicação falam que o jornalismo precisa se reinventar. As pessoas, com os seus celulares em punho, filmam o incidente como se tivessem acompanhando um evento na Disney. É impossível competir com as engenhocas tecnológicas. O jeito, então, é aproveitá-las para fortalecer a cobertura. Vários telejornais usaram imagens produzidas por celulares para explicar o que aconteceu no Bourbon.

Em meio a esses devaneios, presenciei uma cena curiosa: uma mulher, com sua filha no colo, resolveu explicar para a criança o que estava acontecendo. Como se fosse uma guia turística:

– Olha só, princesa, o carro dos bombeiros… Quantos policiais e carros dos bombeiros, né? Olha, olha só, um repórter… não é engraçado? Faz tchauzinho pra câmera, faz!

Só faltou mandar jogar pipoca…

Depois de alguns minutos sem o shopping desabar na cabeça de ninguém, as pessoas retornam para dentro do estabelecimento. Resolvo acompanhá-las. O cenário dentro do Bourbon lembra muito o de uma guerra civil. Quase todas as lojas estão com as suas portas fechadas, com grades e tudo. Nada lembra o ambiente elegante de alguns minutos atrás. Mesmo assim, as pessoas voltam. É à força do consumismo. A necessidade de comprar supera até a segurança pessoal, afinal de contas até aquele momento ninguém sabia se a estrutura tinha sido danificada, ou não.

E nem todos os clientes souberam do sucedido. Na saída do supermercado, que fica dentro do Shopping, um cliente, com o carrinho cheio de compras, fica espantado com o que vê:

– O que aconteceu?

Com grande senso profissional, explico com as informações que eu tinha até então: houve um princípio de incêndio no estacionamento. Ele faz cara de espantado e disse que ninguém tinha avisado nada dentro do supermercado. Deve ser para não atrapalhar as compras, penso. Mas não digo… (Segundo a imprensa, o incêndio do sábado foi causado porque na cobertura do shopping existia um depósito de telhas de resina, um produto inflamável) Cansando de tanta “aventura”, vou para casa onde assisto à cobertura da televisão sobre o acontecimento. Ao que me consta, não apareci de papagaio de pirata em nenhuma reportagem. Ainda bem! E já penso em voltar um dia para continuar a leitura que foi interrompida pelo princípio de incêndio.

O cúmulo da solidão e o amigo imaginário

Estava no busão de sempre, indo para o trabalho de sempre, em pé como sempre, quando reparei no senhor sentado na minha frente. Estava num daqueles bancos individuais, que os ônibus de hoje tem e, sinceramente, não consigo entender a  lógica. Algum gênio deve ter concluido que não vale a pena colocar muitos bancos porque as pessoas preferem ficar de pé na condução…  vai saber!

Como eu ia dizendo, antes de ser interrompido pelo meu desabafo de cidadão indignado, tinha um senhor de idade sentado no banco individual. Era praticamente calvo; aliás, logo notei a existência de muitos ferimentos no seu couro cabeludo. A pele era enrugada e cheia das marcas que vamos adquirindo com o passar do tempo. Mas foi o comportamento do homem que chamou a minha atenção: ele falava sozinho. Não, não era simplesmente falar sozinho…

Existia todo um cerimonial no ato do homem falar sozinho. Ele olhava para o lado da janela e falava bem baixinho e rápido. Agia como se estivesse conversando com um amigo imaginário. E ele repetia o ritual várias vezes. Em outro momento, pegou de dentro do paletó um óculos, com lentes grossas, colocou-o  e, mesmo assim, precisou aproximar o relógio bem perto  para poder enxergar as horas. Parecia muito ansioso para chegar no seu destino.

O engraçado dessa história é que o seu amigo imaginário parecia não concordar muito com suas idéias. Depois de olhar para a janela, voltou o  rosto pra frente e balançou a cabeça indignado. O rosto do homem exibia uma grande tristeza. Fiquei com a impressão que aquele senhor idoso era alguém muito solitário. Mesmo assim, a história me inspirou na criação de uma piadinha:

– Você sabe qual é o cúmulo da solidão?

– É quando até o seu amigo imaginário não concorda contigo.

É bom deixar claro que tenho o mais absoluto respeito pela maluquice alheia, pois quero que respeitem as minhas maluquices. Apenas não quis perder a piada. Aliás, o velho me lembrou de pelo menos duas outras pessoas que eu conheci com esse hábito.

A primeira não é bem uma conhecida, mas era uma senhora que costumava freqüentar a igreja na época da minha primeira comunhão (sim, leitor, este herege que vos escreve foi catequisado…).  Ela tinha a aparência de moradora de rua; cabelos desgrenhados e olhar distante. Entrava na igreja, sentava em um dos bancos e ficava lá falando sozinha. Mas, diferente do senhor do ônibus, ela me passava uma sensação boa. Sorria fácil. Talvez, o seu amigo imaginário fosse mais gentil.

Com a segunda pessoa, tive um contato mais próximo. Era uma empregada que trabalhou lá em casa. O hábito de falar sozinha também tinha algumas características peculiares; como a de discutir com o seu material de trabalho.  Quando o rodo, por exemplo, caia na lavanderia ela não perdoava e dava uma bronca no pobrezinho.  Certa vez, ouvi um comentário hilário enquanto a dita cuja passava roupa:

– É, quem mandou não casar com um marido rico… Agora fica aí ralando, trabalhando feito uma camela…  Bem feito!

Pensando bem, não sei se é muito correto fazer piada com a solidão/maluquice alheia. Confesso, leitor: uma das minhas grandes fobias é terminar os meus dias na mais absoluta solidão. Sem amigos,  mulher, filhos, família; desprezado por todos, na melhor das hipóteses, em alguma casa de repouso; na cenário mais tétrico, como um mendigo, sem saber direito nem quem eu sou. O homem é um animal gregário, mas devo dizer que eu tenho alguma dificuldade em me agregar na sociedade. Se o pior acontecer, espero que o meu amigo imaginário tenha, pelo menos, a delicadeza de concordar com todas as minhas opiniões.

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A bruxa no ponto de ônibus ou Divagações num Domingo à noite

É noite na avenida Paulista. Noite abafada, com pouco vento para amenizar o calor sufocante. Meu ânimo não está dos melhores. Minha auto-estima e o amor próprio, que de modo geral não atingem grandes escalas, estão abaixo de zero. Saí de casa com o intuito de assistir uma comédia em um teatro, mas, por incrível que possa parecer, não achei o bendito estabelecimento. Prefiro não buscar muita explicação para certas coisas que acontecem comigo.

Chego ao ponto de ônibus, dou uma olhada para o trânsito e fico ainda mais deprimido. Está praticamente parado. Motivo: a prefeitura resolveu fazer uma reforma nas calçadas da avenida Paulista e escolheu o horário de Domingo à noite como o mais propício para a empreitada. A escolha tem sua lógica, mesmo assim o transtorno é inevitável. E eu estou louco para chegar em casa. Diante do caos na minha frente, o jeito é se munir de alguma paciência e aguardar. É o que me resta.

Olho ao redor e reparo numa figura peculiar. Tem os cabelos longos, desgrenhados, com a impressão de não receberem os cuidados mínimos há muito tempo. Seu rosto é envelhecido, mas não é necessariamente feio. É diferente. Não me surpreenderia se sua certidão de nascimento indicasse alguns anos a menos que o seu visual aparenta. Sua roupa é completamente preta, o que certamente não lhe deixa mais jovial. O conjunto de sua figura me remete a imagem de uma bruxa de conto de fadas – uma bruxa gótica, digamos assim. Confesso sentir uma sensação ruim ao olhar para a Bruxa gótica. Resolvo que vou ignorá-la. Olho mais uma vez para o trânsito; meu ônibus não dá nem sinal de vida.

A mente, então, viaja em algumas divagações sobre os próprios pontos de ônibus. Qualquer dia, escrevo uma tese sobre o assunto. Quem sabe poderia explicar certos eventos que acontecem nesses lugares. Exemplo: num dia você precisa de uma determinada linha de ônibus. Ela, só para variar, demora em chegar. Na outra vez que você for no mesmo ponto de ônibus, precisando de uma outra linha, aquela outra que você precisava é a primeira que aparece. Só pode ser provocação. A lei de Murphy, talvez, explique.

Os meus olhos não obedecem ao cérebro e interrompem minha divagação para registrar algo que eu não tinha reparado na Bruxa gótica. Ela carrega em suas mãos uma enorme pasta preta, com muitos papéis dentro. Ela se aproxima de algumas pessoas, oferece sua insólita mercadoria e recebe, de modo geral, um “não” juntamente com um olhar assustado. A bruxa, resignada, se aproxima dos assentos onde um gato está com a coleira amarrada na base de ferro que sustenta os bancos do ponto de ônibus. Ao lado, dentro de uma caixa, está um cachorro de porte médio. A bruxa faz um carinho nos dois animais. Chama pelos seus nomes. Deduzo, sem muita dificuldade, que aqueles são seus bichos de estimação.

Não sou o único que presta atenção nessa figura singular. Os demais passageiros também a notaram e acompanham cada passo seu. Ás vezes, uma senhora mais idosa murmura um “Cruz credo” ou um “Deus me livre” olhando para a Bruxa gótica. Um homem ao meu lado, que também a observava, resolve puxar assunto:

– Estão bem tratados os bichos, hein?

– É verdade – respondo. O homem estava disposto a falar:

– Essa aí parece até minha ex-mulher. Ela adorava animais de estimação, tinha cachorro, gato, papagaio… Minha casa parecia um zoológico. Não que eu não gostasse de animais, veja bem… Gosto muito. O problema é que minha ex-mulher gostava mais dos bichos do que de mim. Você acredita que ela queria dividir a cama com o nosso cachorro? Era um inferno! Quando eu estava gripado, ela me mandava dormir no sofá para não contaminar o cachorrinho. Um dia me enfezei e disse: ou ele ou eu! Ela ligou na mesma hora pro advogado pedindo a separação. Foi até melhor, sabe… Dividir a cama com aquele ser pulguento -eu tô falando do cachorro-, era horrível…-o homem deu uma risada e completou- com essa aí deve ser a mesma coisa. Entre o marido e os bichos ela não deve ter nenhuma dúvida…

Dito e feito. Alguns instantes depois, nós ouvimos uma conversa da Bruxa com uma mulher. Ela dizia que sua mãe detestava animais de estimação. As duas brigavam muito, até o dia que se cansou da sua progenitora e fugiu de casa. O meu recente amigo olhou para mim com ar superior, como se dissese “Viu, eu estava certo garoto!” Depois de oferecer sua mercadoria para todo mundo, chegou a nossa vez. Com voz tímida, ofereceu:

– Uma mensagem, amigo? Só R$ 0, 50.

Eu olhei com alguma curiosidade para aquela maçaroca de papéis. Alguns traziam mensagens edificantes ou religiosas; muitos deles com uma imagem de Jesus Cristo, outros falavam da importância de se amar incondicionalmente a natureza. Polidamente, recusei a oferta. O meu recente amigo também deu uma olhada, puxou conversa, mas, pelo que eu posso me lembrar, não comprou nenhuma das suas mensagens. Hoje, passado alguns meses desse evento, me arrependo. Seria uma prova concreta da existência da Bruxa gótica. Nem sei ao certo porque não comprei nada. Talvez, eu não tenha conseguido me livrar da má impressão.

O certo é que o tempo passava, os outros ônibus também passavam, só o meu não passava. Paciência, é preciso ter paciência. Eu e o meu recente amigo começamos, então, uma conversa típica de ponto de ônibus. Ele me contou qual o itinerário para chegar em sua casa; falou da opção pelo metrô, mas estava temeroso por julgar esse meio de transporte um tanto inseguro num Domingo á noite. Eu falei da demora da linha que eu pego para chegar em casa e que, se bobear, a dele chegaria primeiro. Novamente, dito e feito. Nem bem eu terminei de dizer isso, o meu recente amigo fez sinal para o seu ônibus parar. Desejou boa noite e seguiu o seu caminho.

Me senti ainda mais sozinho. Afinal, de um jeito ou de outro eu estava me divertindo com aquela conversa. Fiquei imaginando aquele sujeito dividindo a cama com sua mulher e o cachorro da família. Se fosse uma raça de pequeno porte, vá lá; mas se fosse um cão um pouco maior a coisa poderia ser bem desconfortável. Também fiquei curioso em perguntar como faziam para transar com um cachorro entre eles. Praticavam zoofilia? Contudo, o bom senso falou mais alto e guardei o questionamento apenas para mim. O homem poderia não gostar muito de uma pergunta tão íntima de um completo desconhecido. Pronto, agora estou divagando sobre a vida sexual alheia. É melhor dar uma olhada para o trânsito para ver se o meu ônibus aparece.

Não, nem sinal dele. Sozinho, minha atenção volta, novamente, para a Bruxa e os seus amiguinhos. Olho para a caixa e reparo que dentro dela não tem apenas um cachorro, mas dois, sendo o outro um filhote. Era curioso acompanhar o comportamento dos bichos. O cachorro médio era calmo, ficava no seu canto como se tivesse se conformado com sua situação. O gato, entretanto, não parava 1 minuto quieto. Dentro do possível, andava para um lado e para o outro. Agoniado, tentava se livrar da sua coleira. De vez em quando, a Bruxa se aproximava dele e conversava com o bicho. Fazia carinho, mas não deixava de chamar a atenção quando julgasse necessário. Os animais também atraiam a curiosidade das pessoas que andavam pela calçada. Um grupo de adolescentes parou e ficou brincando com o cachorro. O cão grunhiu um pouco. A bruxa apenas espreitava. Quando eles foram embora, falou alto para quem quisesse ouvir:

– Eu falo, eu falo… não mexe com o meu cachorro que ele não ataca ninguém. Mas ficam aí atiçando, depois leva uma boa mordida na bunda e eu sou a culpada…

Uma mulher quis saber sobre a alimentação dos animais. A bruxa respondeu:

– O mais velho é muito mimado. Só quer saber de ração e, pior, não pode ser qualquer raçãozinha mequetrefe não. Só quer saber de coisa boa. O filhotinho eu tô ensinando, desde pequeno, a comer comida normal pois eu não posso bancar sempre ração. O gato come de tudo. De vez em quando, até uns ratos viram almoço – aproveitou a oportunidade e deu o bote -, A senhora poderia me ajudar com uns trocados para comprar a ração deles?

Sem ter para onde fugir, a mulher enfiou a mão no bolso e deu algumas moedas para a Bruxa que agradeceu dizendo “Deus te abençoe”.

É curiosa essa relação entre as pessoas e os animais. Muitos seres-humanos, inclusive crianças, mendingam pela Paulista e nunca percebi o mesmo olhar curioso, a mesma preocupação em saber se estão alimentados ou não. Vivem de uma esmola aqui ou acolá. Não que eu ache que os animais abandonados não mereçam atenção e cuidado. Merecem, claro. Mas eu tenho para mim que eles conseguem se virar melhor que o homem abandonado. No sufoco, rasgam um saco de lixo e comem o que encontrar dentro.

Também é curiosa a relação do ser-humano com o seu bichinho de estimação. Acho a maior graça quando vejo alguém se referindo ao seu cachorro ou gato como “meu filho” ou então “Vem com a mamãe, Fifi” Até aí, tudo bem. É um jeito inusitado de incluir os animais domésticos na árvore genealógica da família. O que me incômoda são alguns casos extremos. Como certas socialites que fazem festa de aniversário para os seus animais, com direito a bolo de ração e o escambau. É futilidade demais para o meu gosto.

Certa vez, num desses programas matutinos de televisão, eu vi o caso mais extremo envolvendo o homem e os animais de estimação. A pauta da reportagem era sobre pessoas que tinham bichos exóticos em casa. A história mais curiosa era de uma mulher, dona de uma fazenda, que criava duas…  macacas. Já não lembro direito os detalhes, mas alguns momentos dessa reportagem são inesquecíveis. A dona da fazenda mantinha toda uma estrutura para os animais, incluindo alguns tratadores. Lá pelas tantas, a repórter, entrevistando uma funcionária que preparava uma mamadeira para as macacas, faz uma pergunta assombrosa e recebe uma resposta do mesmo quilate:

– Quem você gosta mais de cuidar de bebês ou das macaquinhas?

– Ah, eu gosto mais das macacas, claro…

Depois, a dona da fazenda mostrou o quarto onde as duas macacas dormem. Como se estivesse falando das suas filhas, ela comentou que uma era mais temperamental e demorava mais para dormir, enquanto a outra tinha um sono de princesa, digo, de macaca. No quarto, tinha uma televisão. A “dona” dos simios não deixou de indicar qual o programa predileto das suas “filhas”- era assim que a dita cuja se referia aos nossos ancestrais:

– Elas adoram os documentários sobre bichos do Discovery Channel. Assistem com uma atenção…

Pensei com os meu botões: devem assistir com inveja, isso sim, pois os seus primos estão em liberdade, enquanto elas estão naquele cativeiro de luxo. Mas eu divaguei – e como!!! É hora de voltar a atenção para o trânsito caótico na minha frente.

Olho para a fila de ônibus e vejo despontar no horizonte a linha que eu aguardo desde o começo desse texto. Já não era sem tempo… Alguns minutos depois, a condução já está parada na minha frente. Antes de entrar, dou uma última olhada para a bruxa gótica. Um misto de sensações me invade: sim, eu estou muito feliz em poder voltar para casa. Ao mesmo tempo, tenho a nítida impressão que nunca mais vou ver a bruxa e os seus amigos na minha vida. E isso me deixa triste. Começo a pensar na história de vida que eu poderia conhecer melhor se não ficasse com as minhas divagações inúteis.

Entro na condução. O ônibus esta vazio. Posso escolher o lugar e eu sempre escolho perto da porta. Sentado, eu penso na quantidade de pessoas que a gente conhece apenas superficialmente nas grandes cidades; seja puxando conversa num ponto de ônibus, na fila de um banco, nos transportes coletivos e etc. Quantas histórias incríveis a gente não deixou passar pela pressa cotidiana? Ah, e que bela reportagem renderia a bruxa gótica! Já me imaginava recebendo o prêmio Esso pela história da mulher que abandonou tudo para cuidar dos animais…  Não, eu nunca mais vou encontrá-la; estou divagando novamente… Seria tudo uma imensa divagação? Incluíndo a bruxa, o meu recente amigo e a reportagem que eu vi, juro que vi, num programa matutino de televisão? A vida é uma imensa divagação?

Mas eu divago…