Arquivo

Archive for the ‘Eu recomendo’ Category

O mundo é um balcão de negócios

Relações comerciais. Este é o único vínculo que Lourenço, o protagonista do filme “O Cheiro do ralo”, vivido por Selton Mello, consegue estabelecer com outra pessoa. Na verdade, não é possível falar de um vínculo propriamente dito. Dono de uma loja que compra produtos usados, o personagem humilha e se diverte às custas dos seus clientes. Não existe nenhuma lógica em suas decisões. É capaz de pagar uma boa importância por um objeto sem nenhum valor e desprezar algo realmente valioso. Tudo é feito sem nenhuma compaixão, seguindo apenas a sua lógica canhestra.

Aos poucos, entretanto, algo de curioso acontece. Lourenço se apaixona por uma garçonete; na verdade, pela bunda da mulher. A fixação é tanta que todos os dias ele almoça no estabelecimento em que ela trabalha, sempre arrumando um jeito de ver, um pouco mais, a parte da anatomia que tanto venera.

Não há afeto nessa relação. Para Lourenço, o mundo é um imenso balcão de negócios. O seu desejo é comprar a bunda, como se fosse um objeto qualquer que um cliente desesperado tenha levado para sua apreciação. Este é um ponto interessante do filme. O protagonista estabelece uma relação de poder com os seus clientes, pois sabe que eles, via de regra, estão desesperados em busca de dinheiro. E não poupa sadismo. A relação mais insólita acontece com uma mulher que precisa de grana para se drogar. Em determinado momento, ela aparece sem nenhum objeto para trocar. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Lourenço pede que ela fique pelada e começa a se masturbar.

Além da bunda, existem outras fixações. Uma delas é um ralo que, para o constrangimento do protagonista, exala mau cheiro. Ele até tenta resolver o problema, mas é incapaz de se entender com os encanadores. Outro exemplo é um olho de vidro que Lourenço mente para os clientes dizendo ser do seu pai. Aliás, Freud talvez fosse capaz de explicar a necessidade que o personagem tem de reconstruir o seu progenitor através dos objetos comprados dos seus clientes.

É em meio a essas fixações e tensões que o filme se desenrola. Uma briga com a bunda, melhor dizendo, com a garçonete tira o personagem dos eixos e provoca uma reviravolta na trama. Uma mudança também acontece na relação de poder mantida com os clientes – o que acaba culminando no final impactante.

Com sua trama no mínimo peculiar, “O Cheiro do ralo” possibilita ao público uma reflexão inusitada sobre a nossa sociedade e as relações de consumo. Tudo isso com interpretações convincentes, especialmente de Selton Mello, que está excelente como o perturbado e perturbador Lourenço.

Trailer

Comentário: Esta resenha foi escrita na mesma leva da carta para Vladimir Herzog e para a mesma disciplina. Considero este texto um pouco inferior ao anterior e por algum tempo pensei em não publicá-lo no blog. Mas resolvi reavaliar esta decisão e  deixar que o leitor diga o que achou destas mal traçadas linhas…

Uma causa nobre

Para mim, poucas causas merecem um abaixo assinado. Ela precisa ser urgente, fazer a diferença para a sociedade e, sobretudo, precisa ser nobre. Muito nobre.  Hoje, eu participei de um abaixo assinado. E a causa não poderia ser mais nobre: a abertura dos arquivos da ditadura militar.

Descobri sua existência através de um comercial que foi veículado antes dos trailers do cinema. O filme, estrelado por Fernanda Montenegro, é uma porrada! A atriz encarna Sonia de Moraes Engel que foi assassinada pelo regime de 64. Simples, direto, emocionante. E a grande dama do teatro brasileiro não cobrou nada para fazer essa peça publicitária. Outros atores também doaram o seu talento por essa causa: Glória Pires, José Mayer, Mauro Mendonça, Osmar Prado e Eliane Giardini. Cada um interpreta um desaparecido político que, ao fim de um breve histórico, pergunta olhando para a cara do espectador: essa tortura nunca vai acabar?

Ótima pergunta. Sim, porque parece que o governo federal empurrou com a barriga essa história até onde foi possível. E foi uma das grandes frustrações que tive com a atual administração. Sinceramente, não esperava grandes mudanças no terreno econômico, mas o presidente deveria ter culhões para iniciar esse processo. Lula seria um dos poucos com cacife popular, e moral, para isso. Mas preferiu não colocar a mão nessa cumbuca.

E já que estamos em ano eleitoral, eu adoraria ver a posição dos presidenciáveis sobre o tema. Tanto Serra como Dilma, em especial esta segunda, que teve uma posição destacada na luta contra o regime, deveriam responder claramente essa questão. Embora, para ser franco, não vejo muito sinal de mobilização do poder público.

É por isso que essa campanha, capitaneada pela OAB-RJ, é tão importante. Só a mobilização e a conscientização da sociedade pode gerar alguma mudança. Abaixo, você ficará com o comercial estrelado por Fernanda Montenegro que dispensa maiores apresentações. Clicando aqui você pode assistir aos outros filmes. Para participar desse abaixo assinado é muito fácil. Basta clicar no gif que está na coluna ao lado, dentro da caixinha “Causa nobre” que abrigará todas as campanhas que este blog julgar relevantes.

Novo layout

Ah, sim, você leitor habitual deve ter reparado que o Idéias e etc está de cara nova. Gostei muito deste template e resolvi experimentá-lo. Embora seja impossível mexer no cabeçalho, ele me pareceu muito moderno e simples, o que me pareceu um ótimo custo/benefício. Mas como esse blogueiro é democrático, gostaria de ouvir o que você, simpático freguês, achou do novo visual. A caixa de comentários é serventia da casa.

Chico Xavier

Cartaz do filme

Chico Xavier, o médium mais importante do Brasil, morreu em 30 de junho de 2002. Tinha 92 anos de idade. Deixou milhares de seguidores órfãos. Chico Xavier, o filme dirigido por Daniel Filho, estreou justamente no dia em que o médium completaria 100 anos de idade. E é uma prova que a popularidade do líder espiritual continua em alta: apenas nos três primeiros dias nos cinemas, 590 mil pessoas assistiram à fita, o novo recorde do cinema nacional.

Mas engana-se quem pensa que este é um filme voltado apenas para os seguidores da doutrina espírita. Certamente, boa parte do público está entre os que professam essa religião, porém, como é habitual na obra de Daniel Filho, este é um filme popular. Cheio de atores globais encabeçando o elenco, e com um jeitão que remete as minisséries da Globo- aliás, vai virar uma no fim do ano-, a obra é voltada para as massas. Com ou sem religião.

O fio condutor da história é uma entrevista que Chico Xavier concedeu para o programa Pinga-Fogo, da extinta TV Tupi de São Paulo, no ano de 1971. Enquanto discute aspectos da doutrina espírita, Chico vai relembrando sua vida: a descoberta dos poderes mediúnicos durante a tumultuada infância em Pedro Leopoldo; já adulto, o médium escreve os primeiros livros psicografados, incluindo neles poemas póstumos que seriam de escritores famosos, como Humberto de Campos. A obra gera muita polêmica e torna Chico Xavier uma figura popular.

Numa trama paralela inspirada em fatos reais, porém utilizando personagens ficcionais, um casal convive com a morte do filho, que teria sido assassinado por um amigo. A mulher encontra conforto nas cartas que recebe de Chico Xavier, porém o marido, que é diretor do programa Pinga-Fogo, permanece incrédulo. Mas uma reviravolta faz com que ele mude as suas convicções.

Três atores encarnam o personagem principal: a infância é interpretada pelo estreante  Matheus Costa, a vida adulta fica por conta de Ângelo Antonio e, por fim, Nelson Xavier interpreta o médium na terceira idade. Todos estão excelentes. A caracterização do elenco, que deixaram todos muito parecidos com o médium, torna o trabalho ainda mais impressionante. Os demais atores também estão bem, com especial destaque para Tony Ramos, interpretando o diretor incrédulo.

Chico Xavier é um filme que emociona e provoca o ceticismo do espectador. Uma boa oportunidade de assistir um arrasa quarteirão nacional, que retrata uma figura ao mesmo tempo controvertida e querida do público brasileiro.

Molusco Movie

Poster do filme

Poster do filme

Sim, este é mais um texto sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”. Um pouquinho atrasado, reconheço, mas mesmo assim este blog não poderia deixar de comentá-lo. Nunca antes na história do cinema nacional, um filme foi tão criticado antes de ser exibido para o grande público. Talvez, “Tropa de elite” seja uma comparação possível, porém existe uma diferença fundamental entre as duas películas. O filme do Capitão Nascimento gerou polêmica depois de ter “vazado” na internet. Ou seja, as pessoas puderam falar dele com algum conhecimento de causa. Já o Molusco Movie foi malhado antes de ter entrado em circuito nacional.O Idéias e etc, por achar que é preciso conhecer alguma coisa para criticar, preferiu guardar sua opinião para depois de ter assistido ao filme. No inicio do ano, o ritual fundamental foi cumprido. A resenha foi dividida em duas partes: a primeira é dedicada ao filme e a segunda trata das polêmicas geradas pela fita.

O filme

A história não poderia ser mais manjada. Os familiares do Lula, e os seus amigos íntimos – incluindo o pessoal do governo -, devem conhecê-la de cor e salteado. Está tudo lá: a miséria da família no Nordeste, a vinda para São Paulo no Pau de arara; o alcoolismo do pai do presidente, que fazia com que ele fosse muito violento com a mulher e os filhos, o trabalho como torneiro mecânico, o acidente; a morte da primeira mulher, a Dona Marisa, a presidência do Sindicato dos Metalurgicos, as greves do ABC, o PT… quer dizer, o PT não aparece não, mas sobre isso eu comento daqui a pouco.

Antes, vamos falar um pouco dos pontos fortes do filme. Entre eles, a atuação do elenco é um dos grandes destaques. Todo mundo perfeito. Glória Pires como Dona Lindu dispensa maiores comentários. Cleo Pires, que interpreta a primeira mulher de Lula, também está muito boa, mas isso também não é novidade – se é que o amigo leitor me entende. Em tempo: não é estranho que o Lula namore a Cleo e seja filho da Glória Pires? É um incestuoso mesmo…

Brincadeiras à parte, o ator que interpreta o presidente, o novato Rui Ricardo Diaz, está simplesmente excelente.  Ele podia cair facilmente no grande equívoco da caricatura. Afinal, poucas personalidades são tão imitadas quanto Lula. Mas Diaz conseguiu fugir desse perigo. Está contido, equilibrado, no timing certo. Os outros detalhes técnicos também estão legais. É um filme bem editado, com algumas cenas grandiosas, como a enchente que a família foi vítima quando moravam em uma favela e as reconstituições das greves do ABC.

Mas cadê os defeitos mesmo? Justamente, onde deveria residir o grande trunfo do filme: o roteiro. Convenhamos: a história do Lula é impressionante. Já vi até gente da oposição reconhecendo isso. Alguém que saí do nada e consegue chegar ao cargo máximo de uma nação como o Brasil merece ter a sua vida retratada na tela grande. Com os 12 milhões de reais que custou o filme, a produção esmerada e o elenco bem escalado o resultado só poderia ser um filmaço. Poderia…

…mas não é. E o culpado, como disse, é o roteiro. A história presidencial não é falsificada. O problema é que o protagonista é bom demais para ser verdade. É apresentado como se não tivesse defeitos ou falhas, ou seja, sem nuances de personalidade. É excelente filho, marido, sindicalista… A pílula ficou dourada demais até para os padrões de uma cinebiografia.

Fica a impressão que o longa foi elaborado para agradar a todos: tucanos, petistas, comunistas, lulistas, malufistas e outros “istas”. Nem o PT aparece, pois o filme acaba com a morte da Dona Lindu -desculpa estragar o final…-, e o partido só seria lançado alguns anos depois. Eis um ponto crucial. Ao meu ver, os aspectos políticos são jogados para escanteio. Vários minutos são gastos mostrando a relação do protagonista com a sua mãe, e a sua atuação no sindicato é mostrada timidamente. Sem o mesmo impacto . O fato do PT não aparecer nem na sua fundação é extremamente sintomático disso. É como se o Zezé di Camargo e Luciano quisessem que o seu “2 filhos de Francisco” agradasse também aos que detestam a dupla. Seria um esforço em vão. Afinal, por melhor que seja o filme, a trilha sonora é repleta de músicas interpretadas pelos estridentes cantores. Essa tentativa de despolitzar “Lula, o filho do Brasil” acabou sendo o seu grande calcanhar de Aquiles. Resultado: um filme mediano. Nem tão bom quanto o enaltecido pelos produtores, nem tão ruim quanto o pintado por boa parte da imprensa tupiniquim. Nota 6,0.

As polêmicas

Foram muitas as polêmicas que cercaram o filme presidencial. Era até compreensível, afinal estamos falando de um personagem que, apesar da alta popularidade, está longe de ser um consenso nacional. Alguns amam, outros odeiam e muitos amam odiar. Abaixo, segue um inventário com as principais polêmicas comentadas pelo Idéias e etc:

Lula, o filho do Brasil é chapa-branca

Crítica procedente. Como dito acima, o filme acaba por dourar demais a pílula presidencial ao centrar a trama nas relações do protagonista com sua progenitora, minimizando os aspectos políticos.

Lula, o filho do Brasil e os patrocínios

Antes mesmo que as primeiras cenas surgirem na tela, o distinto espectador é informado, por meio de um letreiro, que o filme foi feito sem o auxílio da renúncia fiscal. Ou seja, sem o uso do dinheiro público. A seguir, aparece o logotipo das 18 empresas que investiram na película. É uma relação que não faria feio no macacão de um piloto de F1. Ao todo, foi captado 12 milhões de reais. Nada mal para os padrões nacionais; um trocado para os estúdios de Hollywood, ainda mais em tempos de Avatar.

Tudo certo, mas… e a polêmica? Pois bem, alguns gaiatos reclamaram que muitas das empresas que patrocinaram o filme teriam negócios com o governo, ou teriam sido “coagidas” a patrocinar para não ficarem mal na fita com o presidente. Ora, ora, ora… vamos largar de hipocrisia, ok? Qual empresa hoje não gostaria de fazer negócios com o governo? Isso vale para qualquer governo: estadual, municipal ou federal. A grande imprensa que polemizou é a primeira a se estapear em troca de um anúncio de alguma estatal para suas páginas. Esses jornais e revistas não adoram se proclamar os paladinos da livre iniciativa? Ou será que livre iniciativa no dos outros é refresco?

Quanta hipocrisia…

Lula, o filho do Brasil e a campanha eleitoral

Esta é a grande polêmica do filme. Muitos consideram que a vida do Lula na telona é uma pré-campanha discarada da ministra Dilma Rousseff. Isso é procedente ou estamos assistindo a um clássico episódio de paranóia tucana? Para responder essa pergunta, é preciso retroceder um pouco no tempo. Vamos até o ano de 2004, nos EUA, onde aconteceu algo que pode ser muito esclarecedor.

Coincidentemente, os americanos também estavam as vésperas de uma eleição presidencial. Entre os candidatos, George W Bush, que ocupava a Casa  Branca e, convenhamos, não era nenhum exemplo de popularidade, em seu país e no resto do mundo. Pudera. Cada dia que passava, as notícias de soldados mortos no Iraque complicavam ainda mais a vida do sujeito.

Com esse cenário de fundo, e faltando poucos meses para a eleição, estréia nos cinemas um documentário que chacoalhou o mundo: Fahrenheit 11 de setembro, de Michael Moore. Para quem não assistiu, o filme é uma cacetada de alto a baixo em Bush Jr. Entre outras coisas, Moore mostra que o exército escolheu os soldados, para a campanha no Iraque,  nos Estados mais pobres da federação. E essa é a denúncia mais leve do filme. Fahrenheit 9/11 ganhou a Palma de ouro em Canne e foi saudado pelo público e por boa parte da crítica – os republicanos, não sei porque, detestaram o filme. Michael Moore nunca escondeu o seu desejo de influenciar nas eleições que aconteceriam em novembro daquele ano. Queria a vitória do candidato democrata. Infelizmente, o resultado não foi bem o sonhado por Moore…

Agora, voltemos para 2010 e para o Brasil. Antes de mais nada, eu entendo que estamos lidando com culturas e circunstâncias diferentes. Mas o episódio envolvendo o filme de Moore traz algumas lições: primeiro, mostra que o poder do cinema de influenciar não é tão grande assim. Em tese, um documentário, por lidar com a “realidade” e ter um apelo jornalístico, teria muito mais capacidade de influenciar que a ficção, onde os espectadores sempre ficam com a impressão de terem sido enganados. E, na maioria das vezes, foram mesmo.

No caso do filme do Lula, é preciso fazer um malabarismo mental para provar essa tese. Vamos lá: o filme beneficia a Dilma, porque lá em outubro as pessoas vão lembrar que ela é a candidata do Lula, logo vão sufragá-la porque ficaram profundamente emocionadas pelo filme. Sinceramente? Acho complicado. Precisaria de uma pesquisa para comprovar essa teoria. Para mim, o filme pode influenciar, no máximo aquela parcela do eleitorado que já tem uma queda pelo Lula, mas essas pessoas já iriam votar na Dilma, independente do filme. E olhe lá. Uma eleição não segue uma lógica tão simplista. São muitos os fatores envolvidos nesse processo. Se bobear, ninguém vai lembrar do filme, e dessas polêmicas, em Outubro.

Em tempo: o amigo leitor ficou interessado em assistir ao filme do presidente? Se a resposta for positiva, recomendo correr. Ao que parece, a bilheteria não foi nenhuma maravilha. Em São Paulo, na rede Cinemark, uma das maiores do país, o filme só está sendo exibido no cinema do shopping Interlar Aricanduva com sessões ás 12h 25 e 15h 10.

Mínimas para tirar a poeira

Eita blog desatualizado, hein? Pois é, leitor. Minha vida nas últimas semanas teve alguns solavancos – positivos, é bom frisar-, e o tempo que eu tinha de sobra para escrever ficou muito escasso. Mas hoje resolvi largar mão de ser preguiçoso e atualizar o blog. Ao que interessa, portanto.

Mínimas do Senado (e de todo o resto…)

Recentemente, a revista Veja descobriu que o jornal O Estado do Maranhão, cujo dono é o Sarney, só defende o seu dono…   o Sarney. Fico imaginando a ginástica mental que o repórter fez para chegar a tão surpreendente conclusão. Fiquei realmente chocado com tal achado. A reportagem é minha candidata ao Prêmio Esso. De melhor reportagem óbvia do ano.

*****

O Suplicy é meio lento, mas quando fala é relevante. A descompostura que ele passou, na segunda, ao bigodudo foi genial. Não por nada, interrompeu o discurso do Maranhense-mor sobre Euclides da Cunha. O autor de Os Sertões não merecia isso.

*****

Pergunta importante: quando vão começar um movimento para tirar o Sarney da Acadêmia Brasileira de Letras?

*****

Sério: uma das coisas mais divertidas dos últimos tempos é o Twitter. E serve como um profundo estudo antropológico da sociedade contemporânea. Um exemplo é a Xuxa reclamando da esculhambação com os erros gramaticais cometidos por sua filha, Sasha. Alegou que a garota foi alfabetizada em inglês. Alguém precisa avisar a apresentadora que, no Brasil, se fala e escreve em português. Aliás, pelo jeito que escreve, a rainha dos baixinhos (seqüelados…) também foi alfabetizada em inglês.

*****

Recomendo o livro Os segredos das redações, do Leandro Fortes. É uma das leituras mais legais que fiz sobre jornalismo nos últimos tempos. Muito útil para estudantes e profissionais já formados. Compre, peça emprestado, roube, mas não deixe de ler. Quando tiver mais tempo, faço uma resenha digna dessa obra

*****

Certa vez, eu li uma piada muito legal num livro sobre um tablóide alemão. Vou adaptá-la para melhor compreensão dos amigos leitores.

São Pedro estava observando o céu junto com um anjo. De repente, os dois vêem um fogo de artifício. O anjo pergunta:

– O que é isso, São Pedro?

– Ah, meu filho, isso sempre acontece quando uma pessoa mente na Terra. É um aviso divino.

Um pouco depois, os dois assistem um show pirotécnico. Parecia Copacabana em pleno reveillon, mas sem ninguém ser atingido pelos fogos na areia. O anjo, muito curioso, pergunta:

– E agora, São Pedro?

– Ah, isso é a Revista Veja sendo impressa, meu filho…

*****

O tablóide original é o Bild da Alemanha. O livro é do jornalista Günter Walraff que passou uma temporada como repórter, disfarçado, do jornal. Descobriu cada podridão. A obra chama-se Fábrica de mentiras. Aliás, recomendo muito outro livro dele, até melhor, chamado Cabeça de turco onde ele se fantasiou de Turco para mostrar a vida desses imigrantes na super racista Alemanha. Chocante. E imperdível.

*****

Esqueci de contar um detalhe: no livro, o Walraff relata que são os próprios jornalistas do Bild que contam a piada. E morrem de dar risada.

*****

Acabou de me ocorrer que eu já tenho o título para um possível livro sobre a Veja.  O Walraff não se incomodaria com o plágio.

*****

Falei no começo que as mínimas eram sobre o Senado, mas acabei falando pouco dos nossos parlamentares. Hhhhhmmmm… o amigo leitor não liga pra isso, né?

*****

Eu já falei mal da Veja hoje?

*****

Eu gosto desse estilo fragmentado. Dá menos trabalho com a coesão textual.

*****

Eu já falei mal do Gilmar Mendes hoje?

*****

Caramba, o que foi a vitória do Rubinho no Domingo passado? Bem bacana. Mas se a estatística estiver certa a próxima é só daqui a cinco anos. Na F-1 senior.

*****

Por hoje chega. Não sei quando volto. Nem sei se vão deixar esse blog continuar depois do post de hoje…

Uma dica e um cartum

Comecemos pela dica: a TV Cultura exibirá hoje o programa “Grandes Personagens Brasileiros” e contará a história de um personagem que honra o nome do programa: Henrique de Souza Filho, conhecido como Henfil. Na minha opinião, ele é um dos mais importantes cartunistas Brasileiros. Morto pela AIDS em 1988, ele viveu quase toda a sua vida profissional soltando petardos contra a ditadura militar.

Agora, o cartum…

Gilmar e a lei - Autor desconhecido

Gilmar e a lei - Autor desconhecido

Seleta de links

Errata do dia 10/02/2009: Duas correções na nota sobre o blog do Tomás Chiaverini: grafei o seu nome errado, com um “h” a mais e chamei o seu livro “cama de cimento” de “casa de cimento”. O próprio Tomás, nos comentários, notou essas pequenas lambanças. Correções feitas.

Durante as férias, um dos meus passatempos preferidos foi percorrer a blogosfera em busca de endereços interessantes. Posso adiantar que o resultado dessa pesquisa foi muito positivo. Dois desses achados serão apresentados logo abaixo. Esses blogs ainda não entraram no radar do grande público, mas valem ser visitados sempre que possível. O terceiro blog pertence ao jornal Folha de S. Paulo, mas, por ser segmentado, não está entre os campeões de audiência do site. Por fim, uma nota lamentando o encerramento de um blog e uma piadinha só para não perder o hábito.

Antes da estante – Blog do Tomás Chiaverini

O blog Antes da estante é um verdadeiro achado. O próprio nome já dá uma idéia do que aguarda o leitor. O jornalista Tomás Chiaverini conta os bastidores da elaboração de um livro-reportagem sobre as festas rave. Chiaverini transforma o seu blog num grande divã onde despeja suas agruras, inseguranças, alegrias, tristezas, e, para a alegria dos seus leitores, alguns casos saborosos ocorridos na apuração da reportagem. Nas férias, li o blog na íntegra e, se puder, recomendo que o leitor faça o mesmo. Mas se a preguiça e/ou a falta de tempo forem maiores, leia pelo menos os posts onde o autor conta sua experiência com o ecstasy. Sim, o jornalista experimentou a balinha para poder sentir na pele as sensações de um ravers, ou seja, um freqüentador de rave. O relato está aqui, aqui, aqui e aqui. Apesar de jovem, esse é o seu segundo livro, o primeiro é “Cama de cimento” sobre os moradores de rua. Como sou um sujeito muito sortudo, achei esse livro numa promoção. Quando eu ler, faço uma resenha aqui no Idéias e etc. Mas se seguir o padrão de qualidade do blog tem tudo para ser excelente.

Nota de rodapé – Blog do Thiago Domenici

Para quem não sabe, Thiago Domenici foi secretário de redação da revista Caros Amigos. Alguns meses depois da morte do fundador, Sérgio de Souza, Domenici foi demitido pelo telefone em circunstâncias muito estranhas. Segundo ele, os motivos foram algumas mudanças que ocorreram na revista sob a nova direção. Sua carta de despedida pode ser lida aqui. Para a revista, o motivo foi uma recusa de Domenici em entrevistar a ministra Dilma Roussef. De qualquer modo, o seu blog vale ser visitado de vez em quando pois o jornalista é muito bem informado em questões importantes como os direitos humanos. Thiago Domenici também é um dos responsáveis por um documentário sobre o caso Escola Base, disponibilizado na íntegra no youtube e que você pode assistir logo abaixo. É uma excelente ajuda-memória para quem é ou pretende ser jornalista…

O caso Escola Base 1º parte

O caso Escola Base 2º parte

Novo em Folha – Blog do programa de treinamento do jornal Folha de S. Paulo

Há vinte anos, a Folha de S. Paulo mantém um programa de treinamento intensivo em jornalismo diário. Através de um processo seletivo, o programa seleciona os participantes que terão uma série de palestras e atividades sobre a rotina de um grande jornal. O blog Novo em Folha, além de acompanhar a rotina dos participantes, discute muitas das questões do dia-a-dia do jornalista, através de casos apresentados pelos próprios leitores do blog, ou vividos pela equipe do jornal. Outro ponto forte são as dicas de cursos, livros  e links úteis na internet. Apesar de ser focado em jornalismo, nem é preciso dizer que o blog não traz uma perspectiva crítica do trabalho da imprensa Brasileira. Nem esse é o objetivo. De todo modo, o endereço merece fazer parte da visita constante daqueles que querem ser jornalistas.

O (novo) fim do Blog do Mino Carta

Em outubro de 2008, comemorei nesse blog o retorno de Mino Carta para a blogosfera. Nem bem o seu blog completou quatro meses  o jornalista resolveu encerrar os trabalhos novamente. Mas dessa vez ele deixará, também, de escrever os editoriais da revista Carta Capital. Os motivos foram esmiuçados no texto de despedida do seu blog, mas são dois em síntese: o primeiro foi um desalento com o governo Lula, que mereceu do jornalista e da sua revista, um grande apoio tanto na primeira quanto na segunda eleição. Apesar de grande amigo do presidente, Mino acha que o governo Lula acabou fazendo conciliação demais e política social de menos. O que, aqui entre nós, eu concordo em gênero, número e grau. O outro motivo está relacionado com a polêmica envolvendo Cesare Battisti. Mino Carta, que é Italiano de nascimento, é um fervoroso defensor da deportação do sujeito e desceu o cacete em Tarso Genro no seu blog. A reação dos leitores aumentou ainda mais o seu desalento. Esses fatores combinados fizeram com que, segundo suas próprias palavras, a sua crença no jornalismo falisse. Tenho para mim que essa é apenas uma fase. O próprio Mino anunciou que está escrevendo um livro sobre o Brasil. Quando terminar de escrevê-lo, o vírus do jornalismo, inoculado no seu sangue há tanto tempo, fará com que o velho e bom Mino Carta retorne ao batente.

Os jornalistas na visão do Barão de Itararé

Achei no blog Humor do Novaes uma máxima divertidíssima do Barão de Itararé sobre os meus coleguinhas. Para quem não sabe, Barão de Itararé é o nome artistíco de Aparício Torelly, um dos grandes humoristas brasileiros. Aqui você pode ler sua biografia. Vejam a máxima e me digam se não é perfeita…

baraoeosjornalistas

Incrível! Descobrimos vida inteligente nos reality shows!

Sim, existe vida inteligente nos reality shows. Não, ela não está no Big Brother Brasil e no seu elenco de gostosas descerebradas e saradões desmiolados. Quem consegue ficar três meses ausente da sociedade, sem ninguém sentir falta, não pode ter muito cérebro. Também não consigo ver muita astúcia em programas do gênero que realizam sonhos; seja o de ser cantor ou de trabalhar para um chefe mal encarado. Ao meu ver, a vida inteligente está no programa Troca de família, apresentado pela Record, as terças e quintas-feiras ás 23 horas e 15 minutos.

O programa, licensiado da americana Fox, funciona assim: em cada episódio, participam duas famílias que não se conhecem e, não raro, moram em cidades diferentes. As respectivas mães vivem, durante uma semana, com a outra família. Mas o que poderia ser uma experiência banal se torna algo emocionante e divertido. Em primeiro lugar, por um detalhe que as participantes só descobrem quando já estão na outra casa: quem decide como será gasto o prêmio, que é de R$ 25. 000, 00 é a outra mãe, por meio de uma carta trocada quando as duas se conhecem, já na parte final do programa. Ou seja, não é muito conveniente tratar mal a hóspede… Essa regra me deixa com uma pulga atrás da orelha: como é possível controlar a forma como a família gastará o dinheiro do prêmio?

O problema é que os conflitos são inevitáveis. Cada família tem os seus códigos, suas regras e os seus modus operandi e esse choque entre estilos de vida distintos é que faz a graça do Troca de família. A produção do programa faz a sua parte escolhendo famílias com perfis opostos. Um exemplo é o programa exibido na semana passada: de um lado, uma família comportada, pai e mãe professores de Educação física, filhos extremamente bem educados e discretos. Todos na casa detestam cigarro e procuram levar a vida com saúde. A outra família não poderia ser mais diferente. O alcoól e os cigarros são consumidos em abundância, do café da manhã ao jantar; as festas acontecem até altas horas; o sedentarismo e a alimentação calórica dão o tom. Os filhos adolescentes adoram uma boa farra.

Esse episódio, em particular, foi morno. As duas famílias evitaram um confronto mais direto, preferindo tentar viver em harmonia no lar de aluguel; com a exceção de alguns barracos, bem leves, se comparados com  os de episódios anteriores. Pode soar paradoxal, mas o programa só perde o seu interesse e a graça quando as coisas dão certo. Fica parecendo comercial de margarina, todo mundo feliz e sorridente. O divertido é ver o circo pegando fogo; as discussões, os filhos adolescentes e maridos chorando a falta que a mãe faz.

E a terceira temporada do programa promete ser bem divertida, como o leitor pode constatar assistindo ao trailer logo abaixo. E polêmica: antes da estréia, a Folha noticiou que uma das mães do programa se suícidou logo após o término das gravações. A Record já garantiu que exibirá o episódio

Em tempo: aproveitando que eu teci loas para a Record nas linhas acima, encerro fazendo uma crítica para equilibrar. A emissora do Bispo tinha um excelente portal de vídeos chamado “Mundo Record”, em que disponibilizava grande parte da sua programação, de graça e com grande qualidade de som e imagem. Semana passada, o site simplesmente sumiu sem nenhuma explicação. É uma pena. Era possível acompanhar o bom jornalismo praticado pela Record, em especial pela Record News que também tinha um portal semelhante. E que também sumiu. Para uma emissora que sonha em desbancar a Globo, não disponibilizar sua programação na internet parece um grande retrocesso.

Será que a crise bateu na porta do Edir Macedo?

Clicando aqui o leitor vai para o site oficical do programa e apertando o play abaixo tem uma amostra do que o aguarda na terceira temporada

[Idéias avulsas] Hotel Ruanda

[Publicado no dia 14/11/2007 ás 13h e 49 no Idéias avulsas]

Em 1994, morreram em Ruanda 800 mil pessoas no genocidío perpetrado pela maioria Hutu contra a minoria Tutsi. A imprensa e a comunidade internacional perceberam tarde demais a dimensão da tragédia. Aos poucos, entretanto, estão sendo feitos esforços para contar essa história sem cair na mistificação que atribui o genocídio a um conflito tribal com origens imemoriais. Um excelente livro sobre o assunto é “Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias” do americano Philip Gourevitch, lançado no Brasil pela Companhia das letras. Nessa obra, Gourevitch conta muitas histórias sobre o genocídio, uma delas inspirou o filme Hotel Ruanda.

O filme do americano Terry George, conta a história real do gerente de hotel Paul Rusesabagina que, embora seja Hutu, não embarcou na selvageria que cegou sua etnia. Atuando como um diplomata, Paul logo percebe que os genocídas tinham um fraco por dinheiro e bebida alcoólica. Graças ao seu esforço, 1000 pessoas foram salvas. Enquanto fazia esse trabalho, o gerente do hotel procurou chamar a atenção do resto do mundo para o drama do seu país. Em vão. Como dissemos, a comunidade internacional percebeu tarde o tamanho da tragédia.

Aqui, reside um dos grandes méritos do filme: a sua fidelidade histórica. O enredo tinha tudo para virar um melodrama, mas ele não descamba para o sentimentalismo fácil. Consegue aliar, com grande maestria, o entretenimento e a história. E o melhor: sem os exageros tão típicos de hollywood. Um dos momentos mais emocionantes do filme acontece quando surge o que seria uma tropa de ajuda internacional. Os hóspedes vibram imaginando que o seu suplíco tinha chegado ao fim. Ledo engano. Na verdade, aqueles soldados vieram apenas escoltar os europeus e americanos, para os seus países de origem, deixando os Ruandeses ao Deus dará. Uma cena que sintetiza muito bem o tratamento dado pela comunidade internacional ao genocídio

É claro que o filme, sozinho, não mostrará todos os nuances da tragédia, mas serve como uma porta de entrada fidedigna para conhecer essa episódio trágico da história da humanidade. Além de retratar na tela grande, um evento que mereceu apenas algumas notas de rodapé da imprensa. Abaixo o leitor poderá assistir ao trailer do filme:

O médico e os monstros

A peça “O médico e os monstros”, em cartaz no centro cultural FIESP- que agora homenageia a antropóloga Ruth Cardoso-, é uma ótima pedida de diversão inteligente e de graça. Inspirada no livro clássico de Robert Louis Stevenson, o espetáculo brinca com a idéia que todos nós temos um lado bom e um lado mau. O elenco do espetáculo é afiadíssimo e, tirando os dois protagonistas, todos interpretam vários personagens. O cenário do espetáculo também é muito engenhoso e os próprios atores fazem a transformação cênica. O patrocínio da FIESP também garante um figurino muito bonito e criativo.

Caso o leitor tenha ficado interessado em assistir o espetáculo, aqui vai algumas dicas. A bilheteria da FIESP inicia a distribuição do ingresso ao meio dia no dia da apresentação. Convém chegar pelo menos meia hora antes, pois a chance de pegar um lugar ruim-os ingressos são numerados-, ou nem isso são grandes. No mesmo teatro, só que um pouco mais tarde, é apresentada a peça “A tempestade” de Wuilliam Shakespeare. Essa eu ainda não vi, mas pretendo ver logo. Os dois espetáculos ficam em cartaz até o dia 14 de dezembro, portanto é bom correr.

Serviço:

Local
TEATRO DO SESI – SÃO PAULO Avenida Paulista, 1313 – Cerqueira César – São Paulo – SP
Temporada Até 14/12
Sábados e domingos, às 16h

* Apresentações Extra – Dia 19(Quarta) e 27(Quinta) de novembro teremos duas apresentações às 11h e às 16h

* Dias 10 e 11 de Dezembro não haverá espetáculo

Duração 75 minutos
Gênero Comédia
Capacidade 456 lugares
Ingressos Entrada: Franca – Os ingressos são distribuídos a partir do horário de abertura da bilheteria, no dia do espetáculo. São distribuídos dois ingressos por pessoa.

Fonte: Site do Centro Cultural FIESP

Categorias:Eu recomendo, Resenhando Tags: