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Archive for the ‘Observando a imprensa’ Category

O lado do biógrafo

pcdearaujoOs ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) iniciam nesta quarta-feira o julgamento da lei das biografias. É uma das votações mais importantes do ano. Em jogo, está a possibilidade da existência das biografias não-autorizadas sem a ingerência de biografados ou herdeiros. Nada pode ser mais relevante para a cultura nacional. Em 2011, o editor deste blog escreveu um trabalho de conclusão de curso (TCC) sobre o assunto e teve a possibilidade de entrevistar, por e-mail, um dos personagens mais importantes deste drama: o biógrafo Paulo Cesar de Araújo que teve sua biografia “Roberto Carlos em detalhes” censurada por seu biografado. Na entrevista que segue, temos uma síntese preciosa do seu lado da história que, de forma mais elaborada, você pode encontrar no livro  “O réu e o rei” livro de Araújo que, miraculosamente, não foi censurado por Roberto – aliás, uma obra de leitura indispensável. Esperamos que os ministros do STF  tenham bom senso. Segue a entrevista na íntegra. Ela foi realizada no dia 02/08/2011

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No começo do seu livro, você narra uma entrevista que fez com o cantor Roberto Carlos juntamente com outro jornalista. Você chegou a comentar do seu interesse em biografá-lo? Como foi essa conversa com o cantor?

Esta entrevista foi para o Jornal do Brasil, onde meu amigo trabalhava. Na época eu ainda não sabia que tipo de livro iria escrever, não tinha editora, não tinha nada. Estava apenas pesquisando sobre Roberto Carlos e a música brasileira. Comentei então com Roberto sobre este meu interesse e narrei aquele episódio do show que ele fez na minha cidade, em 1973, quando eu era criança. Roberto Carlos foi muito simpático e prometeu que depois também me daria uma entrevista exclusiva – o que, infelizmente, nunca aconteceu.

Em 1979, o Roberto Carlos tirou de circulação o livro “O Rei e eu” de autoria de Nichollas Mariano, seu ex-mordomo. Você não cita esse livro em sua biografia. Você chegou a ler essa obra? Se sim, qual a sua opinião sobre o trabalho?

Não citei este livro porque antes de encontrá-lo em um sebo eu já havia entrevistado Nichollas Mariano, que me contou aquelas mesmas histórias e outras que ele não colocou no livro. Neste livro o autor apenas relata a intimidade de sua relação com Roberto Carlos. É um livro de memórias, de poucas páginas, não tem nenhuma pesquisa, análise ou revelações bombásticas. Foi absurda a sua proibição.

Analisando a história do Roberto, percebemos que ele tem um histórico complicado envolvendo a censura. Além do episódio comentado acima, em 1983, segundo o seu próprio relato na biografia, o cantor processou a revista Status por uma matéria sobre a sua vida sexual. No ano de 1993, o cantor conseguiu, na justiça, a suspensão de uma série de reportagens do jornal Notícias Populares sobre sua infância. Esse histórico alguma vez o preocupou?

Não me preocupei com isto, pois sabia que estava fazendo um trabalho de pesquisa histórica, entrevistando músicos, radialistas, produtores, vasculhando jornais, revistas, discos e outros documentos. Mais que uma biografia, eu produzia uma história da moderna música brasileira, tendo Roberto Carlos como fio condutor. Além de passagens da vida pessoal do artista, falaria da era do rádio, da bossa nova, do tropicalismo, da jovem guarda, dos festivais da canção, da ditadura militar… Acreditava na possibilidade de Roberto Carlos perceber que o livro é, na verdade, um grande tributo à sua trajetória na música popular brasileira. Ressalta-se que Roberto Carlos já foi tema de outros livros como “Roberto Carlos: esta é a nossa canção” de Ayrton Mugnaini Jr e “Como dois e dois são cinco”, de Pedro Alexandre Sanches, que não tiveram nenhum problema na justiça.

No dia 27/04/2007 foi celebrado um “termo de conciliação” que pôs fim ao processo movido pelo cantor. Você estava presente durante essa sessão? Se a resposta for afirmativa, você poderia relatar como foi ficar frente a frente com o Roberto?Ele chegou a comentar as razões que o levaram a mover o processo? Não foi tentada nenhuma solução alternativa que evitasse o desfecho final?

Ficamos frente a frente ao longo das cinco horas de audiência. Eu fui enfático nas minhas posições, ele também. Roberto expressou na audiência que é o dono da sua própria história e que esta só deveria ser escrita quando e como ele quisesse. Os advogados também reclamaram de invasão de privacidade e do uso da imagem de Roberto sem autorização. Enfim, reclamaram das mesmas coisas citadas no processo. Eu tentei uma solução alternativa, afinal, aquela era uma audiência de conciliação. Propus fazer uma revisão do livro, tirando alguns trechos que ele considerava invasivos. Eu sabia que isto representava menos de 1% do conteúdo da obra. Propus também ceder os direitos autorais, não queria receber mais nenhum centavo pelo livro, mas que a obra continuasse circulando livremente. Porém, Roberto Carlos não aceitou. Ele quis proibir todos os capítulos, todas as páginas, todas as frases, tudo.

Por tudo que eu já li sobre o episódio, fiquei com a impressão que a editora Planeta não fez muito esforço para defender a biografia nos tribunais. Esse foi, aliás, o comentário em muitas reportagens publicadas no período. Essa impressão procede? Depois de cinco anos, qual a sua análise sobre o comportamento da editora?

É unânime que foi lamentável a postura da Editora Planeta. Ela devia ter defendido o autor e o livro e levado esta briga adiante. Isto teria sido bom para a imagem da própria editora, que honraria seu nome. Mas, infelizmente, ela optou por uma solução imediatista, mais cômoda e barata. Quiseram simplesmente se livrar do problema.

Qual a sua opinião sobre o comportamento da imprensa durante o episódio? As matérias foram equilibradas?

Considerando-se que Roberto Carlos é uma instituição nacional, o comportamento da imprensa foi bom, pois houve uma ênfase na defesa do direito à liberdade de expressão. A lamentar o fato de que a maioria daqueles que escreveram sobre o caso não leram o livro e enfatizaram apenas aquilo que seriam as reclamações de Roberto Carlos: seus casos amorosos, a morte de sua esposa, o acidente na infância. Isto deu ao público a falsa impressão de que o livro falava somente da vida pessoal do artista. Entretanto, o título “Roberto Carlos em detalhes” é muito mais abrangente. Faz referência também aos “detalhes” dos discos, das gravações, dos shows, do processo de composição, dos encontros, dos conflitos, dos movimentos musicais e da época de Roberto Carlos.

Tramita no congresso um projeto de lei, elaborado pelo então deputado Antonio Palocci e hoje tocado pela deputada Manuela Dávila que, em tese, daria segurança jurídica para as biografias não-autorizadas. Existe algum tipo de mobilização em favor dessa lei? Caso ela seja aprovada, você pretende colocar o livro “Roberto Carlos em Detalhes” novamente no mercado?

Sim, eu continuo na luta e caso seja aprovado o projeto da deputada Manuela Dávila vou reapresentar o livro, tentar adequá-lo à nova legislação.Considero este projeto digno do apoio de todas as pessoas que amam a leitura e não toleram mais ver livros proibidos e apreendidos no Brasil. A mudança do artigo 20 do Código Civil é mais do que necessária porque ele rompeu um equilíbrio que há na Constituição. Nesta o direito à liberdade de informação e o de privacidade se equivalem em termos de peso, um não prevalece sobre o outro. Eles são tratados como direitos iguais. Já o artigo 20 do Código Civil rompeu esse equilíbrio ao dar um peso maior ao direito de privacidade. Os advogados de Roberto Carlos, por exemplo, se agarraram nesse artigo 20 para obter a proibição do meu livro. E se valer para os outros o que valeu para Roberto, ninguém poderá mais contar a história do Brasil sem a expressa autorização de cada personagem.

Além de jornalista, você tem formação em história. Essa formação facilitou o seu trabalho na biografia? Curiosidade: você chegou a trabalhar em alguma redação?

Eu me formei em história na Universidade Federal Fluminense e em jornalismo na PUC-Rio, mas nunca trabalhei em redação. Em fichas de hotel sempre informo que sou professor, pois é isto o que exerço no meu dia a dia. O jornalismo eu pratico de forma independente na produção dos meus livros e em artigos que escrevo para jornais e revistas. Mas as duas faculdades foram fundamentais para os livros que escrevi. A formação de historiador, por exemplo, me ajuda na crítica aos documentos (quem os produziu? em que situação? com quais interesses?) e em sempre levar em conta os complexos processos de recriação do passado, das relações entre o lembrar e o esquecer, que marcam o funcionamento da memória.

O gênero biografia tem uma característica que é não ser exclusivo de nenhuma área do saber. Ela pode ser feita por psicólogos, historiadores, economistas e etc. No Brasil, via de regra, os seus autores são jornalistas. A que você atribui esse fenômeno?. Existe alguma distinção nas biografias escritas pelos jornalistas daquelas escritas por profissionais formados por outras áreas do conhecimento?

Acho que maioria das biografias é escrita por jornalistas porque eles trabalham mais diretamente com a escrita, com a produção de textos.O movimento do new journalism, por exemplo, contribuiu para que os jornalistas incorporassem elementos e técnicas próprios da literatura.No caso dos historiadores, predominou até meados dos anos 80 uma forte influência da historiografia marxista, que queria uma história voltada mais para o estudo das massas, das classes sociais. A biografia era então considerada um gênero menor por privilegiar os grandes homens, os grandes vultos da história. Felizmente, hoje há o entendimento de que não se pode pensar a sociedade sem levar em conta determinados indivíduos. Em diferentes tradições historiográficas é marcante agora o interesse pelo resgate de trajetórias singulares, em restaurar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais. As biografias escritas por jornalista são geralmente mais descritivas, sem muita contextualização ou análises. Já nas biografias escritas por historiadores, o resgate de trajetórias individuais normalmente é utilizado para iluminar questões ou contextos mais amplos. Como ensina Eric Hobsbawm, o acontecimento, o indivíduo, não são fins em si mesmos, mas constituem o meio de esclarecer alguma questão mais abrangente, que vai muito além da estória particular e seus personagens.

Na sua biografia, você chama o Roberto Carlos de mito. Além do difícil acesso ao cantor, quais outras dificuldades você encontrou durante o processo de pesquisa sobre a vida de alguém tão relevante no cenário artístico nacional?

A dificuldade maior foi de ordem econômica. Quando iniciei este trabalho de pesquisa, em 1990, ainda estava na faculdade e sabia que era mesmo um projeto de longo prazo. Eu estudava e trabalhava e tive que fazer a pesquisa nos intervalos entre uma função e outra. Depois me formei em História, comecei a dar aula, e como todo professor, trabalhava de manhã, à tarde e, às vezes, à noite. Entre uma escola e outra eu ia pesquisar na Biblioteca Nacional. As entrevistas também foram realizadas assim, com o agravante de que alguns personagens moravam em outros estados. Tive então que viajar nos fins de semana para Santa Catarina, São Paulo… Durante 13 anos essa pesquisa foi feita de forma autônoma, sem bolsa, sem nada. Em 2003, a Editora Planeta me chamou para publicar o livro. A partir daí tive um adiantamento mensal que tornou as coisas um pouco mais fáceis. Mas aí já estava na reta final da pesquisa e me concentrava basicamente na redação do livro.

Bizarrices do Brasil. (Ou quando um político é mais progressista do que nossa MPB)

A recente polêmica sobre biografias não-autorizadas tem algo inusitado e pouco comentado. Nesse assunto, um político consegue ter uma posição mais progressista que boa parte da nossa MPB. E o político em questão atende pelo nome de José Dirceu. Atenção, senhores! Estou apenas comparando posturas na questão das biografias não-autorizadas. Mensalão e assuntos derivados não estão em análise.

Recentemente, José Dirceu foi biografado por Otávio Cabral, repórter da revista Veja. Sem ler uma vírgula, posso afirmar que é um trabalho crítico ao biografado. Para dizer o mínimo.  A biografia, apesar dos muitos erros factuais encontrados nela, segue vendendo normalmente. Nenhuma ameaça de recolhimento dos livros ou processos judiciais. Ao jornal Folha de S.Paulo, embora afirmasse ser favorável a algum controle na publicação de biografias – posição muito semelhante ao do grupo Procure Saber -, ele também declarou: “Eu não tenho ânimo de impedir que ninguém escreva, faça filmes sobre mim. Se tem uma vida que é pública no Brasil, é a minha. Não tenho medo de que falem sobre mim. Também não tenho essa preocupação financeira, porque eu não preciso de dinheiro”

Segundo consta, Dirceu também está sendo biografado por Fernando Morais. Por tudo o que conheço desse escritor, ouso afirmar que vai ser uma biografia simpática ao petista. Para dizer o mínimo. Mas faz parte do jogo. Cabe ao leitor, formar ou deformar sua opinião a partir das informações recebidas por fontes diferentes. O nome do jogo aqui é liberdade de expressão, mas também atende pelo nome de democracia. Simples assim.

Enquanto isso, nossa querida MPB segue manchando suas admiráveis biografias. Hoje, Chico Buarque publicou um artigo melancólico em O Globo. Resumindo, ele defende restrições a biografias não-autorizadas citando pequenos erros encontrados em algumas delas ou exemplos de mau jornalismo. Em primeiro lugar, perfeição e unanimidade não existe; um erro encontrado em uma edição pode ser corrigido na próxima. A lei, do jeito que está instituída, acaba gerando uma censura prévia que impede as biografias no nascedouro. Fica impossível até mesmo reclamar dos defeitos. E o melhor remédio que conheço contra o mau jornalismo é o bom jornalismo.

O Brasil não é feito para amadores. Aqui, artistas que deveriam amar e zelar pela liberdade de expressão – como um filho querido ou o ar que respiram-, pois dependem dela para exercer o seu ofício, querem impor um tipo de censura prévia que não existe em nenhuma outra democracia. Esses mesmos artistas, quem diria, poderiam aprender algumas lições práticas com um político de passado conturbado, que, em tese, teria mais razões do que eles para tentar cercear uma biografia. São bizarrices que só acontecem no Brasil.

 

 

 

 

Trajetória da Folha Dirigida é marcada por começo modesto

Por: Marcelo Martins, Eduardo Vasconcelos e Simone Lima

Antônio Steter fala da trajetória da Folha Dirigida.

Uma sala com 24 metros no centro do Rio e apenas três pessoas na equipe. Esse foi o começo do jornal Folha Dirigida fundado, em 1985, pelo jornalista Adolfo Martins que tem no currículo a criação da editoria de educação do Jornal dos Sports. Nesse periódico, Martins chegou a apresentar um projeto editorial de uma publicação voltada para concursos públicos. A direção não acreditou que a ideia fosse viável.

O jeito foi tentar o voo solo. A primeira edição, entretanto, indicava que o jornal encontraria muitas dificuldades. Dos 3.000 exemplares do primeiro número foram vendidos apenas 260 jornais. Aos poucos, após conversas com revendedores e jornaleiros, a publicação foi conseguindo se estabelecer no mercado. Hoje, a tiragem mensal é 1.768.000 de exemplares mensais e é vendida em 32.000 bancas. O grupo conta com publicações na área de turismo e realiza uma feira anual sobre carreira pública.

O jornal ser sediado no Rio de Janeiro não é mero acaso geográfico. Segundo o diretor da sucursal de São Paulo, Antônio Steter, o fato da cidade ter sido capital federal até o começo da década de 60 gerou um vínculo histórico com o funcionalismo público. “Você costuma ter dentro das famílias cariocas, um componente da família que já tenha trabalhado ou esteja trabalhando para o governo” Por ser mais industrializada, São Paulo não depende tanto do Estado. Mas esta situação está mudando “ Hoje, o jovem quando saí da faculdade não tem emprego. Enquanto que a carreira pública não depende de ele conhecer o patrão, de ele ser amigo de ninguém. Depende só dele”, garante.

Carta aberta a Vladimir Herzog

São Paulo, 26 de novembro de 2010

Caro Vlado,

Resolvi escrever esta carta aberta para você. Eu também sou  jornalista e acho que a sua vida, e as circunstâncias de sua morte, nunca devem ser esquecidas. Elas trazem lições fundamentais para toda a sociedade. Para quem pretende se aventurar no jornalismo e até para quem não tem o hábito de ler jornais e revistas. O  que aconteceu contigo transcende a categoria profissional. E por uma razão muito simples: você é o exemplo maior das consequências nefastas da tortura perpetrada por um regime ditatorial.

E pensar que naquele fatídico 25 de outubro de 1975 você, certo que não devia nada para ninguém, se apresentou espontaneamente para os seus carrascos. E não havia mesmo razão para se preocupar. Afinal de contas sua ficha era limpa. Você foi morto por suas idéias, por fazer oposição a um regime que matava e torturava.

Um fator complicador era o seu cargo de diretor de jornalismo da TV Cultura. Isso irritou muito a linha dura, Vlado. A tua morte serviu de mensagem do submundo dos porões aos generais que mandavam no país, e que iniciaram o processo de abertura “lenta, gradual e segura”. O recado foi: “Nós estamos vivos e não queremos largar o osso” .

Te torturaram, Vlado. Alguns dos teus amigos, que também foram presos e torturados, ouviram os seus gritos.  Os assassinos ligaram o rádio bem alto, mas não pararam com o suplício. A morte foi, de certa forma, um alívio diante daquela selvageria. E então começou o teatro e uma reviravolta nesse drama.

Os seus assassinos, certos que estavam sendo muito inteligentes, pegaram o teu corpo e iniciaram uma simulação de suicídio. Amarraram um cinto no seu pescoço – vestimenta que não fazia parte do uniforme dos presos! -, e a outra ponta foi presa nas grades de ferro da janela. Colocaram-no de joelhos e, por mais insólito que possa parecer hoje, tiraram uma foto.

Bendita foto!

Sim, bendita foto, Vlado! Essa imagem escancara, como poucas na história da fotografia, a truculência de uma ditadura e mais do que isso: a certeza da impunidade. Qualquer pessoa de inteligência média saca rapidamente que o ambiente foi forjado. Na verdade, não precisa nem ser muito inteligente né?E a mistificação não terminou aí: chamaram um médico legista amigo do aparelho repressivo, que chama-se ironicamente Harry Shibata, e este sujeito assinou o laudo pericial sem nem ver o teu corpo…

Mas esta fantasia toda não adiantou de nada. A sociedade não aguentava mais tanta truculência, tanto medo; as incertezas de viver no sufoco. No dia 31 de outubro de 1975, houve uma missa ecumênica em sua memória. O marco inicial de uma longa estrada que culminaria no fim do regime militar em 1985.  É bom deixar registrado que muitas pessoas inocentes ainda iriam morrer. No ano seguinte ao teu assassinato, o operário Manoel Fiel Filho também foi morto em circunstâncias muito parecidas com as suas. E no mesmo DOI-CODI.

É possível tirar algumas lições desse episódio. Para mim, uma das mais importantes é que sempre devemos enfrentar as adversidades com coragem. Não podemos ter medo de denunciar o que está errado; não podemos ter medo de expressar nossas ideias, mesmo que elas contrariem interesses maiores. Esse ainda é um grande problema do jornalismo brasileiro, Vlado.  Aqui entre nós, devo te confessar que algumas vezes tenho receio das consequências de algumas coisas que escrevo. Mas então lembro do que sucedeu contigo, lembro da coragem de outros colegas nossos e respiro fundo. É um esforço que vale a pena, certo? Muito obrigado pela atenção e por seu exemplo.

Sem mais,

Marcelo Martins.

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Comentário: a crônica  foi escrita para a disciplina de Técnicas de documentário. O filme produzido nela não foi lá essas coisas, mas o texto eu acho que ficou aceitável. Eu não nasci para o audiovisual mesmo…

Entidade surge para confrontar grande mídia

Altercom é fundada por sessenta empresários da imprensa alternativa em São Paulo. Associação reivindica divisão igualitária da verba pública

Altercom. Esta é a sigla da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores de Comunicação, entidade fundada em São Paulo, no dia 27 de fevereiro de 2010. A organização reúne sessenta empresários donos de jornais, revistas, editoras, sites e produtoras de vídeo da chamada imprensa alternativa.

O projeto ainda é embrionário, mas já tem objetivos bem definidos. Segundo Eduardo Guimarães, ativista político e um dos sócios-fundadores da Altercom, “a ideia é a de uma organização que seja o contraponto de outras da grande mídia, tal como Abert [Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão] e ANJ [Associação Nacional de Jornais] só que dando vez e voz à mídia dita alternativa”, explica.

A principal reivindicação da entidade está relacionada com a divisão das verbas públicas oriundas da propaganda do governo que, de modo geral, fica concentrada na grande mídia. Sem esse dinheiro, parte das publicações não conseguem sobreviver, pois os anúncios da iniciativa privada quase inexistem nesse tipo de meio.

Para Hamilton Octávio de Souza, editor-chefe da revista Caros Amigos, um dos principais veículos desse segmento, a distribuição igualitária da verba torna o jornalismo mais democrático. “Por que as verbas públicas vão para a TV Globo e por que não vão para os veículos pequenos? A preocupação principal não é a orientação ideológica, o importante é fazer pressão para que você consiga ampliar a participação democrática dos meios, que eles possam sobreviver e possam ter uma atuação”, garante.

Ainda segundo Hamilton Octávio, a linha ideológica das publicações, que fazem parte da Altercom, foi um dos pontos discutidos nas reuniões sobre a entidade. Existiam dois pontos de vista distintos: para o primeiro, apenas órgãos com uma postura muito clara de esquerda poderia entrar. O segundo defendia que não deveria existir discriminação ideológica. Essa última visão ganhou o debate. “No grupo tem alguns veículos que não são de esquerda e não defendem o socialismo. Mas são veículos pequenos e são contra o monopólio da grande imprensa”, diz Octávio.

A discussão acima permite levantar uma questão importante: quais são as características de um meio de comunicação para ser considerado imprensa alternativa? Para o professor da USP (Universidade de São Paulo) Bernardo Kucinski, autor do livro “Jornalistas e Revolucionários – Nos tempos da imprensa alternativa”, que é resultado do seu doutorado sobre a atuação desse tipo de publicação durante a ditadura militar de 1964, as características mudam dependendo do período estudado. “Em cada tempo é uma definição. Mesmo assim, em termos gerais, pode-se dizer que uma publicação é alternativa quando seu conteúdo se contrapõe à ideologia e aos valores dominantes na grande mídia”, analisa Kucinski.

A revista Caros Amigos é um dos exemplos mais duradouros de imprensa alternativa no Brasil. Foi fundada em abril de 1997, pelo jornalista Sérgio de Sousa, que passou por várias dessas publicações durante o regime militar. Para Octávio, a revista surgiu com a intenção de se contrapor ao neoliberalismo. “Você estava em um momento em que o pensamento único imperava em todos os ambientes. A Caros começa a reunir pessoas que querem escrever com total liberdade, podendo criticar e refletir sobre essa situação”, garante.

A revista pode ser dividida em dois blocos: o primeiro é formado pelos colaboradores que vão do senador Eduardo Suplicy ao ex-presidente de Cuba Fidel Castro. O segundo é composto das entrevistas e reportagens produzidas pela redação. Quando assumiu o cargo de editor, há um ano, Hamilton Octávio resolveu privilegiar esse último segmento. “O leitor se cansa dos colaboradores e eles acabam sendo muito repetitivos. Você já sabe o que cada um vai escrever. Como é que você chama o leitor para a revista? Pelos artigos dos colaboradores é muito pouco, você tem que chamar pelas reportagens e entrevistas.”

Juntando assinantes e bancas de jornal, Caros Amigos vende 20 mil exemplares por mês no Brasil todo. Outra fonte de renda, a captação de anúncios, é bastante irregular. “Tem edições que têm oito, outras têm seis anúncios pagos e outras que não têm nenhum anúncio. Na média do ano, temos seis páginas de anúncios por edição”, contabiliza. É esse dinheiro que permite gerar algum superávit para saldar a dívida com bancos e gráficas. As dificuldades não impedem o editor de exaltar a qualidade da revista. “Nós sabemos que o que estamos fazendo tem um sentido político relevante. É um material sério, honesto, importante para o conhecimento da sociedade brasileira”, finaliza.

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Comentário: A reportagem acima foi escrita para a disciplina de jornal laboratório e, dentro de um semestre complicado em termos de trabalho,  foi uma das melhores coisas que fiz. O texto da matéria é praticamente o mesmo que eu entreguei para os professores, a única mudança está no verbo usado no título. Na versão original, optei por “contrapor”, mas tantos amigos, como professores acharam essa solução fraca. E eu concordei com eles. Existem outros pequenos defeitos na matéria acima, em especial no lead que poderia ser mais forte – ter “news” como diria o meu amigo Eduardo Vasconcelos. Mas estamos na faculdade para isso mesmo, né? Aprender, acertar, errar, crescer nessa profissão complicada que é o jornalismo. Em tempo: uma das coisas mais batutas dessa reportagem foi conhecer a redação da Caros Amigos. Ela não é nem sombra do que já foi um dia, porém a conversa com os seus atuais responsáveis foi bem bacana.

Molusco Movie

Poster do filme

Poster do filme

Sim, este é mais um texto sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”. Um pouquinho atrasado, reconheço, mas mesmo assim este blog não poderia deixar de comentá-lo. Nunca antes na história do cinema nacional, um filme foi tão criticado antes de ser exibido para o grande público. Talvez, “Tropa de elite” seja uma comparação possível, porém existe uma diferença fundamental entre as duas películas. O filme do Capitão Nascimento gerou polêmica depois de ter “vazado” na internet. Ou seja, as pessoas puderam falar dele com algum conhecimento de causa. Já o Molusco Movie foi malhado antes de ter entrado em circuito nacional.O Idéias e etc, por achar que é preciso conhecer alguma coisa para criticar, preferiu guardar sua opinião para depois de ter assistido ao filme. No inicio do ano, o ritual fundamental foi cumprido. A resenha foi dividida em duas partes: a primeira é dedicada ao filme e a segunda trata das polêmicas geradas pela fita.

O filme

A história não poderia ser mais manjada. Os familiares do Lula, e os seus amigos íntimos – incluindo o pessoal do governo -, devem conhecê-la de cor e salteado. Está tudo lá: a miséria da família no Nordeste, a vinda para São Paulo no Pau de arara; o alcoolismo do pai do presidente, que fazia com que ele fosse muito violento com a mulher e os filhos, o trabalho como torneiro mecânico, o acidente; a morte da primeira mulher, a Dona Marisa, a presidência do Sindicato dos Metalurgicos, as greves do ABC, o PT… quer dizer, o PT não aparece não, mas sobre isso eu comento daqui a pouco.

Antes, vamos falar um pouco dos pontos fortes do filme. Entre eles, a atuação do elenco é um dos grandes destaques. Todo mundo perfeito. Glória Pires como Dona Lindu dispensa maiores comentários. Cleo Pires, que interpreta a primeira mulher de Lula, também está muito boa, mas isso também não é novidade – se é que o amigo leitor me entende. Em tempo: não é estranho que o Lula namore a Cleo e seja filho da Glória Pires? É um incestuoso mesmo…

Brincadeiras à parte, o ator que interpreta o presidente, o novato Rui Ricardo Diaz, está simplesmente excelente.  Ele podia cair facilmente no grande equívoco da caricatura. Afinal, poucas personalidades são tão imitadas quanto Lula. Mas Diaz conseguiu fugir desse perigo. Está contido, equilibrado, no timing certo. Os outros detalhes técnicos também estão legais. É um filme bem editado, com algumas cenas grandiosas, como a enchente que a família foi vítima quando moravam em uma favela e as reconstituições das greves do ABC.

Mas cadê os defeitos mesmo? Justamente, onde deveria residir o grande trunfo do filme: o roteiro. Convenhamos: a história do Lula é impressionante. Já vi até gente da oposição reconhecendo isso. Alguém que saí do nada e consegue chegar ao cargo máximo de uma nação como o Brasil merece ter a sua vida retratada na tela grande. Com os 12 milhões de reais que custou o filme, a produção esmerada e o elenco bem escalado o resultado só poderia ser um filmaço. Poderia…

…mas não é. E o culpado, como disse, é o roteiro. A história presidencial não é falsificada. O problema é que o protagonista é bom demais para ser verdade. É apresentado como se não tivesse defeitos ou falhas, ou seja, sem nuances de personalidade. É excelente filho, marido, sindicalista… A pílula ficou dourada demais até para os padrões de uma cinebiografia.

Fica a impressão que o longa foi elaborado para agradar a todos: tucanos, petistas, comunistas, lulistas, malufistas e outros “istas”. Nem o PT aparece, pois o filme acaba com a morte da Dona Lindu -desculpa estragar o final…-, e o partido só seria lançado alguns anos depois. Eis um ponto crucial. Ao meu ver, os aspectos políticos são jogados para escanteio. Vários minutos são gastos mostrando a relação do protagonista com a sua mãe, e a sua atuação no sindicato é mostrada timidamente. Sem o mesmo impacto . O fato do PT não aparecer nem na sua fundação é extremamente sintomático disso. É como se o Zezé di Camargo e Luciano quisessem que o seu “2 filhos de Francisco” agradasse também aos que detestam a dupla. Seria um esforço em vão. Afinal, por melhor que seja o filme, a trilha sonora é repleta de músicas interpretadas pelos estridentes cantores. Essa tentativa de despolitzar “Lula, o filho do Brasil” acabou sendo o seu grande calcanhar de Aquiles. Resultado: um filme mediano. Nem tão bom quanto o enaltecido pelos produtores, nem tão ruim quanto o pintado por boa parte da imprensa tupiniquim. Nota 6,0.

As polêmicas

Foram muitas as polêmicas que cercaram o filme presidencial. Era até compreensível, afinal estamos falando de um personagem que, apesar da alta popularidade, está longe de ser um consenso nacional. Alguns amam, outros odeiam e muitos amam odiar. Abaixo, segue um inventário com as principais polêmicas comentadas pelo Idéias e etc:

Lula, o filho do Brasil é chapa-branca

Crítica procedente. Como dito acima, o filme acaba por dourar demais a pílula presidencial ao centrar a trama nas relações do protagonista com sua progenitora, minimizando os aspectos políticos.

Lula, o filho do Brasil e os patrocínios

Antes mesmo que as primeiras cenas surgirem na tela, o distinto espectador é informado, por meio de um letreiro, que o filme foi feito sem o auxílio da renúncia fiscal. Ou seja, sem o uso do dinheiro público. A seguir, aparece o logotipo das 18 empresas que investiram na película. É uma relação que não faria feio no macacão de um piloto de F1. Ao todo, foi captado 12 milhões de reais. Nada mal para os padrões nacionais; um trocado para os estúdios de Hollywood, ainda mais em tempos de Avatar.

Tudo certo, mas… e a polêmica? Pois bem, alguns gaiatos reclamaram que muitas das empresas que patrocinaram o filme teriam negócios com o governo, ou teriam sido “coagidas” a patrocinar para não ficarem mal na fita com o presidente. Ora, ora, ora… vamos largar de hipocrisia, ok? Qual empresa hoje não gostaria de fazer negócios com o governo? Isso vale para qualquer governo: estadual, municipal ou federal. A grande imprensa que polemizou é a primeira a se estapear em troca de um anúncio de alguma estatal para suas páginas. Esses jornais e revistas não adoram se proclamar os paladinos da livre iniciativa? Ou será que livre iniciativa no dos outros é refresco?

Quanta hipocrisia…

Lula, o filho do Brasil e a campanha eleitoral

Esta é a grande polêmica do filme. Muitos consideram que a vida do Lula na telona é uma pré-campanha discarada da ministra Dilma Rousseff. Isso é procedente ou estamos assistindo a um clássico episódio de paranóia tucana? Para responder essa pergunta, é preciso retroceder um pouco no tempo. Vamos até o ano de 2004, nos EUA, onde aconteceu algo que pode ser muito esclarecedor.

Coincidentemente, os americanos também estavam as vésperas de uma eleição presidencial. Entre os candidatos, George W Bush, que ocupava a Casa  Branca e, convenhamos, não era nenhum exemplo de popularidade, em seu país e no resto do mundo. Pudera. Cada dia que passava, as notícias de soldados mortos no Iraque complicavam ainda mais a vida do sujeito.

Com esse cenário de fundo, e faltando poucos meses para a eleição, estréia nos cinemas um documentário que chacoalhou o mundo: Fahrenheit 11 de setembro, de Michael Moore. Para quem não assistiu, o filme é uma cacetada de alto a baixo em Bush Jr. Entre outras coisas, Moore mostra que o exército escolheu os soldados, para a campanha no Iraque,  nos Estados mais pobres da federação. E essa é a denúncia mais leve do filme. Fahrenheit 9/11 ganhou a Palma de ouro em Canne e foi saudado pelo público e por boa parte da crítica – os republicanos, não sei porque, detestaram o filme. Michael Moore nunca escondeu o seu desejo de influenciar nas eleições que aconteceriam em novembro daquele ano. Queria a vitória do candidato democrata. Infelizmente, o resultado não foi bem o sonhado por Moore…

Agora, voltemos para 2010 e para o Brasil. Antes de mais nada, eu entendo que estamos lidando com culturas e circunstâncias diferentes. Mas o episódio envolvendo o filme de Moore traz algumas lições: primeiro, mostra que o poder do cinema de influenciar não é tão grande assim. Em tese, um documentário, por lidar com a “realidade” e ter um apelo jornalístico, teria muito mais capacidade de influenciar que a ficção, onde os espectadores sempre ficam com a impressão de terem sido enganados. E, na maioria das vezes, foram mesmo.

No caso do filme do Lula, é preciso fazer um malabarismo mental para provar essa tese. Vamos lá: o filme beneficia a Dilma, porque lá em outubro as pessoas vão lembrar que ela é a candidata do Lula, logo vão sufragá-la porque ficaram profundamente emocionadas pelo filme. Sinceramente? Acho complicado. Precisaria de uma pesquisa para comprovar essa teoria. Para mim, o filme pode influenciar, no máximo aquela parcela do eleitorado que já tem uma queda pelo Lula, mas essas pessoas já iriam votar na Dilma, independente do filme. E olhe lá. Uma eleição não segue uma lógica tão simplista. São muitos os fatores envolvidos nesse processo. Se bobear, ninguém vai lembrar do filme, e dessas polêmicas, em Outubro.

Em tempo: o amigo leitor ficou interessado em assistir ao filme do presidente? Se a resposta for positiva, recomendo correr. Ao que parece, a bilheteria não foi nenhuma maravilha. Em São Paulo, na rede Cinemark, uma das maiores do país, o filme só está sendo exibido no cinema do shopping Interlar Aricanduva com sessões ás 12h 25 e 15h 10.

Ainda o diploma de jornalismo…

Fuçando no blog da revista Imprensa, que o leitor pode acessar na coluna de “sites favoritos”, achei o cartum abaixo. Ele é divertido e, ao mesmo tempo, um retrato do que pode estar acontecendo nas redações brasileiras…

Mas existe uma pequena centelha de luz no fim do túnel. A PEC (Projeto de Emenda a Constituição) que restabelece a obrigatoriedade do diploma está na pauta de votação da Comissão de Constituição e Justiça. Sinceramente, não sei até que ponto eu me iludo com isso. Os interesses organizados contra são fortes, articulados, e não são fáceis de derrotar…

Mínimas para tirar a poeira

Eita blog desatualizado, hein? Pois é, leitor. Minha vida nas últimas semanas teve alguns solavancos – positivos, é bom frisar-, e o tempo que eu tinha de sobra para escrever ficou muito escasso. Mas hoje resolvi largar mão de ser preguiçoso e atualizar o blog. Ao que interessa, portanto.

Mínimas do Senado (e de todo o resto…)

Recentemente, a revista Veja descobriu que o jornal O Estado do Maranhão, cujo dono é o Sarney, só defende o seu dono…   o Sarney. Fico imaginando a ginástica mental que o repórter fez para chegar a tão surpreendente conclusão. Fiquei realmente chocado com tal achado. A reportagem é minha candidata ao Prêmio Esso. De melhor reportagem óbvia do ano.

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O Suplicy é meio lento, mas quando fala é relevante. A descompostura que ele passou, na segunda, ao bigodudo foi genial. Não por nada, interrompeu o discurso do Maranhense-mor sobre Euclides da Cunha. O autor de Os Sertões não merecia isso.

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Pergunta importante: quando vão começar um movimento para tirar o Sarney da Acadêmia Brasileira de Letras?

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Sério: uma das coisas mais divertidas dos últimos tempos é o Twitter. E serve como um profundo estudo antropológico da sociedade contemporânea. Um exemplo é a Xuxa reclamando da esculhambação com os erros gramaticais cometidos por sua filha, Sasha. Alegou que a garota foi alfabetizada em inglês. Alguém precisa avisar a apresentadora que, no Brasil, se fala e escreve em português. Aliás, pelo jeito que escreve, a rainha dos baixinhos (seqüelados…) também foi alfabetizada em inglês.

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Recomendo o livro Os segredos das redações, do Leandro Fortes. É uma das leituras mais legais que fiz sobre jornalismo nos últimos tempos. Muito útil para estudantes e profissionais já formados. Compre, peça emprestado, roube, mas não deixe de ler. Quando tiver mais tempo, faço uma resenha digna dessa obra

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Certa vez, eu li uma piada muito legal num livro sobre um tablóide alemão. Vou adaptá-la para melhor compreensão dos amigos leitores.

São Pedro estava observando o céu junto com um anjo. De repente, os dois vêem um fogo de artifício. O anjo pergunta:

– O que é isso, São Pedro?

– Ah, meu filho, isso sempre acontece quando uma pessoa mente na Terra. É um aviso divino.

Um pouco depois, os dois assistem um show pirotécnico. Parecia Copacabana em pleno reveillon, mas sem ninguém ser atingido pelos fogos na areia. O anjo, muito curioso, pergunta:

– E agora, São Pedro?

– Ah, isso é a Revista Veja sendo impressa, meu filho…

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O tablóide original é o Bild da Alemanha. O livro é do jornalista Günter Walraff que passou uma temporada como repórter, disfarçado, do jornal. Descobriu cada podridão. A obra chama-se Fábrica de mentiras. Aliás, recomendo muito outro livro dele, até melhor, chamado Cabeça de turco onde ele se fantasiou de Turco para mostrar a vida desses imigrantes na super racista Alemanha. Chocante. E imperdível.

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Esqueci de contar um detalhe: no livro, o Walraff relata que são os próprios jornalistas do Bild que contam a piada. E morrem de dar risada.

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Acabou de me ocorrer que eu já tenho o título para um possível livro sobre a Veja.  O Walraff não se incomodaria com o plágio.

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Falei no começo que as mínimas eram sobre o Senado, mas acabei falando pouco dos nossos parlamentares. Hhhhhmmmm… o amigo leitor não liga pra isso, né?

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Eu já falei mal da Veja hoje?

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Eu gosto desse estilo fragmentado. Dá menos trabalho com a coesão textual.

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Eu já falei mal do Gilmar Mendes hoje?

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Caramba, o que foi a vitória do Rubinho no Domingo passado? Bem bacana. Mas se a estatística estiver certa a próxima é só daqui a cinco anos. Na F-1 senior.

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Por hoje chega. Não sei quando volto. Nem sei se vão deixar esse blog continuar depois do post de hoje…

A agonia de Lúcio Flávio Pinto

O Brasil Real esconde histórias que o Brasil Imaginário, eixo Rio-São Paulo-FashionWeek-Daslu, prefere não enxergar. Uma das mais impressionantes é protagonizada pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará. Repórter destemido, Lúcio Flávio sempre se dedicou a investigar as mazelas da região: das quadrilhas que extraem madeira ilegal da Amazônia aos desmandos dos donos do poder. E faz isso longe da grande imprensa. As suas reportagens são publicadas no Jornal Pessoal, uma espécie de tablóide quinzenal editado pelo próprio jornalista, com tiragem aproximada de 2000 exemplares. A publicação sobrevive sem anúncios pois o repórter acredita que eles limitam a liberdade editorial.

Mas Lúcio Flávio está pagando um alto preço por sua independência. Em seus 18 anos de vida, o jornal já recebeu 33 processos, tendo sido condenado quatro vezes. Seu crime: investigar os poderosos da região. Entre eles, a família Maiorana, dona da TV Liberal, que por sua vez é afiliada da Rede Globo. O repórter descobriu que o patriarca dos Maiorana esteve envolvido com o contrabando, uma prática que era comum na região. Além dos inúmeros processos, o clã respondeu com a truculência típica dos coronéis. O próprio Lúcio Flávio relata o que aconteceu quando cruzou com um membro da família Maiorana num restaurante:

A agressão foi cometida por trás, dentro de um restaurante, onde eu almoçava com amigos, sem a menor possibilidade de defesa da minha parte, atacado de surpresa que fui. Ronaldo Maiorana teve ainda a cobertura de dois policiais militares, atuando como seus seguranças particulares. Agrediu-me e saiu, impune, como planejara. Minha única reação foi comunicar o fato em uma delegacia de polícia, sem a possibilidade de flagrante, porque o agressor se evadiu. Mas a deliberada agressão foi documentada pelas imagens de um celular, exibidas por emissora de televisão de Belém.

Vale repetir: Maiorana saiu impune, mesmo com as provas da agressão. Um elemento tragicômico dessa história é  o fato do agressor do jornalista ser presidente da comissão em defesa da Liberdade de imprensa da OAB Pará. Imaginem se ele fosse contra…

Ainda no território do direito, vale destacar outro ponto importante: nenhum advogado da região aceitou defender o jornalista. Vou repetir novamente, grifando com o itálico: Nenhum advogado da região aceitou defender o jornalista. Motivo? Deixemos que o Lúcio Flávio responda: “Alguns profissionais que contatei alegaram ser colaboradores do jornal O Liberal, outros diziam estar sem tempo e alguns marcavam encontro, que não se realizavam. Como bom entendedor, entendi”

Recentemente, a família Maiorana ganhou um processo na justiça contra o jornalista. Na sentença, o juiz determinou uma indenização de R$ 30.000 mais as custas do processo. E não ficou só nisso: proibiu qualquer expressão agressiva ou difamatória contra o patriarca Maiorana ou contra os seus filhos. Só eu estou sentindo o fedor de censura prévia?

O silêncio covarde da imprensa sobre esse episódio também não cheira bem. E olha que estamos falando de um profissional que foi correspondente do Jornal O Estado de S. Paulo durante 18 anos e tem quatro prêmios Esso no currículo. Também foi agraciado com o Colombe d’Oro per la Pace um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália e com o Prêmio internacional da Liberdade de imprensa, entregue em Nova York no ano de 2005. Se por aqui ficamos nesse mutismo covarde, com as honrosas exceções de praxe, nos Estados Unidos o caso Lúcio Flavio mereceu um editorial do jornal Washington Post, que dispensa apresentações.

Mais informações sobre o caso Lúcio Flávio: Clicando aqui, o leitor encontra um texto do próprio Lúcio Flávio sobre a sentença que o condenou. Neste link, o leitor encontra uma bela reportagem sobre o drama vivido pelo jornalista. Clicando aqui, você encontra um texto sobre o editorial do Washington Post (tentei achar o texto no site do Post, mas não consegui…). Se clicar aqui, o leitor encontrará o texto que me alertou para esta situação, escrito pelo sempre contundente Idelber Avelar. E, por último, mas o mais importante de todos, o link para o site do Jornal Pessoal, onde é possível entender o porquê que o Lúcio Flávio Pinto incomoda tanto os poderosos Paraenses.

Momentos (in)esquecíveis da imprensa

Momentos (in)esquecíveis da imprensa é o novo nome da série “Furadas da mídia” que o Idéias e etc lançou em janeiro. O nome mudou para ampliar os objetivos da série. Agora não ficaremos concentrados apenas nas lambanças cometidas pelos meus colegas, mas procuraremos registrar os grandes momentos do jornalismo brasileiro.

Isso não quer dizer que não destacaremos as pisadas na bola, muito pelo contrário. Elas serão um dos pratos mais saborosos desta série. A periodicidade: quando me der na telha. Ela pode ser semanal, quinzenal, bimestral, anual…   isso vai depender muito do meu humor e, principalmente, das descobertas que for fazendo no youtube. O amigo leitor está convidado a dar as suas sugestões para a série.

Na (re)estréia, dois momentos peculiares do telejornalismo brasileiro: Datena abandonado por um entrevistado, e o Bonner cutucando o então governador de São Paulo Claudio Lembo, na época dos atentados do PCC em São Paulo.

Socorro, o entrevistado fugiu!

Infelizmente, o vídeo mostra apenas o fim do barraco e o choorô do Datena, o que torna impossível saber exatamente o que sucedeu para o delegado abandonar a entrevista. Mas, mesmo assim, já é possível fazer algumas constatações. Primeiro: os apresentadores de programas policiais adoram bancar o juiz de direito. Com apenas alguns minutos, o sujeito já está julgado e condenado para toda a vida. Para complicar, eles contam com a vaidade de certos policiais que adoram um holofote. Essa combinação bombástica já rendeu momentos catastróficos do jornalismo tupiniquim, como o caso escola Base.

O vídeo acima é interessante para mostrar que essa relação polícia X imprensa pode ter algumas fissuras. O Datena, que sempre se julga o dono da verdade, não gostou quando o delegado não embarcou na sua corretíssima informação chamando-a de “boato” .Se quisesse, o doutor poderia prender o dito cujo por calúnia e difamação. Não seria tão ruim para o jornalismo brasileiro, não…

PCC no JN

O vídeo acima é interessante por alguns motivos: primeiro, relembra os famigerados ataques do PCC em São Paulo que começaram no dia 12 de maio de 2006. O Inagaki, do Pensar enlouquece, fez um belo post sobre o assunto, de onde, aliás, eu tirei o vídeo. Lá, o leitor terá mais informações sobre o acontecimento. Por aqui, prefiro analisar os aspectos jornalísticos do vídeo.Vamos lá.

Não sei vocês, mas me causou um baita estranhamento ver o Wuilliam Bonner apresentando o JN fora da bancada, em plena Marginal Pinheiros. Ele poderia apresentar o mesmo jornal, com a mesma qualidade, direto da redação da Globo em São Paulo. Na verdade, ele quis bancar o “corajoso” e era preciso mesmo ter coragem para apresentar o jornal sentindo aquele cheiro nauesabundo.

Mas o vídeo traz um outro elemento muito curioso. Por uma incrível coincidência, os dois repórteres que ele chamou neste bloco, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, saíram da emissora e, hoje, estão na principal concorrente, a Record. E saíram atirando. Os dois jornalistas não poupam críticas a antiga emissora em seus blogs que o leitor pode encontrar na parte de “sites favoritos”

Até a próxima edição dos “Momentos (in)esquecíveis da imprensa que pode ser amanhã, na próxima semana, daqui a quinze dias, ano que vem, ou sei lá quando…