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A testemunha

O texto que segue é o testemunho da Dona Sônia das Dores, chamada pelos íntimos apenas como Das Dores, para o rumoroso caso da “Chacina de Natal”. Para quem não se lembra, toda a distinta família Brandão foi encontrada morta logo após a ceia. Apesar de rigorosamente investigado, os policiais não conseguiram solucionar o crime. Alguns falam, inclusive, da possibilidade de ter sido obra de extraterrestres. Vizinha dos Brandão, dona Das Dores teve o seu depoimento colhido em sua própria casa, um dia depois da tragédia, pelo investigador do caso. Durante muito tempo, o testemunho permaneceu no mais absoluto sigilo. Isso gerou alguns boatos sobre o seu conteúdo, com alguns apostando que Dona Das Dores teria feito revelações que poderiam elucidar o mistério. Agora, depois de semanas de insistência, tivemos acesso exclusivo ao depoimento integral.

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Aceita um cafézinho? Tá fresquinho. Passei agora! Pode me chamar de Dona Das Dores, dispenso o senhora. Os amigos só me chamam de Das Dores. Não gosto muito do meu primeiro nome. Acho muito comum, sabe…

Este é o Osvaldo, meu marido. Ele ouve muito mal. Até usa um aparelho, mas deixe-me contar uma pequena travessura que faço. Quando o Osvaldo começa a encher o saco, eu simplesmente desligo o aparelho. É uma bênção, precisa ver! Ele resmunga um pouco, reclama. Eu fingo que não é comigo. Cinco minutos depois, está dormindo feito um anjinho. Não, não acho que seja maldade. Falo que a bateria não dura muito tempo. Eu brinco com a Judite, minha vizinha e comadre, que tenho um marido com botão liga/desliga. Ela fica com uma inveja…

Quer que ligue o aparelho? Não conta nada, combinado? Não, não acho que ele tenha alguma informação útil sobre este caso. Seu único interesse é o futebol. O resto do mundo, para ele, é uma grande bobagem. Dorme no telejornal inteiro, mas assiste futebol até quando não é o seu time que tá jogando. Coisa de homem. Vai entender… Ah, estou vendo aí que você escreveu Osvaldo com “v”, só que é com “W”. Da-bli-ú!

Não aceita mesmo um cafézinho? Tá fresquinho. Passei agora! Então tá.

Nossa, fiquei muito chocada com o que aconteceu com a família Brandão! Um grande absurdo! Os criminosos não estão respeitando nem o dia de Natal, o Natal, Deus meu, nascimento de Cristo!!! Onde vamos parar? Quando mudamos para cá, faz uns bons 35 anos – foi logo depois do nosso casamento, por isso que me lembro tão bem -, este era um bairro sossegado. Calmo. Com uma vizinhança excelente. Gente de bem. O Oswaldo vivia esquecendo o portão aberto e nunca nos aconteceu nada. Hoje, roubariam até o nosso paliteiro.

O nível da vizinhança piorou muito. Por favor, não comente isso com os vizinhos que fica chato, mas não posso mentir para um policial. O que é certo, é certo! Os Brandão, que Deus me perdoe, são uns bons exemplos. Eu ouvia as brigas e as gritarias daqui de casa. O filho mais velho andava com uma turma muito estranha. Barra pesada mesmo. O sujeito era todo tatuado. Parecia uma zebra. Se fosse você, dava uma investigada. Pra mim, foi ele… hein? Também tá morto? Cruzes!

Então, não sei… só sei que os filhos do Brandão lembram muito as sobrinhas do Oswaldo. É tudo farinha do mesmo saco. São médicas e nunca nem ligaram para saber se a saúde do tio está em dia. Um momento… Xxiii… Esse cheirinho não me engana: o Oswaldo fez cocô nas fraldas. Vou lá trocá-las e já volto, ok? Um minuto só.

Voltei. Deixei o Oswaldo dormindo no quarto. Sabe, outro dia a Judite e eu chegamos a conclusão que, ao envelhecer, nós viramos bebês de novo. Meu marido só faz comer, dormir e cagar. E nas fraldas! Qual a diferença com um recém-nascido?

Tá ouvindo esse barulho? Acredite: não é uma britadeira, mas o ronco do Oswaldo. Se abrir a porta, o som fica mais forte. Ah, para dormir é moleza. Eu espero ele cair no sono e vou pro quarto que era do Oswaldinho Jr, nosso único filho, que casou e saiu de casa.

Não quer mesmo um cafézinho? Passei agora! Tá fresquinho. Se quiser, posso abrir um panetone. É diet porque o Oswaldo é diabético, tudo bem? Não quer? Ok. Onde estávamos mesmo?

Ah, sim, nas sobrinhas do Oswaldo. Você acredita que elas queriam colocá-lo em uma dessas casas de repouso? Certamente, seria um desses lugares – que passa nos noticiários de vez em quando -, que tratam os velhos feito gado. Bati o pé e não permiti. Disse: “Vou viver e cuidar do meu marido até o seu último dia. Ou até o meu último dia” A gente nunca sabe quem vai morrer primeiro, né? Elas nunca se importaram e, do nada, resolvem virar boas moças? Muito esquisito. A Judite acha que elas combinariam com as enfermeiras para colocar veneno no chá do Oswaldo. Igual acontece nos romances policiais.

Essas meninas devem pensar que o tio é rico. Não nego, nós já tivemos algum dinheiro – nada muito exorbitante -, mas o meu marido conseguiu perder boa parte. Abriu e faliu umas cinco ou seis empresas. Sempre foi muito sonhador e detestava patrão. Só que o pobrezinho nunca cuidou direito dos seus negócios. Eu procurava apoiá-lo. Só briguei quando ele quis vender esta nossa casa para servir como capital para uma de suas empresas malucas. Não deixei. Alguém precisava olhar para o nosso filho, não é verdade? Depois, o coitado cansou de falir tanto e resolveu trabalhar na empresa dos outros mesmo.

Ai, estou tão preocupada com essa insegurança, tão assustada. Estou até pensando em comprar um cachorro, desses bem bravos… como é mesmo o nome? Isso! Pit Bull! O problema é que eu tenho tanto medo desse bicho! É bem possível que eu fique presa em casa e o cachorro solto no quintal… Será que devo? Ou só uma boa tranca resolve? Eu me sinto um pouco sozinha, sabe… além de quase surdo, descobri recentemente que o pobre do Oswaldo tem uma catarata nos olhos que o deixa praticamente cego. Por isso, ele vivia trombando pela casa. E eu pensando que fosse por ser destrambelhado… Estou vendo com o plano de saúde se é possível operá-lo ano que vem.

Confiar na policia? Olha, com todo o respeito, sei que os senhores fazem o possível, porém tem muita cidade para pouco policial. Vocês não dão conta! Ah, é verdade, sim! Outro dia, uma tia da Judite foi assaltada e as viaturas demoraram horas pra chegar. A senhorinha quase morreu. Por enquanto, vou reforçar as trancas. E ver quanto custa os alarmes eletrônicos; Pit Bull vou desistir, além de bravo precisa de tantos cuidados. E tenho o Oswaldo que dá um trabalhão.

Aqui no bairro, confio apenas na Judite que conheço faz muito tempo. Não coloco minha mão no fogo pelo resto. Vou ficar maneta, meu filho! Quer um exemplo? Os nossos vizinhos da frente, do portão lilás. O Dr Hélio até que é boa gente, um advogado respeitável. Gosto muito dele. Mas a sua mulher – Deus me perdoe!!!! – não vale um cisco de olho.

Os dois tiveram um filho recentemente. A criança nasceu com os olhos puxados. Um japonêsinho! Não poderia ser mais diferente da mãe e, principalmente, do pai. Segundo a Judite me contou, aquela piranha inventou para o marido que sua família tem uns ancestrais no Japão. Sabe qual o apelido do Dr Hélio na vizinhança? Ai, é até pecado ficar zombando assim, tadinho… Tudo bem, já que insiste tanto… O pessoal só chama ele de Dr Cornélio. Pelas costas, claro.

Como? Não, eu não ouvi nem vi nada do que aconteceu na casa dos Brandão; só sei o que a Judite me contou, parece que foi horrível. Eu não estava no bairro. Passei a véspera de Natal na casa do Oswaldinho Jr e cheguei faz duas horas. Aquele tratante só lembra dos pais uma vez por ano. E a minha nora – que Deus permita que eu esteja errada -, ainda vai fazer o meu filho sofrer muito. Acredita que ela… hein? Já tá indo embora? Que pena. Muito trabalho pra fazer, claro. Espero que tenha ajudado. Se precisar de algo, é só ligar. Não aceita mesmo um cafézinho? Tá fresquinho! Passei agora. Só não vai dizer pra vizinhança que eu não te ofereci nada, hein?

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