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Cinqüenta anos, este ano: um olhar sobre o golpe civil-militar de 1964

Castelo Branco observa o golpe em marcha?

Castelo Branco (à esquerda) aponta o golpe em marcha?

Os cinqüenta anos do golpe civil-militar de 1964, completados hoje, inundaram jornais, revistas, televisões, portais e livrarias. Praticamente todos os veículos de comunicação se debruçaram sobre o tema. Esse surto de interesse é ótimo. Quanto mais informação sobre a deposição de João Goulart, melhor. Este artigo é a minha contribuição para o debate. Resolvi fazer uma espécie de “guia” com os pontos que considero pétreos em relação ao 01 de abril de 1964. Ou seja, em vez de focar nos temas polêmicos ou que ainda precisam ser melhor esclarecidos, resolvi me dedicar ao que já está estabelecido entre os historiadores. Pelo menos, entre os historiadores sérios.

O primeiro ponto é relacionado a nomenclatura. O leitor deve ter reparado, na primeira linha deste texto, que eu chamei os eventos de 1964 de golpe civil-militar. É comum encontramos por aí apenas golpe militar. E faz diferença? Ao meu ver, sim. A explicação é simples: os militares não foram os únicos golpistas. É preciso fazer justiça com toda uma sociedade, que não usa quepe na cabeça nem veste uniforme verde oliva e, mesmo assim, contribuiu decisivamente para apear Jango do poder. E ajudou a sustentar a ditadura militar.

Os generais-ditadores, que se revezaram no poder a partir de 1964, contaram com grande apoio da burguesia da época. Até o pau de arara sabia que a Oban (Operação Bandeirantes), que torturou e matou centenas de pessoas em São Paulo, teve patrocínio de empresários. Alguns até assistiam as sessões de martírio. O regime começou a ruir quando os militares perderam esse sustentáculo, por uma série de razões que não cabe discutir neste texto. Em 1964, entretanto, esse apoio se espalhou por vários segmentos da sociedade.

Estou falando de praticamente toda a imprensa da época, que pediu e comemorou a deposição de Jango; estou falando dos políticos, com grande destaque para o incendiário Carlos Lacerda; estou falando das famigeradas Marchas da Família, com Deus pela Liberdade; estou falando das elites brasileiras, sempre muito temerosas com o chamado “perigo vermelho”; estou falando do Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), duas instituições civis que conspiraram, à luz do dia, financiando panfletos e candidatos da oposição. E, segundo muitos historiadores, sendo financiadas pela CIA.

E aqui chegamos ao segundo ponto essencial: a participação dos EUA no golpe civil-militar de 1964. Este é, aliás, um dos pontos mais bem documentados de toda essa trama – graças a política norte americana em relação a memória nacional, muito mais evoluída e transparente que a nossa. Basta uma rápida olhada nos documentos recentemente liberados pelos americanos para entender a dimensão da participação estaduniense. Além do financiamento da oposição por meio do Ipes-Ibad, a crise política era acompanhada com lupa pelo embaixador Lincoln Gordon, que não apenas informava Washington de cada novo acontecimento, como solicitou de seus compatriotas apoio armado para o golpe. Se por acaso João Goulart resistisse, uma frota naval estaria à disposição dos golpistas. Não foi preciso. Os fatos se precipitaram rapidamente. E o governo dos EUA foi o primeiro a reconhecer o novo regime ditatorial.

A explicação para tamanho interesse dos Estados Unidos está relacionada com o terceiro ponto essencial: a guerra fria. O mundo estava bipolar. Literalmente. Um dos polos era o capitalista, obviamente liderados pelo todo poderoso irmão do norte; o outro polo era o comunista, que tinha como guia a também muito poderosa União Soviética. Com esse contexo em mente, conseguimos compreender melhor os fatos. É preciso não esquecer que Cuba, sobre influência soviética, estava a poucos milhares de quilometros de Miami. E dando muita dor de cabeça para os EUA. A mera possibilidade do Brasil se transformar em uma Cuba de proporções continentais disparou todos os alarmes Ianques.

Algumas perguntas se impõem: as esquerdas brasileiras tinham todo esse poder ou era tudo paranóia? Jango daria um golpe comunista e levaria o Brasil para a órbita soviética? Vamos por partes. Primeiro, tentar responder essas questões exige que o autor deste artigo fuja um pouco do compromisso firmado no primeiro parágrafo. Ou seja: concentrar sua energia no que está estabelecido na historiografia. As perguntas acima fazem parte das muitas polêmicas que o golpe de 64 ainda suscita. Mas eu quero meter o meu bedelho. Serei conciso.

A paranóia é um elemento importantíssimo nessa história. Sim, a esquerda era ativa. Alguns dos seus militantes receberam treinamento em Cuba, especialmente depois do golpe, para combater a ditadura militar. Mas o próprio desenvolvimento dos fatos em 1964 mostra que Jango não tinha apoio total das esquerdas. O golpe aconteceu praticamente sem resistência alguma. Rápido, mas muito doloroso para o país. E aqui chegamos a segunda pergunta. Jango era um grande estancieiro. Nunca foi comunista. Ao contrário. Sua linhagem política era varguista, de quem foi, aliás, ministro do trabalho. Imaginar um grande proprietário de terras comandando uma revolução comunista exige uma imaginação de Julio Verne. Ou a paranóia de um espião da guerra fria.

Por ora, estes são os pontos que julgo importantes discutir sobre o golpe civil-militar de 1964. Este artigo não reúne, nem essa é a proposta, tudo o que é de relevante sobre o evento histórico que inaugurou a ditadura. É uma síntese, um resumo. As livrarias estão cheias de livros sobre o assunto. Recomendo, especialmente, a série de Elio Gaspari. São quatro livros ricos em informação e muito bem escritos. Os especiais sobre o golpe do G1 e da Folha também merecem ser conferidos com calma.

É preciso se informar muito e permanecer atento. Afinal, vivemos em um país onde um professor da faculdade de DIREITO da USP resolve comemorar o golpe em sala de aula; também temos no congresso um deputado federal, Jair Bolsonaro, que é ardoroso defensor do regime militar; onde uma parte pequena da sociedade foi às ruas para pedir a volta dos militares em uma Marcha, aparentemente, com deus. Para combater a desinformação, a intolerância e a mentira só com informação, tolerância e a busca incansável pela verdade. É o melhor caminho para tornar mais forte nossa adorável democracia.

 

 

 

 

 

Uma causa nobre

Para mim, poucas causas merecem um abaixo assinado. Ela precisa ser urgente, fazer a diferença para a sociedade e, sobretudo, precisa ser nobre. Muito nobre.  Hoje, eu participei de um abaixo assinado. E a causa não poderia ser mais nobre: a abertura dos arquivos da ditadura militar.

Descobri sua existência através de um comercial que foi veículado antes dos trailers do cinema. O filme, estrelado por Fernanda Montenegro, é uma porrada! A atriz encarna Sonia de Moraes Engel que foi assassinada pelo regime de 64. Simples, direto, emocionante. E a grande dama do teatro brasileiro não cobrou nada para fazer essa peça publicitária. Outros atores também doaram o seu talento por essa causa: Glória Pires, José Mayer, Mauro Mendonça, Osmar Prado e Eliane Giardini. Cada um interpreta um desaparecido político que, ao fim de um breve histórico, pergunta olhando para a cara do espectador: essa tortura nunca vai acabar?

Ótima pergunta. Sim, porque parece que o governo federal empurrou com a barriga essa história até onde foi possível. E foi uma das grandes frustrações que tive com a atual administração. Sinceramente, não esperava grandes mudanças no terreno econômico, mas o presidente deveria ter culhões para iniciar esse processo. Lula seria um dos poucos com cacife popular, e moral, para isso. Mas preferiu não colocar a mão nessa cumbuca.

E já que estamos em ano eleitoral, eu adoraria ver a posição dos presidenciáveis sobre o tema. Tanto Serra como Dilma, em especial esta segunda, que teve uma posição destacada na luta contra o regime, deveriam responder claramente essa questão. Embora, para ser franco, não vejo muito sinal de mobilização do poder público.

É por isso que essa campanha, capitaneada pela OAB-RJ, é tão importante. Só a mobilização e a conscientização da sociedade pode gerar alguma mudança. Abaixo, você ficará com o comercial estrelado por Fernanda Montenegro que dispensa maiores apresentações. Clicando aqui você pode assistir aos outros filmes. Para participar desse abaixo assinado é muito fácil. Basta clicar no gif que está na coluna ao lado, dentro da caixinha “Causa nobre” que abrigará todas as campanhas que este blog julgar relevantes.

Novo layout

Ah, sim, você leitor habitual deve ter reparado que o Idéias e etc está de cara nova. Gostei muito deste template e resolvi experimentá-lo. Embora seja impossível mexer no cabeçalho, ele me pareceu muito moderno e simples, o que me pareceu um ótimo custo/benefício. Mas como esse blogueiro é democrático, gostaria de ouvir o que você, simpático freguês, achou do novo visual. A caixa de comentários é serventia da casa.

Missa macabra

Quarta feira, 6 de maio de 2009. Igreja Nossa Senhora de Fátima, bairro do Sumaré, São Paulo, capital. Nessa data e local, foi realizado um dos eventos mais surreais que eu tive notícia nos últimos tempos: uma missa em memória do delegado Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador dos anos de chumbo. As revistas Época e Caros Amigos trazem excelentes relatos sobre esse, digamos, evento cristão…

Antes dos detalhes da missa, é importante traçar um breve perfil do homenageado. Também conhecido como “Doutor Barreto”, codinome que o delegado utilizava nas sessões de tortura, Fleury era um dos mais temidos agentes da repressão. Sua ficha corrida justificava a fama. O delegado participou ativamente da operação que matou Carlos Marighela; foi o mentor do “esquadrão da morte”, grupo de policiais que fazia sua própria lei, julgando, condenando e matando centenas de pessoas. Fleury construiu um sistema repressivo dentro do próprio aparato repressivo, onde os presos políticos entravam vivos e saíam mortos, enterrados em valas comuns.

Os militares souberam ser gratos por tanta…   dedicação. Em 1973, o delegado foi condenado pelos assassinatos praticados pelo esquadrão da morte. O regime, então, criou a chamada “Lei Fleury” que proibia a prisão dos réus primários. A legislação, praticamente criada sob encomenda, garantiu ao torturador a liberdade. O “Doutor Barreto”, entretanto, teve um fim trágico e misterioso. Foi encontrado afogado perto do seu iate. Mas como o regime não permitiu que se fizesse autópsia, até hoje existe a forte suspeita que o delegado tenha sido “afogado”, do mesmo modo que ele ajudava os presos políticos a se suícidar nos porões do regime.

Agora, voltemos para a missa. Segundo a contabilidade de Época, cerca de cem pessoas se reuniram para rezar por Fleury; Caros Amigos é mais econômica, fala em cerca de setenta pessoas. Os números, nesse caso, importam pouco. É mais interessante descobrir quem se dispõe a sair de casa para rezar pela alma perdida de um assassino, de um torturador. Um trecho da reportagem de Época ajuda a elucidar parte do mistério:

(…) postado na frente da portinha lateral da igreja, por onde todos entram, está o delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º Distrito Policial, conhecido como “Carteira Preta”. Promotor da homenagem a Fleury, ele cumprimenta todos efusivamente e entrega uma espécie de marcador de livro. (…) Augusto organizou tudo: convidou as pessoas, mandou imprimir o folheto, pagou pela missa, por uma organista – que não apareceu – e por um quadro de folhas e flores amarelas e roxas que formava a bandeira do Brasil, colocado ao lado do altar durante a curta celebração. O quadro é ornamentado com uma faixa (daquelas que se usam em velórios) com a frase “Herói nacional”

E quem é esse tal de Carlos Alberto Augusto? Dessa vez, quem responde é a Caros Amigos. Segundo a revista, nos anos de chumbo o sujeito tinha o apelido de “Carlinhos metralha” e, tal e qual Fleury, também era um torturador. Isso explica muita coisa…  Mesmo assim, é difícil acreditar que uma figura como Fleury consiga reunir tantos admiradores. A Caros também traz uma entrevista absolutamente inacreditável com Frei Ives Terral, o responsável por essa celebração. Só lendo para crer.

Esse episódio me lembrou de uma missa que eu fui na mesma Igreja Nossa Senhora de Fátima. Era o tempo em que o Pinochet, um dos mais sanguinários ditadores sul-americanos, estava nas últimas. Naquela parte da celebração em que a comunidade faz a sua prece, o padre, candidamente, pediu para que os fiéis rezassem por Pinochet. Num primeiro momento, pensei ter entendido errado. Mas posteriormente o pároco repetiu o absurdo mais uma vez. Não posso afirmar com absoluta certeza que se trata da mesma pessoa, mas não me espantaria nem um pouco…

É importante fazer justiça: não é toda igreja que é ou foi conivente com a ditadura militar. Durante o regime, alguns setores da igreja católica tiveram um papel importantíssimo na luta contra o arbítrio. Um dos mais lembrados é Dom Paulo Evaristo Arns que, muitas vezes, peitava de frente os aparelhos repressivos. Os frades dominicados também tiveram um papel relevante ao ajudar muitos presos políticos a fugir do país. E pagaram um alto preço por isso. Essa história esta lindamente contada no livro “Batismo de sangue” de Frei Betto. Nele, o leitor fica sabendo das torturas que Fleury infringiu em Frei Tito e das conseqüências, devastadoras, que tiveram no religioso. Mesmo longe do país, no seu exílio forçado na França, Tito sofria com  alucinações onde via o seu carrasco em todo lugar.

Frei Tito não aguentou tanto sofrimento e se suícidou.

A “Folha” e o neologismo infame

Poucas vezes um editorial causou tanta polêmica. Na terça feira, dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de São Paulo, sob o pretexto de criticar o plebiscito na Venezuela, cometeu o seguinte texto:

Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.

Nos dias seguintes, choveram cartas de protesto por causa do “ditabranda”. Dois importantes intelectuais brasileiros, Fábio Konder Comparato e Maria Victória Benevides, também enviaram as suas críticas. A resposta do jornal foi na jugular:

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.

Dentro do jornal, também houve quem se manifestasse contra a posição da empresa. Fernando de Barros e Silva, editor do caderno Brasil, e o colunista Juca Kfouri criticaram o editorial. No caso deste último, com conhecimento de causa. Kfouri participou ativamente da resistência ao arbítrio.

Não é preciso gastar muito latim para explicar o porquê esse neologismo da Folha é infame. Basta ler qualquer livro didático de História. Mesmo assim, a blogosfera desmontou o assunto em todos os seus matizes. Três textos do Luis Carlos Azenha são especialmente interessantes: no “A escolinha do professor Kamel” ele lembra que não é só a Folha que tenta reescrever a História, mas a Rede Globo também gosta de criar sua própria versão do seu passado. Fantasiosa, de modo geral; no “Por que não devemos falar em ditabranda” o Azenha prova que tem vocação para historiador. Baseado em trechos de documentos, ele desmonta, com grande requinte, a tese de que a esquerda foi a única vítima do regime militar; por último, no texto “Que fantasmas assombram a Folha?” ele toca numa questão sensível: a colaboração do jornal ao regime militar.

Aqui, é importante fazer um parênteses. Todos os veículos de mídia apoiaram o golpe de 1964 que foi comemorado em inúmeros editoriais. No segundo link, o Azenha disponibiliza um texto em que o jornal O Globo celebra a deposição de Jango. Roberto Marinho, aliás, foi um golpista de primeira hora participando ativamente das conspirações que culminaram na Ditadura Militar. No caso da Folha, essa colaboração extrapolou o apoio nas reportagens e editoriais. Existem indícios consistentes que o jornal cedia sua vans para o aparelho repressivo transportar os presos políticos. Quem afirma isso com todas as letras é Mino Carta, numa entrevista de 2004. Um trecho e o link para a íntegra:

A Folha de São Paulo não só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]. Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era sócio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha relações muito íntimas com os militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha –  o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] – esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal.

Já Rodrigo Vianna, ex-repórter da TV Globo, traz em seu blog o testemunho de Ivan Seixas, um sobrevivente das masmorras do DOI-Codi, sobre a participação de outro jornal do grupo Folha no apoio ao regime militar. Reproduzo um trecho com os grifos do original:

Na madrugada do dia 17 de abril de 1971, poucas horas após a prisão dele e do pai, policiais a serviço da “ditabranda” tiraram Ivan da prisão para um “passeio” por São Paulo. (…) Os policiais – polidos como só acontecia na “ditabranda” brasileira – dispararam várias vezes bem ao lado da cabeça de Ivan. Ele fechava os olhos e tinha certeza que morreria: tortura terrível. (…)

No caminho para o Parque do Estado, os funcionários da “ditabranda” pararam numa padaria, na antiga Estrada do Cursino. Desceram pra tomar café, deixando Ivan no “chiqueirinho” da viatura. Foi de lá que Ivan conseguiu observar a manchete da “Folha da Tarde” (jornal do grupo Frias), estampada na banca bem ao lado da padaria: o jornal anunciava a morte do pai dele, Joaquim.

Prestem bem atenção: a “Folha da Tarde” do dia 17 trazia manchete com a morte de Joaquim – que teria ocorrido dia 16. Só que, ao voltar de seu “passeio” com os policiais, Ivan encontrou o pai vivo e consciente, nas dependências do DOI-CODI. Joaquim só morreria – sob tortura – no próprio dia 17

Ou seja, o jornal da família Frias já sabia que Joaquim estava marcado pra morrer, e “adiantou” a notícia em um dia. Detalhe banal.

A Folha da Tarde, citada pelo Vianna, era tido como um jornal que dava ampla sustentação ao regime militar. Vários dos seus colunistas eram ligados ao exército. Para vocês terem uma idéia, foi uma das poucas publicações que deu credibilidade para a inacreditável versão oficial para a morte de Vladimir Herzog.

Com todos esses ossos no seu armário, o “Ditabranda” transforma-se numa quase bobagem, uma brincadeira de criança. Mas deve ser encarado com muita seriedade. Não é possível permitir que se brinque desse jeito com a História Brasileira. Agora, reparem num detalhe curioso: o Estadão que, em tese, é um jornal muito mais conservador que a Folha nunca relativizou o regime militar, sempre chamou a ditadura militar de…  ditadura. Já a Folha, que é considerada mais “progressista”, comete uma lambança dessas. Coisas da imprensa tupiniquim.

Em tempo: inspirado pelo “ditabranda”, o cartunista Latuff criou a imagem abaixo. Ela contém algum humor negro, mas não maior que o do neologismo criado pela Folha

herzog

Um dinossauro (medieval) vagando no senado federal

O nome do dinossauro é José Sarney e quem descobriu sua ascendência jurássica, e medieval, foi a revista britânica The Economist na edição de 5 de fevereiro de 2009. A reportagem vale ser citada por dois motivos: é um excelente trabalho jornalístico e deixou o personagem principal possesso. E com toda razão. A Economist traça um perfil impiedoso e exato do bigodudo que nos dias de hoje preside o senado federal do Brasil.

Sarney usando suas vestes medievais

Sarney usando suas vestes medievais. Fonte: ABL

A reportagem é uma cacetada do começo ao fim. Começando pelo título “Quando os dinossauros ainda vagam” e pelo subtítulo “A vitória do semi-feudalismo”. A matéria começa lembrando alguns dados da vida política de Sarney; os repetidos mandatos como deputado, governador e senador e também descreve o “modo acidental” – palavras da Economist -, que o fez ser presidente da república. Depois classifica como “semi-feudal” a sua maneira de fazer política e que isso contribui para o retrocesso de muitas regiões do Brasil. A revista lembra que Sarney chegou a presidência do Senado com o apoio de Lula e que ele tem em suas mãos o controle da agenda política do país.

A parte mais impactante é a descrição da miséria do Estado do Maranhão. Vale a pena reproduzir um trecho traduzido pela BBC Brasil:

O centro de São Luís está decrépito. As ruas estão cheias de buracos e a cidade conta com um número extraordinário de flanelinhas. Só no mês passado, houve 38 assassinatos na cidade de 1 milhão de habitantes. Os avanços educacionais no Estado são ruins. Sua taxa de mortalidade infantil, de 39 por mil nascidos vivos é 60% mais alta do que a média brasileira

A revista também comenta que no interior  “o atraso é mais evidente” e cita como exemplo uma cidade chamada Sangue onde “muitas pessoas vivem em casas de um só cômodo, cujo telhado é feito de folhas de palmeiras, e que não têm nem água nem eletricidade”. O autor não deixa passar nada e lembra que Sarney é dono de uma retransmissora da TV Globo e fala, inclusive, do uso político da emissora dos Marinho. Segundo a Economist, nos intervalos das novelas são exibidas reportagens favoráveis ao dono da emissora. Para fechar com chave de ouro, a revista sugere que está na hora do bigodudo se aposentar.

O dinoss…, digo, o Zé Sarney, claro, não gostou nada do que leu na revista britânica. Segundo a Folha de S. Paulo, ele contratou advogados na Inglaterra e escreveu uma carta questionando a matéria. Um trecho da missiva:

A história julgará meu papel, mas sou reconhecido como o presidente da transição democrática, da convocação da assembleia constituinte e que priorizou o desenvolvimento social, o que permitiu o surgimento de uma sociedade verdadeiramente democrática e levou um operário a ser eleito presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Ou seja, Sarney se sente responsável pela eleição do Lula, pela democracia no Brasil e pelo desenvolvimento social. Logo ele que, em 1964, participou ativamente da conspiração que derrubou o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário por vinte anos; só abandonando a nau da ditadura quando esta já estava cheia de furos e a transição democrática era um processo irreversível. A carta deste grande democrata brasileiro foi publicada no site da Economist e, provavelmente, estará também na versão impressa.

Por aqui, o episódio mereceu uma cobertura precária dos meios de comunicação. O Idéias e etc procurou pela notícia nos sites dos principais meios de comunicação. De modo geral, todos trataram do assunto, mas sem muita profundidade e, principalmente, sem destacar os pontos principais da matéria da Economist. Só de sacanagem, procuramos também no jornal O Estado do Maranhão, cujo dono é o Sarney. Lá só achamos uma notícia, com o título “Economist publica resposta de Sarney”. O conteúdo é fechado aos assinantes do jornal, mas não é preciso grande imaginação para saber do que se trata. É uma vergonha para os jornalistas brasileiros que uma publicação inglesa consiga ter uma visão mais realista da política nacional. Não por acaso, quem cobriu melhor o assunto foi a BBC Brasil, num texto onde estão reproduzidos os principais trechos da reportagem.

Nota histórica: o Feudalismo surgiu logo com o início da Idade Média por volta do século V. Existiam duas grandes classes nesse regime: os servos e os senhores feudais. Embora seja incorreto definir os servos como escravos, pois eles não eram vendidos, existia uma série de obrigações destes para com os senhores feudais. Eram obrigados a pagar uma série de impostos, inclusive pelo uso das benfeitorias das fazendas; os servos tinham, de modo geral, um pequeno pedaço de terra, e, novamente, tinham que entregar parte da produção para o dono da terra. O título de senhor feudal era hereditário e quem nascia servo era servo até o fim da vida. Na Europa, o Feudalismo durou até o século XV. No Brasil, em pleno século XXI, ele ainda persiste em alguns grotões do país. Será que um dia teremos o nosso Renascimento?

Para finalizar, um trecho de uma crônica, do Sebastião Nery, sobre o Sarney intitulada “O Boi-bumbá do senado”:

No Maranhão, para nascer, maternidade Marly Sarney. Para morar, vilas Sarney, Kiola Sarney ou Roseana Sarney. (…) Para saber noticias, leia ‘O Estado do Maranhão’, ligue a TV Mirante ou as rádios Mirante AM e Mirante FM, todas de José Sarney. (…) Não gostou de nada disso? Quer reclamar? Vá ao Fórum José Sarney, procure a sala de imprensa Marly Sarney ou a sala da Defensoria Publica Kiola Sarney. (…) Desde Calígula, quem sabe Nero, nunca se viu gente tão abusada. E Sarney acha pouco. Agora, quer ser o Boi-Bumbá do Senado.

Clique aqui e leia a íntegra do texto.

Sexta-feira 13 – parte AI-5

Capa do última hora sobre o AI-5

Capa do última hora sobre o AI-5

Faz exatos 40 anos. Numa sexta feira 13, do ano da desgraça de 1968, Costa e Silva marca uma reunião de urgência com o seu Estado Maior. Estavam todos muito preocupados com os últimos acontecimentos do país. Algumas semanas antes, o deputado Marcio Moreira Alves, em um discurso na câmara, pediu para que o povo não fosse aos desfiles de sete de setembro e para que as moças da nação não saíssem com os oficiais do exército. O governo exigiu do congresso a cassação do parlamentar. O pedido foi negado. Esse episódio é apenas a ponta do  iceberg; não pode ser entendido como o único fator que desencadeou o AI-5, nem o mais importante. Foi o boi de piranha, como diria a sabedoria popular. Para entender o que levou ao fechamento do regime autoritário, é preciso conhecer o contexto político do ano de 1968 e o equilíbrio de forças dentro dos quartéis.

Velório do Edson Luis

Velório do Edson Luis

O ano de 1968 marcou uma forte articulação da sociedade civíl contra a Ditadura militar. Quando o estudante Edson Luis foi morto, com uma bala perdida no restaurante calabouço, 50 mil pessoas foram ao seu velório; o dobro de gente encheu as ruas do Rio de Janeiro, também  para protestar contra o regime militar, naquela que seria a maior manifestação política até a campanha pelas diretas, em 1984. Jango, JK e Carlos Lacerda, antes inimigos políticos, criaram a frente ampla para fazer oposição ao regime. Os estudantes também se mobilizavam politicamente, ou em grupos para luta armada e/ou tentando recriar a UNE. Por tudo isso, a ditadura começava a perder o apoio da classe média que deu sustentação ao golpe de 1964.

Se a conjuntura política era turbulenta, o panorama dentro das forças armadas não era menos movimentado. Castelistas e a linha dura travavam um duro embate pelo poder. Os primeiros eram considerados a ala “moderada” do exército. O nome é uma homenagem ao primeiro ditador, Humberto Castelo Branco. Para esse grupo, os militares deveriam ficar o menor tempo possível no poder, apenas o suficiente para “limpar” o terreno, o que significava eliminar os inimigos do regime. Já a linha dura, tem um nome auto-explicativo. Estes também pregavam a aniquilação dos inimigos, com uma pequena diferença: para eles, não deveria sobrar um “subversivo” para contar história. Aniquilação total. Não é atoa que esse grupo comandava os aparelhos repressivos que torturavam, matavam e desapareciam com os opositores do regime. Para eles, os militares só deveriam sair do poder com o serviço completo.

A reunião em que foi discutido e aprovado o AI-5 representa a tomada de poder pela facção mais radical do exército. Muitos historiadores definem o episódio como “o golpe dentro do golpe”, por causa do amplo leque de poderes concentrados nas mãos do presidente da república. O primeiro mandatário podia fechar o congresso, cassar os parlamentares-Marcio Moreira Alves foi uma das primeiras vítimas-, intervir nos Estados e municípios; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos e suspender a garantia do Habbeas Corpus. Tudo isso sem nenhuma apreciação judicial. A ditadura militar se transformava num Estado policial sem retoques. Uma reportagem do Estadão sintetiza muito bem os efeitos do AI-5:

Com base nele, 1.577 cidadãos foram punidos – 454 perderam mandatos políticos ou tiveram os direitos políticos suspensos, inclusive 3 ministros do Supremo Tribunal Federal; 548 funcionários civis foram aposentados, 334, demitidos e 241 militares, reformados. As Assembléias dos Estados da Guanabara e do Rio, então separados, São Paulo, Pernambuco e Sergipe foram postas em recesso. Foram proibidos mais de 500 filmes e telenovelas, 450 peças teatrais, 200 livros e 500 letras de música; o Estado e a Tribuna da Imprensa, que não admitiram censura prévia, receberam censores nas oficinas.

Os números acima dão uma idéia quantitativa dos estragos causados pelo arbítrio. Neles, não estão as milhares de pessoas que foram mortas, desapareceram, foram torturadas ou suicídadas nos porões do regime, vítimas de um dos períodos mais negros da História contemporânea Brasileira. O AI-5 só foi revogado em 1978, em meio a outro embate entre castelistas e linha dura, dessa vez dentro do contexto de abertura política. As feridas dos anos de chumbo, entretanto, continuam presentes na memória de muitos Brasileiros.

Para evitar que momentos melancólicos como esse se repitam, a única saída é o conhecimento histórico. Aqui o leitor pode ler a íntegra do Ato institucional nº 5. Na página do CPDOC, da FGV, é possível ler um texto muito bom sobre o AI-5. O grupo de estudos sobre a Ditadura Militar é uma excelente fonte para conhecer mais sobre os anos de chumbo. Nesse endereço, é possível ler documentos na íntegra, ter acesso a cronologias, entre outras informações úteis. Para terminar, o Portal Estadão preparou um excelente especial sobre o AI-5, em que é possível ouvir, na íntegra, a reunião onde foram acertados os detalhes do ato institucional que mergulhou o Brasil na escuridão. Um documento histórico precioso.

[Idéias avulsas] A história e o revanchismo

Seguinte: durante algum tempo, tive um blog no UOL. Seu nome: Idéias Avulsas. O endereço só era atualizado esporadicamente e o seu conteúdo bem irregular. Por isso, tomei a drástica decisão de apagá-lo em definitivo. Do naufrágio, só salvei dois textos que, por tratarem de temas não tão vínculados ao noticiário do dia-a-dia, mas de assuntos mais frios, permanecem interessantes e merecem melhor sorte aqui no Idéias e etc. Serão republicados na ordem cronológica e todos foram revisados para eliminar os erros gramaticais. Mantive, entretanto, o conteúdo intacto. A edição também foi aprimorada. As imagens  não constavam da versão do Idéias avulsas. O outro texto será republicado na próxima terça feira.

Um comentário importante sobre este artigo: ele foi escrito na ocasião do lançamento de um livro em que o Estado Brasileiro reconhece os crimes cometidos na Ditadura Militar. A obra ganhou grande repercussão na imprensa, mas um bocado inviesada como vocês poderão ver. No penúltimo parágrafo, eu escrevi que não existia a intenção de rever o processo de anistia. Essa frase poderia ser válida naquele contexto, mas hoje existe, sim, o interesse do Ministério Público e de algumas entidades de direitos humanos de repensar essa legislação. Em tempo: reparem que não é de hoje que este escriba desce o cacete na Revista Veja…

Cartaz da campanha pela anistia

Cartaz da campanha pela anistia

[ Publicado no Idéias avulsas no dia 14/09/2007 ás 15h e 40]
Um dicionário online define revanchismo como “tendência para a vingança; espírito de desforra, particularmente de carácter político”. Nas últimas semanas, esse substantivo masculino foi muito usado pelos militares brasileiros e, por alguns setores da imprensa, para qualificar o livro-relatório “Direito à memória e à verdade” produzido pela comissão especial de mortos e desparecidos políticos. E foi muito mal empregado na opinião desse blog. Antes de compreender os motivos, é preciso refletir sobre alguns elementos dessa obra.
Mesmo não lendo o livro – o que pretendo fazer brevemente- e seguindo apenas as resenhas publicadas na imprensa, é possível constatar que a obra não traz nenhuma novidade que já não seja de conhecimento dos historiadores. Muitas dessas informações já tinham vindo a tona no projeto “Brasil: Nunca Mais”, obra lançada pela Arquidiocese de são Paulo, em 1985, quando a ditadura representava um passado muito próximo. Os setores militares também não gostaram do que leram, ainda mais porque a principal fonte do BNM foram os inquéritos produzidos pela própria justiça militar. Para quem não leu, o livro contém descrições aterradoras das torturas praticadas nos porões da Ditadura. Nos quartéis, também foi chamado de revanchista

Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre as duas obras: o livro lançado nesse ano carrega a chancela do Estado Brasileiro. Ou seja, pela primeira vez o governo reconhece os crimes cometidos no passado. Um reconhecimento tardio, mas que serve de alento para as famílias das vítimas da Ditadura; muitas delas ainda em busca de informações sobre o paradeiro dos seus entes queridos. Mas, afinal de contas, por que algumas pessoas insistem em classificar o livro como “revanchista”?

Convido o leitor para reler a definição de revanchismo nas primeiras linhas deste artigo. Por acaso, conseguiu encontrar alguma “tendência para vingança; espírito de desforra”? Espero que não. Pois você estaria considerando a própria História do Brasil revanchista. Na prática, é isso que faz quem qualifica o livro com esse substantivo. Nele, está apenas o registro de um momento negro do nosso passado, em que pessoas foram torturadas ou “desaparecidas”. E, se a obra da comissão é revanchista, todos os historiadores que tratam do assunto, com honestidade, também são.

Poderia haver algum revanchismo se, por acaso, os nossos militares não pudessem contar sua versão ossosdosmilicosda História. Eles podem. E contam aproveitando diversas mídias. Exemplo: a biblioteca do Exército publicou uma coleção chamada “História oral do Exército”, em 15 volumes, onde predomina o depoimento dos militares e de pessoas ligadas ao regime. O único depoente que destoa é o deputado José Genoino (no mesmo livro, aparecem Delfim Neto e um militar, com pedigre de torturador, chamado Carlos Alberto Brilhante Ustra),até a linha dura do exército, em grande parte responsável pelas torturas, tem o seu endereço oficial na internet, que é o TERNUMA, sigla que significa Terrorismo Nunca Mais. Nem preciso dizer que nesse site apenas a esquerda é considerada terrorista.

E não são apenas os militares que propagam essa mistificação. A edição da revista Veja-chamada por Paulo Henrique Amorim de “A última flor do fascio”-, da semana passada, trouxe uma reportagem que parecia ser escrita por um porta voz da linha-dura. Embora o texto considere justo o desejo dos familiares em pleitear informações sobre os seus entes queridos, e entenda a abertura dos arquivos como “um passo importante”, começou a descambar quando viu o risco de aparecer “fissuras no terreno da democracia”. Onde? Deixemos que a própria revista Veja nos diga:

O ministro da Defesa, Nelson Jobim (…)avisou “Que as Forças Armadas brasileiras recebam este ato [de lançamento do livro] como absolutamente natural. Não haverá indivíduo que possa a isso reagir e, se houver, terá resposta” Os militares reagiram. Classificaram a frase de Jobim de “afronta desnecessária”. De fato, foi. A lei da Anístia, promulgada em 1979, teve o mérito da eqüidade

Em primeiro lugar, o ministro Nelson Jobim teve uma postura correta nesse episódio pois, provavelmente, imaginava reações pesadas da ala radical do exército. Faltou a ele, entretanto, fazer valer sua autoridade. Tenho contato com algumas pessoas das forças armadas e estas me disseram que a moral do ministro, junto à tropa, está próxima de zero. Em segundo lugar, a reportagem usa uma argumentação furada, principalmente quando evoca a lei da anístia. Que eu saiba, não existe nada nessa lei que impeça o relato do que aconteceu nos porões da ditadura. Nem ninguém cogita alguma mudança nessa lei que surgiu num contexto histórico merecedor de um exame mais apurado. Fica para uma próxima oportunidade.

Por hoje, ficamos satisfeitos em desmistificar aqueles que consideram o passado de uma nação “revanchismo”. Esss postura, aliás, é muito freqüente em certos grupos políticos que não gostam de ver o reflexo de sua imagem no espelho impiedoso da história. Insatisfeitos, eles tentam reescrevê-la. Ainda bem que essas tentativas são em vão. Sempre vai existir aqueles que consertarão o espelho trincado.

Serviço

Livro direito à memória e à verdade
Site da biblioteca do Exército: http://www.bibliex.com.br/
Site do Ternuma: www.ternuma.com.br

Notas anistiadas

Alguns assuntos são delicados por natureza e merecem ser tratados com um mínimo de discernimento. A anístia, que sempre reaparece nas pautas dos jornalões, é um deles. Essa semana, por exemplo, o tema voltou para o noticiário quando a AGU (Advocacia Geral da União) advogou em prol dos torturadores e deu parecer contrário ao processo contra o Coronel Brilhante Ustra, torturador notório dos anos de chumbo. A posição ganhou críticas até entre os ministros do Presidente Lula, em especial Dilma Roussef e Tarso Genro. E não é só isso: o país corre o sério risco de ser processado nas cortes internacionais por não punir os criminosos da Ditadura. A OEA (Organização dos Estados Americanos) está cobrando uma explicação do Governo Brasileiro.

Claro, quando surge um assunto como esse aparece também os defensores da ditadura, travestidos de democratas-defensores-do-estado-de-direito. Quer um exemplo? Vejamos o que acha de tudo isso o Supremo Presidente Gilmar Mendes:

Evidente que esse tema –direitos humanos– se presta a idealizações ou politizações, eu tenho uma posição clara com relação a isso: repudio qualquer tentativa de manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente os casos de direitos humanos. Direitos humanos valem para todos: presos, presidiários, presos políticos, da mesma forma.Essa discussão sobre imprescritibilidade é uma discussão com dupla face, porque o texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível

Essa é o tipo de fala que merece ser desmontada para podermos ver melhor as entrelinhas. Quando mendes diz que repúdia “qualquer tentativa de manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente os casos de direitos humanos” o que será que o meritíssimo quis dizer? Será que ele acha que os direitos humanos também valem para os torturadores? Sim, porque nesse caso só existem dois lados: quem lutou contra a ditadura e quem lutou pela ditadura; quem torturou e quem foi torturado.

Importante: isso não significa que devemos desconsiderar os nuances. Existiam diversas formas de fazer oposição, seja pelo jornal ou com armas nas mãos. Essas diferenças, entretanto, desapareciam nos porões do regime, porque não só os guerrilheiros foram torturados, muitos inocentes também padeceram nas mãos do Estado. O Vlado que o diga! Porém, não se tem notícia de nenhum torturador que tenha sido torturado…

Mas as palavras chave da citação acima são: “crime de terrorismo”. Dizendo isso, Mendes se alinha, imediatamente, com a extrema-direita militar que também chama a luta armada de terrorismo. O mais  dramático é que o processo que permitirá, ou não, a revisão da lei da anístia será julgado pelo STF presidido pelo… Gilmar Mendes. Em tempo: não é a primeira vez que o dito cujo se posiciona sobre o assunto. Veja este link com uma notícia de 12 de Agosto desse ano. Alguma dúvida sobre o resultado do julgamento? Durma-se com um presidente do STF desses!

O assunto anístia é muito complexo e cheio de nuances. Prometo voltar ao tema por essas bandas. Mas já vou avisando que será daqueles textos quilométricos…

Falando em Gilmar Mendes…

capacartacapitalA revista Carta Capital, de 8 de outubro de 2008 (imagem ao lado), trouxe uma reportagem de capa que, em qualquer outro país do mundo, mereceria ampla repercussão da imprensa, mas por aqui só ganhou uma ou outra referência envergonhada, quando não foi solenemente ignorada. Com o título de “O empresário Gilmar” a matéria, toda ela baseada em farta documentação, mostra alguns tentáculos da atuação do Supremo Presidente, condutas éticas duvidosas e por aí vai. Mas eu não vou estragar a surpresa do leitor. Clique neste link e leia a reportagem na íntegra.

Só um comentário para não perder a viagem: a matéria da Veja, com aquele grampo suspeitíssimo, que só foi ouvido pelo repórteres da revista, e, pela primeira vez na história, não trazia nenhuma denúncia, apenas uma conversa sem sal, mereceu semanas de repercussão. Coisas da imprensa tupiniquim.

O Escrivinhador – Blog do Rodrigo Vianna.

Seguindo uma linha muito parecida com a do Paulo Henrique Amorim e do Azenha, Rodrigo Vianna promete ser mais um crítico contundente da mídia. E com motivos. Para quem não sabe ou não lembra, Vianna saiu da Globo em circunstâncias muito estranhas. Mas saiu atirando. Escreveu uma violenta carta de despedida aos seus colegas na emissora dos Marinho contando alguns podres Globais. A missiva acabou vazando para a imprensa. (leia a carta aqui) Pelo pouco que eu li do seu blog, o tom continua contundente, em especial, contra Ali Kamel, um dos chefões da emissora, que só é chamado por Vianna de Ratzinguer, certamente pelo seu espírito democrático…

Nota: Ratzinguer é o nome do atual Papa, que antes de ser sumo pontífice, atuava como uma espécie de cão de guarda do João Paulo II, perseguindo os religiosos que pensassem diferente da igreja.

Ah, sim, a eleição Americana…

Muita gente já escreveu sobre a histórica eleição de Barack Obama. Claro, como qualquer pessoa minímamente lúcida, eu estava torcendo por ele, até porque o mundo não aguentaria três governos repúblicanos seguidos. Mas é bom a gente não ter muita ilusão: o Obama vai ter muito trabalho. Vai precisar reconstruir a imagem dos EUA, completamente esfacelada pelo Governo Bush, vai precisar lidar com uma crise financeira mundial e resolver a lambança Bushista no Iraque. Ser Presidente dos esteites na atual conjuntura é ter o melhor emprego do mundo no pior momento possível.

Veja e a educação

Não é preciso fazer muito esforço para críticar a Revista Veja. Suas reportagens cheia de furos, não com o sentido jornalístico de informação exclusiva, mas no sentido popular de erros; sua relação com empresários de índole duvidosa, seus ataques a reputação alheia dão arsenal infinito para os seus críticos. Esse texto pretende pegar alguns aspectos não muito discutidos da revista da Abril. Um deles é a relação da mesma com a educação, através de uma reportagem em que o assunto foi colocado na capa. Antes disso, vou demonstrar que a História também é muito maltratada nessas malfadadas páginas.

Não é preciso ir muito longe. Um exemplo é a edição comemorativa dos 40 anûs anos publicada recentemente. A revista foi dividida em duas partes, sendo a primeira dedicada a comentar alguns episódios do ano de lançamento, 1968. O resultado é trágico. A base de todas as análises foi a desqualificação pura e simples de personagens da esquerda, em especial aqueles que pegaram em armas, como o Marighella, chamado por Veja de “terrorista”, não por acaso, a  mesma qualificação dada pela extrema-direita militar. Sobrou farpas até para o José Dirceu, claro. O seu passado como líder estudantil foi lembrado e, sem nenhuma surpresa, enxovalhado…

O pior ainda aguardava o leitor. O texto “A igreja confusa” é, de todos, o menor, mas contém a maior concentração de mentiras e conteúdo inviesado por centímetro quadrado. O artigo trata da “teologia da libertação”, ramo da igreja católica que tem inspiração marxista. Em pouco menos de dois parágrafos, Veja inverte completamente a história ao trasformar Dom Eugênio Sales em “herói” e Dom Hélder Câmara em “vilão”. Chega ao displante de afirmar que o primeiro salvou 4.000 pessoas da morte e da prisão! Eu sou um profundo estudioso desse período e me considero relativamente bem informado. Li bastante coisa e, em nenhum lugar, tem sequer uma menção sobre isso e a revista, claro, não informa sua fonte, se é que ela existe. Pior só a transformação de Dom Hélder em vilão, embora este, sim, tenha se empenhado no embate contra a ditadura militar, como está nos livros de história sérios. E não podemos deixar de registrar a participação de outros membros da igreja progressista na luta contra o regime militar como, por exemplo, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Mas a revista não se limita a enxovalhar a história. Ela faz isso com a educação como um todo.Na edição 2074, de 20 de agosto de 2008, Veja colocou o assunto na capa (imagem ao lado) com a reportagem “Você sabe o que estão ensinando a ele?”. A matéria teve como gancho a divulgação de uma pesquisa, do instituto CNT sensus, encomendada pela revista, sobre a opinião de pais e professores sobre o sistema educacional Brasileiro. O resultado foi, de fato, surpreendente. 60% dos professores consideram o ensino nas escolas públicas ótimo/bom. 63% dos pais concordam com os professores.  Os dados completos da pesquisa podem ser lidos aqui.

O resultado da pesquisa poderia render uma bela reportagem, contendo um raio-x aprofundado da situação da educação no Brasil, retratando o salário vergonhoso dos professores, a infriestrutura precária existente em vários rincões do país, numa lista interminável de mazelas. Poderia, mas é bom não esquecer que estamos falando da Veja, certo? Em vez do enfoque múltiplo, a metralhadora giratória ficou concentrada num único aspecto: a tal da “ideologização” dos livros didáticos e a “doutrinação” comunista nas salas de aula. Com vocês, um trecho da reportagem:

[Existe]uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a  empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do  conhecimento. (…)”Reconheço o viés esquerdista nos livros e apostilas, fruto da formação marxista dos professores. Mas não temos nenhuma intenção de formar uma geração de jovens socialistas”, diz Miguel Cerezo, responsável pelo conteúdo publicado nas apostilas do COC

O trecho acima ilustra o que foi a reportagem inteira, complementada por uma série de trechos de livros didáticos comentados. Para começo de conversa, Veja parte de várias premissas completamente erradas. Quem leu a reportagem, tem a impressão que só existe professores de esquerda no Brasil. Generalização equívocada. E, mesmo se eles fossem a maioria, não sei onde está o problema. Não estamos numa democracia? Cadê a liberdade de expressão que o tablóide da Abril tanto defende?

A questão dos livros didáticos merece uma atenção especial. O primeiro equívoco está, novamente, numa generalização. Para Veja, só existe livros de esquerda. Nada mais falso. Existem, sim, muitos obras de direita no mercado, assim como existem aqueles que abordam a história das mais diferentes maneiras. Mas ao olhar essa questão, a revista esquece da figura do professor. Fica a impressão que o livro funciona sozinho. Não funciona e um professor de esquerda, com um livro de direita fará questão de desmontar a ideologia presente na obra, e o mesmo acontece com o sinal trocado.

Posso dar um exemplo pessoal: no ensino fundamental, eu estudei com livros que eram de direita, mas com professores claramente de esquerda. Claro que eu só fui perceber isso muito tempo depois, quando passei a ter alguma noção de política, mas hoje percebo, claramente, o esforço que os meus professores faziam em desmontar os livros didáticos. Como o texto está ficando grande, acho que posso poupar o leitor da explicação sobre o porquê que a tal da “neutralidade” defendida por Veja é impossível…

Fica uma pergunta no ar: por que Veja se concentrou tanto na falsa questão dos livros se existem tantos problemas muito mais sérios na educação? Antes de respondê-la, o amigo leitor já ouviu falar do sistema de ensino SER ? É um sistema de apostilas criado pela editora Abril, que também edita Veja e… epa, epa! Quer dizer que a mesma empresa que controla Veja está apostando suas fichas no mercado de livros didáticos? E usa um dos seus veículos mais poderosos para atacar, justamente, os livros didáticos? Leitor, volte para a citação da reportagem, que ficou três parágrafos acima, e releia por favor. No final dela, aparece uma fala de Miguel Cerezo, apresentado como responsável pelo conteúdo do sistema COC de ensino, dizendo não querer transformar os nossos estudantes em socialistas. Sua fala chega a ser patética e se contradiz numa reportagem onde todos os livros são apresentados como comunistas. E é bom não perder de vista que o sistema COC é um dos principais concorrentes do sistema educacional da Abril…

Algumas semanas depois da publicação da matéria, saiu um anúncio do Ser na Veja, claro. Uma curiosidade: entre os autores das apostilas destacados está Marilena Chauí, grande filósofa e uma marxista de quatro costados. Ou seja, nem o sistema da Abril está livre da doutrinação comunista. Ah, mas isso os leitores de Veja não precisam saber, não é mesmo?

Diante do quadro apresentado acima, eu sou bem cético para ser sincero. Não vejo muitas mudanças, no médio e longo prazo. É espantoso que uma revista desse naipe seja a mais lida no país. A revista Época, da editora Globo, apesar de não estar muito distante na ideologia, é muito mais bem feita em todos os sentidos. E não é tão panfletária. Carta Capital, então, dá de 10 a 0. A única coisa que podemos fazer é continuar demonstrando o quanto é nefasto o tablóide da Abril em todos os aspectos possíveis. O Idéias e etc, podem ter certeza, fará a sua parte.

Em tempo: caso o leitor tenha estômago resistente, poderá ler a reportagem comentada acima, na íntegra, aqui. Vale ler também o texto de Gustavo Ioschope, publicado na mesma edição, que é economista, e especialista em educação de Veja sem nunca ter dado uma aula na vida…

Uma nota fúnebre melancólica…

O ano de 2008 está sendo bem complicado para o jornalismo Brasileiro. Em Março, morreu Sérgio de Souza, que trabalhou na revista Realidade e era o editor da Caros Amigos, uma das minhas revistas prediletas. Ontem, morreu Fausto Wolff, outro grande jornalista Brasileiro que, assim como o Sérgio, manteve durante toda sua vida uma postura íntegra, coerente com os seus ideais, o que, infelizmente, é um artigo em extinção na imprensa tupiniquim.

Se a morte deles já é motivo de tristeza, ler os necrólogios da grande imprensa é motivo de vergonha. A maioria dos jornais que eu pude ler tratou o assunto como nota de rodapé. E aí vem a comparação inevitável. Semana passada, morreu o Banqueiro Olavo Setubal, dono do Itaú. Todos os jornais e revistas gastaram páginas e mais páginas chorando a morte do dito cujo. A Folha, então, exagerou: dedicou uma página inteira e ainda um editorial. Acho que nem o sitio do Itaú na internet fez um obituário tão choramingas. Não acho que o Fausto Wolff esperasse algo muito diferente, mas, mesmo assim, é triste perceber o quanto a nossa imprensa é medíocre e está ficando cada dia mais.

…e uma sugestão de leitura com alguma esperança.

Mas existe luz no fim do túnel. Uma delas é a Caros Amigos, que o Sérgio de Souza deixou como legado. A edição desse mês, por exemplo, está imperdível. A reportagem de capa fala sobre a tortura nos tempos da Ditadura Militar e, também, sobre o delicado tema da anístia, um assunto, via de regra, muito mal tratado por sempre descambar na falácia do revanchismo.

São essas coisas que renovam a esperança que, apesar das perdas recentes, o jornalismo brasileiro tem esperança!