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Cinqüenta anos, este ano: um olhar sobre o golpe civil-militar de 1964

Castelo Branco observa o golpe em marcha?

Castelo Branco (à esquerda) aponta o golpe em marcha?

Os cinqüenta anos do golpe civil-militar de 1964, completados hoje, inundaram jornais, revistas, televisões, portais e livrarias. Praticamente todos os veículos de comunicação se debruçaram sobre o tema. Esse surto de interesse é ótimo. Quanto mais informação sobre a deposição de João Goulart, melhor. Este artigo é a minha contribuição para o debate. Resolvi fazer uma espécie de “guia” com os pontos que considero pétreos em relação ao 01 de abril de 1964. Ou seja, em vez de focar nos temas polêmicos ou que ainda precisam ser melhor esclarecidos, resolvi me dedicar ao que já está estabelecido entre os historiadores. Pelo menos, entre os historiadores sérios.

O primeiro ponto é relacionado a nomenclatura. O leitor deve ter reparado, na primeira linha deste texto, que eu chamei os eventos de 1964 de golpe civil-militar. É comum encontramos por aí apenas golpe militar. E faz diferença? Ao meu ver, sim. A explicação é simples: os militares não foram os únicos golpistas. É preciso fazer justiça com toda uma sociedade, que não usa quepe na cabeça nem veste uniforme verde oliva e, mesmo assim, contribuiu decisivamente para apear Jango do poder. E ajudou a sustentar a ditadura militar.

Os generais-ditadores, que se revezaram no poder a partir de 1964, contaram com grande apoio da burguesia da época. Até o pau de arara sabia que a Oban (Operação Bandeirantes), que torturou e matou centenas de pessoas em São Paulo, teve patrocínio de empresários. Alguns até assistiam as sessões de martírio. O regime começou a ruir quando os militares perderam esse sustentáculo, por uma série de razões que não cabe discutir neste texto. Em 1964, entretanto, esse apoio se espalhou por vários segmentos da sociedade.

Estou falando de praticamente toda a imprensa da época, que pediu e comemorou a deposição de Jango; estou falando dos políticos, com grande destaque para o incendiário Carlos Lacerda; estou falando das famigeradas Marchas da Família, com Deus pela Liberdade; estou falando das elites brasileiras, sempre muito temerosas com o chamado “perigo vermelho”; estou falando do Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), duas instituições civis que conspiraram, à luz do dia, financiando panfletos e candidatos da oposição. E, segundo muitos historiadores, sendo financiadas pela CIA.

E aqui chegamos ao segundo ponto essencial: a participação dos EUA no golpe civil-militar de 1964. Este é, aliás, um dos pontos mais bem documentados de toda essa trama – graças a política norte americana em relação a memória nacional, muito mais evoluída e transparente que a nossa. Basta uma rápida olhada nos documentos recentemente liberados pelos americanos para entender a dimensão da participação estaduniense. Além do financiamento da oposição por meio do Ipes-Ibad, a crise política era acompanhada com lupa pelo embaixador Lincoln Gordon, que não apenas informava Washington de cada novo acontecimento, como solicitou de seus compatriotas apoio armado para o golpe. Se por acaso João Goulart resistisse, uma frota naval estaria à disposição dos golpistas. Não foi preciso. Os fatos se precipitaram rapidamente. E o governo dos EUA foi o primeiro a reconhecer o novo regime ditatorial.

A explicação para tamanho interesse dos Estados Unidos está relacionada com o terceiro ponto essencial: a guerra fria. O mundo estava bipolar. Literalmente. Um dos polos era o capitalista, obviamente liderados pelo todo poderoso irmão do norte; o outro polo era o comunista, que tinha como guia a também muito poderosa União Soviética. Com esse contexo em mente, conseguimos compreender melhor os fatos. É preciso não esquecer que Cuba, sobre influência soviética, estava a poucos milhares de quilometros de Miami. E dando muita dor de cabeça para os EUA. A mera possibilidade do Brasil se transformar em uma Cuba de proporções continentais disparou todos os alarmes Ianques.

Algumas perguntas se impõem: as esquerdas brasileiras tinham todo esse poder ou era tudo paranóia? Jango daria um golpe comunista e levaria o Brasil para a órbita soviética? Vamos por partes. Primeiro, tentar responder essas questões exige que o autor deste artigo fuja um pouco do compromisso firmado no primeiro parágrafo. Ou seja: concentrar sua energia no que está estabelecido na historiografia. As perguntas acima fazem parte das muitas polêmicas que o golpe de 64 ainda suscita. Mas eu quero meter o meu bedelho. Serei conciso.

A paranóia é um elemento importantíssimo nessa história. Sim, a esquerda era ativa. Alguns dos seus militantes receberam treinamento em Cuba, especialmente depois do golpe, para combater a ditadura militar. Mas o próprio desenvolvimento dos fatos em 1964 mostra que Jango não tinha apoio total das esquerdas. O golpe aconteceu praticamente sem resistência alguma. Rápido, mas muito doloroso para o país. E aqui chegamos a segunda pergunta. Jango era um grande estancieiro. Nunca foi comunista. Ao contrário. Sua linhagem política era varguista, de quem foi, aliás, ministro do trabalho. Imaginar um grande proprietário de terras comandando uma revolução comunista exige uma imaginação de Julio Verne. Ou a paranóia de um espião da guerra fria.

Por ora, estes são os pontos que julgo importantes discutir sobre o golpe civil-militar de 1964. Este artigo não reúne, nem essa é a proposta, tudo o que é de relevante sobre o evento histórico que inaugurou a ditadura. É uma síntese, um resumo. As livrarias estão cheias de livros sobre o assunto. Recomendo, especialmente, a série de Elio Gaspari. São quatro livros ricos em informação e muito bem escritos. Os especiais sobre o golpe do G1 e da Folha também merecem ser conferidos com calma.

É preciso se informar muito e permanecer atento. Afinal, vivemos em um país onde um professor da faculdade de DIREITO da USP resolve comemorar o golpe em sala de aula; também temos no congresso um deputado federal, Jair Bolsonaro, que é ardoroso defensor do regime militar; onde uma parte pequena da sociedade foi às ruas para pedir a volta dos militares em uma Marcha, aparentemente, com deus. Para combater a desinformação, a intolerância e a mentira só com informação, tolerância e a busca incansável pela verdade. É o melhor caminho para tornar mais forte nossa adorável democracia.

 

 

 

 

 

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