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Bizarrices do Brasil. (Ou quando um político é mais progressista do que nossa MPB)

A recente polêmica sobre biografias não-autorizadas tem algo inusitado e pouco comentado. Nesse assunto, um político consegue ter uma posição mais progressista que boa parte da nossa MPB. E o político em questão atende pelo nome de José Dirceu. Atenção, senhores! Estou apenas comparando posturas na questão das biografias não-autorizadas. Mensalão e assuntos derivados não estão em análise.

Recentemente, José Dirceu foi biografado por Otávio Cabral, repórter da revista Veja. Sem ler uma vírgula, posso afirmar que é um trabalho crítico ao biografado. Para dizer o mínimo.  A biografia, apesar dos muitos erros factuais encontrados nela, segue vendendo normalmente. Nenhuma ameaça de recolhimento dos livros ou processos judiciais. Ao jornal Folha de S.Paulo, embora afirmasse ser favorável a algum controle na publicação de biografias – posição muito semelhante ao do grupo Procure Saber -, ele também declarou: “Eu não tenho ânimo de impedir que ninguém escreva, faça filmes sobre mim. Se tem uma vida que é pública no Brasil, é a minha. Não tenho medo de que falem sobre mim. Também não tenho essa preocupação financeira, porque eu não preciso de dinheiro”

Segundo consta, Dirceu também está sendo biografado por Fernando Morais. Por tudo o que conheço desse escritor, ouso afirmar que vai ser uma biografia simpática ao petista. Para dizer o mínimo. Mas faz parte do jogo. Cabe ao leitor, formar ou deformar sua opinião a partir das informações recebidas por fontes diferentes. O nome do jogo aqui é liberdade de expressão, mas também atende pelo nome de democracia. Simples assim.

Enquanto isso, nossa querida MPB segue manchando suas admiráveis biografias. Hoje, Chico Buarque publicou um artigo melancólico em O Globo. Resumindo, ele defende restrições a biografias não-autorizadas citando pequenos erros encontrados em algumas delas ou exemplos de mau jornalismo. Em primeiro lugar, perfeição e unanimidade não existe; um erro encontrado em uma edição pode ser corrigido na próxima. A lei, do jeito que está instituída, acaba gerando uma censura prévia que impede as biografias no nascedouro. Fica impossível até mesmo reclamar dos defeitos. E o melhor remédio que conheço contra o mau jornalismo é o bom jornalismo.

O Brasil não é feito para amadores. Aqui, artistas que deveriam amar e zelar pela liberdade de expressão – como um filho querido ou o ar que respiram-, pois dependem dela para exercer o seu ofício, querem impor um tipo de censura prévia que não existe em nenhuma outra democracia. Esses mesmos artistas, quem diria, poderiam aprender algumas lições práticas com um político de passado conturbado, que, em tese, teria mais razões do que eles para tentar cercear uma biografia. São bizarrices que só acontecem no Brasil.

 

 

 

 

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Trajetória da Folha Dirigida é marcada por começo modesto

Por: Marcelo Martins, Eduardo Vasconcelos e Simone Lima

Antônio Steter fala da trajetória da Folha Dirigida.

Uma sala com 24 metros no centro do Rio e apenas três pessoas na equipe. Esse foi o começo do jornal Folha Dirigida fundado, em 1985, pelo jornalista Adolfo Martins que tem no currículo a criação da editoria de educação do Jornal dos Sports. Nesse periódico, Martins chegou a apresentar um projeto editorial de uma publicação voltada para concursos públicos. A direção não acreditou que a ideia fosse viável.

O jeito foi tentar o voo solo. A primeira edição, entretanto, indicava que o jornal encontraria muitas dificuldades. Dos 3.000 exemplares do primeiro número foram vendidos apenas 260 jornais. Aos poucos, após conversas com revendedores e jornaleiros, a publicação foi conseguindo se estabelecer no mercado. Hoje, a tiragem mensal é 1.768.000 de exemplares mensais e é vendida em 32.000 bancas. O grupo conta com publicações na área de turismo e realiza uma feira anual sobre carreira pública.

O jornal ser sediado no Rio de Janeiro não é mero acaso geográfico. Segundo o diretor da sucursal de São Paulo, Antônio Steter, o fato da cidade ter sido capital federal até o começo da década de 60 gerou um vínculo histórico com o funcionalismo público. “Você costuma ter dentro das famílias cariocas, um componente da família que já tenha trabalhado ou esteja trabalhando para o governo” Por ser mais industrializada, São Paulo não depende tanto do Estado. Mas esta situação está mudando “ Hoje, o jovem quando saí da faculdade não tem emprego. Enquanto que a carreira pública não depende de ele conhecer o patrão, de ele ser amigo de ninguém. Depende só dele”, garante.

Entidade surge para confrontar grande mídia

Altercom é fundada por sessenta empresários da imprensa alternativa em São Paulo. Associação reivindica divisão igualitária da verba pública

Altercom. Esta é a sigla da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores de Comunicação, entidade fundada em São Paulo, no dia 27 de fevereiro de 2010. A organização reúne sessenta empresários donos de jornais, revistas, editoras, sites e produtoras de vídeo da chamada imprensa alternativa.

O projeto ainda é embrionário, mas já tem objetivos bem definidos. Segundo Eduardo Guimarães, ativista político e um dos sócios-fundadores da Altercom, “a ideia é a de uma organização que seja o contraponto de outras da grande mídia, tal como Abert [Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão] e ANJ [Associação Nacional de Jornais] só que dando vez e voz à mídia dita alternativa”, explica.

A principal reivindicação da entidade está relacionada com a divisão das verbas públicas oriundas da propaganda do governo que, de modo geral, fica concentrada na grande mídia. Sem esse dinheiro, parte das publicações não conseguem sobreviver, pois os anúncios da iniciativa privada quase inexistem nesse tipo de meio.

Para Hamilton Octávio de Souza, editor-chefe da revista Caros Amigos, um dos principais veículos desse segmento, a distribuição igualitária da verba torna o jornalismo mais democrático. “Por que as verbas públicas vão para a TV Globo e por que não vão para os veículos pequenos? A preocupação principal não é a orientação ideológica, o importante é fazer pressão para que você consiga ampliar a participação democrática dos meios, que eles possam sobreviver e possam ter uma atuação”, garante.

Ainda segundo Hamilton Octávio, a linha ideológica das publicações, que fazem parte da Altercom, foi um dos pontos discutidos nas reuniões sobre a entidade. Existiam dois pontos de vista distintos: para o primeiro, apenas órgãos com uma postura muito clara de esquerda poderia entrar. O segundo defendia que não deveria existir discriminação ideológica. Essa última visão ganhou o debate. “No grupo tem alguns veículos que não são de esquerda e não defendem o socialismo. Mas são veículos pequenos e são contra o monopólio da grande imprensa”, diz Octávio.

A discussão acima permite levantar uma questão importante: quais são as características de um meio de comunicação para ser considerado imprensa alternativa? Para o professor da USP (Universidade de São Paulo) Bernardo Kucinski, autor do livro “Jornalistas e Revolucionários – Nos tempos da imprensa alternativa”, que é resultado do seu doutorado sobre a atuação desse tipo de publicação durante a ditadura militar de 1964, as características mudam dependendo do período estudado. “Em cada tempo é uma definição. Mesmo assim, em termos gerais, pode-se dizer que uma publicação é alternativa quando seu conteúdo se contrapõe à ideologia e aos valores dominantes na grande mídia”, analisa Kucinski.

A revista Caros Amigos é um dos exemplos mais duradouros de imprensa alternativa no Brasil. Foi fundada em abril de 1997, pelo jornalista Sérgio de Sousa, que passou por várias dessas publicações durante o regime militar. Para Octávio, a revista surgiu com a intenção de se contrapor ao neoliberalismo. “Você estava em um momento em que o pensamento único imperava em todos os ambientes. A Caros começa a reunir pessoas que querem escrever com total liberdade, podendo criticar e refletir sobre essa situação”, garante.

A revista pode ser dividida em dois blocos: o primeiro é formado pelos colaboradores que vão do senador Eduardo Suplicy ao ex-presidente de Cuba Fidel Castro. O segundo é composto das entrevistas e reportagens produzidas pela redação. Quando assumiu o cargo de editor, há um ano, Hamilton Octávio resolveu privilegiar esse último segmento. “O leitor se cansa dos colaboradores e eles acabam sendo muito repetitivos. Você já sabe o que cada um vai escrever. Como é que você chama o leitor para a revista? Pelos artigos dos colaboradores é muito pouco, você tem que chamar pelas reportagens e entrevistas.”

Juntando assinantes e bancas de jornal, Caros Amigos vende 20 mil exemplares por mês no Brasil todo. Outra fonte de renda, a captação de anúncios, é bastante irregular. “Tem edições que têm oito, outras têm seis anúncios pagos e outras que não têm nenhum anúncio. Na média do ano, temos seis páginas de anúncios por edição”, contabiliza. É esse dinheiro que permite gerar algum superávit para saldar a dívida com bancos e gráficas. As dificuldades não impedem o editor de exaltar a qualidade da revista. “Nós sabemos que o que estamos fazendo tem um sentido político relevante. É um material sério, honesto, importante para o conhecimento da sociedade brasileira”, finaliza.

*****

Comentário: A reportagem acima foi escrita para a disciplina de jornal laboratório e, dentro de um semestre complicado em termos de trabalho,  foi uma das melhores coisas que fiz. O texto da matéria é praticamente o mesmo que eu entreguei para os professores, a única mudança está no verbo usado no título. Na versão original, optei por “contrapor”, mas tantos amigos, como professores acharam essa solução fraca. E eu concordei com eles. Existem outros pequenos defeitos na matéria acima, em especial no lead que poderia ser mais forte – ter “news” como diria o meu amigo Eduardo Vasconcelos. Mas estamos na faculdade para isso mesmo, né? Aprender, acertar, errar, crescer nessa profissão complicada que é o jornalismo. Em tempo: uma das coisas mais batutas dessa reportagem foi conhecer a redação da Caros Amigos. Ela não é nem sombra do que já foi um dia, porém a conversa com os seus atuais responsáveis foi bem bacana.

Molusco Movie

Poster do filme

Poster do filme

Sim, este é mais um texto sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”. Um pouquinho atrasado, reconheço, mas mesmo assim este blog não poderia deixar de comentá-lo. Nunca antes na história do cinema nacional, um filme foi tão criticado antes de ser exibido para o grande público. Talvez, “Tropa de elite” seja uma comparação possível, porém existe uma diferença fundamental entre as duas películas. O filme do Capitão Nascimento gerou polêmica depois de ter “vazado” na internet. Ou seja, as pessoas puderam falar dele com algum conhecimento de causa. Já o Molusco Movie foi malhado antes de ter entrado em circuito nacional.O Idéias e etc, por achar que é preciso conhecer alguma coisa para criticar, preferiu guardar sua opinião para depois de ter assistido ao filme. No inicio do ano, o ritual fundamental foi cumprido. A resenha foi dividida em duas partes: a primeira é dedicada ao filme e a segunda trata das polêmicas geradas pela fita.

O filme

A história não poderia ser mais manjada. Os familiares do Lula, e os seus amigos íntimos – incluindo o pessoal do governo -, devem conhecê-la de cor e salteado. Está tudo lá: a miséria da família no Nordeste, a vinda para São Paulo no Pau de arara; o alcoolismo do pai do presidente, que fazia com que ele fosse muito violento com a mulher e os filhos, o trabalho como torneiro mecânico, o acidente; a morte da primeira mulher, a Dona Marisa, a presidência do Sindicato dos Metalurgicos, as greves do ABC, o PT… quer dizer, o PT não aparece não, mas sobre isso eu comento daqui a pouco.

Antes, vamos falar um pouco dos pontos fortes do filme. Entre eles, a atuação do elenco é um dos grandes destaques. Todo mundo perfeito. Glória Pires como Dona Lindu dispensa maiores comentários. Cleo Pires, que interpreta a primeira mulher de Lula, também está muito boa, mas isso também não é novidade – se é que o amigo leitor me entende. Em tempo: não é estranho que o Lula namore a Cleo e seja filho da Glória Pires? É um incestuoso mesmo…

Brincadeiras à parte, o ator que interpreta o presidente, o novato Rui Ricardo Diaz, está simplesmente excelente.  Ele podia cair facilmente no grande equívoco da caricatura. Afinal, poucas personalidades são tão imitadas quanto Lula. Mas Diaz conseguiu fugir desse perigo. Está contido, equilibrado, no timing certo. Os outros detalhes técnicos também estão legais. É um filme bem editado, com algumas cenas grandiosas, como a enchente que a família foi vítima quando moravam em uma favela e as reconstituições das greves do ABC.

Mas cadê os defeitos mesmo? Justamente, onde deveria residir o grande trunfo do filme: o roteiro. Convenhamos: a história do Lula é impressionante. Já vi até gente da oposição reconhecendo isso. Alguém que saí do nada e consegue chegar ao cargo máximo de uma nação como o Brasil merece ter a sua vida retratada na tela grande. Com os 12 milhões de reais que custou o filme, a produção esmerada e o elenco bem escalado o resultado só poderia ser um filmaço. Poderia…

…mas não é. E o culpado, como disse, é o roteiro. A história presidencial não é falsificada. O problema é que o protagonista é bom demais para ser verdade. É apresentado como se não tivesse defeitos ou falhas, ou seja, sem nuances de personalidade. É excelente filho, marido, sindicalista… A pílula ficou dourada demais até para os padrões de uma cinebiografia.

Fica a impressão que o longa foi elaborado para agradar a todos: tucanos, petistas, comunistas, lulistas, malufistas e outros “istas”. Nem o PT aparece, pois o filme acaba com a morte da Dona Lindu -desculpa estragar o final…-, e o partido só seria lançado alguns anos depois. Eis um ponto crucial. Ao meu ver, os aspectos políticos são jogados para escanteio. Vários minutos são gastos mostrando a relação do protagonista com a sua mãe, e a sua atuação no sindicato é mostrada timidamente. Sem o mesmo impacto . O fato do PT não aparecer nem na sua fundação é extremamente sintomático disso. É como se o Zezé di Camargo e Luciano quisessem que o seu “2 filhos de Francisco” agradasse também aos que detestam a dupla. Seria um esforço em vão. Afinal, por melhor que seja o filme, a trilha sonora é repleta de músicas interpretadas pelos estridentes cantores. Essa tentativa de despolitzar “Lula, o filho do Brasil” acabou sendo o seu grande calcanhar de Aquiles. Resultado: um filme mediano. Nem tão bom quanto o enaltecido pelos produtores, nem tão ruim quanto o pintado por boa parte da imprensa tupiniquim. Nota 6,0.

As polêmicas

Foram muitas as polêmicas que cercaram o filme presidencial. Era até compreensível, afinal estamos falando de um personagem que, apesar da alta popularidade, está longe de ser um consenso nacional. Alguns amam, outros odeiam e muitos amam odiar. Abaixo, segue um inventário com as principais polêmicas comentadas pelo Idéias e etc:

Lula, o filho do Brasil é chapa-branca

Crítica procedente. Como dito acima, o filme acaba por dourar demais a pílula presidencial ao centrar a trama nas relações do protagonista com sua progenitora, minimizando os aspectos políticos.

Lula, o filho do Brasil e os patrocínios

Antes mesmo que as primeiras cenas surgirem na tela, o distinto espectador é informado, por meio de um letreiro, que o filme foi feito sem o auxílio da renúncia fiscal. Ou seja, sem o uso do dinheiro público. A seguir, aparece o logotipo das 18 empresas que investiram na película. É uma relação que não faria feio no macacão de um piloto de F1. Ao todo, foi captado 12 milhões de reais. Nada mal para os padrões nacionais; um trocado para os estúdios de Hollywood, ainda mais em tempos de Avatar.

Tudo certo, mas… e a polêmica? Pois bem, alguns gaiatos reclamaram que muitas das empresas que patrocinaram o filme teriam negócios com o governo, ou teriam sido “coagidas” a patrocinar para não ficarem mal na fita com o presidente. Ora, ora, ora… vamos largar de hipocrisia, ok? Qual empresa hoje não gostaria de fazer negócios com o governo? Isso vale para qualquer governo: estadual, municipal ou federal. A grande imprensa que polemizou é a primeira a se estapear em troca de um anúncio de alguma estatal para suas páginas. Esses jornais e revistas não adoram se proclamar os paladinos da livre iniciativa? Ou será que livre iniciativa no dos outros é refresco?

Quanta hipocrisia…

Lula, o filho do Brasil e a campanha eleitoral

Esta é a grande polêmica do filme. Muitos consideram que a vida do Lula na telona é uma pré-campanha discarada da ministra Dilma Rousseff. Isso é procedente ou estamos assistindo a um clássico episódio de paranóia tucana? Para responder essa pergunta, é preciso retroceder um pouco no tempo. Vamos até o ano de 2004, nos EUA, onde aconteceu algo que pode ser muito esclarecedor.

Coincidentemente, os americanos também estavam as vésperas de uma eleição presidencial. Entre os candidatos, George W Bush, que ocupava a Casa  Branca e, convenhamos, não era nenhum exemplo de popularidade, em seu país e no resto do mundo. Pudera. Cada dia que passava, as notícias de soldados mortos no Iraque complicavam ainda mais a vida do sujeito.

Com esse cenário de fundo, e faltando poucos meses para a eleição, estréia nos cinemas um documentário que chacoalhou o mundo: Fahrenheit 11 de setembro, de Michael Moore. Para quem não assistiu, o filme é uma cacetada de alto a baixo em Bush Jr. Entre outras coisas, Moore mostra que o exército escolheu os soldados, para a campanha no Iraque,  nos Estados mais pobres da federação. E essa é a denúncia mais leve do filme. Fahrenheit 9/11 ganhou a Palma de ouro em Canne e foi saudado pelo público e por boa parte da crítica – os republicanos, não sei porque, detestaram o filme. Michael Moore nunca escondeu o seu desejo de influenciar nas eleições que aconteceriam em novembro daquele ano. Queria a vitória do candidato democrata. Infelizmente, o resultado não foi bem o sonhado por Moore…

Agora, voltemos para 2010 e para o Brasil. Antes de mais nada, eu entendo que estamos lidando com culturas e circunstâncias diferentes. Mas o episódio envolvendo o filme de Moore traz algumas lições: primeiro, mostra que o poder do cinema de influenciar não é tão grande assim. Em tese, um documentário, por lidar com a “realidade” e ter um apelo jornalístico, teria muito mais capacidade de influenciar que a ficção, onde os espectadores sempre ficam com a impressão de terem sido enganados. E, na maioria das vezes, foram mesmo.

No caso do filme do Lula, é preciso fazer um malabarismo mental para provar essa tese. Vamos lá: o filme beneficia a Dilma, porque lá em outubro as pessoas vão lembrar que ela é a candidata do Lula, logo vão sufragá-la porque ficaram profundamente emocionadas pelo filme. Sinceramente? Acho complicado. Precisaria de uma pesquisa para comprovar essa teoria. Para mim, o filme pode influenciar, no máximo aquela parcela do eleitorado que já tem uma queda pelo Lula, mas essas pessoas já iriam votar na Dilma, independente do filme. E olhe lá. Uma eleição não segue uma lógica tão simplista. São muitos os fatores envolvidos nesse processo. Se bobear, ninguém vai lembrar do filme, e dessas polêmicas, em Outubro.

Em tempo: o amigo leitor ficou interessado em assistir ao filme do presidente? Se a resposta for positiva, recomendo correr. Ao que parece, a bilheteria não foi nenhuma maravilha. Em São Paulo, na rede Cinemark, uma das maiores do país, o filme só está sendo exibido no cinema do shopping Interlar Aricanduva com sessões ás 12h 25 e 15h 10.

Ainda o diploma de jornalismo…

Fuçando no blog da revista Imprensa, que o leitor pode acessar na coluna de “sites favoritos”, achei o cartum abaixo. Ele é divertido e, ao mesmo tempo, um retrato do que pode estar acontecendo nas redações brasileiras…

Mas existe uma pequena centelha de luz no fim do túnel. A PEC (Projeto de Emenda a Constituição) que restabelece a obrigatoriedade do diploma está na pauta de votação da Comissão de Constituição e Justiça. Sinceramente, não sei até que ponto eu me iludo com isso. Os interesses organizados contra são fortes, articulados, e não são fáceis de derrotar…

Efeméride

É meio pedante ficar fazendo auto-comemoração, mas não resisto: hoje, o Idéias e etc completa 1 ano de vida. Foram, ao todo, 53 textos, incluindo este post, com quase o dobro de comentários, 104. Enquanto escrevo estas linhas, o contador de acesso registra 7.459 visitas. Posso garantir que sou responsável por boa parte desse número. Visito o blog todos os dias; sempre dou uma olhadinha nas estatísticas e nos comentários, de modo um tanto obsessivo, reconheço.

Mas não é apenas nesse detalhe que o blog mudou minha vida. Procuro assuntos para o blog em todos os lugares, 24 horas por dia. Quando leio uma notícia num jornal, sempre penso no seu potêncial para virar post. Porém, nem sempre consegui escrever sobre todos os assuntos que queria. Muitas vezes, perdi o timing da publicação e não existe nada pior que blog tratando de assunto velho: parece jornal de anteontem.

Não me queixo, porém. Muito pelo contrário. Escrever neste blog tem sido uma experiência fascinante. Embora o Idéias e etc não tenha sido o meu primeiro blog – já tive outros, qualquer dia escrevo sobre isso -, este é o espaço em que, finalmente, encontrei o meu jeito de fazer jornalismo. Claro, tenho muito o que aprender na profissão, muito o que amadurecer, mas este blog ajudou a forjar o meu estilo de trabalho. Só não sei se terei a mesma liberdade nos meios de comunicação tradicionais…

Não posso terminar esse texto sem um agradecimento especial aos leitores que me honram com suas visitas e com os seus comentários. Poderia até citar alguns deles, mas sempre existe o risco de esquecer alguém sem querer. Prefiro, então, essa lembrança generalizada mesmo. Vocês não tem idéia do estímulo que é, para mim, ler os seus comentários, a maioria deles, felizmente, elogiosos. É sinal que alguma coisa eu estou fazendo certo. Muito obrigado mesmo!

E vamos em frente!

Momentos (in)esquecíveis da imprensa

Momentos (in)esquecíveis da imprensa é o novo nome da série “Furadas da mídia” que o Idéias e etc lançou em janeiro. O nome mudou para ampliar os objetivos da série. Agora não ficaremos concentrados apenas nas lambanças cometidas pelos meus colegas, mas procuraremos registrar os grandes momentos do jornalismo brasileiro.

Isso não quer dizer que não destacaremos as pisadas na bola, muito pelo contrário. Elas serão um dos pratos mais saborosos desta série. A periodicidade: quando me der na telha. Ela pode ser semanal, quinzenal, bimestral, anual…   isso vai depender muito do meu humor e, principalmente, das descobertas que for fazendo no youtube. O amigo leitor está convidado a dar as suas sugestões para a série.

Na (re)estréia, dois momentos peculiares do telejornalismo brasileiro: Datena abandonado por um entrevistado, e o Bonner cutucando o então governador de São Paulo Claudio Lembo, na época dos atentados do PCC em São Paulo.

Socorro, o entrevistado fugiu!

Infelizmente, o vídeo mostra apenas o fim do barraco e o choorô do Datena, o que torna impossível saber exatamente o que sucedeu para o delegado abandonar a entrevista. Mas, mesmo assim, já é possível fazer algumas constatações. Primeiro: os apresentadores de programas policiais adoram bancar o juiz de direito. Com apenas alguns minutos, o sujeito já está julgado e condenado para toda a vida. Para complicar, eles contam com a vaidade de certos policiais que adoram um holofote. Essa combinação bombástica já rendeu momentos catastróficos do jornalismo tupiniquim, como o caso escola Base.

O vídeo acima é interessante para mostrar que essa relação polícia X imprensa pode ter algumas fissuras. O Datena, que sempre se julga o dono da verdade, não gostou quando o delegado não embarcou na sua corretíssima informação chamando-a de “boato” .Se quisesse, o doutor poderia prender o dito cujo por calúnia e difamação. Não seria tão ruim para o jornalismo brasileiro, não…

PCC no JN

O vídeo acima é interessante por alguns motivos: primeiro, relembra os famigerados ataques do PCC em São Paulo que começaram no dia 12 de maio de 2006. O Inagaki, do Pensar enlouquece, fez um belo post sobre o assunto, de onde, aliás, eu tirei o vídeo. Lá, o leitor terá mais informações sobre o acontecimento. Por aqui, prefiro analisar os aspectos jornalísticos do vídeo.Vamos lá.

Não sei vocês, mas me causou um baita estranhamento ver o Wuilliam Bonner apresentando o JN fora da bancada, em plena Marginal Pinheiros. Ele poderia apresentar o mesmo jornal, com a mesma qualidade, direto da redação da Globo em São Paulo. Na verdade, ele quis bancar o “corajoso” e era preciso mesmo ter coragem para apresentar o jornal sentindo aquele cheiro nauesabundo.

Mas o vídeo traz um outro elemento muito curioso. Por uma incrível coincidência, os dois repórteres que ele chamou neste bloco, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, saíram da emissora e, hoje, estão na principal concorrente, a Record. E saíram atirando. Os dois jornalistas não poupam críticas a antiga emissora em seus blogs que o leitor pode encontrar na parte de “sites favoritos”

Até a próxima edição dos “Momentos (in)esquecíveis da imprensa que pode ser amanhã, na próxima semana, daqui a quinze dias, ano que vem, ou sei lá quando…

O velório do diploma de jornalismo

Ontem, dia 17 de junho de 2009, o STF deixou momentaneamente de ser um tribunal e se transformou num cemitério. O defunto atende pelo nome de diploma superior para jornalismo. O coveiro-mor é Gilmar Mendes, que relatou o processo, mas o meritíssimo não carregou esse caixão sozinho: junto com ele estavam boa parte das entidades patronais da categoria, ABERT (Associação Brasileira de rádio e televisão) e ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e, também, muitos coleguinhas que encarnaram, felizes e saltitantes, o papel de pelegos comemorando o fim do diploma. A única e honrosa exceção é o ministro Marco Aurélio de Melo que votou pela manutenção da regulamentação.

As conseqüências desse enterro prometem ser sinistras para o jornalismo tupiniquim. Quem defende essa idéia é Leandro Fortes, um dos melhores repórteres em atividade no país, e professor de jornalismo. Em seu novo blog aqui no WordPress, Fortes lembra que os maiores prejudicados pelo fim do diploma serão os meios de comunicação regionais. É fácil entender o motivo: com o diploma, existia pelo menos uma garantia de qualidade na informação produzida por esses meios de comunicação. Com o fim da exigência, as redações desses veículos, que, via de regra, são controlados por políticos, serão tomadas de assalto por partidários do dono da empresa, sem nenhum compromisso com o jornalismo. O vaticínio de Leandro Fortes é assustador:

Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.

Mas nem todos são tão pessimistas. Luis Nassif, por exemplo, consegue enxergar alguma luz na escuridão. Para ele, existe um grande mercado que pode abrir para aqueles que ostentam o diploma de jornalista:

(…)há um enorme mercado que se abre com o fim da obrigatoriedade do diploma – beneficiando especialmente os com-diploma. Daqui para frente, cada vez mais as empresas e associações serão produtoras de informação, acabando com essa intermediação espúria da mídia. Hoje em dia há assessorias com mais jornalistas que as redações. Preparam releases, enviam para o jornal, o editor passa para um repórter dar uma guaribada e publicar como se fosse matéria própria.

Como estudante de jornalismo, gostaria de acreditar mais no otimismo do Luis Nassif do que no pessimismo do Leandro Fortes. Infelizmente, eu não consigo. Acho a visão do repórter de Carta Capital mais realista e vou além: o mercado, que já é altamente restrito, promete ficar ainda mais comprometido. De toda forma, não será a decisão de ontem que vai impedir que eu seja jornalista. Acredito no meu potencial, com o diploma valendo alguma coisa, ou não.

Para dar uma aliviada no clima funéreo desse texto, achei a imagem abaixo em um blog. Ela diz muito do que será o jornalismo daqui para frente…

diploma

P.S.: Criei uma enquete sobre o assunto na barra ao lado. Participe!

Os políticos e a imprensa

Roberto Marinho e o vovô ACM: retrato de uma amizade antiga.

Roberto Marinho e o vovô ACM: retrato de uma amizade antiga.

Na última terça-feira, a Comissão de Constitução e Justiça (CCJ) do senado aprovou um parecer do senador Pedro Simon em que é dito o óbvio: políticos não podem ser donos de meios de comunicação. O objetivo é impedir a renovação das concessões para emissoras de rádio e tevê cujos proprietários sejam parlamentares.

O que pode parecer óbvio em qualquer outro lugar do planeta Terra encontra, aqui no Brasil, um entrave gigantesco. Por um pequeno detalhe: segundo o Comunique-se, 20 dos nobres  senadores são donos de algum órgão de comunicação; na Câmara dos deputados, 50 dos representantes do povo estão na mesma condição. E eles já começaram a reclamar. O primeiro foi ACM Jr, dono de jornais e acionista de uma retransmissora da TV Globo na Bahia, herdada de seu avô. Para a imprensa, o neto de Toninho Malvadeza resmungou:

Essa interpretação dada ao texto constitucional é totalmente equivocada. Hoje há uma proibição de que parlamentares com mandato sejam gestores de empresas de comunicação, não proprietários. O que aconteceu na CCJ na terça-feira foi um absurdo

Será mesmo? Vamos dar uma olhada na carta magna Brasileira. Os grifos são meus:

Deputados e senadores não poderão, desde a posse, ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada

O texto é clarissímo e não permite outro entendimento. Só mesmo o ACM Jr, pelo jeito portador de uma dislexia crônica, para interpretar as linhas acima de outra maneira. Com todo o respeito aos disléxicos.

É uma grande piada que, em pleno século XXI, o congresso Brasileiro ainda esteja ás voltas com questões como essa. Só no país da jabuticaba, políticos podem ser donos de meios de comunicação e se utilizarem dessa influência para aumentar e/ou manter o seu poder.

Apesar das boas intenções do senador Pedro Simon, vejo com bastante ceticismo as chances de alguma mudança real. Aplicar, com rigor, essa lei mexeria diretamente com os interesses dos parlamentares e, também, com o de boa parte da mídia corporativa. Só sendo muito ingênuo para imaginar que esse tipo de projeto possa ser aprovado no plenário do Senado, ainda mais com o Zé Sarney, dono de uma retransmissora da Globo no Maranhão, presidindo casa.

Mas vamos sonhar essa utopia e imaginemos que o Senado e a Câmara aprovem o parecer do Simon. O que muda? Nada, absolutamente nada. O Malvadeza Jr pode se afastar do controle da Globo na Bahia, mas as coisas podem continuar como estão. Basta que ele coloque um laranja no seu lugar e este fará exatamente o que ele determinar; com apenas alguns telefonemas, ele seguirá mandando na linha editorial de suas emissoras. Na prática, tudo continuará igualzinho.

Aliás, o parecer do Simon só foi aprovado porque na dia da votação participaram apenas 4 parlamentares. E a sessão deve ter sido ultra-secreta, pois o senador Wellington Salgado fez a seguinte reclamação aos jornalistas: “Nem eu, que sou vice-presidente da comissão, sabia que esse assunto estava na pauta” Em tempo: o nobre senador é o feliz proprietário de uma retransmissora do SBT no triângulo mineiro.

Jornalista, só com diploma! [Atualizado]

Atualização do dia 17/06/2009 às 7h e 32 minutos O STF acabou de julgar faz alguns instantes o processo envolvendo a regulamentação da profissão de jornalista. O resultado, de certa forma, não surpreendeu este Idéias e etc: 8 x 1 com apenas o ministro Marco Aurélio de Mello fugindo do coro dos contentes. Esta é uma quarta feira melancólica para todos os jornalistas que amam o seu ofício e consideram importante estar bem preparado para exercê-lo.

Lamentável.

P.S.: Estou pensando seriamente em pedir para que a minha faculdade imprima o meu diploma em papel higiênico, assim ele terá alguma utilidade…

Atualização do dia 12/06/2009 às 10 h e 10 minutos: Parece até mentira, mas o julgamento do processo envolvendo o diploma para jornalistas não foi julgado no dia 1º, nem posteriormente no dia 15 de Abril. Passou Maio inteirinho e o julgamento ficou para o dia 9 desse mês. Novamente, ficou apenas na intenção. Ao que parece, a nova data é o dia 17 de junho, próxima quarta feira. Pelo menos, é o que informa todos os sites especializados.

Devo confessar que estou bem pessimista. O relator da causa não poderia ter sido mais mal escolhido: Gilmar Mendes. Sua relação fraterna com os grandes barões da mídia, que, via de regra, são contrários ao diploma de jornalista, já é motivo suficiente para deixar qualquer um desanimado. Também desconfio profundamente do seu amor aos jornalistas independentes. Não se esqueçam que o assessor do Supremo meritíssimo acionou a polícia federal contra um jornalista…

Mas, mesmo assim, é preciso manter um fiapo de esperança. É por isso que decidi ressucitar esse texto, como forma de marcar posição em defesa do diploma de jornalismo. Tomara que a Fenaj e as entidades da categoria consigam sensibilizar os meritíssimos do STF.

Tomara…

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O dia 1 de Abril de 2008 promete fortes emoções aos jornalistas do Brasil. O Supremo Tribunal Federal julgará a validade, ou não, da obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo. Eu pretendia escrever um texto mais elaborado sobre o assunto, mas mudei meus planos depois que a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) enviou o Flyer abaixo. Ele diz tudo o que precisa ser dito sobre essa questão. Qualquer coisa que eu acrescentasse seria redundante. Eu só faço figas para que os distintos ministros do STF tomem a medida mais acertada, ou seja, mantenha a relevância da formação superior em jornalismo. A imprensa Brasileira agradecerá.

fenaj-flyer-eletronico-jornalista-so-com-diploma-2009

Atualização do dia 03/04/2009 às 10h e 59 minutos: Acabou que o dia não teve tantas emoções, apesar de mais um editorial infame do jornal Folha de S. Paulo defendendo o fim da exigência do diploma para jornalistas. Segundo a imprensa, o julgamento ficou para o dia 15 de Abril. Fiquei pensando: será que os supremo meritíssimos só trabalham de 15 em 15 dias? Importante: não é só a questão do diploma que está em jogo, mas a lei de imprensa, um dos últimos entulhos autoritários que sobraram da ditadura militar, também está na pauta de julgamento.