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Uma ode ao Estado laico. Ou: a fé que move montanhas (de votos)

Tucano de fé.

Basta ser ano de eleição para a procissão se repetir. O candidato, não importa o partido, faz um périplo por todas os credos; comunga com o padre, celebra um culto com o pastor evangélico; recebe um passe na centro espírita e, de quebra, dá uma passadinha no terreiro de candomblé só pra garantir. Curiosamente, essa fé tremenda só acontece em tempos de eleição. O fervor religioso coincide com o calendário eleitoral.

Antes de mais nada, quero deixar claro que respeito todos os tipos de fé. Se o sujeito acredita no Mickey Mouse, por mim, tudo bem. Pessoalmente, tenho uma relação conflituosa com a fé que não cabe dissertar por ora. O importante é que a constituição brasileira- desde a proclamação da república em 1889 até a nossa atual carta de 1988 -, fez deste um país laico. Isso significa, primeiramente, que o Estado não tem nenhuma religião oficial. E, por tabela, a liberdade religiosa é garantida para todos os cidadãos – incluindo aí a liberdade de não ter religião.

Lindo, não? Na letra da lei, é uma beleza. Na prática, porém, o buraco é um pouco mais embaixo. A demagogia não está apenas na romaria dos políticos em busca de votos. O horário eleitoral gratuito traz sempre vários gaiatos que usam o nome de Deus para conseguir angariar eleitores. E mais um rombo é aberto no muro que separa o Estado da religião.

Petista de fé

A última eleição presidencial foi exemplar em mostrar o que acontece quando essa fronteira é desrespeitada. O candidato José Serra,que de repente demonstrou um fervor cristão insuspeito, trouxe à tona a questão do aborto e fez uma das campanhas mais sórdidas dos últimos tempos. Por ser uma questão polêmica por natureza, discuti-la no período eleitoral, momento em que os corações e mentes estão radicalizados é, para dizer o mínimo, um despropósito.

Este é um assunto para ser tratado com o máximo de serenidade. É claro que os grupos religiosos têm todo o direito de se opôr ao aborto e devem ser ouvidos quando o tema for debatido seriamente no congresso nacional – assim como os grupos favoráveis também devem ter voz. Faz parte do jogo democrático. Vamos seguir com o nosso exemplo utópico. Depois de todo o debate com a sociedade, com todos os grupos interessados, a decisão dos políticos foi favorável a regulamentação do aborto. O Estado laico garante que a decisão deva ser respeitada, por mais que você, por princípios da sua religião ou não, tenha todas as razões para ser contra.

Pessoalmente, acho que a constituição brasileira, ao permitir o aborto em casos de estupro e de crianças anencéfas, como decidiu recentemente o STF, trata do assunto com bastante serenidade. De qualquer maneira, este não é um texto sobre o aborto e, sim, sobre as fronteiras que separam a religião do Estado. Retornemos o fio da meada

No primeiro parágrafo, comentei do périplo que os políticos fazem – de todos os partidos, vale repetir -, em todas as religiões. É uma das poucas coisas ecumênicas em uma corrida eleitoral. É óbvio que o interesse é muito mais em angariar votos do que em salvar a alma – até porque algumas estão irremediavelmente perdidas. Os pastores/padres aproveitam para colocar na mesa as suas “exigências” e a dos seus fiéis. O político, muito sério e contrito, concorda com tudo. É preciso ter muita fé para acreditar nesse cerimonial hipócrita.

Tenho muita curiosidade em saber o que aconteceria com um político que se declarasse abertamente ateu ou agnóstico. Na verdade, não é preciso grande imaginação. Na melhor das hipóteses, receberia um pequeno punhado de votos que não o elegeria para síndico do seu prédio; no cenário mais assustador, seria queimado em praça pública, feito uma Joana D’arc do século XXI. Pequenos exageros à parte, gostaria de entender essa necessidade que o eleitor tem de que o seu candidato tenha alguma religião. Até hoje, todos os políticos eleitos foram, partindo-se do pressuposto que eles tenham falado a verdade, homens muito tementes a Deus; o Demóstenes Torres, por exemplo, anunciou, em depoimento a uma constituição de ética que investiga os seus delitos, ser um carola…

Não estou querendo dizer, com isso, que um político ateu ou agnóstico seria automaticamente honesto e bom caráter. Seria uma conclusão absolutamente insana.  O mundo é muito mais complexo e cheio de nuances. No meu mundo ideal, a fé de um político – ou a ausência dela -, seria apenas mais um componente da personalidade do sujeito para ser julgado pelo eleitor.

Não quero esgotar esse tema com esse artigo. Ele é infindável. Hoje, por exemplo, a Folha de S. Paulo traz uma matéria falando da raiva que gerou na bancada evangélica, uma minuta de um decreto em que o governo Dilma quer proibir o aluguel de horários na TV Aberta. O raciocínio é simples. A televisão é uma concessão pública, pertencente, portanto, ao Estado. Ao alugar o horário, as televisões estariam lucrando com um bem que não pertence a elas. A bancada evangélica, claro, chiou diante dessa ameaça e alegou – vejam vocês! -, que seria uma atentado a liberdade religiosa.

E mais um rombo é aberto no muro que separa o Estado da religião.

Para quem se interessou pelo tema, recomendo que clique aqui para ler um texto bem interessante do Tulio Vianna, publicado na Revista Fórum.

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Balanço do 2º turno – uma nota naúfraga

O segundo turno começou e já está quase acabando e eu nem comentei ainda o resultado do primeiro turno que teve a eleição do palhaço Tiririca por incríveis  – porém críveis -, 1 milhão 353 mil e 820 votos.  Ganhou, mas pode não levar pois os promotores ainda desconfiam que Tiririca é analfabeto. É aquela história de fechar a porteira depois que a boiada fugiu…

Eu tinha planejado um texto mais elaborado sobre esta campanha, porém, francamente, o (baixo) nível, as miudezas da disputa eleitoral – quantas bolinhas acertaram a careca do José Serra mesmo? – e quetais me desanimaram profundamente. Acompanho o noticiário político quase como um naúfrago; levado pelas ondas do oceano, sem grandes esperanças de navegar em mares calmos nos próximos tempos.

É só o que me ocorre escrever.

A bancada dos toscos (Ou: Pior que tá, pode ficar)

Vota no abestado, vota...

Tiririca, Simony, Ronaldo Esper, Kiko, Leandro, Maguila, Frank Aguiar, Marcelinho Carioca, Dinei, Juca Chaves, Mulher Pêra, Aguinaldo Timóteo, Romário, Tati Quebra Barraco, Netinho, o filho do Raul Gil, o marido da Mara Maravilha… este é o elenco de A Fazenda 3? Não, mas bem que poderia ser. Na verdade, essas figuras acima estão em busca de um cargo público nas eleições deste ano.

Este fenômeno, entretanto, não é recente. O próprio Aguinaldo Timóteo, que busca uma vaga para o Congresso Nacional usando como programa de governo sua amizade com Clodovil (?!!!!),  é um veterano nessa, digamos, carreira. O que parece ser novidade é a quantidade e, principalmente, a qualidade dos candidatos. Para pior, claro.

(Parêntesis: se tem uma propaganda que me irrita profundamente é a do marido da Mara Maravilha. No horário eleitoral, o sujeito fica calado deixando sua campanha aos cuidados de sua mulher. Quando ela fala, diz que se deve votar no seu esposo por ele ser um “servo de Deus”. Para início de conversa, o Estado brasileiro é laico, ou seja, o Brasil não tem nenhuma religião oficial. Depois, essa mistura de política com religião nunca deu muito certo. É a junção de uma escolha absolutamente particular – ter ou não ter uma fé religiosa -, com algo que é de interesse público, o processo eleitoral. Um completo absurdo. E o que dizer de um deputado que tem como mote de campanha a valorização do evangelho? Melhor fechar o parêntesis e voltar para nossa prosa)

Apesar dos pesares, é bom pensar um pouco antes de arremessar o tomate podre neles. Tiririca e companhia estão apenas usando de sua popularidade, em alguns casos bastante duvidosa, para conseguir a sua bocada dos cofres públicos. O raciocínio pode parecer cínico, mas ele só existe porque em outras eleições alguns desses candidatos foram eleitos com uma grande quantidade de votos. Os eleitores têm uma grande parcela de culpa nesse cartório.

Contudo, os grandes culpados por esse descalabro são os partidos políticos. Afinal, segundo a lei brasileira, só através deles alguém pode se candidatar numa eleição. E o cálculo político por trás dessa iniciativa é sórdido. Primeiro, essas celebridades são chamadas “puxadores de votos”, em outras palavras, sua função dentro do processo eleitoral é usar a sua popularidade para receber o maior número de sufrágios possível.

Para tanto, recebem números de fácil memorização. O Tiririca, por exemplo, é 2222 (pode anotar, se quiser…) O motivo? Simples. Graças ao bisonho quociente eleitoral, quanto mais votos um partido político receber mais chances de eleger deputados ele tem. E, caso tenha se entusiasmado e anotado o número do palhaço, saiba que as chances de você ajudar a eleger um mensaleiro é muito grande. É só reparar nos companheiros de partido de Tiririca…

E a pouca vergonha continua depois da eleição. Essas (pseudo) celebridades têm, com poucas exceções, um nível baixíssimo de cultura e de ensino. Não existe nessa afirmação nenhum intuito de diminui-los, é apenas uma constatação que torna ainda mais calhorda a atitude dos partidos políticos. Para você ter uma idéia, clique aqui e veja uma entrevista inacreditável com o Tiririca publicada na Folha.com. Ela fala por si só.

A primeira conseqüência desse baixo nível cultural é simples de entender: sem nenhuma noção sobre política ou sobre o funcionamento das casas legislativas, essas personalidades viram verdadeiros mísseis teleguiados nas mãos das raposas velhas da política, fantoches que serão utilizados para fazer valer os seus interesses. Sem falar que o debate público que, via de regra, não é lá muito produtivo, fica ainda mais medíocre.

Existe alguma solução para esse drama? O primeiro caminho mais óbvio, que seria simplesmente proibir a candidatura dessa fauna, me parece pouco democrático. Nossa constituição garante que todos podem votar e se candidatar e, apesar de tudo, essa ainda é uma das maravilhas da democracia.

Só existe uma maneira para remediar essa solução e ela está em você, leitor/eleitor. Sim, em você mesmo. Na sua consciência. Na hora de votar em um candidato tosco, pense duas vezes. Só quando essas figuras começarem a não conseguir mais se eleger é que os partidos políticos – os verdadeiros vilões desse dramalhão-, vão se tocar desse absurdo. Esse é um sonho utópico, sei bem disso. Talvez, só no longo prazo o brasileiro vai se tocar que não deve fazer piada com o seu voto.

Por enquanto, proponho uma brincadeira: vamos fazer um bolão para ver quantos e quais dos candidatos toscos elencados no primeiro parágrafo vão se eleger no dia 2 de outubro. Minhas apostas são: Tiririca, Ronaldo Esper, um dos KLB’s, não importa qual, Frank Aguiar, Aguinaldo Timóteo Netinho e Romário. Com a apuração encerrada, o Idéias e etc divulgará o resultado da brincadeira. Se nenhum deles se eleger, nós ganharemos um congresso um pouco menos esculhambado que o habitual; se eles se elegerem, nós vamos ganhar uma TV Câmara bem mais divertida que o costumeiro. Façam suas apostas!

Molusco Movie

Poster do filme

Poster do filme

Sim, este é mais um texto sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”. Um pouquinho atrasado, reconheço, mas mesmo assim este blog não poderia deixar de comentá-lo. Nunca antes na história do cinema nacional, um filme foi tão criticado antes de ser exibido para o grande público. Talvez, “Tropa de elite” seja uma comparação possível, porém existe uma diferença fundamental entre as duas películas. O filme do Capitão Nascimento gerou polêmica depois de ter “vazado” na internet. Ou seja, as pessoas puderam falar dele com algum conhecimento de causa. Já o Molusco Movie foi malhado antes de ter entrado em circuito nacional.O Idéias e etc, por achar que é preciso conhecer alguma coisa para criticar, preferiu guardar sua opinião para depois de ter assistido ao filme. No inicio do ano, o ritual fundamental foi cumprido. A resenha foi dividida em duas partes: a primeira é dedicada ao filme e a segunda trata das polêmicas geradas pela fita.

O filme

A história não poderia ser mais manjada. Os familiares do Lula, e os seus amigos íntimos – incluindo o pessoal do governo -, devem conhecê-la de cor e salteado. Está tudo lá: a miséria da família no Nordeste, a vinda para São Paulo no Pau de arara; o alcoolismo do pai do presidente, que fazia com que ele fosse muito violento com a mulher e os filhos, o trabalho como torneiro mecânico, o acidente; a morte da primeira mulher, a Dona Marisa, a presidência do Sindicato dos Metalurgicos, as greves do ABC, o PT… quer dizer, o PT não aparece não, mas sobre isso eu comento daqui a pouco.

Antes, vamos falar um pouco dos pontos fortes do filme. Entre eles, a atuação do elenco é um dos grandes destaques. Todo mundo perfeito. Glória Pires como Dona Lindu dispensa maiores comentários. Cleo Pires, que interpreta a primeira mulher de Lula, também está muito boa, mas isso também não é novidade – se é que o amigo leitor me entende. Em tempo: não é estranho que o Lula namore a Cleo e seja filho da Glória Pires? É um incestuoso mesmo…

Brincadeiras à parte, o ator que interpreta o presidente, o novato Rui Ricardo Diaz, está simplesmente excelente.  Ele podia cair facilmente no grande equívoco da caricatura. Afinal, poucas personalidades são tão imitadas quanto Lula. Mas Diaz conseguiu fugir desse perigo. Está contido, equilibrado, no timing certo. Os outros detalhes técnicos também estão legais. É um filme bem editado, com algumas cenas grandiosas, como a enchente que a família foi vítima quando moravam em uma favela e as reconstituições das greves do ABC.

Mas cadê os defeitos mesmo? Justamente, onde deveria residir o grande trunfo do filme: o roteiro. Convenhamos: a história do Lula é impressionante. Já vi até gente da oposição reconhecendo isso. Alguém que saí do nada e consegue chegar ao cargo máximo de uma nação como o Brasil merece ter a sua vida retratada na tela grande. Com os 12 milhões de reais que custou o filme, a produção esmerada e o elenco bem escalado o resultado só poderia ser um filmaço. Poderia…

…mas não é. E o culpado, como disse, é o roteiro. A história presidencial não é falsificada. O problema é que o protagonista é bom demais para ser verdade. É apresentado como se não tivesse defeitos ou falhas, ou seja, sem nuances de personalidade. É excelente filho, marido, sindicalista… A pílula ficou dourada demais até para os padrões de uma cinebiografia.

Fica a impressão que o longa foi elaborado para agradar a todos: tucanos, petistas, comunistas, lulistas, malufistas e outros “istas”. Nem o PT aparece, pois o filme acaba com a morte da Dona Lindu -desculpa estragar o final…-, e o partido só seria lançado alguns anos depois. Eis um ponto crucial. Ao meu ver, os aspectos políticos são jogados para escanteio. Vários minutos são gastos mostrando a relação do protagonista com a sua mãe, e a sua atuação no sindicato é mostrada timidamente. Sem o mesmo impacto . O fato do PT não aparecer nem na sua fundação é extremamente sintomático disso. É como se o Zezé di Camargo e Luciano quisessem que o seu “2 filhos de Francisco” agradasse também aos que detestam a dupla. Seria um esforço em vão. Afinal, por melhor que seja o filme, a trilha sonora é repleta de músicas interpretadas pelos estridentes cantores. Essa tentativa de despolitzar “Lula, o filho do Brasil” acabou sendo o seu grande calcanhar de Aquiles. Resultado: um filme mediano. Nem tão bom quanto o enaltecido pelos produtores, nem tão ruim quanto o pintado por boa parte da imprensa tupiniquim. Nota 6,0.

As polêmicas

Foram muitas as polêmicas que cercaram o filme presidencial. Era até compreensível, afinal estamos falando de um personagem que, apesar da alta popularidade, está longe de ser um consenso nacional. Alguns amam, outros odeiam e muitos amam odiar. Abaixo, segue um inventário com as principais polêmicas comentadas pelo Idéias e etc:

Lula, o filho do Brasil é chapa-branca

Crítica procedente. Como dito acima, o filme acaba por dourar demais a pílula presidencial ao centrar a trama nas relações do protagonista com sua progenitora, minimizando os aspectos políticos.

Lula, o filho do Brasil e os patrocínios

Antes mesmo que as primeiras cenas surgirem na tela, o distinto espectador é informado, por meio de um letreiro, que o filme foi feito sem o auxílio da renúncia fiscal. Ou seja, sem o uso do dinheiro público. A seguir, aparece o logotipo das 18 empresas que investiram na película. É uma relação que não faria feio no macacão de um piloto de F1. Ao todo, foi captado 12 milhões de reais. Nada mal para os padrões nacionais; um trocado para os estúdios de Hollywood, ainda mais em tempos de Avatar.

Tudo certo, mas… e a polêmica? Pois bem, alguns gaiatos reclamaram que muitas das empresas que patrocinaram o filme teriam negócios com o governo, ou teriam sido “coagidas” a patrocinar para não ficarem mal na fita com o presidente. Ora, ora, ora… vamos largar de hipocrisia, ok? Qual empresa hoje não gostaria de fazer negócios com o governo? Isso vale para qualquer governo: estadual, municipal ou federal. A grande imprensa que polemizou é a primeira a se estapear em troca de um anúncio de alguma estatal para suas páginas. Esses jornais e revistas não adoram se proclamar os paladinos da livre iniciativa? Ou será que livre iniciativa no dos outros é refresco?

Quanta hipocrisia…

Lula, o filho do Brasil e a campanha eleitoral

Esta é a grande polêmica do filme. Muitos consideram que a vida do Lula na telona é uma pré-campanha discarada da ministra Dilma Rousseff. Isso é procedente ou estamos assistindo a um clássico episódio de paranóia tucana? Para responder essa pergunta, é preciso retroceder um pouco no tempo. Vamos até o ano de 2004, nos EUA, onde aconteceu algo que pode ser muito esclarecedor.

Coincidentemente, os americanos também estavam as vésperas de uma eleição presidencial. Entre os candidatos, George W Bush, que ocupava a Casa  Branca e, convenhamos, não era nenhum exemplo de popularidade, em seu país e no resto do mundo. Pudera. Cada dia que passava, as notícias de soldados mortos no Iraque complicavam ainda mais a vida do sujeito.

Com esse cenário de fundo, e faltando poucos meses para a eleição, estréia nos cinemas um documentário que chacoalhou o mundo: Fahrenheit 11 de setembro, de Michael Moore. Para quem não assistiu, o filme é uma cacetada de alto a baixo em Bush Jr. Entre outras coisas, Moore mostra que o exército escolheu os soldados, para a campanha no Iraque,  nos Estados mais pobres da federação. E essa é a denúncia mais leve do filme. Fahrenheit 9/11 ganhou a Palma de ouro em Canne e foi saudado pelo público e por boa parte da crítica – os republicanos, não sei porque, detestaram o filme. Michael Moore nunca escondeu o seu desejo de influenciar nas eleições que aconteceriam em novembro daquele ano. Queria a vitória do candidato democrata. Infelizmente, o resultado não foi bem o sonhado por Moore…

Agora, voltemos para 2010 e para o Brasil. Antes de mais nada, eu entendo que estamos lidando com culturas e circunstâncias diferentes. Mas o episódio envolvendo o filme de Moore traz algumas lições: primeiro, mostra que o poder do cinema de influenciar não é tão grande assim. Em tese, um documentário, por lidar com a “realidade” e ter um apelo jornalístico, teria muito mais capacidade de influenciar que a ficção, onde os espectadores sempre ficam com a impressão de terem sido enganados. E, na maioria das vezes, foram mesmo.

No caso do filme do Lula, é preciso fazer um malabarismo mental para provar essa tese. Vamos lá: o filme beneficia a Dilma, porque lá em outubro as pessoas vão lembrar que ela é a candidata do Lula, logo vão sufragá-la porque ficaram profundamente emocionadas pelo filme. Sinceramente? Acho complicado. Precisaria de uma pesquisa para comprovar essa teoria. Para mim, o filme pode influenciar, no máximo aquela parcela do eleitorado que já tem uma queda pelo Lula, mas essas pessoas já iriam votar na Dilma, independente do filme. E olhe lá. Uma eleição não segue uma lógica tão simplista. São muitos os fatores envolvidos nesse processo. Se bobear, ninguém vai lembrar do filme, e dessas polêmicas, em Outubro.

Em tempo: o amigo leitor ficou interessado em assistir ao filme do presidente? Se a resposta for positiva, recomendo correr. Ao que parece, a bilheteria não foi nenhuma maravilha. Em São Paulo, na rede Cinemark, uma das maiores do país, o filme só está sendo exibido no cinema do shopping Interlar Aricanduva com sessões ás 12h 25 e 15h 10.

Missa macabra

Quarta feira, 6 de maio de 2009. Igreja Nossa Senhora de Fátima, bairro do Sumaré, São Paulo, capital. Nessa data e local, foi realizado um dos eventos mais surreais que eu tive notícia nos últimos tempos: uma missa em memória do delegado Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador dos anos de chumbo. As revistas Época e Caros Amigos trazem excelentes relatos sobre esse, digamos, evento cristão…

Antes dos detalhes da missa, é importante traçar um breve perfil do homenageado. Também conhecido como “Doutor Barreto”, codinome que o delegado utilizava nas sessões de tortura, Fleury era um dos mais temidos agentes da repressão. Sua ficha corrida justificava a fama. O delegado participou ativamente da operação que matou Carlos Marighela; foi o mentor do “esquadrão da morte”, grupo de policiais que fazia sua própria lei, julgando, condenando e matando centenas de pessoas. Fleury construiu um sistema repressivo dentro do próprio aparato repressivo, onde os presos políticos entravam vivos e saíam mortos, enterrados em valas comuns.

Os militares souberam ser gratos por tanta…   dedicação. Em 1973, o delegado foi condenado pelos assassinatos praticados pelo esquadrão da morte. O regime, então, criou a chamada “Lei Fleury” que proibia a prisão dos réus primários. A legislação, praticamente criada sob encomenda, garantiu ao torturador a liberdade. O “Doutor Barreto”, entretanto, teve um fim trágico e misterioso. Foi encontrado afogado perto do seu iate. Mas como o regime não permitiu que se fizesse autópsia, até hoje existe a forte suspeita que o delegado tenha sido “afogado”, do mesmo modo que ele ajudava os presos políticos a se suícidar nos porões do regime.

Agora, voltemos para a missa. Segundo a contabilidade de Época, cerca de cem pessoas se reuniram para rezar por Fleury; Caros Amigos é mais econômica, fala em cerca de setenta pessoas. Os números, nesse caso, importam pouco. É mais interessante descobrir quem se dispõe a sair de casa para rezar pela alma perdida de um assassino, de um torturador. Um trecho da reportagem de Época ajuda a elucidar parte do mistério:

(…) postado na frente da portinha lateral da igreja, por onde todos entram, está o delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º Distrito Policial, conhecido como “Carteira Preta”. Promotor da homenagem a Fleury, ele cumprimenta todos efusivamente e entrega uma espécie de marcador de livro. (…) Augusto organizou tudo: convidou as pessoas, mandou imprimir o folheto, pagou pela missa, por uma organista – que não apareceu – e por um quadro de folhas e flores amarelas e roxas que formava a bandeira do Brasil, colocado ao lado do altar durante a curta celebração. O quadro é ornamentado com uma faixa (daquelas que se usam em velórios) com a frase “Herói nacional”

E quem é esse tal de Carlos Alberto Augusto? Dessa vez, quem responde é a Caros Amigos. Segundo a revista, nos anos de chumbo o sujeito tinha o apelido de “Carlinhos metralha” e, tal e qual Fleury, também era um torturador. Isso explica muita coisa…  Mesmo assim, é difícil acreditar que uma figura como Fleury consiga reunir tantos admiradores. A Caros também traz uma entrevista absolutamente inacreditável com Frei Ives Terral, o responsável por essa celebração. Só lendo para crer.

Esse episódio me lembrou de uma missa que eu fui na mesma Igreja Nossa Senhora de Fátima. Era o tempo em que o Pinochet, um dos mais sanguinários ditadores sul-americanos, estava nas últimas. Naquela parte da celebração em que a comunidade faz a sua prece, o padre, candidamente, pediu para que os fiéis rezassem por Pinochet. Num primeiro momento, pensei ter entendido errado. Mas posteriormente o pároco repetiu o absurdo mais uma vez. Não posso afirmar com absoluta certeza que se trata da mesma pessoa, mas não me espantaria nem um pouco…

É importante fazer justiça: não é toda igreja que é ou foi conivente com a ditadura militar. Durante o regime, alguns setores da igreja católica tiveram um papel importantíssimo na luta contra o arbítrio. Um dos mais lembrados é Dom Paulo Evaristo Arns que, muitas vezes, peitava de frente os aparelhos repressivos. Os frades dominicados também tiveram um papel relevante ao ajudar muitos presos políticos a fugir do país. E pagaram um alto preço por isso. Essa história esta lindamente contada no livro “Batismo de sangue” de Frei Betto. Nele, o leitor fica sabendo das torturas que Fleury infringiu em Frei Tito e das conseqüências, devastadoras, que tiveram no religioso. Mesmo longe do país, no seu exílio forçado na França, Tito sofria com  alucinações onde via o seu carrasco em todo lugar.

Frei Tito não aguentou tanto sofrimento e se suícidou.

Os políticos e a imprensa

Roberto Marinho e o vovô ACM: retrato de uma amizade antiga.

Roberto Marinho e o vovô ACM: retrato de uma amizade antiga.

Na última terça-feira, a Comissão de Constitução e Justiça (CCJ) do senado aprovou um parecer do senador Pedro Simon em que é dito o óbvio: políticos não podem ser donos de meios de comunicação. O objetivo é impedir a renovação das concessões para emissoras de rádio e tevê cujos proprietários sejam parlamentares.

O que pode parecer óbvio em qualquer outro lugar do planeta Terra encontra, aqui no Brasil, um entrave gigantesco. Por um pequeno detalhe: segundo o Comunique-se, 20 dos nobres  senadores são donos de algum órgão de comunicação; na Câmara dos deputados, 50 dos representantes do povo estão na mesma condição. E eles já começaram a reclamar. O primeiro foi ACM Jr, dono de jornais e acionista de uma retransmissora da TV Globo na Bahia, herdada de seu avô. Para a imprensa, o neto de Toninho Malvadeza resmungou:

Essa interpretação dada ao texto constitucional é totalmente equivocada. Hoje há uma proibição de que parlamentares com mandato sejam gestores de empresas de comunicação, não proprietários. O que aconteceu na CCJ na terça-feira foi um absurdo

Será mesmo? Vamos dar uma olhada na carta magna Brasileira. Os grifos são meus:

Deputados e senadores não poderão, desde a posse, ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada

O texto é clarissímo e não permite outro entendimento. Só mesmo o ACM Jr, pelo jeito portador de uma dislexia crônica, para interpretar as linhas acima de outra maneira. Com todo o respeito aos disléxicos.

É uma grande piada que, em pleno século XXI, o congresso Brasileiro ainda esteja ás voltas com questões como essa. Só no país da jabuticaba, políticos podem ser donos de meios de comunicação e se utilizarem dessa influência para aumentar e/ou manter o seu poder.

Apesar das boas intenções do senador Pedro Simon, vejo com bastante ceticismo as chances de alguma mudança real. Aplicar, com rigor, essa lei mexeria diretamente com os interesses dos parlamentares e, também, com o de boa parte da mídia corporativa. Só sendo muito ingênuo para imaginar que esse tipo de projeto possa ser aprovado no plenário do Senado, ainda mais com o Zé Sarney, dono de uma retransmissora da Globo no Maranhão, presidindo casa.

Mas vamos sonhar essa utopia e imaginemos que o Senado e a Câmara aprovem o parecer do Simon. O que muda? Nada, absolutamente nada. O Malvadeza Jr pode se afastar do controle da Globo na Bahia, mas as coisas podem continuar como estão. Basta que ele coloque um laranja no seu lugar e este fará exatamente o que ele determinar; com apenas alguns telefonemas, ele seguirá mandando na linha editorial de suas emissoras. Na prática, tudo continuará igualzinho.

Aliás, o parecer do Simon só foi aprovado porque na dia da votação participaram apenas 4 parlamentares. E a sessão deve ter sido ultra-secreta, pois o senador Wellington Salgado fez a seguinte reclamação aos jornalistas: “Nem eu, que sou vice-presidente da comissão, sabia que esse assunto estava na pauta” Em tempo: o nobre senador é o feliz proprietário de uma retransmissora do SBT no triângulo mineiro.

Um dinossauro (medieval) vagando no senado federal

O nome do dinossauro é José Sarney e quem descobriu sua ascendência jurássica, e medieval, foi a revista britânica The Economist na edição de 5 de fevereiro de 2009. A reportagem vale ser citada por dois motivos: é um excelente trabalho jornalístico e deixou o personagem principal possesso. E com toda razão. A Economist traça um perfil impiedoso e exato do bigodudo que nos dias de hoje preside o senado federal do Brasil.

Sarney usando suas vestes medievais

Sarney usando suas vestes medievais. Fonte: ABL

A reportagem é uma cacetada do começo ao fim. Começando pelo título “Quando os dinossauros ainda vagam” e pelo subtítulo “A vitória do semi-feudalismo”. A matéria começa lembrando alguns dados da vida política de Sarney; os repetidos mandatos como deputado, governador e senador e também descreve o “modo acidental” – palavras da Economist -, que o fez ser presidente da república. Depois classifica como “semi-feudal” a sua maneira de fazer política e que isso contribui para o retrocesso de muitas regiões do Brasil. A revista lembra que Sarney chegou a presidência do Senado com o apoio de Lula e que ele tem em suas mãos o controle da agenda política do país.

A parte mais impactante é a descrição da miséria do Estado do Maranhão. Vale a pena reproduzir um trecho traduzido pela BBC Brasil:

O centro de São Luís está decrépito. As ruas estão cheias de buracos e a cidade conta com um número extraordinário de flanelinhas. Só no mês passado, houve 38 assassinatos na cidade de 1 milhão de habitantes. Os avanços educacionais no Estado são ruins. Sua taxa de mortalidade infantil, de 39 por mil nascidos vivos é 60% mais alta do que a média brasileira

A revista também comenta que no interior  “o atraso é mais evidente” e cita como exemplo uma cidade chamada Sangue onde “muitas pessoas vivem em casas de um só cômodo, cujo telhado é feito de folhas de palmeiras, e que não têm nem água nem eletricidade”. O autor não deixa passar nada e lembra que Sarney é dono de uma retransmissora da TV Globo e fala, inclusive, do uso político da emissora dos Marinho. Segundo a Economist, nos intervalos das novelas são exibidas reportagens favoráveis ao dono da emissora. Para fechar com chave de ouro, a revista sugere que está na hora do bigodudo se aposentar.

O dinoss…, digo, o Zé Sarney, claro, não gostou nada do que leu na revista britânica. Segundo a Folha de S. Paulo, ele contratou advogados na Inglaterra e escreveu uma carta questionando a matéria. Um trecho da missiva:

A história julgará meu papel, mas sou reconhecido como o presidente da transição democrática, da convocação da assembleia constituinte e que priorizou o desenvolvimento social, o que permitiu o surgimento de uma sociedade verdadeiramente democrática e levou um operário a ser eleito presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Ou seja, Sarney se sente responsável pela eleição do Lula, pela democracia no Brasil e pelo desenvolvimento social. Logo ele que, em 1964, participou ativamente da conspiração que derrubou o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário por vinte anos; só abandonando a nau da ditadura quando esta já estava cheia de furos e a transição democrática era um processo irreversível. A carta deste grande democrata brasileiro foi publicada no site da Economist e, provavelmente, estará também na versão impressa.

Por aqui, o episódio mereceu uma cobertura precária dos meios de comunicação. O Idéias e etc procurou pela notícia nos sites dos principais meios de comunicação. De modo geral, todos trataram do assunto, mas sem muita profundidade e, principalmente, sem destacar os pontos principais da matéria da Economist. Só de sacanagem, procuramos também no jornal O Estado do Maranhão, cujo dono é o Sarney. Lá só achamos uma notícia, com o título “Economist publica resposta de Sarney”. O conteúdo é fechado aos assinantes do jornal, mas não é preciso grande imaginação para saber do que se trata. É uma vergonha para os jornalistas brasileiros que uma publicação inglesa consiga ter uma visão mais realista da política nacional. Não por acaso, quem cobriu melhor o assunto foi a BBC Brasil, num texto onde estão reproduzidos os principais trechos da reportagem.

Nota histórica: o Feudalismo surgiu logo com o início da Idade Média por volta do século V. Existiam duas grandes classes nesse regime: os servos e os senhores feudais. Embora seja incorreto definir os servos como escravos, pois eles não eram vendidos, existia uma série de obrigações destes para com os senhores feudais. Eram obrigados a pagar uma série de impostos, inclusive pelo uso das benfeitorias das fazendas; os servos tinham, de modo geral, um pequeno pedaço de terra, e, novamente, tinham que entregar parte da produção para o dono da terra. O título de senhor feudal era hereditário e quem nascia servo era servo até o fim da vida. Na Europa, o Feudalismo durou até o século XV. No Brasil, em pleno século XXI, ele ainda persiste em alguns grotões do país. Será que um dia teremos o nosso Renascimento?

Para finalizar, um trecho de uma crônica, do Sebastião Nery, sobre o Sarney intitulada “O Boi-bumbá do senado”:

No Maranhão, para nascer, maternidade Marly Sarney. Para morar, vilas Sarney, Kiola Sarney ou Roseana Sarney. (…) Para saber noticias, leia ‘O Estado do Maranhão’, ligue a TV Mirante ou as rádios Mirante AM e Mirante FM, todas de José Sarney. (…) Não gostou de nada disso? Quer reclamar? Vá ao Fórum José Sarney, procure a sala de imprensa Marly Sarney ou a sala da Defensoria Publica Kiola Sarney. (…) Desde Calígula, quem sabe Nero, nunca se viu gente tão abusada. E Sarney acha pouco. Agora, quer ser o Boi-Bumbá do Senado.

Clique aqui e leia a íntegra do texto.

Notas anistiadas

Alguns assuntos são delicados por natureza e merecem ser tratados com um mínimo de discernimento. A anístia, que sempre reaparece nas pautas dos jornalões, é um deles. Essa semana, por exemplo, o tema voltou para o noticiário quando a AGU (Advocacia Geral da União) advogou em prol dos torturadores e deu parecer contrário ao processo contra o Coronel Brilhante Ustra, torturador notório dos anos de chumbo. A posição ganhou críticas até entre os ministros do Presidente Lula, em especial Dilma Roussef e Tarso Genro. E não é só isso: o país corre o sério risco de ser processado nas cortes internacionais por não punir os criminosos da Ditadura. A OEA (Organização dos Estados Americanos) está cobrando uma explicação do Governo Brasileiro.

Claro, quando surge um assunto como esse aparece também os defensores da ditadura, travestidos de democratas-defensores-do-estado-de-direito. Quer um exemplo? Vejamos o que acha de tudo isso o Supremo Presidente Gilmar Mendes:

Evidente que esse tema –direitos humanos– se presta a idealizações ou politizações, eu tenho uma posição clara com relação a isso: repudio qualquer tentativa de manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente os casos de direitos humanos. Direitos humanos valem para todos: presos, presidiários, presos políticos, da mesma forma.Essa discussão sobre imprescritibilidade é uma discussão com dupla face, porque o texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível

Essa é o tipo de fala que merece ser desmontada para podermos ver melhor as entrelinhas. Quando mendes diz que repúdia “qualquer tentativa de manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente os casos de direitos humanos” o que será que o meritíssimo quis dizer? Será que ele acha que os direitos humanos também valem para os torturadores? Sim, porque nesse caso só existem dois lados: quem lutou contra a ditadura e quem lutou pela ditadura; quem torturou e quem foi torturado.

Importante: isso não significa que devemos desconsiderar os nuances. Existiam diversas formas de fazer oposição, seja pelo jornal ou com armas nas mãos. Essas diferenças, entretanto, desapareciam nos porões do regime, porque não só os guerrilheiros foram torturados, muitos inocentes também padeceram nas mãos do Estado. O Vlado que o diga! Porém, não se tem notícia de nenhum torturador que tenha sido torturado…

Mas as palavras chave da citação acima são: “crime de terrorismo”. Dizendo isso, Mendes se alinha, imediatamente, com a extrema-direita militar que também chama a luta armada de terrorismo. O mais  dramático é que o processo que permitirá, ou não, a revisão da lei da anístia será julgado pelo STF presidido pelo… Gilmar Mendes. Em tempo: não é a primeira vez que o dito cujo se posiciona sobre o assunto. Veja este link com uma notícia de 12 de Agosto desse ano. Alguma dúvida sobre o resultado do julgamento? Durma-se com um presidente do STF desses!

O assunto anístia é muito complexo e cheio de nuances. Prometo voltar ao tema por essas bandas. Mas já vou avisando que será daqueles textos quilométricos…

Falando em Gilmar Mendes…

capacartacapitalA revista Carta Capital, de 8 de outubro de 2008 (imagem ao lado), trouxe uma reportagem de capa que, em qualquer outro país do mundo, mereceria ampla repercussão da imprensa, mas por aqui só ganhou uma ou outra referência envergonhada, quando não foi solenemente ignorada. Com o título de “O empresário Gilmar” a matéria, toda ela baseada em farta documentação, mostra alguns tentáculos da atuação do Supremo Presidente, condutas éticas duvidosas e por aí vai. Mas eu não vou estragar a surpresa do leitor. Clique neste link e leia a reportagem na íntegra.

Só um comentário para não perder a viagem: a matéria da Veja, com aquele grampo suspeitíssimo, que só foi ouvido pelo repórteres da revista, e, pela primeira vez na história, não trazia nenhuma denúncia, apenas uma conversa sem sal, mereceu semanas de repercussão. Coisas da imprensa tupiniquim.

O Escrivinhador – Blog do Rodrigo Vianna.

Seguindo uma linha muito parecida com a do Paulo Henrique Amorim e do Azenha, Rodrigo Vianna promete ser mais um crítico contundente da mídia. E com motivos. Para quem não sabe ou não lembra, Vianna saiu da Globo em circunstâncias muito estranhas. Mas saiu atirando. Escreveu uma violenta carta de despedida aos seus colegas na emissora dos Marinho contando alguns podres Globais. A missiva acabou vazando para a imprensa. (leia a carta aqui) Pelo pouco que eu li do seu blog, o tom continua contundente, em especial, contra Ali Kamel, um dos chefões da emissora, que só é chamado por Vianna de Ratzinguer, certamente pelo seu espírito democrático…

Nota: Ratzinguer é o nome do atual Papa, que antes de ser sumo pontífice, atuava como uma espécie de cão de guarda do João Paulo II, perseguindo os religiosos que pensassem diferente da igreja.

Ah, sim, a eleição Americana…

Muita gente já escreveu sobre a histórica eleição de Barack Obama. Claro, como qualquer pessoa minímamente lúcida, eu estava torcendo por ele, até porque o mundo não aguentaria três governos repúblicanos seguidos. Mas é bom a gente não ter muita ilusão: o Obama vai ter muito trabalho. Vai precisar reconstruir a imagem dos EUA, completamente esfacelada pelo Governo Bush, vai precisar lidar com uma crise financeira mundial e resolver a lambança Bushista no Iraque. Ser Presidente dos esteites na atual conjuntura é ter o melhor emprego do mundo no pior momento possível.

Video-notas curtas apresenta: o teu passado (e o youtube) te condenam!

Tenha muito cuidado com o que fala, ou com as pessoas ao seu redor. Você pode estar sendo filmado e o vídeo pode parar no youtube e daí para a posteridade. E não vai adiantar dizer: “Esqueça o que eu escrevi” Estará tudo filmado. Este é o caso de alguns dos vídeos abaixo selecionados. Mas não é só isso. Também temos um flagrante da truculência de um cacique político que hoje está no colo do capeta e, como ninguém é de ferro, temos uma pegadinha com um famoso “jornalista” brasileiro. Ah, assista primeiro o vídeo e depois leia os meus comentários, pois fica mais divertido para o leitor. São vídeos curtos, o mais demorado tem 4 minutos.

Quem é o humorista?

Responda rápido: quem é o humorista no vídeo acima? Para mim, é aquele sujeito, com pinta de ator canastrão de novela mexicana, que fala em prender corruptos. Mas não tem muito timing de comediante, não. A gente ri de nervoso mesmo.

Hebe Malufista

Aqui está Hebe Camargo fazendo campanha para o Paulo Maluf. Antes de comentar o vídeo, uma pitada histórica: Hebe-que hoje está em baixa no SBT-, fala de uma candidatura do Silvio Santos. Ela não bebeu. O dono do SBT realmente se candidatou para presidente em 1989, aliás essas eleições foram uma grande zona, e não apenas eleitoral. Ao todo, tivemos 22 candidatos disputando para presidente!. Isso mesmo que você leu: 22 candidatos! O SS entrou quando o horário eleitoral já tinha começado e as cédulas-ainda não existia urna eletrônica-, já estavam impressas. Por isso ele pedia para quem quisesse votar nele, colocasse o “x” em um tal de “Corrêa”, candidato que saiu da disputa para que o homem do baú pudesse concorrer.(Clique aqui e assista o horário eleitoral do SS) Mas, felizmente, sua vida política não prosperou. A justiça eleitoral achou que seria muito esculacho se ele continuasse e cassou sua candidatura. Quanto ao vídeo, alguns comentários a fazer: lá pelas tantas, Hebe diz que o Maluf e o Silvio tem muitas coisas em comum. Primeiro, se ela fosse minha funcionária e disse-se isso de mim seria demitida por justíssima causa. E, em segundo lugar, se eu fosse da PF trataria logo de investigar a conta bancária do Silvio. Outra pitadinha histórica: Hebe chama o Maluf de “democrata”, logo ele que iniciou sua carreira política na Ditadura militar… Realmente, é a democracia em pessoa!

A semana (chapa-branca) do presidente

Eis um clássico do Programa Silvio Santos. Quem não se lembra desse programete que entrava no ar nos comerciais do Domingo? Eu só não percebia o quanto era chapa-branca. O vídeo acima, então, chega a ser vergonhoso. Só faltou o Lombardi cantar “Parabéns pra você” para o Collor. Detalhe: reparou nos convidados do presidente? Lá estavam Chitãozinho, Xororó e o Leonardo entre outras… É, o youtube é cruel mesmo.

Esse episódio me lembrou uma piada que a Rita Lee contou certa vez:

– Você sabe para que serve espingarda de cano duplo?

– Para matar dupla sertaneja!

A malvadeza do Toninho

O vídeo acima é exemplar e fala por si. Deveria ser apresentado na primeira aula de todos os cursos de jornalismo. Ilustra muito bem as dificuldades de ser repórter encarando a truculência do poder. Toninho Malvadeza, que como vocês viram honrava o apelido, morreu e o  Carlismo parece cada dia mais fraco. Mas será que as condições dos jornalistas realmente melhorou?  É bom não esquecer que a família ACM é dona de vários órgãos de imprensa na Bahia, inclusive uma filial da TV Globo. E em outras regiões do Brasil será que a situação é muito diferente? Vale registrar a atitude corajosa do repórter. Não perdeu a dignidade em menhum momento e ainda denunciou a violência sofrida. Se fosse comigo, eu não sei se conseguiria resistir a tentação de dar um chute nos fundilhos do Malvadeza.

Jabamaury Jr.

Para terminar, esse vídeo hilário. Reparou no nervosismo do repórter ? Ficou evidente que ele é um novato nesse tipo de brincadeira e se borrou todo na hora. Já a irritação do Jabamaury tem lógica: onde já se viu pagar R$ 11,00 para ser entrevistado por ele? Se ainda fosse R$ 10.000 ou uma viagem para Las Vegas, ora, ora, ora…

Bar bodega ganha o Prêmio Vladimir Herzog.

Você pode confiar nas sugestões do Idéias e etc. O leitor lembra que este blog indicou o livro “Bar Bodega, um crime de imprensa” do repórter da TV Globo Carlos Dornelles? Pois bem, este belo trabalho acaba de ganhar o prêmio Vladimir Herzog, um dos mais importantes do Brasil, na categoria livro-reportagem. Aqui, o leitor tem a notícia diretamente do Portal Imprensa e aqui o leitor pode ler a resenha publicada em Agosto desse ano neste blog.

Notas sobre as eleições com alguma vergonha alheia

Depois de um longo e tenebroso inverno, o Idéias e etc retoma os trabalhos. No menu, considerações sobre as eleições de domingo passado e duas dicas de blog.

Reflexões eleitorais (sem futurologia…)

Depois das eleições, a imprensa sempre faz aqueles balanços clássicos sobre quais partidos ficaram com mais prefeituras; quem ganhou e quem perdeu, e, claro, começa os chutes para as eleições de 2010. Sim, chutes. Querer imaginar qualquer prognóstico em 2008, para o que acontecerá politicamente daqui a dois anos é isso, um exercício maluco de futurologia. Seria melhor se os institutos de pesquisa calibrassem sua mira. Erraram feio. Aqui em São Paulo, sempre disseram que a Marta estaria na frente do Kassab, mas a bisnaguinha seven boys-apelido que o prefeito ganhou do Supla-, acabou um pouquinho na frente. Quase um empate técnico. No Rio, nenhum instituto apostava no Gabeira que, suprema heresia!, passou o bispo! Mas o resultado que me deixou mais feliz foi em Salvador. Lá, o neto do ACM, que todos os institutos diziam estar praticamente em primeiro lugar, só esperando o seu concorrente para o segundo turno, ficou em…   …terceiro! Eu se trabalhasse nesses institutos estaria com muita vergonha alheia hoje.

Falando em vergonha alheia…

Impossível não ter esse sentimento ao analisar os eleitos para a Câmara de vereadores. Vejamos: o vereador mais votado, Gabriel Chalita, além de ser um péssimo escritor, foi denunciado recentemente pela Folha por irregularidades na época em que era secretario da educação do Alckmin. Esse sujeito recebeu exatos 101. 990 votos. E, ainda segundo a Folha, ele nem bem começou a trabalhar na nova função e já vislumbra a possibilidade de assumir um cargo no executivo. E não é só ele. Netinho de Paula, aquele pagodeiro, depois apresentador, e que não conseguia fazer direito nem uma coisa nem outra, foi eleito para a Câmara com 84.307 votos e, tal e qual Chalita, já sonha em se eleger senador… Se fosse só eles o problema, estaria ótimo. A lista de vereadores contém nomes como Aguinaldo Timóteo, Wadih Mutran entre outras aberrações… Melhor ir para a próxima nota antes que eu tenha uma crise fulminante de vergonha alheia!

Só para não passar batido…

Outros que causam vergonha alheia em qualquer pessoa decente e bem informada foram os 376.734 eleitores do Maluf, 5% do total. Ok, ok, o cidadão já teve votações mais expressivas, mas não custa lembrar que ele foi o deputado mais votado na eleição passada…

Balaio do Kotscho

Esse é o nome do blog de um dos mais importantes repórteres brasileiros na ativa: Ricardo Kotscho É imperdível. O endereço é focado nas histórias e nas opiniões do jornalista, sempre formuladas sem o panfletarismo que aparece em outros blogs. Recomendo.

A volta do Blog do Mino

Outro grande jornalista também voltou a blogar. É Mino Carta, que já teve um blog no IG, mas encerrou as operações em solidariedade ao Paulo Henrique Amorim, quando este foi expulso do portal. Começou agora, porém posso adiantar sem susto que será ótimo.